RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 36 e-36407 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2026e36407

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Relato de Caso

Glomerulopatia C3 em paciente pediátrico: relato de caso de nefropatia rara e complexa

C3 glomerulopathy in a pediatric patient: case report of a rare and complex nephropathy

Alaour Candida Duarte, Luciana Renner, Laís Antunes de Lima, Luís Gustavo Ramos Raupp Pereira, Luciana Nunes da Rosa, Isabella de Abreu Brkanitch

1. Hospital São Vicente de Paulo, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil
2. Faculdade de Medicina da Universidade Passo Fundo (UPF), Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço para correspondência

Luís Gustavo Ramos Raupp Pereira
Faculdade de Medicina da UPF, Rio Grande do Sul.
Email: luisgustavoraupp@gmail.com

Recebido em: 14 Abril 2025.
Aprovado em: 07 Fevereiro 2026.
Data de Publicação: 09 Junho 2026.

Editor Associado Responsável:

Priscila Menezes Ferri Liu
Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte/MG, Brasil.

Fontes apoiadoras: Não há.

Conflito de Interesses: Não há.

Comitê de Ética: Número do Parecer - 86868225.9.0000.5342.

Resumo

INTRODUÇÃO: A glomerulopatia C3 apresenta-se como um conjunto de patologias renais raras, acarretadas pela desregulação de vias do sistema complemento e deposição do componente C3 nos glomérulos, o que provoca reações inflamatórias glomerulares em níveis variáveis. As terapêuticas são baseadas em imunossupressores e inibidores da via terminal do complemento apresentam eficácia variável e não garantem cura universal.
OBJETIVO: Apresentamos o caso de um paciente masculino de 6 anos de idade com diagnóstico de glomerulopatia C3.
MÉTODOS: Estudo observacional descritivo, que objetiva descrever relato de caso de glomerulopatia C3.
DESCRIÇÃO DO CASO: Descrevemos um caso de paciente com diagnóstico de glomerulopatia C3 constatado por biópsia renal com análise por microscopia com imunofluorescência, que evidenciou padrão granular mesangial e em alças capilares tipo céu-estrelado (starry-sky) e terapêuticas utilizadas para o manejo clínico do quadro.
DISCUSSÃO: Apesar da raridade, a C3G apresenta impacto clínico significativo devido à associação com insuficiência renal progressiva, altas taxas de recidiva pós-transplante renal e de falhas no aloenxerto. Atualmente, não há terapêuticas específicas e curativas disponíveis para o manejo de glomerulopatia. Todavia, a abordagem é direcionada ao tratamento para atenuar a proteinúria e o quadro inflamatório renal.
CONCLUSÃO: A glomerulopatia C3 é uma doença renal rara, grave e de abordagem desafiadora, uma vez que não há terapêutica específica. Ensaios clínicos estão em andamento para testar a eficácia de drogas com alvo na via alternativa do complemento, que podem alterar esse cenário.

Palavras-chave: Glomerulonefrite; Proteinúria; Complemento C3; Biópsia; Microscopia eletrônica.

 

INTRODUÇÃO

A glomerulopatia C3 (GC3) apresenta-se como um conjunto de patologias renais raras, acarretadas pela desregulação de vias do sistema complemento e deposição do componente C3 nos glomérulos, o que provoca reações inflamatórias glomerulares em níveis variáveis1. Trata-se de uma patologia que foi recentemente definida e que engloba duas principais apresentações de doença: a doença de depósito denso (DDD) a glomerulonefrite C3 (GNC3), ambas relacionadas ao controle anormal da ativação do complemento, em especial da via alternativa2.

As terapêuticas são baseadas em imunossupressores e inibidores da via terminal do complemento apresentam eficácia variável e não garantem cura universal. Apesar de ensaios clínicos testarem terapias direcionadas à via alternativa do complemento, até o momento não há uma solução curativa. O transplante renal apresenta alto risco de recorrência da doença, o que torna o manejo dessas condições ainda mais desafiador3.

Neste artigo, expomos um caso de paciente com diagnóstico de glomerulopatia C3 constatado por biópsia renal com análise por microscopia com imunofluorescência, que evidenciou padrão granular mesangial e em alças capilares tipo céu-estrelado (starry-sky), e apresentamos uma revisão de literatura sobre as abordagens terapêuticas disponíveis e em estudo.

 

OBJETIVO

Neste trabalho, apresentamos o caso de um paciente masculino de 8 anos de idade com diagnóstico de glomerulopatia C3. O objetivo deste artigo é apresentar e correlacionar o caso descrito com o conhecimento disponível na literatura sobre esta patologia rara.

 

MÉTODOS

Estudo observacional descritivo, que objetiva descrever relato de caso de glomerulopatia C3. As informações do caso foram obtidas por meio de revisão de prontuário, entrevista com a paciente e registro fotográfico, aos quais o paciente foi submetido, e correlacionadas à revisão de literatura científica. O paciente, menor de idade, assinou o termo de assentimento livre esclarecido (TALE), e seu responsável, o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), e a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) sob protocolo 86868225.9.0000.5342 e seguiu os princípios de Helsinque.

 

RELATO DE CASO

Paciente masculino, 6 anos, encaminhado ao atendimento ambulatorial no serviço de Nefrologia Pediátrica por apresentação clínica e laboratorial (Tabela 1) compatível com síndrome nefrítica, com manifestação de hipertensão arterial, hematúria e proteinúria em faixa nefrótica, associada à evolução e à persistência de valores laboratoriais que evidenciaram consumo de C3. Realizada biópsia renal por punção guiada por ultrassonografia para complemento de investigação. Análise histopatológica de fragmentos coletados com microscopia de luz constatou que no compartimento glomerular, a matriz e a celularidade mesangiais estavam discretas e difusamente expandidas (Figura 1.1). No compartimento túbulo-intersticial, foi evidenciado presença de hemácias e cilindros hemáticos preenchendo túbulos e no segmento vascular não foram identificadas alterações (Figura 1.2). Ademais, análise de microscopia com imunofluorescência apresentou padrão granular grosseiro de moderada intensidade e positividade para imunomarcador de fragmento de C3 (Figura 2), com padrão granular mesangial e em alças capilares tipo céu-estrelado (starry-sky). Também foram constatados traços de anticorpos de IgM na amostra e demais marcadores negativos. A microscopia eletrônica constatou a presença de numerosos e pequenos depósitos glomerulares elétron-densos localizados em região principalmente subendotelial e transmembrana, por vezes, lembrando aspecto de "fita densa" (Figura 3), que são característicos principalmente de Glomerulonefrite C3 Dominante e podendo corresponder principalmente à Doença de Depósito Denso, e não foram notados depósitos semelhantes a humps subepiteliais, nem depósitos mesangiais e estruturados (fibrilas). Investigação complementada com pesquisa de painel genético para doenças renais, por meio de análise genômica por sequenciamento de nova geração (NGS) e sequenciamento por nanopore para investigação de variantes em genes relacionados a glomerulopatias. Não foram identificadas variantes patogênicas nos genes analisados, incluindo no gene CFHR5, que isoladamente justifiquem o quadro clínico do paciente. Também foram excluídas doenças infecciosas ativas e crônicas, como infecção por citomegalovírus, toxoplasmose, hepatite B, hepatite C, HIV, como também condições imunológicas e desordens linfoproliferativas. As terapêuticas utilizadas na abordagem deste caso foram baseadas no controle da proteinúria e terapia imunomoduladora não específica. O paciente iniciou tratamento e mantém-se com terapia antiproteinúria com enalapril 1mg/ml, 8ml duas vezes ao dia, para controle do quadro e iniciou tratamento com terapia moduladora com glicocorticoide, com prednisolona 3mg/ml, 7ml ao dia, e micofenolato de sódio 360mg, duas vezes ao dia. Paciente apresentou remissão dos sintomas e segue em acompanhamento trimestral no serviço de Nefrologia Pediátrica.

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A glomerulopatia C3 (GC3) é uma doença renal crônica e rara caracterizada pela presença de depósitos isolados ou dominantes de C3 nos glomérulos, identificados por meio de microscopia com imunofluorescência de fragmentos obtidos de biópsias renais. Esses depósitos resultam de uma hiperatividade e desregulação da via alternativa do complemento e são o principal mecanismo subjacente de lesão glomerular desta patologia. Conforme a disposição na microscopia eletrônica e investigação genética, pode-se avaliar a apresentação dos subtipos desta doença, classificados como glomerulonefrite C3 (GNC3) e a doença de depósito denso (DDD)4.

Acredita-se que ambas as apresentações possuam a patogênese baseada em alterações adquiridas e genéticas na via alternativa do sistema complemento, e os avanços no entendimento dessa associação contribuíram para o desenvolvimento de novas perspectivas terapêuticas5,6. Destaca-se que, em alguns casos, há possibilidade de apresentação de feições mistas entre a GNC3 e DDD na microscopia eletrônica. Nessa perspectiva, alguns autores enfatizam que a microscopia eletrônica não é específica para distinção dessas entidades e a possibilidade de que ambas constituem uma mesma patologia, em estádios diferentes, apresentada como Glomerulonefrite Mediada por Via Alternativa do Complemento3,6. No entanto, espera-se que com o avanço da pesquisa genética e molecular, torne mais factível a diferenciação dos componentes dessas duas apresentações.

Apesar da raridade, a C3G apresenta impacto clínico significativo devido à associação com insuficiência renal progressiva, altas taxas de recidiva pós-transplante renal e de falhas no aloenxerto2,7. A C3G acomete, sobretudo, crianças e jovens adultos, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária. A apresentação clínica da C3G é variável, incluindo a manifestação assintomática, com apenas alterações laboratoriais, com constatação de hematúria e proteinúria no exame de análise de urina, e quadros associados à síndrome nefrítica, com comprometimento renal e pressórico, como no caso apresentado, e insuficiência renal progressiva8. Em torno da metade dos pacientes, evolui para doença renal em estágio terminal dentro de dez anos do diagnóstico7. Ressalta-se que casos mais graves podem evoluir rapidamente para doença renal terminal e a doença usualmente apresenta um curso remitente e recidivante, desencadeado principalmente por quadros infecciosos8.

A suspeita do acometimento de C3G é dada pela manifestação de quadro clínico de síndrome nefrótica ou nefrítica, ou presença de alteração de análise urinária, associada ao consumo persistente de C3. A investigação de C3G pode ser desafiadora, uma vez que a confirmação diagnóstica depende da realização de biópsia renal e análise de microscopia com imunofluorescência, que evidencia positividade para C3 a nível glomerular, e microscopia eletrônica para subclassificação4,8. No entanto, os achados na microscopia eletrônica podem ser variáveis e de difícil distinção entre GNC3 e DDD2,7.

Em pacientes com quadro suspeito de C3G, encoraja-se a dosagem de níveis séricos de C3 e C4, testes genéticos e pesquisa para autoanticorpos contra o CFH e para fatores nefríticos, componentes que estabilizam a convertase da via alternativa do complemento, acarretando a ativação excessiva e prolongada do sistema do complemento, mecanismo-chave na fisiopatologia e progressão da doença9. Exames recomendados, como pesquisa do fator nefrítico C3 (C3NeF), autoanticorpo estabilizador de C3 convertase, e avaliação do gene CFHR5, são importantes na investigação de glomerulopatias C3. A pesquisa genética, como na análise do gene CFHR5, é importante para identificar fatores hereditários, com variantes genéticas que comprometem a regulação do complemento e levam a depósitos densos subendoteliais, semelhantes aos observados na Doença de Depósito Denso (DDD)10-12. Acredita-se que a avaliação desses fatores, com distinção entre formas esporádicas e familiares, possa auxiliar na interpretação do diagnóstico e no prognóstico da glomerulopatia C39.

Apesar de a investigação genética e laboratorial ter sido detalhada, não foram realizados os testes de anticorpos anti-Fator H e de fator nefrítico C3 (C3NeF), por questão de limitação de acesso, restringindo a avaliação de mecanismos autoimunes potenciais na glomerulopatia C3. Além disso, trata-se de um relato de caso, com limitações inerentes à generalização dos achados e à análise de desfechos a longo prazo. Essas restrições devem ser consideradas ao interpretar a relevância clínica do caso e ao extrapolar os resultados para outras populações de pacientes.

Destaca-se também a necessidade de exclusão de doenças infecciosas crônicas ou em atividade, desordens genéticas, imunológicas e neoplasias linfoproliferativas6. Embora nenhuma infecção ativa ou crônica tenha sido documentada neste caso, a exclusão de glomerulopatia C3 associada à infecção permanece essencial, uma vez que a rápida recuperação clínica é compatível com essa apresentação. Neste caso, foi realizado rastreio sorológico e infeccioso abrangente, com resultados negativos. Evidências indicam que a ativação desregulada da via alternativa do complemento, frequentemente mediada por fatores, como o fator nefrítico (C3NeF), pode ser potencializada por infecções, que podem atuar como gatilhos para lesão renal e progressão da doença, ressaltando a necessidade de excluir sistematicamente o componente infeccioso13,14.

É importante ressaltar que, atualmente, não há terapêuticas específicas e curativas disponíveis para o manejo de glomerulopatia associado à C3G3. Todavia, a abordagem é direcionada ao tratamento para atenuar a proteinúria e o quadro inflamatório renal7. Entre as abordagens adotadas, cita-se a terapia não imunomoduladora direcionada a pacientes com doença leve e imunomoduladora não específica, com uso de micofenolato mofetil associada a glicocorticoides, reservada para pacientes com apresentações moderadas e graves8. É importante enfatizar que o uso de micofenolato mofetil em pacientes com C3G é off-label, especialmente em crianças. Caravaca-Fontán et al. (2020)15 demostraram que corticosteroides associados a micofenolato mofetil podem induzir remissão e melhorar desfechos renais, embora a resposta varie entre os pacientes.

Terapias com Bloqueadores Específicos do Complemento estão em fase de estudo clínico e são uma esperança para o manejo desta patologia2,3,8. O ensaio clínico APPEAR-C3G demonstrou que o iptacopan reduziu significativamente a proteinúria e apresentou um perfil de segurança aceitável em adultos, embora crianças não tenham sido incluídas no estudo16. Ensaios clínicos com pegcetacoplan, que incluíram apenas crianças com idade superior a 12 anos, também demonstraram redução significativa da proteinúria, melhora de biomarcadores do complemento e estabilidade da função renal17-19. Contudo, é importante ressaltar que não existem dados clínicos robustos disponíveis para crianças menores de 12 anos.

Em questão de prognóstico, dados de registros sugerem que pacientes pediátricos com glomerulopatia C3 (C3G), mesmo na presença de crescentes glomerulares, podem apresentar desfechos mais favoráveis em comparação aos adultos. A função renal tende a ser mais preservada em crianças, possivelmente devido a diferenças na resposta imune e na plasticidade renal, embora o risco de recorrência e progressão ainda exija acompanhamento prolongado20, 21.

Embora a ausência de diretrizes de terapias específicas para C3G, estudos recentes destacam o desenvolvimento de terapias direcionadas ao complemento, como a utilização de iptacopan e pegcetacoplan, que buscam provar a eficácia na redução da proteinúria e no controle da doença, e que apresentam resultados promissores16,22,23. Nesse sentido, essas intervenções podem representar uma mudança no paradigma de tratamento, anteriormente baseado em corticosteroides e imunossupressores, com resultados muitas vezes limitados, e demonstram uma possibilidade terapêutica eficaz e benéfica para abordagem de C3G futuramente.

 

CONCLUSÃO

A glomerulopatia C3 é uma condição rara e grave, resultante da desregulação do sistema complemento e da deposição de C3 nos glomérulos. O tratamento é complexo, pois as terapias disponíveis têm eficácia variável e não garantem cura. O diagnóstico precoce e o acompanhamento clínico contínuo são fundamentais para um manejo eficaz. Ensaios clínicos em andamento geram expectativa de novas terapias mais eficazes. O desenvolvimento de pesquisas para terapêuticas da glomerulopatia C3 deve seguir como uma meta dos pesquisadores.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:

Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: A Duarte; L Renner; LA de Lima; LGR Raupp; I de A Brkanitch; LN da Rosa. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - rascunho original: A Duarte; L Renner; LA de Lima; LGR Raupp; I de A Brkanitch; LN da Rosa. Validação, Software: A Duarte; L Renner; LA de Lima; LGR Raupp; I de A Brkanitch; LN da Rosa. Recursos & Aquisição de Financiamento: A Duarte; L Renner. Curadoria de Dados & Análise Formal: A Duarte; L Renner.

 

COPYRIGHT

Copyright© 2025 Duarte et al. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Licença Internacional que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado.

 

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