INTRODUÇÃO
O etil-2-cianoacrilato é um adesivo tecidual da família dos cianoacrilatos, que são derivados do ácido acrílico. Eles se apresentam na forma líquida, mas em contato com a água ou com líquidos corporais rapidamente tornam-se uma fina película que firmemente une as bordas da ferida1,2. Os cianoacrilatos têm sido largamente testados há mais de 40 anos. A experiência com o uso do etil-2-cianoacrilato, especificamente, vem desde 1981, com o fechamento de feridas da pele. As vantagens dos cianoacrilatos sobre a sutura de pele, conforme têm sido demonstradas, são ausência de dor, maior rapidez na realização do procedimento, ausência de pontos, ausência de reação contra corpo estranho no tecido. Além disso, não há tendência para formação de quelóide e a cicatriz apresenta resultados estéticos idênticos aos dos fios, mas sem marcas dos furos das agulhas de sutura3-6,8-11. Outra vantagem dos cianoacrilatos é o seu efeito fungicida, bacteriostático e bactericida. Podem, também, ser usados em mucosas, cujo fechamento por sutura, devido à localização, pode ser mais difícil e incômodo para o paciente12.
O grande potencial dos cianoacrilatos ainda está sendo descoberto pelas várias áreas da medicina, embora eles já sejam freqüentemente usados em diferentes tipos de operações. São usados na oftalmologia4, na otorrinolaringologia e na cirurgia plástica. Também há testes para anastomoses colônicas2, anastomoses de vasos8. No presente trabalho, objetivou-se testar a eficiência, a reação tecidual e a reepitelização, após o uso do etil-2-cianoacrilato no fechamento de pele e também de tecido muscular abdominal de ratos, além de análise histológica de cortes em diferentes fases da cicatrização da ferida, comparadas ao fechamento por sutura tradicional.
MÉTODO
O estudo foi realizado de acordo com as Normas Internacionais de Proteção aos Animais17,18. Foram utilizadas 32 ratas Wistar adultas, pesando entre 250g e 300g, procedentes do biotério da Faculdade de Medicina da UFMG. As operações foram realizadas sob anestesia com associação de ronpum e cloridrato de quetamina na dosagem de 1:1. Os animais foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: controle (n=6) e experimento (n=24). Os outros dois animais morreram durante o procedimento anestésico.
Em todos os animais foi realizada laparotomia mediana de 3 cm, expondo-se o conteúdo da cavidade abdominal. Em seguida, foi realizada sutura da musculatura abdominal com dois pontos espaçados, utilizando-se fio de náilon 5-0. A pele e o subcutâneo foram mantidos abertos, sendo adicionadas à área cruenta três gotas do adesivo tecidual etil-2-cianoacrilato nos 26 animais do grupo experimento. Os animais pertencentes ao grupo controle (seis animais) tiveram sua pele e subcutâneo suturados com fio 5-0. Em seguida, os animais foram alocados em três novos grupos (A, B, C) que continham, cada um deles, oito animais do grupo experimento e dois animais do grupo controle.
grupo A: os animais foram mortos após sete dias com dosagem anestésica excessiva. Sua parede abdominal foi retirada em bloco e enviada, para estudo histopatológico, ao laboratório de Anatomia Patológica da UFMG. grupo B: os animais foram mortos após 15 dias com dosagem anestésica excessiva, procedendo-se como no grupo anterior. grupo C: os animais foram mortos após 22 dias com dosagem anestésica excessiva, procedendo-se como nos grupos A e B.
Figura 1 - Macroscopia da evolução cicatricial do grupo experimento. Grupo A: após 8 dias. Grupo B: após 15 dias. Grupo C: após 22 dias.
Figura 2 - Microscopia do padrão de reepitelização do grupo experimento, parcialmente indicado pelas setas. A: após 8 dias. B: após 15 dias.
Figura 3 - Microscopia da reação celular ao fio cirúrgico e à cola sintética. A: reação granulomatosa tipo corpo estranho (seta larga) ao fio cirúrgico (seta fina).B: gotículas de cola biológica (setas) sem reação tecidual específica.
RESULTADO
DISCUSSÃO
As vantagens do uso do cianoacrilato sobre as diversas formas de suturas, principalmente as de pele, já foram relatadas na literatura: ausência de dor, maior rapidez na realização de procedimentos, ausência de pontos, ausência de reação contra corpo estranho no tecido, não há tendência para formação de quelóide, a cicatriz apresenta melhores resultados estéticos1,2,3,5,6,9,14,16, menor custo3,14, ausência de diferença histopatológica4,12,15 e efeito bactericida.
Há também relatos de desvantagens, como intensa reação inflamatória2,8, absorção por pele e mucosas11, efeitos citotóxicos13, havendo ainda relatos em que a sutura mostrou-se mais efetiva10.
No presente estudo, foi observado que o uso do adesivo mostrou superioridade em relação à sutura cosmética, além de rapidez do procedimento, facilidade no uso, ausência de diferença histopatológica entre o uso da cola e a sutura e menor tendência à formação de abcessos, o que reafirma os dados obtidos na literatura. Em países subdesenvolvidos, o custo financeiro do uso da cola ainda permanece muito superior, contrariando os relatos da literatura, exceto para pequenas suturas de aproximadamente 3 cm.
Salienta-se que os dados aqui relatados necessitam de novos estudos com grupos maiores de animais, apesar de os resultados deste experimento terem sido satisfatórios.
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