RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 36 e36211 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2026e36211

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Artigo de Revisão

Como o sono influencia na diabetes mellitus tipo 2: uma revisão integrativa

How sleep influences type II diabetes: an integrative review

Gabriela Quaglio Negrão Baldani1; Bibiana Ribeiro da Silva1; Barbara Gabriele Ono Dias1; Júlia de Oliveira Machado1; Julia Leite Ferreira1; Ana Julia Fernandes da Silva e Silva1; Evelise Aline Soares1; Flávia Da Ré Guerra2

1. Faculdade de Medicina Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Minas Gerais, Brasil
2. Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

Gabriela Quaglio Negrão Baldani
Faculdade de Medicina da Unifal, Minas Gerais.
Email: gabriela.baldani@sou.unifal-mg.edu.br

Recebido em: 5 Fevereiro 2025.
Aprovado em: 7 Fevereiro 2026.
Data de Publicação: 09 Junho 2026.

Editor Associado Responsável:

Nestor Barbosa de Andrade
Faculdade de Medicina da UFU. Uberlândia/MG, Brasil.

Fontes apoiadoras: Não há.

Conflito de Interesses: Não há.

Resumo

A relação diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e o sono, especialmente quanto aos extremos de duração e má qualidade, estão fortemente associados a um risco aumentado de desenvolver essa doença metabólica. Com a desregulação constante de sono, há um aumento da resistência à insulina, desequilibrando hormônios que controlam o apetite e a saciedade, afetando o metabolismo da glicose. A presente revisão buscou entender se havia relação entre a falta de sono e o aumento na propensão de DM2. Baseado na análise das publicações, datadas de 2014 a 2024, encontradas na plataforma PubMed, SciELO e BVS, foi possível perceber que há um entendimento científico de que a falta, assim como o excesso, de sono e de boa qualidade no sono pode aumentar a resistência à insulina, o que aumenta a propensão ao desenvolvimento da doença. Além disso, nos materiais estudados também foram vistas associações entre a desregulação do ciclo circadiano, e de suas substâncias, e o desenvolvimento do distúrbio metabólico estudado. Assim, percebemos a importância de mais estudos para melhor compreensão da relação observada e da indicação de mudanças no hábito de dormir, complementares à já indicada boa alimentação e aos exercícios físicos, para se evitar e tratar a Diabetes mellitus tipo 2 em adultos.

Palavras-chave: diabetes mellitus tipo 2; Transtornos do sono; Ciclo circadiano.

 

INTRODUÇÃO

A diabetes mellitus tipo 2 é um conjunto de alterações metabólicas que se dá pela hiperglicemia, hiperinsulinemia e pela resistência periférica à insulina - que é quando ocorre um menor aporte de glicose em tecidos periféricos apesar do aumento na secreção de insulina1,2.

Essas alterações, decorrentes de múltiplos fatores genéticos e/ou ambientais, atingem 16,8 milhões de brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de diabetes (SBD), índice que cresce a cada ano, como alerta a OMS. A doença preocupa os órgãos de saúde porque traz diversas complicações: neuropatias, nefropatias, retinopatias e cardiopatias, incluindo doenças vasculares, são as mais comumente observadas, além dos problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, e de caráter sexual, como a disfunção erétil3.

Todas essas complicações exigem gastos com tratamento, os quais ultrapassaram os 15 bilhões de dólares no Brasil em 2019, incluindo gastos diretos médicos e não médicos, como transporte de pacientes para consultas, e indiretos, tal qual a aposentadoria precoce4.

Dadas as consequências socioeconômicas, o Ministério da Saúde vem, ao longo dos últimos anos, alertando para prevenção e acompanhamento precoce de pacientes de risco. Essa população é definida por possuir uma ou mais das características: maiores de 40 anos, histórico familiar de diabetes, excesso de peso ou obesidade (em particular o tipo androide ou central), triglicerídeos ou colesterol HDL acima dos valores de referência, hipertensão arterial, doença vascular aterosclerótica antes de 50 anos, hiperglicemia ou glicosúria anterior, paciente em uso de medicamentos como corticoides e anticoncepcionais. Para as mulheres há ainda critérios específicos para risco: histórico de aborto, prematuridade, polidrâmio, diabetes gestacional e mortalidade perinatal, e mães de recém-nascidos com mais de 4kg2.

Mas, além desses fatores de risco, a literatura científica atual alerta para a influência das alterações do sono no aumento de chance para o desenvolvimento de diabetes no longo prazo5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13.

Sono é um processo comportamental biológico que regula o ciclo circadiano, a homeostase corporal e atividades neurais e hormonais5. Sua classificação e sua categorização variam do estudo, do período e da região. Em 2017, a Fundação Nacional do Sono dos Estados Unidos classificou que uma boa noite de sono está relacionada à constância e à arquitetura do sono14, sendo essa arquitetura constituída por 5% de estágio 1, 16% a 20% de sono de ondas lentas (slow wave sleep - SWS), e de 21% a 30% de movimento rápido com os olhos (rapid eye movement - REM)14. O sono representa de 20% a 40% do dia humano15. Em relação à duração do sono e sua variação histórica, Chaput (2009)16 relata que, em 1960, a duração do sono modal era de 8 a 8,9 horas, enquanto em 2004, 30% dos adultos estudados, com idade entre 30 e 60 anos, dormiam em média 6 horas. As causas dessa redução são, segundo o autor, fatores do estilo de vida moderno, como: aumento da luminosidade ambiente, jornadas de trabalho mais longas/tempo de deslocamento mais longo, trabalho noturno e uso de televisão, computador pessoal ou internet. Essas mudanças, combinadas com alterações fisiológicas e hormonais, impactam disfunções metabólicas e endócrinas, ganho de peso e aumento do risco de intolerância à glicose16.

Esta revisão tomou por base essas definições de sono e diabetes para tentar reunir os estudos mais recentes que buscam entender se há associação entre as alterações no padrão biológico de sono e a diabetes. Para que, se verdadeiro, esse fator possa ser incluído por médicos no rastreamento de pacientes de risco, melhorando a prevenção.

 

MÉTODOS

Para cumprir com os objetivos do projeto, buscamos por trabalhos publicados nos últimos 10 anos (2014 a 2024) nas plataformas PubMed, BVS e SciELO entre os meses de janeiro e fevereiro de 2023 e no mês de janeiro de 2024. Foram pesquisados os termos "sleep" e "Type 2 Diabetes" nas plataformas, em algumas foram incluídos os termos em português (sono e diabetes) e espanhol (soño e diabetes) para ampliar os resultados encontrados.

Foram encontrados inicialmente 412 artigos publicados entre 2014 e 2024 e que se relacionavam com os termos, são eles: 187 no PubMed, 144 na SciELO e 81 na BVS. Desses, foram excluídos aqueles que se repetiam nas bases de dados, que não tratavam diretamente sobre o assunto desta revisão, que tinham seu acesso gratuito bloqueado ou que não seguiam a mesma definição de diabetes mellitus tipo 2 que foi apresentada na introdução deste trabalho. Ao final das exclusões, feitas pela leitura do resumo ou do texto completo, foram incluídos no trabalho 20 artigos de revisão sistemática ou estudos de coorte que serão citados nesta revisão integrativa. A figura 1 mostra o fluxograma dos trabalhos selecionados para o estudo.

 

 

RESULTADOS

Os artigos selecionados para estudo foram agrupados na tabela a seguir. Nela, estão expostas as características relevantes dos trabalhos analisados nesta revisão.

 

 

Desenvolvimento

Em sua revisão sistemática, Antza et al. (2022)6 chamam atenção para a relação em U entre quantidade de sono e Diabetes mellitus tipo 2: pacientes que dormem de 5 a 6 horas por noite têm duas vezes mais chances de desenvolver a doença, enquanto pacientes que dormem mais de 9 horas por noite têm 60% a mais de probabilidade de apresentar a patologia do que aqueles que dormem de 7 a 8 horas. Os estudos citados por ele e seus colaboradores indicam que essa relação é mais forte em homens que em mulheres, e que não foi afetada por métricas como IMC e idade. Dentre as possíveis causas, Antza et al. (2022)6 chamam atenção para o maior consumo e menor gasto calórico dos pacientes que têm sono curto e longo, comparados aos que dormem 8 horas/dia. Além disso, estudos revelam uma maior liberação de grelina, leptina e GH nos indivíduos observados, o que parece aos pesquisadores estar relacionado a uma alteração nas células beta pancreáticas no longo prazo, que gera deficiência na produção e resistência à insulina. Esta revisão diz não haver relação entre o aumento na duração do sono e a prevenção da diabetes tipo 2, uma vez que os estudos analisados não a comprovaram.

O estudo conduzido por Cespedes et al. (2015)7 acompanhou mulheres de 55 a 83 anos de idade entre 1986 e 2000. A metanálise também percebeu uma associação em "U" em que os extremos de sono são desfavoráveis à prevenção da doença: as mulheres que reportaram mudanças no sono apresentaram maiores índices de massa corporal, menores índices de atividade física e piora na qualidade da dieta. Além disso, reportaram com maior frequência do que as mulheres que dormiam 7-8 horas por dia, o hábito de fumar, hipertensão arterial, hipercolesterolemia e histórico familiar da doença. A pesquisa não foi capaz de perceber, porém, se a melhora nos índices temporais do sono trariam benefícios metabólicos. Como hipótese para a percepção da associação, os pesquisadores trouxeram o aumento em citocinas inflamatórias e diminuição nos níveis de melatonina, o que pareceu afetar o bom desempenho metabólico no controle da glicemia.

Jane Ferrie et al. (2015)8 examinaram se havia relação entre 5 anos de mudança de sono e o desenvolvimento de DM2 nos 5 anos seguintes. Para isso, acompanharam 10.308 enfermeiras com 35 a 55 anos de idade, desde 1985: elas respondiam em um questionário "quantas horas de sono em média você dorme por noite durante a semana" e passavam por exame clínico com Teste Oral de Tolerância à glicose (TOTG) e HbA1c para acompanhamento da presença de diabetes mellitus tipo 2. O estudo revelou uma relação não linear entre a duração do sono e o desenvolvimento da doença: a persistência de um sono de curta duração e o aumento de duas horas no sono por 5 anos, comparados a 7 horas de sono constantes, estão associados com o aumento do risco para diabetes mellitus tipo 2.

Para Ferrie et al. (2015)8, as causas possíveis podem ser diversas. Em relação ao sono curto, estudos de laboratório mostraram que a restrição do sono aumenta o apetite, especialmente por alimentos de alta densidade calórica, por queda na saciedade e aumento nos hormônios estimuladores de apetite. Isso se revela em maior ingestão de calorias, o que gera ganho de peso e favorece o desenvolvimento da doença, no longo prazo. Além disso, a privação de sono prolongada também aumenta as vias inflamatórias, o que também foi associado com desenvolvimento da doença, e reduz os níveis de melatonina, que tem papel importante no controle glicêmico, indicando haver relação entre diminuição nos níveis do hormônio e desenvolvimento de DM2.

Já os sonos de longa duração estão associados a outros fatores de risco para diabetes, como: depressão, pouca condição socioeconômica e sedentarismo. Ademais, pode indicar a presença de distúrbios como apneia obstrutiva do sono, dos quais os tipos moderados e severos estão associados a Diabetes mellitus tipo 28. O autor ressalta que o uso de medidas autodeclaradas de tempo de sono, além de terem sido ignorados os cronotipos, a presença de distúrbios e a qualidade do sono das participantes podem ter influenciado nos resultados, uma vez que esses fatores são isoladamente associados à DM28.

Forrestel et al. (2016)17 buscaram explicações para as relações entre a redução nos níveis de melatonina e o aumento no risco para desenvolvimento da doença. Em sua revisão, expôs estudos que mostram que 50% dos pacientes diabéticos relatam insônia, e que o uso da Metformina e controle glicêmico adequado parece melhorar a qualidade de sono desses pacientes. Além disso, 4 ou 5 dias de alterações no padrão de sono de indivíduos saudáveis tiveram como consequência o aparecimento de um descontrole glicêmico pós-prandial, sinal de DM2.

Nas pesquisas com animais, citadas pelo autor, a influência da melatonina no controle da glicemia foi mais detalhada. Após uma hora da aplicação da substância, a atividade da AMPK foi aumentada, enzima que potencialmente aumenta a sensibilidade do fígado à insulina, o que também acontece nos ratos idosos após suplementação contínua por 8 a 12 semanas. Além disso, a melatonina pareceu ativar proteínas-G inibitórias, o que reduz a produção de cAMP, ativar quinases A e, por isso, diminuindo a secreção do hormônio. Ademais, Forrestel et al. (2016)17 chamaram a atenção para outro efeito observado: o neurotransmissor parece diminuir a concentração de cálcio intracelular e estimular a fosfolipase C e IP3, o que aumenta a secreção de insulina. Os efeitos agonistas acontecem em diferentes concentrações. Outro estudo mostrou que a deleção dos receptores para melatonina geram queda nos níveis glicêmicos e diminui a resposta do fígado dos animais à insulina.

Ainda segundo o autor, os efeitos da melatonina no controle da glicemia e na resposta do fígado à insulina indicaram a alguns pesquisadores a possibilidade de uso do neurotransmissor como tratamento para Diabetes mellitus tipo 2. Sobre isso, Forrestel et al. (2016)17 chamaram atenção para uma pesquisa que mostrou a recuperação de células beta em ratos, com DM2 induzida por Estreptozotocina, que receberam 1mg/kg/dia da substância. Não é claro, porém, como e se essa aplicação funcionaria em humanos17.

Fritz et al. (2023)18 trouxeram o resultado de uma pesquisa conduzida pela Broad Institute of the MIT e Universidade de Harvard, a qual utilizou cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa para analisar amostras sanguíneas dos grupos. Estes foram separados de acordo com as respostas dadas a um formulário que perguntava: hábitos de sono, idade, etnia, IMC, hábito de ronco, prática de atividade física, qualidade da dieta, hábito etilista e se havia diagnóstico de diabetes, depressão ou dislipidemia. O objetivo era perceber se havia semelhança ou aumento da frequência de metabólitos comuns nas amostras, e para isso foram considerados aqueles que apareciam em pelo menos 50% delas18.

Percebeu-se, então, que pessoas que dormem pouco têm composição metabólica no plasma diferente daquelas com sono regular e que dormem muitas horas18. No primeiro grupo, foi observada uma maior presença de lipídios e triglicerídeos no sangue, além de outros metabólitos que já tinham sido associados à obesidade e diabetes. Porém, apesar da relação semelhante no grupo que dorme pouco, isso não explica a maior incidência de Diabetes mellitus tipo 2 no longo prazo: isso se deu porque o estudo não foi capaz de provar que os ajustes nos níveis desses metabólitos diminuem os riscos de adquirir as doenças (obesidade e DM2). Enquanto isso, quando observado o grupo que declarou ter longa duração de sono, as associações entre os metabólitos que aparecem no sono foram bem menos robustas: houve alguma diferença entre os lipídeos que apareceram no grupo - diacilglicerol e triacilglicerol estavam aumentados em relação a indivíduos que dormiam 7-8 horas ou menos, mas não foram capazes de relacionar com o aparecimento de doenças18.

Em resumo, Fritz et al. (2023)18 mostram que hábitos diferentes de sono mostram relações metabólicas diferentes no plasma, com diferença nos metabólitos apresentados entre os grupos que dormem mais, menos ou 7 a 8 horas por noite. Mas essa diferença não pareceu explicar a relação entre o tempo de sono e aumento de risco para obesidade e DM2.

Jike et al. (2018)19 apontam uma associação relevante entre sono de longa duração, Diabetes mellitus tipo 2 e obesidade, além de aumento de mortalidade e doenças cardiovasculares quando em valores maiores do que oito a nove horas de sono. Já quanto a durações menores de seis horas, o risco está associado a diabetes e a doenças coronárias, além da obesidade e de doenças cardiovasculares. Combinando esses dois extremos, é evidente a relação "em forma de U" entre duração e potenciais doenças associadas.

Johnson et al. (2022)20 sintetizaram a relação entre manipulações no estágio de sono e controle glicêmico. Nesse experimento, os participantes tiveram uma noite de sono inalterada e uma com estimulações em ruído rosa, que eram transmitidos por headphones, quando se iniciava o sono de ondas lentas (NREM). Os autores não perceberam uma alteração significativa nos níveis de glicose pós-prandial ou insulina em nenhum dos experimentos, quando comparado ao grupo controle. Porém, percebeu-se um aumento significativo da resistência à insulina no grupo que teve o sono alterado. Além disso, quando se aumentou o tempo de alteração, houve mudanças nos níveis de glicose e insulina, o que, segundo o autor, sugere uma relação dose-dependente20.

Isso, relata Johnson et al. (2022)20, mostra que alterações no sono NREM aumentam a resistência à insulina, mas não altera significativamente os níveis de glicose pós-prandial e insulina20.

Kurnool et al. (2023)9 sintetizaram a literatura que diz sobre as associações entre distúrbios do sono, obesidade e DM2. E chamou atenção para como a avaliação da saúde do sono parece ser parte importante do tratamento de pacientes obesos e diabéticos. Os autores ressaltam que esses distúrbios são muitas vezes pouco reconhecidos e, por isso, não são tratados. E que o tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS), por exemplo, pode melhorar a qualidade do sono e diminuir o risco do desenvolvimento de obesidade e DM2.

No trabalho, Kurnool et al. (2023)9 explicam que a AOS parece piorar o quadro diabético. Isso ocorre porque causa hiperglicemia, por incitar catecolaminas e outros hormônios regulatórios. Porém, os estudos sobre tratamento do distúrbio de sono com CPAP não foram claros em como a resolução da condição melhora o controle glicêmico nesses pacientes. Os autores concluem que, uma vez que a Diabetes mellitus tipo 2 está associada a anormalidades no controle respiratório e efeitos neuromusculares, a doença pode alterar a mecânica respiratória e piorar a apneia obstrutiva do sono9.

Leproult et al. (2015)21 demonstram uma melhora metabólica em seis semanas de extensão de sono para adultos habitualmente com tempo de sono restrito. Salientaram-se variabilidades interindividuais, mas foi reforçada a correlação entre o aumento de sono e melhorias nos índices de sensibilidade à insulina, mesmo com a adição de apenas uma hora de sono. Usou-se de seis semanas nesse estudo visando a permitir tempo suficiente para uma potencial modificação fisiológica, observada em estudos relacionados à hipertensão. Por meio de uma avaliação objetiva, com uso de actigrafia e polissonografia, constatou-se que, com o acréscimo de uma hora no sono, houve um aumento de tempo no estágio 2 do NREM e no sono REM, além da eficiência inalterada no sono, indicando ser essa uma quantidade adequada que preserva a qualidade do sono e traz melhorias no metabolismo de insulina.

Li et al. (2016)10 documentaram um estudo que buscou acompanhar 121.700 mulheres, enfermeiras, entre 30 e 55 anos, durante 10 anos, para entender as associações entre distúrbios de sono e doenças cardiovasculares e Diabetes mellitus tipo 2. Os autores buscaram quantificar como os efeitos da diabetes na qualidade de sono estão relacionados ao IMC, hipertensão ou depressão e outros fatores, como: trabalho noturno, dificuldade para dormir, poucas horas de sono e doenças do sono (ronco e apneia). Em 10 anos de acompanhamento, foram relatados 6.407 casos de DM2, cuja definição levou em conta a declaração das participantes e, depois de 1998, os critérios da National diabetes Data Group.

Observou-se que mulheres que tinham dificuldade para dormir tiveram um aumento no risco para desenvolvimento de Diabetes mellitus tipo 2, mesmo desconsiderando outros fatores de risco como: menopausa, uso de medicamentos hormonais, vitaminas e aspirina, histórico familiar e hábitos de vida (prática de exercícios físicos, dieta, etilismo, tabagismo e fatores sociais)10.

Porém, essa dificuldade não se mostrou independente de outros três fatores: hipertensão, obesidade e depressão. Quando ajustadas essas variáveis, as estatísticas de relação entre a dificuldade para dormir e o desenvolvimento da doença diminuíram consideravelmente. Sozinhos, esses três fatores juntos aumentavam em 46% a chance do desenvolvimento da doença10.

Ademais, foi observada relação entre o risco para a doença e a prática de trabalho noturno frequente. E o risco também foi aumentado em mulheres que declararam doenças do sono: a presença de uma, duas ou três condições aumentavam gradativamente a chance de desenvolvimento da doença. Todos os achados se mostraram consistentes com outros estudos prévios, diz Li (2016)10.

Para explicar as relações encontradas, o autor propõe algumas hipóteses. Primeiro, de que dificuldade para dormir pode alterar o ciclo circadiano e funções fisiológicas: a restrição de sono parece alterar a função de hormônios que regulam o apetite, levando ao ganho de peso e, assim, aumentando o risco para o desenvolvimento de diabetes. Além disso, o autor relembra que alterações no sono são sintomas frequentes em pacientes depressivos, doença que também já foi associada à Diabetes mellitus tipo 2 em estudos anteriores. E concluem que o aumento de risco para a doença não é determinado por um fator isolado: hipertensão, obesidade e depressão também contribuem para o processo, e já foram previamente associados à dificuldade para dormir. Dizem, ainda, que a restrição experimental do sono reduz a tolerância à glicose em relação a quem está completamente descansado10.

Em suma, Li et al. (2016)10 mostram que a dificuldade para dormir está associada à Diabetes mellitus tipo 2, o que é parcialmente explicado pela relação desta com hipertensão, obesidade e depressão. O risco aumenta quando esses fatores são somados com doenças do sono10.

Lin et al. (2016)11 buscaram analisar a associação entre a duração do sono e o risco de desenvolver DM2 em adultos Taiwaneses. Em um estudo transversal que teve como população-alvo os residentes de Taiwan: 1.533 adultos de 19-64 anos participaram da pesquisa. Destes, 6,1% dormiam por 5 horas e 10,1% dormiam por 9 horas.

A autora concluiu que o risco de desenvolver T2D para participantes jovens (19 a 44 anos) que dormiam por 5 horas era 2,04 vezes maior em relação a quem dormia de 7 a 8 horas. Tal relação não se apresentou quando comparados os mais velhos (44 a 64 anos). Ademais, aqueles que dormiam por 9 horas também não mostraram risco aumentado em relação aos que tinham tempo ideal de sono. Nesse trabalho, Lin et al. (2016)11 não conseguiram definir a causa dessa associação.

Nuyujukian et al. (2016)12 publicaram um Estudo longitudinal que incluiu 1.899 participantes, recrutados de janeiro/2006 a julho/2009, e buscou examinar a associação entre a duração de sono e a incidência de diabetes na população pré-diabética nativa do Alaska. Depois de ajustadas as variáveis de idade e sexo, Nuyujukian et al. (2016)12 concluíram que: os que dormiam menos de 7 horas eram mais propensos ao diagnóstico do que os que dormiam por mais tempo. Além disso, o estudo também mostrou que esse grupo tinha menores índices de qualidade em saúde: fumavam mais e faziam menos exercício físico do que aqueles que tinham tempo ideal de sono.

Ao contrário do sono de curta duração, nesse estudo, aqueles que tinham longa duração de sono não apresentaram maior risco de adquirir a DM2 e nem diferenças significativas na dieta e na prática de atividade física em relação aos que dormiam entre 7 e 8 horas. O estudo ressalta, porém, que a longa duração do sono pode estar associada a fatores psicossociais, como depressão, que já foram associados previamente à Diabetes mellitus tipo 212.

O autor relembra que a causa da associação ainda não é clara. A pouca duração do sono parece ter influência em hormônios que regulam o apetite, como leptina e grelina, além de alterar fatores glicêmicos e o ciclo circadiano e piorar a apneia do sono, que já foram relacionados à resistência à insulina. Esses fatores, juntos, podem contribuir para o desenvolvimento do distúrbio12.

Quadra et al. (2022)22 publicaram um estudo realizado no Brasil na cidade de Criciúma/SC. O estudo entrevistou 820 indivíduos, maiores de 18 anos e moradores da cidade, e os classificou quanto à sua duração de sono em: curta duração (menos que 7 horas), duração adequada (de 7 a 8 horas) e longa duração (mais que 9 horas). Neste grupo, ter pior qualidade de sono esteve associado à maior presença de diagnóstico de hipertensão arterial e diabetes. Segundo os pesquisadores, isso pode se relacionar com o fato de que os relógios periféricos do ciclo circadiano - fígado, pâncreas, músculo, intestino e tecido adiposo - também estão intimamente relacionados com o controle de secreção de insulina e de manutenção dos níveis de glicose.

Sendo assim, alterações nesse ciclo, como a falta de horas adequadas de sono, representada principalmente pelas mulheres do grupo e pelos que trabalhavam, podem trazer prejuízos à manutenção adequada da glicemia por aumentar a circulação de citocinas inflamatórias, disfunção de adipócitos e redução na taxa metabólica em repouso. Todas essas situações parecem, no longo prazo, se relacionar com a redução na tolerância à glicose e a resistência à insulina, o que aumenta o risco para desenvolvimento da Diabetes mellitus tipo 222.

Reutrakul et al. (2015)23 conduziram um estudo com 210 adultos com diabetes tipo 2 e que não eram trabalhadores por turnos na Tailândia. Constatou-se que dormir mais tarde aos fins de semana está associado à preferência noturna, menor duração e menor controle glicêmico em indivíduos com DM2.

Em 2018, o mesmo autor examinou estudos de noites com restrição, fragmentação e extensão de sono e sua relação com Diabetes mellitus tipo 2 e resistência à insulina24. Quando comparado a uma condição totalmente descansada de 12 horas na cama, a restrição de sono de quatro horas resultou em diminuição de 24% na sensibilidade à insulina. Em restrições entre quatro a cinco horas e meia na cama, houve uma redução na sensibilidade à insulina variando entre 16 e 32%. Quanto ao sono fragmentado, em um estudo de Reutrakul et al. (2018)24 em que se manteve a duração, mas sem contiguidade, por três noites, houve redução na sensibilidade de insulina em 25% e na tolerância à glicose em 23%. Já sobre a extensão de sono, observou-se uma melhora na sensibilidade à insulina em jejum quando houve o aumento objetivo de sono24.

Schipper et al. (2021)15 analisaram diferentes alterações de sono e as associações destas com algumas doenças, entre elas o controle glicêmico. Para doenças como insônia, distúrbios do ritmo circadiano e AOS, foi evidenciada a existência de uma relação bidirecional entre esses distúrbios e a Diabetes mellitus tipo 2, sugerindo um círculo vicioso entre esses dois fatores. Também há uma relação entre insônia, por exemplo, e o uso de medicamentos como a metformina para controle glicêmico. Além disso, descobriu-se que os três distúrbios supracitados são mais prevalentes em diabéticos do que na população em geral15.

De acordo com o estudo de Seo (2019)13, uma amostragem de 3.689 participantes coreanos sem diabetes na faixa etária entre 40 e 69 anos foi acompanhada por 12 anos, dividida de acordo com o horário de início de sono. Foram documentados 820 casos de Diabetes mellitus tipo 2, e o grupo dos dormentes tardios (entre 1:00 e 5:59) mostrou um aumento na resistência à insulina. Esse impacto de sono tardio foi mais evidente em indivíduos mais velhos e com função celular beta diminuída13. Observou-se, então, o sono tardio como fator de risco, independente de duração e/ou qualidade de sono.

Shan et al. (2015)5 evidenciam a relação em "formato de U" entre duração de sono e risco da ocorrência de Diabetes mellitus tipo 2, estando o sono entre sete e oito horas associado à menor incidência de diabetes. Constatou-se que os potenciais mecanismos influenciando nessa relação podem diferir entre as extremidades, estando relacionados ao sono curto, por exemplo, mudanças na atividade dos sistemas neuroendócrinos e resistência à insulina em adipócitos por meio da redução da fosforilação de AKT. Enquanto a diminuição de secreção de testosterona e melatonina pode estar relacionada à interrupção do sono. O sono de curta e longa duração foi associado ao aumento dos níveis de marcadores de inflamação, podendo ela ser também uma consequência dessa duração estendida5.

Sondrup et al. (2022)25 encontraram que a função metabólica é prejudicada quando há distúrbios no sono e que os efeitos dessa manipulação do sono diferem a depender do tipo de manipulação e o método para analisar a sensibilidade à insulina. Por exemplo, a restrição de sono reduziu a sensibilidade à insulina quando avaliados os testes de tolerância de glicose oral, tolerância de glicose intravenosa e pela avaliação do modelo homeostático para resistência à insulina. Ademais, constatou-se que essa sensibilidade é alterada negativamente por desalinhamento do ciclo circadiano e supressão do sono de ondas lentas, porém não são afetadas por distúrbios REM e sono fragmentado.

Por fim, com base no estudo de coorte realizado por Wu et al. (2021)26 com méxico-americanos, observou-se que a duração do sono está relacionada ao risco de Diabetes mellitus tipo 2, com o IMC mediando essa relação. Resultados apontaram que o peso excessivo é um fator explicativo que liga sono e DM2, além de ser um fator de risco sério para a desregulação glicêmica. Apesar disso, os indivíduos não obesos (IMC < 25) com 5 horas de sono por noite estavam com maior risco de DM2 no acompanhamento no curto prazo, sendo essa constatação confirmada em outros estudos analisados pelo autor. Concluindo, então, ser o IMC um moderador e um mediador na duração do sono e na relação com a Diabetes mellitus tipo 2.

 

CONCLUSÃO

A partir desta extensa revisão de literatura, foi possível inferir a existência de relações entre o diabetes mellitus tipo 2 e o sono. Para tal, as múltiplas características do sono, como duração, horário, qualidade26 e possíveis distúrbios associados16, foram utilizadas como variáveis e examinadas separadamente pelos estudos, visando à maior especificidade na análise para elucidar como cada uma interfere nesse processo. Tal abordagem evidencia a complexidade dessa relação, que não se resume a uma simples causalidade, mas configura-se como uma interdependência de fatores que influenciam tanto a expressão do diabetes quanto o desenvolvimento do sono como um todo. Portanto, o manejo dos diversos fatores do sono deve ser considerado para a melhoria da qualidade de vida de indivíduos já diagnosticados com DM2.

Confirmou-se uma relação em formato de "U" entre a duração do sono e o DM25,6,7,19, na qual os extremos de duração apresentaram a maior incidência de diabetes. Observou-se também um desenvolvimento cíclico entre esses dois fatores15, em que um influencia a manutenção e a progressão do outro, e vice-versa. Desse modo, um indivíduo diabético tem maior probabilidade de apresentar um sono inadequado, assim como um sono sem qualidade ou com duração excessiva ou deficiente resulta em alterações na sensibilidade à insulina e na tolerância à glicose, por exemplo.

Diante da constatação de uma correlação entre o sono e a Diabetes mellitus tipo 2, com impacto direto na saúde e na qualidade de vida geral dos indivíduos, torna-se evidente a relevância deste estudo, colaborando para a disseminação do conhecimento sobre o tema.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:

Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - rascunho original: GQN Baldani; BR da Silva; BG Dias; J de O Machado; JL Ferreira; AJFS e Silva. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - Análise e Edição: EA Soares; F da R Guerra.

 

COPYRIGHT

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REFERÊNCIAS

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