A dengue é uma doença viral aguda transmitida por mosquitos infectados do gênero Aedes. A infecção pelo vírus da dengue pode ser assintomática ou evoluir como síndrome febril de leve a outras de grave repercussão como a febre hemorrágica da dengue (FHD) e síndrome do choque da dengue (SCD). Estima-se que em 1998 ocorreram um milhão e duzentos mil casos de FHD/SCD e 15 mil mortes no mundo.1 A única medida atualmente disponível para a sua prevenção é o controle do seu principal vetor, o Aedes aegypti. Apesar de este ter sido erradicado das Américas nas décadas de 50 e 60, principalmente devido à campanha de erradicação da febre amarela urbana, foi verificada reinfestação nos vários países latino-americanos a partir da década de setenta. No Brasil, com a circulação concomitante de diferentes sorotipos do vírus e a dispersão e aumento da densidade do vetor, a dengue tornou-se um dos principais problemas de saúde pública.2
O Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), em que propõe a vigilância e controle permanente do vetor, uma vez que não existe qualquer evidência técnica de que a erradicação do mosquito seja possível a curto prazo. Dentre as medidas propostas, ressalta-se o desenvolvimento de campanhas de informação e de mobilização das pessoas, visando responsabilização de cada família na manutenção de seu domicílio livre de potenciais criadouros do vetor, além da atuação multissetorial por meio do fomento à destinação adequada de resíduos sólidos e utilização de recipientes seguros para armazenagem de água e realização de ações de combate ao vetor, entre outras.3
A questão essencial a ser considerada em todo esse processo é a importância da informação adequada sobre as formas de transmissão da doença e cuidados preventivos e o conhecimento popular sobre a apresentação clínica da dengue e seu tratamento. A população torna-se mais susceptível às doenças quando não sabe adequadamente sobre elas, dificultando seu controle e facilitando a propagação, sobretudo das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, já que a maioria de seus criadouros encontra-se no domicílio. É fundamental a participação sistemática da comunidade e do governo no controle das grandes endemias. Há um desperdício nas campanhas de dengue, que superestimam o controle químico do vetor sem abordar os grandes temas da realidade social e da vida das populações expostas à doença.4
Em Belo Horizonte, as principais fontes de informação disponíveis sobre dengue têm sido os serviços de saúde e a mídia. Durante a epidemia de 1998, que atingiu cerca de 87.000 pessoas, a veiculação de informações pela imprensa foi especialmente relevante. Em janeiro de 2001 ocorreu um surto de febre amarela silvestre na região centro-oeste de Minas Gerais, também bastante divulgado.5 Apesar de a população de Belo Horizonte ter sido previamente vacinada contra a febre amarela, este surto chamou a atenção sobre a oportunidade e importância do incentivo à participação da população no controle do Aedes aegypti.
O presente trabalho procurou investigar o conhecimento sobre formas de transmissão e criadouros do vetor da dengue e da febre amarela urbana em Belo Horizonte.
MATERIAL E MÉTODOS
Este estudo fez parte de um projeto de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais, o qual incluiu a realização de curso de atualização sobre dengue e febre amarela, direcionado aos profissionais de saúde e alunos da Faculdade de Medicina/UFMG, e pesquisa sobre a cobertura da imprensa local nas epidemias de dengue.6 O curso foi realizado em março de 2001 e constou de palestras, apresentadas por especialistas na área, sobre temas como epidemiologia, formas clínicas, diagnóstico, tratamento, prevenção e controle das doenças.
Como atividade prática, 60 alunos de Medicina inscritos no curso oferecido entrevistaram pessoas que estavam no Campus Saúde/UFMG e em seus arredores, com o objetivo de se ter uma avaliação do conhecimento da população sobre a transmissão da dengue e da febre amarela. A entrevista foi realizada em três dias do mês de março de 2001, no período de 12 às 14h. Para a coleta de informações, foi aplicado um questionário anônimo com quatro questões fechadas e duas abertas. As perguntas versaram sobre formas de transmissão da dengue e da febre amarela, incluindo a escolha pelo entrevistado de dois locais importantes para a reprodução do vetor das doenças (resposta estimulada), dentre os seguintes: a) calhas ou lajes das casas com água empoçada; b) lixo; c) pneus; d) caixas d'água, barris e tambores destampados; e) mato e brejos. As perguntas abertas se referiam ao que poderia ser feito para evitar-se a dengue e a febre amarela. O vetor da dengue e da febre amarela foi sempre mencionado no questionário como o(s) mosquito(s) da dengue e da febre amarela.
Para o processamento e análise dos dados foi utilizado o programa Epi info 6.04. Para análise de associação entre variáveis selecionadas utilizou-se o teste do qui-quadrado. O nível de significância adotado foi de 0,05.
RESULTADOS
Foram realizadas 507 entrevistas. Verificou-se que 68,8% das pessoas entrevistadas (n=349) tinham entre 20 e 49 anos, 51,9% (n=263) eram mulheres e 69,0% (n=350) freqüentaram a escola durante oito anos ou mais. Na Tabela 1 são apresentadas as freqüências absolutas e relativas para as variáveis idade, sexo e escolaridade.
Na Tabela 2 são apresentadas as respostas sobre as formas de transmissão da dengue e da febre amarela (resposta estimulada). Quanto à dengue, 77,9% (n=395) responderam que a contaminação ocorre através da picada do mosquito, 17,5% (n=89) por água contaminada, 0,8% (n=4) por transfusão de sangue ou relação sexual e 0,6% (n=3) por todas as formas citadas. A transmissão da febre amarela foi atribuída, de uma maneira geral, aos mesmos mecanismos que a da dengue, com um pequeno aumento de respostas corretas (87,4% para transmissão por picada).
Ao se fazer um cruzamento das respostas sobre as formas de transmissão da dengue e da febre amarela, observou-se que somente 73,4% (n=372) das pessoas entrevistadas foram concordantes em assinalar a picada do mosquito como modo de transmissão das duas doenças.
Verificou-se associação significativa entre idade e nível de escolaridade com ter informação correta sobre a forma de transmissão das doenças analisadas (Tabela 3).
A Tabela 4 apresenta os principais locais de reprodução do mosquito indicados pelos entrevistados, dentre as cinco opções apresentadas. Como cada entrevistado apontou dois locais para cada doenças, analisaram-se 1014 respostas. Os locais mais apontados foram caixas d'água, barris e tambores destampados (34,2% e 31,0% para dengue e febre amarela, respectivamente), calhas e lajes com água empoçada (26,1% e 24,0%) e pneus (23,0% e 19,2%).
A Tabela 5 apresenta as respostas dos entrevistados sobre as medidas preventivas para não se contrair dengue e febre amarela. Verificou-se que a maior parte das respostas consideraram o combate ao vetor e aos criadouros como medida fundamental. Entretanto, as respostas não foram específicas, pois as pessoas limitaram-se a indicar medidas gerais, como "não deixar água empoçada", "evitar a picada do mosquito", "manter a casa limpa". Apenas 26,1% especificaram medidas de combate aos criadouros do vetor da dengue como evitar água enpoçada em garrafas, latas, vasilhames, caixas d'água, pneus e vasos de plantas. Proporção relativamente importante (10%) indicou tomar vacina como medida para evitar a dengue. Em relação às medidas para evitar a febre amarela, somente 42,9% das respostas identificaram ser a vacina medida protetora.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo indicam que a maioria das pessoas entrevistadas possuíam conhecimentos sobre a transmissão da dengue e da febre amarela, já que mais de 75% dos entrevistados apontaram a picada do vetor como a principal forma de transmissão das duas doenças. Em consonância com isso, em relação às medidas preventivas para evitar a dengue, a maioria dos entrevistados (84,7%) colocaram o combate ao vetor e aos criadouros como medida fundamental quando se consideraram as medidas de combate ao mosquito, evitar água parada e retirada de lixo, como um mesmo conjunto. A maior parte das respostas, entretanto, não foi específica, pois as pessoas limitaram-se a indicar medidas gerais, como "não deixar água empoçada", "evitar a picada do mosquito", "manter a casa limpa". Uma proporção também importante indicou medidas pouco adequadas e inclusive incorretas, como tomar vacina (10,0%) para evitar a dengue. Em relação às medidas para evitar a febre amarela, somente 42,9% das respostas consideraram ser a vacina uma medida protetora.
Em relação aos criadouros, as caixas d'água, barris e tambores destampados foram considerados os principais na resposta estimulada (questões fechadas), tanto para dengue (34,2%) quanto para febre amarela (31,0%), seguidos das calhas ou lajes com água empoçada, 26,1% e 24,0%, respectivamente. Entretanto, esses foram locais pouco mencionados na questão aberta.
Vários são os fatores geradores de criadouros e de suas alterações ao longo do ano, produzindo aumento da incidência de doenças como a dengue nos meses com maiores índices pluviométricos. A urbanização acelerada associada a precárias condições de vida, saneamento básico inadequado e acúmulo de lixo exposto nos aglomerados populacionais tem gerado aumento acelerado no número de criadouros potenciais para o Aedes aegypti. Além disso, o sistema produtivo industrial moderno produz grande quantidade de recipientes descartáveis como plásticos e latas, que são muitas vezes depositados em quintais, ou no peridomicílio como ao longo das vias públicas, nas praias e terrenos baldios, contribuindo para a proliferação do inseto.7 Em estudo realizado em Belo Horizonte, Pessanha et al.8 verificaram que os principais criadouros variam em número de focos (depósitos com larvas) e se distribuem de forma diferenciada ao longo do ano: em períodos de pouca chuva, os focos de reprodução do vetor distribuem-se de forma mais homogênea entre os tipos de imóveis, enquanto nos meses de maior densidade pluviométrica há predomínio de focos em imóveis que possuem reservatórios expostos (oficinas, ferro-velho, borracharia etc.), ou em locais como praças e vias públicas, entre outros.
Chamou atenção o pequeno número de pessoas que consideraram o lixo como criadouro do vetor (proporção variando de 8,6% na resposta estimulada a 17,6% dos entrevistados na questão aberta). Entretanto, em levantamento realizado no mesmo período pela Secretaria de Saúde de Belo Horizonte, o lixo (latas, vidros, garrafas e recipientes plásticos, considerados inservíveis) representava o principal criadouro do vetor na cidade, correspondendo a 39,6% dos criadouros positivos na pesquisa do índice larvário.9
É possível que a importância dada pelos entrevistados ao lixo na transmissão da dengue ocorra devido a diferentes conotações do termo, quando empregado no sentido técnico ou como é percebido pela população. Em estudo realizado no Rio de Janeiro, foi observado que os vasilhames pequenos, latões e outros reservatórios encontrados nos quintais eram considerados como "coisas de serventia" e não lixo pelos moradores.10
É provável que o conceito de lixo não tenha ficado claramente estabelecido para os entrevistados neste estudo. Na resposta estimulada, o termo foi utilizado genericamente, e isso pode ter levado o entrevistado a não associá-lo com os objetos inservíveis (latas, garrafas e recipientes plásticos), principais criadouros na pesquisa larvária da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte. É importante ressaltar que o grupo de pessoas entrevistadas faz parte de uma população em que a desigualdade social é altamente relevante. As deficiências em saúde, educação, moradia, saneamento básico, alimentação e segurança são intensas e representam fatores fundamentais de perpetuação de doenças como a dengue. Em estudo realizado em Salvador, Rego et al.11 observaram que o conceito de lixo da população era "tudo aquilo que não serve para ser utilizado". Havia, porém, escala de valorização entre os produtos de acordo com a utilidade dos mesmos para determinada pessoa. Dessa forma, apesar de diversos produtos serem considerados lixo para os entrevistados, o reaproveitamento de muitos desses produtos e o reconhecimento de periculosidade em alguns eram fatos comuns. O lixo era considerado problema quando acumulado no ambiente, gerando mau cheiro ou poluição visual, além de foco para presença de animais e provocar doenças em crianças e adultos.
De maneira geral, os resultados deste estudo indicam que os modos de transmissão da dengue e febre amarela urbana são relativamente bem conhecidos, porém o grupo estudado desconhece a importância epidemiológica dos criadouros do vetor. Dessa forma, é fundamental uma melhor divulgação dessas informações, passo importante para inserção da população como agente ativo no processo de controle do vetor e prevenção de epidemias de dengue.
AGRADECIMENTOS
À colaboração de Mônica Meyer, professora da Faculdade de Educação/UFMG, na discussão e preparo do questionário utilizado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1- WHO. Dengue: disease status, burdens and trends. Acesso em 15 fev. 2002. Disponível em: http://www.who.int/ctd/dengue/***.htm.
2- Teixeira MG, Barreto ML, Guerra Z. Epidemiologia e medidas de prevenção do dengue. Inf Epidemiol SUS 1999;8(4):5-33.
3- Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Dengue. Acesso em 16 fev. 2002. Disponível em: http://www.funasa.gov.br/***/dengue.htm.
4- Dias JCP. Problemas e possibilidades de participação comunitária no controle das grandes endemias no Brasil. Cad. Saúde Pública 1998;14(Sup.2):19-37.
5- Oliveira VMR. Febre amarela silvestre na região centrooeste de Minas Gerais. Bol Epidemiol SES-MG 2001;5(2):1.
6- França E, Tavares AP, Pastor MVA. Martins MA, Gontijo RA, Reis UE et al. UFMG contra a dengue. In: Anais da II Bienal de Extensão da UFMG. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais;1999.p.160
7- Tauil PL. Urbanização e ecologia do dengue. Cad. Saúde Pública 2001;17(Supl):99-102.
8- Pessanha JEM. Criando Aedes aegypti: uma maneira eficiente de perpetuar epidemias de Dengue. Bol Epidemiol SES-MG 2001;5(4):5-8.
9- Belo Horizonte, Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Saúde. Pesquisa de índices prediais. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Saúde/PBH;2001. (Mimeografado).
10- Lenzi MF, Camillo-Coura L, Grault CE, Val MB. Estudo do dengue em área urbana favelizada do Rio de Janeiro: considerações iniciais. Cad Saúde Pública 2000;16(3):851-6.
11- Rêgo RCF, Barreto ML, Killinger CL. O que é lixo afinal? Como pensam mulheres residentes na periferia de um grande centro urbano. Cad Saúde Pública 2002;18(6):1583-92.



