Open-access | Creative Commons Attribution License
ISSN: 0103-880X eISSN: 2238-3182
Home / Vol. 36 Num. 1 / Mastocitose sistêmica avançada com apresentação gastrointestinal exclusi...
Relato de Caso

Mastocitose sistêmica avançada com apresentação gastrointestinal exclusiva: relato de caso

Advanced systemic mastocytosis with isolated gastrointestinal presentation: case report

Isabela Lima dos Santos1 ORCID ; Lucas Fernandes Suassuna2 ORCID ; Dandara Emery Morais Sana3 ORCID ; João Lucas Mariani Machado4 ORCID ; Daniela Oliveira Werneck Rodrigues2,3,4,5 ORCID

DOI: 10.5935/2238-3182.2025e36411

Rev. Méd. Minas Gerais, 36(1), e-36411

21 VISUALIZAÇÕES
Crossmark

RESUMO

Introdução:

Mastocitose Sistêmica é uma doença hematológica rara, caracterizada pela proliferação clonal de mastócitos, envolvendo tipicamente a pele, a medula óssea e órgãos viscerais.

Relado de Caso:

Relatamos o caso de uma paciente de 78 anos, com quadro de anemia e diarreia crônica, sem sinais cutâneos. Investigação gastrointestinal extensa não revelou etiologia. A avaliação laboratorial mostrou triptase sérica elevada (>200 µg/L) e a biópsia de medula óssea demonstrou infiltração densa por mastócitos com positividade imuno-histoquímica para CD25, c-KIT e triptase. A presença da mutação KIT D816V confirmou o diagnóstico de Mastocitose Sistêmica. A paciente apresentava disfunção orgânica com má absorção gastrointestinal e perda de peso, classificando o caso como Mastocitose Sistêmica Avançada. Este caso destaca uma apresentação incomum de Mastocitose Sistêmica, limitada a sintomas gastrointestinais e anemia, sem envolvimento cutâneo, o que retardou o diagnóstico.

Conclusão:

Este relato enfatiza a importância de considerar doenças hematológicas sistêmicas raras em apresentações gastrointestinais inexplicadas e reforça a necessidade de alta suspeição clínica e abordagens diagnósticas adequadas em casos atípicos.

Palavras-chave: Mastocitose; Gastroenteropatias; Doenças hematológicas; Imuno-Histoquímica; Relato de caso

Introdução

Mastocitose sistêmica (MS) é uma doença hematológica rara, com epidemiologia ainda não totalmente definida1,2. Sua incidência varia de 0,77 a 1,1 casos por ano para cada 100.000 indivíduos, com prevalência entre 9,59 e 13 a cada 100.000 pessoas1. A MS pode se manifestar em qualquer faixa etária, porém é mais frequentemente diagnosticada após os 50 anos, sem evidências de predomínio em relação ao sexo1,2.

A MS é caracterizada pela expansão clonal de mastócitos, os quais podem infiltrar tecido cutâneo, medula óssea (MO), fígado, baço e trato gastrointestinal2-4. A proliferação mastocitária leva à liberação de mediadores químicos, principalmente a histamina, que leva a uma sintomatologia variável2-5. Os sintomas mais comuns são os cutâneos (rubor, prurido, urticária e erupções de pele)2-5. Ocasionalmente, podem ser observados taquicardia, dor torácica, hipotensão arterial, osteodinia, mialgia, cefaleia, confusão mental, ansiedade, depressão, náuseas, vômitos, epigastralgia, dor abdominal, constipação em alternância com diarreia, disfagia e úlceras orais. A maioria dos casos de MS apresenta mutações no gene KIT do códon 816 e frequentemente está associada a alergias IgE-dependentes, deficiência de vitamina D e distúrbios de saúde mental2-6.

A mastocitose é classificada em três tipos: mastocitose cutânea, mastocitose sistêmica e sarcoma de mastócitos6,7. A forma sistêmica subdivide-se em seis variantes: mastocitose da MO, mastocitose sistêmica indolente, mastocitose sistêmica smoldering, mastocitose sistêmica agressiva (MAS), mastocitose sistêmica associada a neoplasia hematológica (MS-ANH) e leucemia de mastócitos (LM)6. O termo “Mastocitose Sistêmica Avançada” (MSA) refere-se ao grupo que compreende a MAS, a MS-ANH e a LM, as quais apresentam sinais de disfunção orgânica8.

De acordo com os critérios diagnósticos da Organização Mundial da Saúde (OMS) em sua 5ª edição6, o diagnóstico de MS é confirmado na presença de um critério maior e um menor, ou três critérios menores. O critério maior considera infiltrados de mastócitos (≥15 mastócitos em agregados) densos e multifocais em biópsias de medula óssea (MO) e/ou em outros órgãos extracutâneos. Os critérios menores incluem: (a) ≥25% dos mastócitos apresentam morfologia imatura (aparência de blastos) ou fusiforme (atípica) em esfregaços de MO ou em outros órgãos extracutâneos; (b) presença de mutações (únicas ou múltiplas) no códon 816 ou em outras regiões críticas do gene KIT na MO ou em outro órgão extracutâneo; (c) mastócitos na MO, sangue ou outros órgãos extracutâneos expressam CD25 (com ou sem CD2) e/ou CD30; (d) concentração basal de triptase sérica >20 ng/mL (no caso de uma neoplasia mieloide não relacionada, uma triptase elevada não conta como um critério MS. No caso de um HαT conhecido, o nível de triptase deve ser ajustado)6,9.

Para a classificação em MS e Mastocitose Sistêmica Avançada (MSA) são avaliados os achados B e C6,10. São considerados achados B: (a) alta carga mastocitária (infiltração de mastócitos na MO ≥30% e/ou triptase sérica ≥200ng/mL sem outra causa evidente e/ou KIT D816V com frequência do alelo variante ≥10% em leucócitos na MO ou sangue periférico); (b) sinais discretos de mieloproliferação e/ou mielodisplasia (MO hipercelular com perda de células adiposas e mielopoiese proeminente ± leucocitose e eosinofilia e/ou sinais discretos de mielodisplasia, como <10% de neutrófilos, eritrócitos e megacariócitos); (c) organomegalia (hepatomegalia palpável sem ascite ou outros sinais de lesão orgânica e/ou esplenomegalia palpável sem hiperesplenismo e sem perda de peso e/ou linfadenopatia aumento palpável ou visceral de nódulos linfáticos >2cm encontrado no USG ou TC. Os achados C estão relacionados à disfunção orgânica, sendo consideradas as seguintes localidades: (a) um ou mais achados de citopenias (neutrófilos < 1 × 109/L; Hb < 10 g/dL; PQT < 100 × 109/L; (b) fígado (ascite e elevação das enzimas hepáticas ± hepatomegalia ou fígado cirrótico ± hipertensão portal; (c) baço (esplenomegalia palpável com hiperesplenismo ± perda de peso ± hipoalbuminemia); (d) trato gastrointestinal (má absorção com hipoalbuminemia ± perda de peso) e (e) óssos (osteólise ≥2 cm com fratura patológica ± dor óssea)6,10.

Indivíduos com alta carga mastocitária (achados B) indicam MS e possível envolvimento de várias linhagens mieloides, embora sem disfunção orgânica6,10. Por outro lado, a presença de lesão orgânica determinada pela MS e confirmada em biópsia caracteriza os “achados C”, observados nas formas avançadas6,10.

O objetivo deste relato de caso foi descrever um caso raro de MSA, com sintomas exclusivos do trato gastrointestinal e anemia, sem envolvimento cutâneo.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos (CEP) e aprovado em parecer de número 6.826.704 (CAAE: 77990724.9.0000.5156), emitido no dia 15 de maio de 2024, de acordo com a Resolução nº 466/201211 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Relato de Caso

Paciente do sexo feminino, 78 anos, foi encaminhada ao Serviço de Hematologia em maio de 2023 devido à anemia refratária há dois anos, acompanhada de sensação de plenitude gástrica e alterações do hábito intestinal, com predomínio de diarreia. Histórico de perda de 6 quilogramas nos últimos 12 meses. Havia sido submetida a investigação prévia extensa pela Gastroenterologia, incluindo estudos endoscópicos gástricos e múltiplas colonoscopias, que identificaram apenas pequena hérnia hiatal e doença diverticular, sem evidências de sangramento. Era não etilista e não tabagista e possuía história familiar positiva para neoplasia de cólon e reto.

Ao exame físico, encontrava-se com palidez cutânea, anictérica, sem sinais de escoriações cutâneas e sem linfadenomegalias ou visceromegalias palpáveis. Os exames laboratoriais realizados encontram-se na Tabela 1.

Tabela 1. Exames complementares realizados para determinação diagnóstica e diagnósticos diferenciais.

Exames LaboratoriaisReferências
Hemoglobina8,5 g/dL12 g/dL
Hematócrito25,70%36%
Volume corpuscular médio95 fl80 a 100 fl
Red Cell Distribution Width16%11 a 15%
Leucócitos totais52904.000 a 10.000 /mm3
Eosinófilos relativos01 a 6%
Eosinófilos absolutos317,440 a 600 /mm3
Bastonetes relativo2%2 a 4%
Bastonetes absoluto105,880 a 400 /mm3
Neutrófilos segmentados relativo68%50 a 70 %
Neutrófilos segmentados absoluto3597,22.000 a 7.000 /mm3
Linfócitos relativo18%20 a 40 %
Linfócitos absoluto952,2800 a 4.000 /mm3
Monócitos relativo6%4 a 10%
Monócitos absoluto317,4160 a 1.000 /mm3
Plaqueta355.000140.000 a 450.000 /mm3
Reticulócitos1,20%0,9 a 2,4%
Ferro sérico74 mcg/dL50 a 150 mcg/dL
Ferritina48,6 ng/mL30 a 250 ng/mL
Índice de saturação de transferrina21%20 a 50%
Transaminase glutâmico-oxalacética12≤ 40 U/L
Transaminase glutâmico-pirúvica7≤ 40 U/L
Fosfatase alcalina4340 a 130 U/L
Gama-glutamiltransferase339 a 36 U/L
Albumina3,93,5 a 6 g/dL
Bilirrubina total1,2≤ 1,2 mg/dL
Bilirrubina direta0,6≤ 0,6 mg/dL
Tempo de protrombina30 segundos30 segundos
Atividade de protrombina100%100%
Vitamina B12916 ng/L200 a 900 ng/L
Zinco70,5 mcg/dL60 a 120 mcg/dL
Antígeno carcinoembrionário0,5 ng/mL≤ 2,5 ng/mL
CA - 19.95,9 U/mL≤ 37 U/mL
Triptase sérica>200 mcl/L<11 mcl/L
Desidrogenase lática (cinético)119 U/L120 a 246 U/L
Eletroforese de proteínas séricasGama = 0,93 g/dL, 14,1% sem componente monoclonal0,71 a 1,59 g/dL, 11,1 a 18,8%
Beta-2-Microglobulina4.260 ng/mL609 a 2164 ng/mL
Gastrina34 pg/mL< 100 pg/mL
Cromogranina A sérica92 mcg/L< 100 mcg/L
Ácido 5-hidroxi-indolacético urinário8,7 mg/24h2 a 9 mg/24h
Calprotectina fecal30 mcg/g< 50 mcg/g
Estudo anatomopatológico e imuno-histoquímicoReferências
Mielograma/Biópsia de medula ósseaAgregados de células mononucleadas ovoides com citoplasma eosinofílico, sugestivo de mastócitos, com presença de células fusiformes-
Imuno-histoquímica de medula óssea:  
CD2NegativoNegativo
CD30Não realizado-
CD138 – antígeno de plasmócitos (MI15)NegativoNegativo
Cadeia leve de imunoglobulina Kappa (Policlonal)NegativoNegativo
Cadeia leve de imunoglobulina Lambda (Policlonal)NegativoNegativo
Citoceratinas de 40, 48, 50 e 50,6 kDa (AE1/AE3)NegativoNegativo
CD20 – antígeno de linfócitos B (L26)NegativoNegativo
CD3 – receptor de linfócitos T – cadeia epsilon (RBT-CD3)NegativoNegativo
Anexina 1 – lipocortina; mediador da inflamação (BSB-95)NegativoNegativo
CD117 – produto do gene KIT (Policlonal)PositivoNegativo
CD34 – antígeno de células hematopoéticas e pericitos (QBEnd 10)NegativoNegativo
Mieloperoxidase – células de linhagem mielogranulocítica (MPO-7)NegativoNegativo
Triptase (G3)PositivoNegativo
CD25, cadeia alpha do receptor IL-2, clone 4C9 (4C9)PositivoNegativo
C-kitPositivoNegativo
Estudo Molecular para MastocitoseReferências
Estudo molecular do gene c-kit (mutação D816V) por reação de cadeia de polimerasePresenteAusente

Legenda: CD = cluster of differentiation

Fonte: elaborada pelos autores.

Clique para expandir

Outros exames laboratoriais apresentaram função tireoidiana, testes de autoimunidade (incluindo fator reumatoide e fator antinuclear), dosagem de imunoglobulinas (IgA 394 mg/dL, IgM 55 mg/dL, IgG 1.029 mg/dL) e função renal sem alterações. A ressonância magnética de ossos longos não identificou lesões expansivas e/ou líticas.

Exame de ultrassonografia de abdome total com presença de cistos renais à direita de 1,2 x 1,1 e sem outras alterações. Tomografia de tórax e abdome sem alterações. À admissão no serviço de hematologia não foram constatados hepatoesplenomegalia, linfonodomegalia ou ascite.

Foram excluídas outras possíveis causas associadas à diarreia, como doença inflamatória intestinal, neoplasia intestinal, síndrome carcinoide, síndrome de Zollinger-Ellison e tumor neuroendócrino (ver Tabela 1). A exclusão de Mieloma Múltiplo e outras gamopatias monoclonais foi realizada através da eletroforese de proteínas, imunofixação de proteínas séricas e urinárias, ausência de anticorpos CD138, não visualização de lesões líticas nos exames de imagem e não identificação de plasmocitose na medula óssea.

Considerando a presença da variante D816V do gene KIT, elevados níveis de triptase sérica, invasão mastocitária da medula óssea (Figura 1A-B) e imuno-histoquímica com positividade para c-kit e triptase (Figura 1C-D), o diagnóstico de Mastocitose Sistêmica foi fechado. A presença de anemia e de má absorção gastrointestinal acompanhada de perda ponderal quantificada caracterizou os "achados C", determinando a reclassificação do quadro como Mastocitose Sistêmica Avançada.

Figura 1. A: Aspirado de medula óssea (MO) - células ovoides com núcleo centralizado e presença de grânulos citoplasmáticos; B: Biópsia de MO – denso agregado mononuclear de células ovoides com citoplasma eosinofílico sugerindo infiltrado de mastócitos; C e D: Imuno-histoquímica de biópsia de MO com marcadores positivos para c-KIT e triptase respectivamente.Clique para expandir

Figura 1. A: Aspirado de medula óssea (MO) - células ovoides com núcleo centralizado e presença de grânulos citoplasmáticos; B: Biópsia de MO – denso agregado mononuclear de células ovoides com citoplasma eosinofílico sugerindo infiltrado de mastócitos; C e D: Imuno-histoquímica de biópsia de MO com marcadores positivos para c-KIT e triptase respectivamente.

Fonte: fornecido pelo Laboratório Bacchi.

Foi iniciado o tratamento onco-hematológico com midostaurina, na dose de 100 mg por via oral duas vezes ao dia com intervalo de aproximadamente 12 horas entre as doses, e suporte hemoterápico eventual, a paciente encontra-se em controle no serviço de hematologia.

Último controle, em outubro de 2025 (diagnóstico em janeiro de 2024), mantendo necessidade transfusional mensal com concentrado de hemáticas deleucotizadas e fenotipadas, com resposta parcial à medicação e mantendo níveis de triptase acima de 100 mcl/L. Evoluiu com ascite e persistência da diarreia.

Discussão

Na Mastocitose Sistêmica (MS), o envolvimento cutâneo ocorre em mais de 80% das pessoas, independentemente da faixa etária3-10. O envolvimento do trato gastrointestinal é comum, com frequentes manifestações de náuseas e vômitos, dor abdominal e diarreia. A presença de síndrome disabsortiva é considerada um achado C e está associada à gravidade da doença3,8,10.

A diarreia crônica pode ter diversas etiologias, incluindo síndrome de má absorção, doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável e infecções crônicas. No entanto, mesmo após uma investigação ampla e criteriosa, muitos casos permanecem sem diagnóstico elucidado5. Na MS, a degranulação dos mediadores inflamatórios liberados pelos mastócitos presentes na lâmina própria intestinal pode alterar a motilidade intestinal, a sensibilidade visceral e a função da barreira epitelial. Essas alterações promovem hipersecreção e aumento da propulsão intestinal, resultando em quadros diarreicos e dor abdominal12.

A ausência de acometimento cutâneo está associada a formas mais avançadas da MS e contribui para o atraso no diagnóstico10. Seo et al. (2016)12 apresentaram dados semelhantes com o relato exposto pelos autores, que descreveram um caso clínico de MS sem urticária pigmentosa, escoriações de pele e sinal de Darier, com a presença de sintomas exclusivamente gastrointestinais, como dispepsia e diarreia de difícil controle, retardando o diagnóstico e tratamento.

Para Dranitsaris et al. (2025)2 e Veitch e Radia (2023)8, os sintomas mais comuns foram relacionados à pele, diferentemente de Seo et al. (2016)12 e do relato apresentado pelos autores2,8,11. Entretanto, todos os pacientes tiveram aumento na triptase sérica, infiltrado de mastócitos atípicos na medula óssea, positividade para CD25 e mutação no codon 816 do gene KIT2,8,11.

A forma indolente caracteriza-se por uma evolução mais arrastada e a forma avançada evolui com má resposta terapêutica e piora progressiva do status do paciente3. A mutação no códon D816V, que é a mutação mais comum na mastocitose sistêmica3, é contraindicação ao imatinibe, tendo sido indicado o uso de midostaurina3.

A midostaurina é um inibidor de multicinase com atividade contra as mutações KIT D816V e D816Y, aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) em 2017 para o tratamento da mastocitose sistêmica avançada3. Estudos demonstraram resposta global em aproximadamente 60% dos pacientes, sem registro de respostas completas, e com reversão parcial de dano orgânico em subgrupos de respondedores2-4. O perfil de segurança é marcado principalmente por eventos adversos gastrointestinais e mielossupressão, que frequentemente exigem redução de dose, mas em geral podem ser manejados3,4,8.

O diagnóstico de MS deve ser considerado em pacientes com sintomas prolongados e inexplicáveis de disfunção do hábito intestinal. No caso relatado, as biópsias gastrointestinais não identificaram a presença de mastócitos, que poderia ter antecipado o diagnóstico. A realização da biópsia de medula óssea foi indicada devido à presença de anemia refratária não justificada por outras etiologias. O painel de anticorpos utilizados na imuno-histoquímica da medula óssea (c-KIT, CD117, triptase e CD25) foi essencial para a confirmação diagnóstica. A correlação com os níveis séricos de triptase e os estudos moleculares para a variante D816V do gene KIT é ferramenta valiosa e essencial para o diagnóstico. É fundamental, ainda, a exclusão de doenças linfo e mieloproliferativas.

Conclusão

A mastocitose sistêmica (MS) é uma condição rara, sendo ainda mais incomum a ausência de envolvimento cutâneo associada a sintomas sistêmicos restritos ao trato gastrointestinal, concomitantes à anemia. Neste relato, o diagnóstico mostrou-se complexo e desafiador, exigindo a utilização de exames especializados, de difícil acesso e interpretação. O objetivo deste relato é alertar para a importância de se considerar as manifestações do trato gastrointestinal como parte do espectro das raras doenças hematológicas sistêmicas, sugerindo uma abordagem criteriosa para esses pacientes.

Referências

  1. 1 Bergström A, Hägglund H, Berglund A, Nilsson G, Lambe M. Epidemiology of mastocytosis: a population-based study (Sweden). Acta Oncol. 2024;63:44–50. DOI: https://doi.org/10.2340/1651-226X.2024.31406.
  2. 2 Dranitsaris G, Neuhalfen H, Peevyhouse A, et al. Diagnosis and management of systemic mastocytosis in a community hematology setting. J Oncol Pharm Practice. 2025;31(1):31-8. DOI: https://doi.org/10.1177/10781552231221149.
  3. 3 Pardanani A. Systemic mastocytosis in adults: 2023 update on diagnosis, risk stratification and management. Am J Hematol. 2023;98(7):1097–116. DOI: https://doi.org/10.1002/ajh.26962.
  4. 4 Tremblay D, Wagner NE, Mascarenhas J. Management of Advanced Systemic Mastocytosis: Clinical Challenges. J Blood Med. 2024;15:421-33. DOI: https://doi.org/10.2147/JBM.S366367.
  5. 5 Giannetti A, Filice E, Caffarelli C, Ricci G, Pession A. Mast Cell Activation Disorders. Medicina. 2021;57(2):124. DOI: https://doi.org/10.3390/medicina57020124.
  6. 6 Khoury JD, Solary E, Abla O, Akkari Y, Alaggio R, Apperley JF, et al. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Myeloid and Histiocytic/Dendritic Neoplasms. Leukemia. 2022;36:1703–19. DOI: https://doi.org/10.1038/s41375-022-01613-1.
  7. 7 Swerdlow SH, Campo E, Pileri SA, Harris NL, Stein H, Siebert R, et al. The 2016 revision of the World Health Organization classification of lymphoid neoplasms. Blood; 2016;127(20):2375-90. DOI: https://doi.org/10.1182/blood-2016-01-643569.
  8. 8 Veitch S, Radia DH. Mastocytosis demystified. Hematology. 2023(1):396-406. DOI: https://doi.org/10.1182/hematology.2023000505.
  9. 9 Gangireddy M, Ciofoaia GA. Systemic Mastocytosis. [Updated 2023 Jul 4]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK544345/.
  10. 10 Valent P, Akin C, Hartmann K, Alvarez-Twose I, Brockow K, Hermine O, et al. Updated Diagnostic Criteria and Classification of Mast Cell Disorders: A Consensus Proposal. Hemasphere. 2021;5:11(e646). DOI: https://doi.org/10.1097/HS9.0000000000000646.
  11. 11 Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União, Brasília, DF. 13 jun. 2013; Seção I:59.
  12. 12 Seo H, Park SH, Byeon JS, Woo CG, Hong S-M, Chang K, et al. Chronic intractable diarrhea caused by gastrointestinal mastocytosis. Intest Res. 2016;14(3):280-4. DOI: https://doi.org/10.5217/ir.2016.14.3.280.

Tabela 1. Exames complementares realizados para determinação diagnóstica e diagnósticos diferenciais.

Exames LaboratoriaisReferências
Hemoglobina8,5 g/dL12 g/dL
Hematócrito25,70%36%
Volume corpuscular médio95 fl80 a 100 fl
Red Cell Distribution Width16%11 a 15%
Leucócitos totais52904.000 a 10.000 /mm3
Eosinófilos relativos01 a 6%
Eosinófilos absolutos317,440 a 600 /mm3
Bastonetes relativo2%2 a 4%
Bastonetes absoluto105,880 a 400 /mm3
Neutrófilos segmentados relativo68%50 a 70 %
Neutrófilos segmentados absoluto3597,22.000 a 7.000 /mm3
Linfócitos relativo18%20 a 40 %
Linfócitos absoluto952,2800 a 4.000 /mm3
Monócitos relativo6%4 a 10%
Monócitos absoluto317,4160 a 1.000 /mm3
Plaqueta355.000140.000 a 450.000 /mm3
Reticulócitos1,20%0,9 a 2,4%
Ferro sérico74 mcg/dL50 a 150 mcg/dL
Ferritina48,6 ng/mL30 a 250 ng/mL
Índice de saturação de transferrina21%20 a 50%
Transaminase glutâmico-oxalacética12≤ 40 U/L
Transaminase glutâmico-pirúvica7≤ 40 U/L
Fosfatase alcalina4340 a 130 U/L
Gama-glutamiltransferase339 a 36 U/L
Albumina3,93,5 a 6 g/dL
Bilirrubina total1,2≤ 1,2 mg/dL
Bilirrubina direta0,6≤ 0,6 mg/dL
Tempo de protrombina30 segundos30 segundos
Atividade de protrombina100%100%
Vitamina B12916 ng/L200 a 900 ng/L
Zinco70,5 mcg/dL60 a 120 mcg/dL
Antígeno carcinoembrionário0,5 ng/mL≤ 2,5 ng/mL
CA - 19.95,9 U/mL≤ 37 U/mL
Triptase sérica>200 mcl/L<11 mcl/L
Desidrogenase lática (cinético)119 U/L120 a 246 U/L
Eletroforese de proteínas séricasGama = 0,93 g/dL, 14,1% sem componente monoclonal0,71 a 1,59 g/dL, 11,1 a 18,8%
Beta-2-Microglobulina4.260 ng/mL609 a 2164 ng/mL
Gastrina34 pg/mL< 100 pg/mL
Cromogranina A sérica92 mcg/L< 100 mcg/L
Ácido 5-hidroxi-indolacético urinário8,7 mg/24h2 a 9 mg/24h
Calprotectina fecal30 mcg/g< 50 mcg/g
Estudo anatomopatológico e imuno-histoquímicoReferências
Mielograma/Biópsia de medula ósseaAgregados de células mononucleadas ovoides com citoplasma eosinofílico, sugestivo de mastócitos, com presença de células fusiformes-
Imuno-histoquímica de medula óssea:  
CD2NegativoNegativo
CD30Não realizado-
CD138 – antígeno de plasmócitos (MI15)NegativoNegativo
Cadeia leve de imunoglobulina Kappa (Policlonal)NegativoNegativo
Cadeia leve de imunoglobulina Lambda (Policlonal)NegativoNegativo
Citoceratinas de 40, 48, 50 e 50,6 kDa (AE1/AE3)NegativoNegativo
CD20 – antígeno de linfócitos B (L26)NegativoNegativo
CD3 – receptor de linfócitos T – cadeia epsilon (RBT-CD3)NegativoNegativo
Anexina 1 – lipocortina; mediador da inflamação (BSB-95)NegativoNegativo
CD117 – produto do gene KIT (Policlonal)PositivoNegativo
CD34 – antígeno de células hematopoéticas e pericitos (QBEnd 10)NegativoNegativo
Mieloperoxidase – células de linhagem mielogranulocítica (MPO-7)NegativoNegativo
Triptase (G3)PositivoNegativo
CD25, cadeia alpha do receptor IL-2, clone 4C9 (4C9)PositivoNegativo
C-kitPositivoNegativo
Estudo Molecular para MastocitoseReferências
Estudo molecular do gene c-kit (mutação D816V) por reação de cadeia de polimerasePresenteAusente

Legenda: CD = cluster of differentiation

Fonte: elaborada pelos autores.

Isabela Lima dos Santos ORCID

Afiliação: Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora (FCMS-JF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

E-mail: beelalima.il@gmail.com

ORCID: 0009-0001-2062-684X

Lucas Fernandes Suassuna ORCID

Afiliação: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

ORCID: 0000-0001-7327-692X

Dandara Emery Morais Sana ORCID

Afiliação: Instituto Oncológico, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

ORCID: 0009-0005-4418-9364

João Lucas Mariani Machado ORCID

Afiliação: Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (UNIPAC-JF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

ORCID: 0009-0008-3841-8847

Daniela Oliveira Werneck Rodrigues ORCID

Afiliação: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil; Instituto Oncológico, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil; Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (UNIPAC-JF), Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil; Fundação Hemominas, Departamento de Hematologia, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

ORCID: 0000-0003-3062-2954

Recebido em: 23/09/2025

Aceito em: 09/05/2026

Publicado em: 05/08/2026

Endereço para correspondência

Isabela Lima dos Santos

Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora (FCMS-JF), Minas Gerais, Brasil.

E-mail: beelalima.il@gmail.com

Nenhum parecer disponível para este artigo.

Como citar este artigo

Santos, IL, Suassuna, LF, Sana, DEM, Machado, JLM, Rodrigues, DOW. Mastocitose sistêmica avançada com apresentação gastrointestinal exclusiva: relato de caso. Rev. Méd. Minas Gerais. 36(1):e-36411. DOI: 10.5935/2238-3182.2025e36411

Indexadores e Buscadores