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ISSN: 0103-880X eISSN: 2238-3182
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Artigo Original

Marcadores de remodelação e densidade mineral óssea em pacientes com deficiência de calcitonina

Markers of bone remodeling and bone mineral density in patients with calcitonin deficiency

Pedro Weslley Souza do Rosário1; Michelle Aparecida Borges2; Janice Sepúlveda Reis2; Flávio Palhano Jesus Vasconcelos3; Saulo Purisch4

Rev. Méd. Minas Gerais. 2006;16(4):198-200

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RESUMO

OBJETIVO: Este estudo avaliou marcadores de remodelação e densidade mineral óssea (DMO) em mulheres pré-menopausadas com deficiência de calcitonina.
METODOLOGIA (PACIENTES E MÉTODOS): Um total de 12 pacientes tireoidectomizadas por doença benigna, mantidas em terapia de reposição com levotiroxina e com calcitonina sérica indetectável foram comparadas a 15 pacientes controles (semelhantes em relação a: idade, IMC, níveis de TSH). Elas não apresentavam co-morbidades associadas.
RESULTADOS: Cálcio, PTH e 1,25 (OH)2 vitamina D não diferenciaram nos dois grupos. Houve tendência a mais baixos valores séricos de fosfatase alcalina óssea e osteocalcina naquelas com deficiência de calcitonina e o N-telopeptídeo urinário foi significativamente mais alto neste grupo. A densidade mineral óssea foi significativamente mais baixa nas pacientes tireoidectomizadas, tanto em coluna lombar quanto em colo de fêmur.
CONCLUSÃO: A deficiência de calcitonina pode estar associada a aumento da reabsorção óssea e redução da DMO em mulheres antes da menopausa.

Palavras-chave: Densidade Óssea; Calcitonina; Pré-Menopausa; Marcadores Biológicos.

INTRODUÇÃO

A tireoidectomia total ou quase total, procedimento de escolha em pacientes com carcinoma diferenciado1, também tem sido recomendada no tratamento de doenças benignas da tireóide.2,3,4 Diferentemente de pacientes com câncer - para os quais se recomenda a terapia supressiva com levotiroxina (L-T4)1 associada à redução da massa óssea em mulheres na pós-menopausa sem terapia anti-reabsortiva5,6 - indivíduos operados por doença benigna são mantidos apenas em terapia de reposição. Apesar disso, pacientes tireoidectomizados podem apresentar redução na densidade mineral óssea secundária à deficiência de calcitonina7-12, hormônio sabidamente com atividade anti-reabsortiva.13

O objetivo deste estudo foi avaliar marcadores de remodelação e densidade mineral óssea em mulheres prémenopausadas com deficiência de calcitonina por tireoidectomia total.

 

PACIENTES E MÉTODOS

Foram avaliadas 12 pacientes na pré-menopausa (ciclos regulares sem uso de anovulatórios e níveis séricos normais de FSH) submetidas à tireodectomia total por doença nodular benigna bilateral2,3,4 e mantidas em terapia de reposição com L-T4 há pelo menos cinco anos (> 3 dosagens anuais de TSH, com valores próximos de 0,3-5 mUI/l em > 90% das medidas, em nenhuma TSH < 0,1 mUI/l). Todas apresentavam níveis séricos basais indetectáveis de calcitonina, nenhuma apresentava hipoparatireoidismo e não houve reimplante das paratireóides na cirurgia. Foram estudadas 15 mulheres hígidas como controle. Como a tireoidite de Hashimoto compromete a reserva de calcitonina14, todas estas tinham anticorpos antiTPO negativo. Em todas se excluíram outras causas de doença óssea e nenhuma estava em uso de medicamentos que interferissem na avaliação proposta.

Avaliaram-se densidade mineral óssea (DMO), cálcio, 1,25(OH)2 vitamina D, paratormônio (PTH), fosfatase alcalina (FA) óssea específica e osteocalcina séricos e Ntelopeptídeo X (NTx) urinário.

As características das pacientes estão apresentadas na Tab. 1.

 

 

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas da instituição e as pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da inclusão no estudo.

Dosagens laboratoriais

N-Telopeptídeo (NTx) foi dosado em urina de vinte e quatro horas coletada pela manhã por imunoensaio enzimático (referência para mulheres pré-menopausas: 5 a 65 nMBCE/mM creatinina). A osteocalcina sérica foi dosada por radioimunoensaio (referência para mulheres < 50 anos: 08 a 35 ng/ml); fosfatase alcalina (FA) óssea, por imunoensaio por captura (referência: 10 a 22 U/L); TSH e PTH por imunoensaioradimétrico (IRMA) (referências: 0,3 a 4 mUI/l e 10 a 53 pg/ml, respectivamente); T4 livre por radioimunoensaio (referência: 0,8 a 1,8 mcg/dl); 1,25(OH)2 vitamina D, por cromatografia líquida de alta performance (HPLC) (referência: 20 a 76 pg/ml); e calcitonina, por imunoensaiorradiométrico (IRMA) (referência: até 50 pg/ml). O coeficiente de variabilidade interensaio, determinado previamente pelo laboratório em uma população semelhante de mulheres pré-menopausadas a partir do o mesmo método e com intervalo de três meses, apresentou limite de confiança de 97,5%.

Para minimizar as interferências nas medidas dos marcadores,16 padronizou-se que todas as amostras, exceto urina de 24h, fossem coletadas pela manhã. Todas as avaliações foram feitas durante a fase folicular do ciclo menstrual e as pacientes foram orientadas para não praticarem atividade física exaustiva e não modificarem a dieta na semana em que realizaram a propedêutica.

Calcitonina foi mensurada apenas em condições basais, quando já houve nítida diferença entre os grupos, não sendo necessária a repetição da dosagem após estímulo.

Estudo densitométrico

Os estudos densitométricos foram realizados através da técnica "dual energy X-ray absorptiometry" (DEXA). A densidade mineral óssea (DMO) foi quantificada em colo do fêmur proximal direito e na coluna lombar, utilizando-se o valor médio da DMO das vértebras lombares (L2-L4).

Análise estatística

Para comparação entre os grupos, foi usada a ANOVA se a variável apresentasse distribuição normal e teste de Kruskall-Wallis se distribuição não normal. Correlação entre parâmetros foi determinada por análise de correlação de Pearson. O valor de p < 0,05 foi considerado significativo.

 

RESULTADOS

Cálcio, PTH 1,25 (OH) 2 vitamina D, FA sérica e osteocalcina sérica, não diferenciaram significativamente nos dois grupos. Mas os marcadores de formação óssea, FA sérica e osteocalcina sérica, tenderam a serem mais baixos nas pacientes tireoidectomizadas. NTx urinário foi significativamente maior no grupo de pacientes (Tab. 2) mas não se correlacionou com dose de L-T4 ou tempo de tratamento, níveis séricos de T4 livre, TSH, idade ou IMC.

 

 

A DMO foi significativamente menor nas pacientes tireoidectomizadas, tanto em coluna lombar, quanto em colo de fêmur (Tab. 3) e não se correlacionou com os marcadores de remodelação óssea.

 

 

DISCUSSÃO

A calcitonina é um hormônio sabidamente com ação anti-reabsortiva óssea,13 sendo inclusive usada no tratamento da osteoporose, reduzindo o "turn over" ósseo e resultando em ganho, ainda que leve, na massa óssea em coluna vertebral.15 Assim, pode-se inferir que a deficiência desse hormônio resulta aumento da atividade osteoclástica e redução da densidade mineral óssea.

A tireoidectomia total origina deficiência absoluta de calcitonina, mas sua associação com redução na massa óssea é dificultada pela terapia supressiva com L-T4, a que muitos pacientes são sumetidos após a tireoidectomia por apresentarem câncer diferenciado de tireóide,9,10,12 que também pode ter efeito na DMO.5,6 Assim, pacientes tireodectomizados totais e mantidos apenas em reposição com L-T4 são ideais para avaliação do papel da deficiência de calcitonina na DMO.

Estudos anteriores em pacientes tireoidectomizados sem a interferência da terapia supressiva com L-T4 já haviam demonstrado que a tireoidectomia total é um fator associado à redução da massa óssea, sugerindo o papel da deficiência de calcitonina como responsável por essa associação.7,9,12 O presente estudo confirma essa relação e chama a atenção para o fato disto poder ocorrer mesmo em mulheres na pré-menopausa. O aumento dos marcadores de reabsorção óssea, também demonstrado anteriormente,7 indica aumento da atividade osteoclástica como mecanismo mais importante na diminuição da massa óssea nesses pacientes.

 

CONCLUSÕES

Concluiu-se que a deficiência de calcitonina secundária à tireoidectomia total pode estar associada ao aumento da atividade osteoclástica e redução da densidade mineral óssea mesmo antes da menopausa.

 

REFERÊNCIAS

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7. Cappelli C, Cottarelli C, Cumetti D, Agosti B, Gandossi E, Rizzoni D, Agabiti Rosei E. Bone density and mineral metabolism in calcitonin-deficiency patients. Min Endocrinol 2004;29:1-10.

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9. Schneider P, Berger P, Kruse K, Borner W. Effect of calcitonin deficiency on bone density and bone turnover in totally thyroidectomized patients. J Endocrinol Invest 1991;14:935-42.

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17. Silverman SL. Calcitonin. Endocrinol Metab Clin North Am 2003;32:273-84.

Pedro Weslley Souza do Rosário

Afiliação: Doutor em Clínica Médica pela Santa Casa de Belo Horizonte

Michelle Aparecida Borges

Afiliação: Pós-Graduanda em Clínica Médica da Santa Casa de Belo Horizonte

Janice Sepúlveda Reis

Afiliação: Pós-Graduanda em Clínica Médica da Santa Casa de Belo Horizonte

Flávio Palhano Jesus Vasconcelos

Afiliação: Médico Endocrinologista

Saulo Purisch

Afiliação: Professor Titular de Endocrinologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais

Endereço para correspondência

Pedro Weslley Souza Rosário
Centro de Estudos e Pesquisa da Clínica de Endocrinologia e Metabologia (CEPCEM)
Av Francisco Sales, 1111, 5 andar Ala D, Sta. Efigênia
CEP 30150-221, Belo Horizonte,MG
E-mail: pedrorosario@globo.com

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Como citar este artigo

Rosário, PWS, Borges, MA, Reis, JS, Vasconcelos, FPJ, Purisch, S. Marcadores de remodelação e densidade mineral óssea em pacientes com deficiência de calcitonina. Rev. Méd. Minas Gerais. 2006;16(4):198-200.

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