RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 36 e-36102 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2026e36102

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Artigo Original

Dor de dente e desigualdades em saúde entre pessoas em situação de rua: um estudo censitário

Tooth pain, social vulnerability, and health inequities among homeless individuals: census-based study

Natália Moreira Teixeira1,2; Sordaini Maria Caligiorne1,2; Nicole Font1,2; Amanda Iorgachov1,2; Sofia Kalapothakis Coutinho1; João Gabriel Malheiros1; Frederico Garcia1,2,3,4

1. Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (NAVES), Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
2. Programa de Pós-graduação em Neurociências, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
3. Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
4. Programa de Pós-graduação em Saúde do Adulto, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

Frederico Garcia
Departmento de Psychiatria: Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde.Universidade Federal de Minas Gerais
Avenida Prof. Alfredo Balena, 190
Santa Efigênia - CEP 30130-100,Belo Horizonte, Brasil
E-mail: fredgarcia@ufmg.br

Recebido em: 30 Maio 2025
Aprovado em: 23 Novembro 2025
Data de Publicação: 30 Abril 2026

Editor Associado: Mário Benedito Costa Magalhães
Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade do Vale do Sapucaí.
Pouso Alegre/MG, Brasil.

Comitê de Ética: Número do Parecer - 59335022.7.0000.5149

Resumo

Este estudo investigou a prevalência de dor de dente e seus fatores associados em uma ampla população em situação de rua em Belo Horizonte, Brasil, com base nos dados do IV Censo da População em Situação de Rua, realizado em 2022. Trata-se de uma análise ad hoc de um estudo transversal de base censitária, que utilizou informações obtidas por meio de questionário estruturado contemplando características sociodemográficas, condições de saúde e acesso a serviços públicos. A dor de dente autorreferida foi analisada por meio de estatísticas descritivas e modelos de regressão logística, com estimativa de razões de chances ajustadas (odds ratios - OR) e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Entre os 2.461 indivíduos em situação de rua entrevistados, 33,3% relataram dor de dente. A prevalência foi maior entre mulheres, pessoas com filhos e indivíduos com condições de saúde específicas, como infecções sexualmente transmissíveis (IST), HIV/aids e transtornos mentais. Na análise multivariada, histórico de violência doméstica (OR = 2,57; IC95% = 1,12-5,92), internação psiquiátrica prévia (OR = 1,74; IC95% = 1,03-2,95) e transtorno depressivo (OR = 2,06; IC95% = 1,42-3,00) associaram-se de forma independente ao relato de dor de dente. Em contrapartida, a percepção de bom estado geral de saúde mostrou-se fator protetor, reduzindo a chance de dor de dente em 48,8% (OR = 0,51; IC95% = 0,30-0,88). A elevada prevalência de dor de dente entre pessoas em situação de rua evidencia a necessidade de estratégias integradas de cuidado em saúde bucal e saúde mental. O fortalecimento de políticas públicas e da articulação intersetorial é fundamental para reduzir iniquidades e ampliar o acesso à atenção em saúde bucal em populações socialmente vulneráveis.

Palavras-chave: Vulnerabilidade social; População em situação de rua; Saúde bucal; Dor de dente; Saúde mental; Censo.

 

INTRODUÇÃO

A população em situação de rua vivencia uma vulnerabilidade multidimensional, caracterizada pela exclusão socioeconômica, o acesso limitado aos serviços de saúde e desfechos precários em saúde bucal1. A precariedade da saúde bucal nessa população resulta de contingências reais como a falta de água potável, que resulta nas práticas inadequadas de higiene e do acesso restrito a serviços odontológicos2,3. Essas limitações contribuem para um ciclo de marginalização, no qual condições dentárias provocam dor crônica, comprometem a autoestima e dificultam a reintegração social4.

Estudos prévios apontam que a situação de rua está associada a uma maior prevalência de cáries, doenças periodontais e perda dentária em comparação com a população geral5,6. No Brasil, 81,9% das pessoas em situação de rua relataram impactos negativos na saúde bucal, em contraste com 51,3% dos adultos e 55,3% dos idosos da população geral7,8. Dado o papel essencial da saúde bucal no bem-estar geral, compreender os fatores associados à dor de dente nessa população é crucial para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes.

A dor dentária ou odontalgia, frequentemente relatada nessa população, constitui uma urgência odontológica com potencial para se tornar crônica, impactando o bem-estar físico e emocional dos indivíduos9-13. Cáries dentárias e doenças periodontais não tratadas podem resultar em dor persistente, comprometendo a qualidade de vida e o funcionamento social11,12 dos indivíduos. Além disso, a dor crônica pode agravar transtornos mentais, como a depressão, os transtornos de ansiedade e a demência, aumentando os custos e a demanda por serviços de saúde e os custos para o sistema de sáude13,14. Enquanto um importante indicador de saúde bucal16, a dor de dente reflete problemas orais graves, como lesões cariosas e doença periodontal, servindo como uma medida eficaz e abrangente para avaliar as condições de saúde bucal em populações vulneráveis16,17.

A relação entre saúde bucal e saúde geral deve ser amplamente reconhecida, uma vez que problemas dentários comprometem funções essenciais, como alimentação e sono, além de aprofundar desigualdades em saúde4,9,10,12,13. O manejo adequado da dor de dente e de suas condições associadas deve ser uma prioridade nas políticas públicas voltadas para populações vulneráveis, integrando o cuidado odontológico ao apoio social.

Conforme destacado pela Organização Mundial da Saúde18, os determinantes sociais da saúde (DSS) são definidos por fatores econômicos, sociais e ambientais que influenciam diretamente a saúde bucal. A pobreza extrema aumenta o risco de desenvolvimento de doenças orais e restringe o acesso a cuidados preventivos e curativos19. A coexistência da desnutrição, do tabagismo, violência e transtornos mentais agrava ainda mais a deterioração da saúde bucal21-23.

A abordagem ampliada de Ayres (2003)15 permite uma análise mais aprofundada das três dimensões inter-relacionadas entre situação de rua e saúde bucal14,15. A dimensão individual abrange fatores biológicos, como a desnutrição e a prevalência de transtornos mentais15. A dimensão social, abrange a exclusão econômica, o rompimento de vínculos familiares e a discriminação. Esses fatores quando associados reduzem a resiliência social e limitam o acesso aos serviços de saúde1. Por fim, a dimensão programática abarca as falhas das políticas públicas e nos serviços de saúde. Frequentemente, esses serviços apresentam limitações ou barreiras que impossibilitam a adequada assistência das especificidades dessa população. Isso contribui com a perpetuação do ciclo de vulnerabilidade e privação14.

Este estudo avaliou a prevalência de dor de dente entre a população em situação de rua de Belo Horizonte e investigou suas associações com fatores sociodemográficos, condições de saúde mental e doenças sistêmicas. Parte-se da hipótese de que a dor de dente nessa população não está apenas associada a condições clínicas, mas também é fortemente influenciada por determinantes sociais e fatores de saúde mental, refletindo a vulnerabilidade multidimensional vivenciada por pessoas em situação de rua.

 

MÉTODOS

Desenho do Estudo

Este estudo realizou uma análise ad hoc dos dados de um inquérito censitário transversal, conduzido para com o objetivo de se avaliar o tamanho e as características da população em situação de rua de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, Brasil - o IV Censo da População em Situação de Rua de Belo Horizonte, 2022 (4PEHC)24.

Belo Horizonte, a capital do estado de Minas Gerais, possui aproximadamente 2,35 milhões de habitantes na área urbana e cerca de 5 milhões em sua Região Metropolitana25, posicionando-se como a sexta capital brasileira mais populosa. A cidade tem se destacado na implementação de políticas públicas voltadas à população em situação de rua, tendo realizado três censos anteriores nos anos de 1998, 2005 e 201326-28.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais (CAAE 59335022.7.0000.5149). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta de dados ocorreu nos dias 19 e 21 de outubro de 2022, no período das 7h à meia-noite, visando a maximizar as oportunidades de entrevista dos participantes, inclusive daqueles que as encontravam fora dos abrigos e albergues. O estudo contou com uma metodologia participativa, com o envolvimento de pessoas com experiências prévias de vivência nas ruas, que contribuíram na formulação da estratégia de coleta e atuaram como mediadores no primeiro contato com os potenciais participantes.

Os locais de coleta foram definidos com base em informações geográficas fornecidas pela Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania (SMASAC). A seleção dos pontos considerou as intervenções sociais realizadas envolvendo as pessoas em situação de rua no ano anterior. Esses pontos foram validados por assistentes sociais municipais, organizações não governamentais (ONGs) e lideranças comunitárias da população em situação de rua. A coleta de dados do censo se deu em abrigos, hospitais, instituições de assistência social, restaurantes populares, ruas, comunidades, habitações temporárias e áreas degradadas classificadas pelo IBGE, incluindo prédios, lojas e fábricas abandonadas utilizadas como moradia provisória. Ao final do estudo, 1.344 locais de coleta foram mapeados e cada ponto foi visitado ao menos duas vezes nos horários de maior probabilidade de presença de pessoas em situação de rua.

Durante a coleta de dados, duplas de pesquisadores apresentaram aos participantes os objetivos do estudo e os potenciais benefícios às pessoas em situação de rua (PSR). Em seguida, entrevistadores previamente treinados conduziram as entrevistas presenciais com os participantes.

Participantes

Foram incluídos todos os indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos que se enquadravam na definição de pessoa em situação de rua como "um grupo populacional heterogêneo com características comuns de extrema pobreza, vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, ausência de moradia convencional regular, que utiliza logradouros públicos e áreas degradadas como espaço de moradia e sustento, de forma temporária ou permanente, bem como abrigos institucionais para pernoite ou moradia temporária"25.

Foram excluídos indivíduos sem condições de fornecer consentimento informado, notadamente aqueles que se encontravam com comprometimento do sensório, do raciocínio e verbalização lógica, ou que se encontravam alcoolizados ou que apresentavam sintomas psiquiátricos observáveis que inviabilizavam a participação na entrevista. As equipes de coleta registraram o total de indivíduos presentes nos locais previamente identificados.

Parâmetros Avaliados

A variável dependente do estudo - dor de dente ou odontalgia - foi avaliada por meio da pergunta autorreferida: "Você está com dor de dente?", conforme estratégia adotada na Pesquisa Nacional de Saúde Bucal de 2010⁸. Essa abordagem permitiu otimizar o tempo de coleta e forneceu um indicador relevante de saúde bucal, considerando a impossibilidade de realizar avaliações clínicas individuais.

As variáveis independentes foram classificadas em cinco domínios principais:

Características sociodemográficas: idade, sexo, orientação sexual, cor da pele, estado civil, escolaridade, situação de emprego e renda mensal média. Trajetória de rua: local de origem, tempo em situação de rua, principais motivos para o ingresso nessa condição, histórico de encarceramento ou internações prolongadas e rede familiar.

Saúde e bem-estar: segurança alimentar, percepção do estado de saúde, histórico médico, uso de medicamentos e consumo de substâncias.

Engajamento comunitário: participação em atividades culturais e associativas. Acesso a serviços de apoio: utilização de serviços públicos voltados à assistência da população em situação de rua.

Análise dos Dados

A estatística descritiva foi feita para todas as variáveis. Utilizou-se o teste de Kolgorov-Smirnov para avaliar a normalidade das variáveis. A amostra foi estratificada de acordo com a presença ou ausência de odontalgia. A associação entre dor de dente e variáveis explicativas foi avaliada pelo teste do qui-quadrado, pela análise post hoc de Bonferroni. Variáveis com vaor de p <0,2 foram selecionadas para modelagem por regressão logística, considerando a natureza binária do desfecho. O modelo final incluiu apenas as variáveis com p <0,05.

 

RESULTADOS

Foram identificadas 5.344 pessoas em situação de rua, das quais 2.403 completaram o questionário do estudo (Figura 1). Apenas 1,5% não respondeu à pergunta sobre dor de dente; resultando em uma amostra final composta por 2.365 indivíduos incluídos nessa análise.

 

 

Entre os participantes, 800 (33,8%) relataram estar com dor de dente. As Tabelas 1 e 2 apresentam a análise univariada, comparando os indivíduos com e sem relato de dor de dente.

 

 

 

 

 

 

Observa-se uma maior prevalência de dor de dente em mulheres, nos indivíduos com idade inferior a 49 anos e naqueles com menor nível de escolaridade (Tabela 1). Além disso, participantes que viviam com um companheiro(a)

O histórico de internação psiquiátrica associou-se a um aumento de 1,74 vez na probabilidade de relato de dor de dente. A presença de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e HIV/AIDS elevou essa probabilidade em 2,73 e 4,79 vezes, respectivamente. Indivíduos com diagnóstico de depressão também apresentaram risco duas vezes maior de relatar odontalgia.

Por outro lado, a percepção de um bom estado geral de saúde esteve associada a uma redução de 48,8% na probabilidade de relatar dor de dente (OR = 0,512; p = 0,015), sugerindo um efeito protetor dessa condição sobre o desfecho avaliado.

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo evidenciam a expressiva carga de odontalgia nas pessoas vivendo em situação de rua de Belo Horizonte. A prevalência de 33,8% encontrada neste estudo foi duas a três vezes superior do que aquela descrita na população brasileira em geral, que é de 11% a 23%, dependendo da faixa etária. Esse achado reforça a magnitude do problema e a importância de se direcionar intervenções em saúde bucal a essa população8.

Comparativamente, a prevalência observada de dor de dente foi 1,59 vez superior do que a relatada por adolescentes (20,9%), 1,44 vez maior que entre adultos (23,2%) e quase três vezes superior à verificada entre idosos (11,1%) na população geral brasileira8. Quando comparado a outras populações altamente vulneráveis, como os sobreviventes do rompimento da barragem do Fundão em Mariana, a prevalência encontrada nesse estudo foi quase o dobro dos 16,9% encontrados nos atingidos por barragem9.

Entretanto, a prevalência encontrada foi inferior à reportada nos estudos prévios que avaliaram essa condição nessa população. Freire encontrou uma prevalência de 50% nas pessoas em situação de rua de Goiânia, Brasil, em uma amostra de conveniência de 342 pessoas em situação de rua recrutadas em um único abrigo municipal10. Paralelamente, Comassetto e colaboradores (2021)30 encontraram uma prevalência de dor de dente de 48,9% em um estudo transversal com 214 pessoas em situação de rua em Porto Alegre, Sul do Brasil. Nos dois estudos, a abordagem retrospectiva tende a captar episódios cumulativos e crônicos, inflacionando as estimativas de prevalência.

Diferente desses dois estudos citados, a presente pesquisa foi a primeira que avaliou a presença de odontalgia no momento da coleta de dados, oferecendo um retrato em tempo real da condição aguda. Essa estratégia reduz o viés de memória e contribui para a uma estimativa mais precisa, o que pode explicar, ao menos, em parte, a menor prevalência observada. fornecendo um panorama mais preciso e em tempo real da dor aguda nessa população.

Além dos aspectos metodológicos, fatores estruturais podem ter influenciado os resultados. Pessoas em situação de rua frequentemente apresentam elevadas taxas de perda dentária. Isso reduz a probabilidade de manifestação do desfecho ativo. Ademais, a exposição cotidiana a múltiplas adversidades, como a forme, a violência e o uso de substâncias psicoativas pode levar à normalização ou à subnotificação do sintoma, que passa a ser percebido como menos prioritário diante de outras formas de sofrimento.

Os achados também corroboram evidências prévias que apontaram para uma forte associação entre a presença de transtornos mentais e a uma pior saúde bucal. Indivíduos com depressão, histórico de internação psiquiátrica e transtornos por uso de substâncias apresentaram maior risco de relato de odontalgia. A metanálise de Kisely (2016)31 mostrou que pessoas com depressão e ansiedade apresentam quase o dobro de chance de apresentar cáries extensas e perda dentária em comparação com a população geral, fenômeno atribuído ao comprometimento dos cuidados dentários e ao aumento da percepção de dor. Estudos prévios reforçam essa associação em populações vulneráveis9,28-31.

O uso de substâncias psicoativas mostrou-se igualmente relevante. A literatura aponta uma maior suscetibilidade à doença periodontal, xerostomia e infecções orais entre usuários de droga e dor dentária crônica35-37, fatores que contribuem para a dor bucal crônica. Estudos prévios reforçam essa associação em populações vulneráveis9.

A associação entre HIV/AIDS e a maior prevalência de odontalgia destaca a necessidade de integração entre os serviços odontológicos e atenção à saúde voltados para indivíduos imunossuprimidos38-40. A imunossupressão aumenta a suscetibilidade às infecções orais e às doenças periodontias avançadas. Indivíduos com ISTs apresentaram 2,73 vezes mais chances de relatar dor de dente, enquanto aqueles vivendo com HIV/AIDS tiveram risco 4,79 vezes maior.

A desigualdade racial também se destacou. Pessoas negras e pardas, que representam a maioria da amostra, refletindo a existência de barreiras estruturais no acesso à saúde bucal. Evidências indicam que o racismo estrutural influencia as condutas clínicas. Pacientes negros têm 2,3 vezes mais chances de indicação de extrações dentárias em detrimento de tratamentos conservadores41,42.

No nosso estudo, mulheres apresentaram maior prevalência de dor de dente. A relação entre violência doméstica e o maior relato de odontalgia reforça o papel dos determinantes sociais na saúde bucal. A violência afeta a saúde bucal tanto por mecanismos diretos como por traumas dentários e indiretos por meio da negligência no autocuidado e consequências psicológicas41,42. Esses dados corroboram estudos que indicam a violência como determinante na deterioração da saúde bucal, agravando vulnerabilidades e evidenciando a necessidade de intervenções que integrem cuidado odontológico e suporte psicossocial43-45.

Diante dos resultados, estratégias para minimizar o impacto da odontalgia e, paralelamente, da precária saúde bucal em pessoas em situação de rua devem abranger dimensões clínicas e sociais. A ampliação do acesso a cuidados odontológicos preventivos e de urgência, através de unidades odontológicas móveis e da integração com a atenção primária, é fundamental. Paralelamente, o cuidado em saúde bucal deve ser incorporado a políticas sociais mais amplas, incluindo saúde mental, tratamento do uso de substâncias e o manejo das ISTs e o enfrentamento da violência estrutural.

Nossos resultados devem ser analisados à luz das seguintes limitações: 1. O uso de dados autorreferidos e a ausência de exames clínicos, o que pode subestimar a gravidade das condições bucais dos entrevistados. 2. A falta de informação sobre a prevalência de participantes desdentados, o que pode ter contribuído para uma redução das prevalências de odontologia. Contudo, a coleta em tempo real, a obtenção de uma amostra representativa da população em situação de rua de Belo Horizonte fortalece a validade a aplicabilidade dos resultados.

 

CONCLUSÃO

Este estudo fornece evidências robustas sobre os desafios enfrentados por pessoas em situação de rua no que se refere à saúde bucal. A elevada prevalência de dor de dente destaca a interseção entre determinantes sociais, condições de saúde mental e barreiras no acesso a serviços odontológicos.

O enfrentamento dessas desigualdades requer estratégias intersetoriais que integrem saúde pública, assistência social e saúde mental. A implementação de políticas públicas inclusivas, que garantam acesso equitativo aos cuidados odontológicos é essencial para reduzir o impacto da dor de dente nessa população.

Pesquisas futuras devem explorar abordagens longitudinais para compreender melhor a causalidade e os efeitos de longo prazo das intervenções na saúde bucal de pessoas em situação de rua.

 

DECLARAÇÃO DE POTENCIAIS CONFLITOS DE INTERESSE DOS AUTORES

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

 

FINANCIAMENTO

Este estudo contou com o apoio e financiamento da Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania - SMASAC, e da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob o número de concessão 317539/2021-3, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e a Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) financiaram os custos de publicação.

 

PAPEL DOS FINANCIADORES

As instituições financiadoras não tiveram qualquer participação na concepção do estudo, análise ou interpretação dos dados, revisão ou aprovação do manuscrito.

 

DISPONIBILIDADE DOS DADOS

Os conjuntos de dados gerados e analisados neste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:
Conceptualization, Investigation, Methodology, Visualization, Writing - Review & Editing: NM Teixeira, SM Caligiorne, F Garcia. Data Curation, Formal Analysis: NM Teixeira, N Font, AI Xavier, SK Coutinho, JG Malheiros. Data Analysis: NM Teixeira, SM Caligiorne, JG Malheiros, F Garcia. Final Manuscript Version: NM Teixeira. All authors reviewed and approved the final submitted version of the manuscript.

 

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