RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 36 e-36101 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2026e36101

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Artigo Original

Perspectivas sobre a vigilância ativa no microcarcinoma papilífero da tireoide de baixo risco: percepções de pacientes e médicos em um centro terciário brasileiro

Perspectives on active surveillance for low-risk papillary thyroid microcarcinoma: insights from patients and clinicians at a Brazilian tertiary center

Henrique Dias Furtado de Souza2; Andressa de Souza Bento2; Magda Carvalho Pires2; Kamilla Maria Araújo Brandão Rajão3; Lucas Lobato Dias2; Iasmim Patrícia Gonçalves Apolinário2; Letícia Maria Pereira de Miranda2; Gustavo Cancela e Penna1

1. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Departamento de Clínica Médica, Belo Horizonte, Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Brasil
3. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Serviço de Endocrinologia e Metabologia, Belo Horizonte, Brasil

Endereço para correspondência

Gustavo Cancela e Penna
Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Clínica Médica, Belo Horizonte, Minas Gerais
E-mail: gustavocpenna@gmail.com

Recebido em: 11 Agosto 2025
Aprovado em: 02 Novembro 2025
Data de Publicação: 30 Abril 2026

Editor Associado: Geraldo Felício da Cunha Júnior
Cetus Oncologia - Unidade Belo Horizonte, CETUS, Brasil.
Belo Horizonte/MG, Brasil.

Fontes Apoiadoras: Declaramos que nenhum financiamento total ou parcial foi recebido para a realização desta pesquisa.

Conflito de Interesse: Os autores declaram não ter conflitos de interesse.

Comitê de Ética: Comitê de Ética em Pesquisa - Universidade Federal de Minas Gerais (CEP-UFMG), CAAE: 81695223.5.0000.5149, Número do Parecer: 7.358.937

Resumo

INTRODUÇÃO: A vigilância ativa (VA) é uma alternativa consolidada para o microcarcinoma papilífero da tireoide (mCPT) de baixo risco. Este estudo teve como objetivo avaliar as perspectivas de pacientes e médicos assistentes em relação à VA e analisar o impacto de uma intervenção educacional no processo de tomada de decisão.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo transversal em um centro terciário de referência brasileiro. Pacientes com doenças da tireoide (n=102) e médicos (n=100), incluindo endocrinologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço (CCP), responderam a questionários estruturados antes e depois de uma intervenção educacional, acerca de um cenário hipotético em que VA seria elegível. A intervenção consistiu em panfletos educativos detalhando os critérios de elegibilidade e os desfechos da VA.
RESULTADOS: Antes da intervenção, 83,3% dos pacientes desconheciam a VA e 44,1% preferiam a cirurgia caso tivessem um mCPT. Após o recebimento do material educativo, 28,4% dos pacientes que inicialmente preferiram cirurgia mudaram sua preferência para a VA, reduzindo a proporção dos que optaram por cirurgia para 15,7% do total. Entre os 100 médicos, 56% não recomendavam rotineiramente a VA. Após a intervenção, dentre os médicos que não indicavam VA em sua prática clínica, 36,2% dos endocrinologistas e 33,3% dos cirurgiões de cabeça e pescoço relataram maior confiança em recomendar a VA.
DISCUSSÃO: A falta de conhecimento foi uma barreira central à adesão à VA, tanto entre pacientes quanto entre médicos. Este estudo ressalta a importância de levantamentos epidemiológicos na avaliação das perspectivas de pacientes e médicos sobre a VA, bem como o impacto de estratégias

Palavras-chave: Microcarcinoma papilífero da tireoide; Vigilância ativa; Neoplasias da tireoide; Educação do paciente como tema.

 

INTRODUÇÃO

O carcinoma papilífero da tireoide (CPT) é um câncer diferenciado da tireoide originado das células foliculares, caracterizado por estruturas papilares, sulcos nucleares e núcleos claros1,2. Ele afeta predominantemente mulheres entre 30 e 50 anos de idade e representa 80% a 90% dos casos de câncer de tireoide. Apesar de sua alta prevalência, o CPT geralmente apresenta um curso indolente, com baixo risco de invasão local ou metástases a distância, resultando em altas taxas de sobrevida a longo prazo3-7.

O manejo atual é individualizado, com a tireoidectomia total ou parcial como tratamento de primeira linha. A ablação por radiofrequência (ARF) surgiu como uma alternativa minimamente invasiva para o microcarcinoma papilífero da tireoide (mCPT) de baixo risco, conforme demonstrado por estudos com seguimento de longo prazo8,9. Além disso, a vigilância ativa (VA) tornou-se uma opção bem estabelecida para pacientes com mCPT de baixo risco (tumores <1cm, confinados à tireoide e sem características de alto risco), considerando as características do paciente e o contexto terapêutico (Figura 1). Essa abordagem ganhou destaque com o aumento da incidência de CPT, atribuída em grande parte ao uso disseminado da ultrassonografia cervical, que levou à detecção de nódulos pequenos e assintomáticos4,10-15.

 

 

A VA envolve o monitoramento cuidadoso sem cirurgia imediata, utilizando ultrassonografias da tireoide e cervical a cada 6 a 12 meses durante os dois primeiros anos, seguido por avaliações anuais até o quinto ano, e em seguida intervalos progressivamente maiores caso se confirme a estabilidade tumoral e a ausência de fatores de risco. Estudos prospectivos recentes mostram que a maioria dos mCPTs detectados precocemente permanece estável ou diminui de tamanho durante a vigilância, com apenas uma pequena porcentagem necessitando de cirurgia. Dados de longo prazo indicam progressão tumoral limitada, com taxas de 10% a 15% após cinco anos de VA16,17. Fatores como idade e tamanho do tumor influenciam o risco de progressão, sendo que pacientes mais jovens (<40 anos) apresentam taxas de progressão mais altas, enquanto pacientes mais velhos (>60 anos) demonstram maior estabilidade tumoral. A intervenção é recomendada apenas se o tumor aumentar mais de 3mm, apresentar extensão extratireoidiana ou metástase linfonodal. Importante ressaltar que a cirurgia postergada não compromete os desfechos oncológicos em comparação à tireoidectomia imediata14,18-20.

A vigilância ativa é recomendada por diretrizes importantes, incluindo a American Thyroid Association (ATA) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), embora persistam desafios, como a ausência de protocolos padronizados e a necessidade de evidências mais robustas13,21,22.

Além disso, o conhecimento limitado tanto por parte dos pacientes quanto dos profissionais de saúde pode levar a práticas clínicas inconsistentes. Uma pesquisa nacional com endocrinologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço nos Estados Unidos revelou que, embora 94% considerassem a VA apropriada para pacientes elegíveis, 76% ainda optariam por cirurgia caso fossem diagnosticados pessoalmente21. Outro estudo apontou resistência ainda maior, com 45,7% dos endocrinologistas e cirurgiões não recomendando a VA para casos elegíveis, principalmente por preocupações com a progressão tumoral e a ansiedade do paciente23.

Diante desses desafios, compreender as perspectivas dos profissionais de saúde diretamente envolvidos no cuidado dos pacientes, bem como dos próprios pacientes com mCPT, é essencial. Igualmente importante é avaliar se intervenções educacionais podem influenciar a aceitação da VA como estratégia terapêutica. Para isso, realizamos um levantamento epidemiológico envolvendo dois grupos: pacientes de um centro público terciário de saúde (Grupo 1) e endocrinologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço vinculados às respectivas sociedades médicas de Minas Gerais (Grupo 2).

 

OBJETIVOS

O presente estudo teve como objetivo principal avaliar as percepções de pacientes e médicos assistentes em relação à vigilância ativa no manejo de microcarcinomas da tireoide, por meio da apresentação de um cenário hipotético em que essa conduta fosse considerada viável. Adicionalmente, buscou-se analisar o impacto de uma intervenção educativa estruturada sobre as recomendações médicas relativas à VA, bem como o impacto na aceitação da VA pelos pacientes como alternativa à cirurgia imediata. Ressalta-se que nenhum dos pacientes incluídos encontrava-se em vigilância ativa, tampouco preenchia os critérios formais de elegibilidade para essa estratégia.

Os objetivos secundários incluíram a investigação da influência de fatores como idade, sexo e nível educacional na adesão à VA pelos pacientes.

Desenho do Estudo e Métodos

Este estudo transversal, observacional e qualitativo foi conduzido em um centro terciário brasileiro de saúde. Pacientes com distúrbios de tireoide (n=102) e médicos (n=100), incluindo endocrinologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço (CCP), completaram questionários estruturados antes e depois da intervenção educacional. A intervenção consistiu em panfletos educativos que descreviam os critérios e os resultados associados à VA no câncer de tireoide. O estudo explorou as atitudes dos participantes em um contexto hipotético no qual a VA poderia ser considerada. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi conduzido com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa sob o CAAE nº 81695223.5.0000.5149 e parecer nº 7.358.937.

Participantes

A amostra de conveniência foi composta por 100 médicos e 102 pacientes com distúrbios da tireoide (incluindo disfunções, nódulos ou câncer) em acompanhamento no ambulatório de Endocrinologia - Doenças da Tireoide (EDT) de um centro público terciário de saúde no Brasil. Como foi utilizado um método de amostragem por conveniência, não foi realizado cálculo do tamanho amostral. Dada a natureza não probabilística da amostragem, tal cálculo não seria aplicável. Os critérios de elegibilidade para os pacientes incluíram idade ≥18 anos, diagnóstico documentado de distúrbio da tireoide - seja disfunção, nódulo ou câncer -, sem necessidade de diagnóstico atual ou prévio de câncer da tireoide, e estar em seguimento em nosso centro terciário de saúde. Os critérios de elegibilidade para os profissionais incluíram ser endocrinologista ou cirurgião de cabeça e pescoço com título de especialista, vinculado à respectiva sociedade médica em Minas Gerais. Os critérios de exclusão abrangeram idade inferior a 18 anos, histórico de demência, transtorno psiquiátrico grave ativo, e limitações sensoriais ou de mobilidade que pudessem interferir no preenchimento do questionário. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e responderam completamente ao questionário do estudo.

Instrumentos de Coleta de Dados

Três panfletos educativos foram elaborados pelos autores com base na mesma revisão de literatura utilizada no presente estudo, com linguagem adaptada ao público-alvo. O Panfleto 1 abordou a anatomia e função da tireoide (Apêndice 1); o Panfleto 2 forneceu informações detalhadas sobre a vigilância ativa para microcarcinomas da tireoide, utilizando linguagem acessível ao paciente (Apêndice 2); enquanto o Panfleto 3 apresentou informações sobre VA com terminologia e conteúdo voltados aos profissionais de saúde (Apêndice 3).

Procedimentos de Coleta de Dados

A coleta de dados foi adaptada conforme o grupo de participantes:

Grupo 1 - Pacientes: Os pacientes foram entrevistados presencialmente. Na primeira etapa, o Panfleto 1 foi entregue enquanto aguardavam a consulta. Após leitura e assinatura do termo de consentimento, os pacientes preencheram o questionário inicial, que coletou dados demográficos e conhecimento prévio sobre VA e microcarcinoma papilífero da tireoide. Em seguida, receberam o Panfleto 2 e responderam a um segundo questionário, que avaliou como o material educativo influenciou sua compreensão e aceitação da VA.

Grupo 2 - Médicos: Os médicos responderam a um questionário autoaplicável online, distribuído por e-mail por meio de suas respectivas sociedades médicas. A pesquisa incluiu perguntas iniciais sobre VA, seguidas de um texto educativo (Apêndice 3). Uma última pergunta avaliou se as informações fornecidas aumentaram a confiança do profissional em recomendar a VA para pacientes elegíveis.

Procedimentos Éticos

As diretrizes e normas da Resolução nº 510 (2016) do Conselho Nacional de Saúde para ética em pesquisa envolvendo seres humanos foram seguidas. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 81695223.5.0000.5149, parecer nº 7.358.937). Todos os participantes foram solicitados a preencher o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os membros da equipe técnica auxiliaram na leitura e preenchimento dos instrumentos.

Análise estatística

As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software R (versão 4.0.2). A variável idade, uma medida quantitativa discreta, foi descrita utilizando a mediana e o intervalo interquartil (IQR), ou média e desvio-padrão. As demais variáveis, que são qualitativas, foram apresentadas como frequências absolutas e porcentagens. As comparações entre os grupos de médicos e pacientes foram conduzidas utilizando o Teste Exato de Fisher. As opiniões sobre a vigilância ativa antes e depois do esclarecimento foram comparadas utilizando o teste de McNemar. O valor de P foi reportado com até duas casas decimais.

 

RESULTADOS

Resultados dos pacientes

Entre os 102 participantes, a maioria era mulher e a escolaridade era baixa, com a minoria tendo concluído o ensino médio (Tabela 1).

 

 

Antes da intervenção educacional, 83,3% dos pacientes desconheciam a vigilância ativa, 67,6% não sabiam que 84% dos microcarcinomas papilíferos de tireoide de baixo risco - caracterizados por um tamanho tumoral ≤1cm, ausência de extensão extratireoidiana, ausência de metástases linfonodais ou à distância e ausência de características citológicas sugestivas de subtipos agressivos de CPT - não apresentam aumento no volume tumoral durante um período de 5 anos e poderiam ser seguramente monitorados sem cirurgia18,22. 77,5% não estavam familiarizados com o termo "vigilância ativa". Ao serem questionados sobre a preferência de tratamento caso tivessem um mCPT, 55,9% escolheram a VA, enquanto 44,1% preferiram a cirurgia (Figura 2). Entre aqueles que favoreciam a VA, 89,5% eram mulheres, com idade média de 63 anos (valor de p=0,02), e 31,6% haviam concluído o ensino médio. Para os pacientes que preferiram a cirurgia, a principal razão foi o medo de abrigar câncer no pescoço (82,2%), seguido por preocupações sobre faltar às consultas de acompanhamento (6,7%) e possíveis dificuldades de acesso a ultrassom de alta qualidade no sistema público de saúde (2,2%). Após a intervenção educacional, 55,9% mantiveram sua preferência inicial pela VA, enquanto 28,4% optaram pela VA em vez da cirurgia, resultando em apenas 15,7% de todos os participantes ainda optando pela cirurgia após a intervenção (Figura 3).

 

 

 

 

Resultados dos médicos

Entre os 100 médicos entrevistados, 84% eram endocrinologistas e 16% cirurgiões de cabeça e pescoço (CCP), com idade média de 43,1 anos. A maioria era mulher (72%), e 99% estavam familiarizados com a VA, com a maioria deles, 92%, conhecendo os critérios de elegibilidade. No geral, uma minoria dos participantes relatou recomendar a VA na prática clínica, enquanto a maioria, 56%, não o fez (Tabela 2). Entre aqueles que não recomendavam a VA, as principais barreiras foram a falta de confiança no acompanhamento do paciente e o acesso limitado a ultrassom de pescoço de alta qualidade (Tabela 3). Após a intervenção educacional, entre os 56 médicos que não recomendavam a VA em sua prática clínica, 36,2% dos endocrinologistas e 33,3% dos cirurgiões de cabeça e pescoço relataram maior confiança em recomendar a VA. Não houve diferença significativa entre as especialidades em termos de maior confiança após os esclarecimentos (p>0,999).

 

 

 

 

Não foi observada diferença significativa entre as especialidades em relação ao tratamento de primeira escolha (valor de p>0,999). No geral, 45% identificaram a ablação por radiofrequência como tratamento de primeira escolha para pacientes elegíveis à VA com acesso ao procedimento. A principal razão (85,4%) foi a possibilidade de tratar o câncer de forma menos invasiva que a cirurgia. Uma proporção menor (14,6%) considerou a RFA como uma medida preventiva, caso o nódulo progredisse e se tornasse inelegível para tratamento futuro. Os endocrinologistas foram os mais propensos a recomendar a VA como opção primária (45,2%), enquanto os cirurgiões de cabeça e pescoço mostraram uma preferência mais forte pela ARF (43,8%). Apenas 9,0% de todos os entrevistados relataram não ter preferência clara entre as duas abordagens.

 

DISCUSSÃO

Este estudo oferece subsídios relevantes sobre as percepções em relação à vigilância ativa para o microcarcinoma papilífero de tireoide de baixo risco (mCPT) em um cenário clínico real onde a VA ainda não é rotineiramente oferecida. Embora nenhum dos pacientes pesquisados estivesse formalmente elegível ou em acompanhamento sob VA, investigaram-se suas preferências a partir de um cenário hipotético em que tal conduta fosse considerada, bem como o impacto de uma intervenção educacional estruturada.

Consistente com pesquisas anteriores, a falta de conhecimento foi uma barreira primária para a aceitação da VA. Um estudo conduzido na China demonstrou que quase metade dos pacientes que recusaram essa abordagem o fizeram devido ao conhecimento insuficiente da estratégia24. De modo similar, em nossa coorte, 83,3% dos pacientes desconheciam a VA antes da intervenção educacional. Uma vez informados, 28,4% dos indivíduos inicialmente favoráveis à cirurgia passaram a preferir a VA, reduzindo a preferência cirúrgica para 15,7%. Essa mudança sublinha o impacto da educação do paciente na facilitação da tomada de decisão informada.

Fatores psicológicos também influenciaram as preferências. Nosso estudo revelou que pacientes mais jovens (idade média de 52 anos) eram mais propensos a preferir cirurgia em comparação com indivíduos mais velhos (>63 anos). Uma possível explicação para essa descoberta é a preocupação em conviver por mais tempo com uma neoplasia no pescoço - fator relatado por 82,2% daqueles que optaram pela cirurgia. Isso destaca o fardo psicológico associado ao termo "câncer", enfatizando a necessidade de os profissionais de saúde esclarecerem a natureza indolente do mCPT e fornecerem aconselhamento individualizado para mitigar a ansiedade do paciente.

Entre os médicos, embora 99% relatassem familiaridade com a VA, 56% não a recomendavam na prática clínica, principalmente devido a desafios técnicos, como acesso limitado a ultrassonografia de alta qualidade (39,7%) e insegurança no seguimento a longo prazo (43,1%). A recusa por parte dos pacientes também foi uma barreira significativa, especialmente entre os cirurgiões de cabeça e pescoço, dos quais 77,8% apontaram essa dificuldade, em contraste com apenas 29,8% dos endocrinologistas (p=0,01). Uma hipótese para essa discrepância é que os endocrinologistas podem comunicar a segurança e a racionalidade da VA de forma mais eficaz, aumentando a confiança do paciente no tratamento não cirúrgico.

Após a intervenção educacional, 36,2% dos endocrinologistas e 33,3% dos CCP relataram maior confiança em recomendar a VA. Não houve diferença significativa entre as especialidades em termos de maior confiança após os esclarecimentos (p>0,999). De maneira consistente à nossa pesquisa, um estudo conduzido pela Unicamp mostrou um aumento significativo na recomendação de VA por parte dos médicos após eles receberem um folheto informativo sobre o tema25. Esses achados ressaltam a importância de protocolos padronizados e de educação médica continuada, especialmente para abordar as lacunas específicas de cada especialidade na implementação da VA.

Em relação a outras alternativas de tratamento não invasivas, particularmente o manejo de primeira linha para pacientes elegíveis com acesso à ablação por radiofrequência, 45,0% dos médicos preferiram a ARF, 46,0% a VA e 9,0% não expressaram preferência clara. Os cirurgiões de cabeça e pescoço mostraram uma inclinação maior para a ARF (43,8%), enquanto os endocrinologistas foram mais propensos a recomendar a VA (45,2%). Essas preferências podem refletir uma tendência a priorizar intervenções que reduzam a probabilidade de futuros procedimentos cirúrgicos.

Vale ressaltar que nossos dados foram coletados em ambulatório de endocrinologia de atenção terciária do sistema público de saúde do Brasil, com uma população de pacientes majoritariamente composta por indivíduos com nódulos e câncer de tireoide. No entanto, devido à ausência de um radiologista de tireoide dedicado e de protocolos de ultrassom padronizados, a vigilância ativa não é oferecida atualmente, nesse serviço, refletindo os desafios enfrentados na expansão da VA em sistemas de saúde pública e o papel da educação direcionada como um primeiro passo nesse processo.

Adicionalmente, a inclusão de um inquérito epidemiológico entre médicos de Minas Gerais contribui para a relevância do estudo, lançando luz sobre as perspectivas profissionais a respeito de uma estratégia de manejo já bem estabelecida. Esses achados não apenas destacam lacunas no conhecimento e na prática, mas também fornecem subsídios para intervenções direcionadas, como iniciativas de educação médica continuada por meio de sociedades médicas, congressos e simpósios.

Limitações

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. O número de médicos participantes, particularmente cirurgiões de cabeça e pescoço, foi relativamente pequeno, refletindo a limitada disponibilidade de especialistas dedicados ao manejo do câncer de tireoide na região, o que reduz o poder estatístico para análises estratificadas e aumenta a possibilidade de vieses em subgrupos específicos. Além disso, há um viés de seleção devido à amostragem de conveniência dos pacientes, uma vez que o estudo foi conduzido em um único centro de atenção terciária afiliado ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Desse modo, as características sociodemográficas e escolhas podem não refletir de profissionais ou pacientes de outras regiões, sistemas de saúde ou contextos assistenciais, limitando a validade externa dos resultados.

As descobertas podem refletir desproporcionalmente as especificidades de um segmento populacional específico - principalmente usuários do sistema público de saúde residentes em áreas urbanas de Minas Gerais, portadores de diferentes desordens da glândula tireoide. Outra importante limitação é a ausência de acompanhamento longitudinal, o que impede a avaliação de se a intervenção educacional resultou em mudanças sustentadas nas atitudes e percepções dos participantes ao longo do tempo. Adicionalmente, as restrições inerentes a levantamentos epidemiológicos - como a necessidade de questionários concisos - podem ter limitado a exploração de perspectivas mais sutis.

Essas limitações reforçam a necessidade de pesquisas futuras multicêntricas, com amostras maiores e mais heterogêneas de médicos e pacientes, longitudinais com um tempo de seguimento prolongado, capazes de aumentar o poder estatístico e permitir análises robustas de subgrupos.

 

CONCLUSÃO

Este estudo demonstra que intervenções educacionais bem planejadas podem mudar as perspectivas de pacientes e médicos em relação à vigilância ativa, identificando barreiras práticas e de percepção, apoiando estratégias para preparar os ambientes de saúde para a futura implementação da VA. Nossos achados apoiam a integração de uma educação centrada no paciente e o treinamento médico contínuo como componentes - chave para o avanço de um manejo menos invasivo e baseado em evidências para o câncer de tireoide de baixo risco.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo: Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - rascunho original: Gustavo Cancela e Penna; Andressa de Souza Bento; Henrique Dias Furtado de Souza; Letícia Maria Pereira de Miranda; Lucas Lobato Dias; Iasmim Patrícia Gonçalves Apolinário; Kamilla Maria Araújo Brandão Rajão. Administração do Projeto, Supervisão& Escrita - análise e edição: Gustavo Cancela e Penna; Henrique Dias Furtado de Souza. Validação & Software: não aplicável. Recursos & Aquisição de Financiamento: Gustavo Cancela e Penna. Curadoria de Dados & Análise Formal: Gustavo Cancela e Penna; Henrique Dias Furtado de Souza; Magda Carvalho Pires. Todos os autores leram, discutiram e aprovaram a versão final do texto.

 

COPYRIGHT

Copyright© 2025 Penna et al. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Licença Internacional que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado.

 

AGRADECIMENTO

É importante enfatizar que o desenvolvimento deste trabalho só foi possível por meio da colaboração de todos os envolvidos, incluindo pacientes, médicos, estudantes, professores e instituições parceiras, como a Universidade Federal de Minas Gerais e seu Hospital das Clínicas.

 

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