ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
O impacto da implementação do Teste Rápido Molecular para Tuberculose no diagnóstico de tuberculose pulmonar de pacientes pediátricos de 0 a 14 anos no estado de Minas Gerais
The impact of implementing the Molecular Rapid Test for Tuberculosis in the diagnosis of pulmonary tuberculosis in pediatric patients aged 0 to 14 years in the state of Minas Gerais
Ana Luisa Lodi Jimenez1; André Rodrigues Borges de Araújo1; Anna Helena da Silveira Sathler1; Daniela Otoni Russo2; Talitah Michel Sanchez Candiani2; Lilian Martins Oliveira Diniz3
1. Faculdade de Medicina, Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil
2. Departamento de Pediatria, Faculdade de Medicina, Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil
3. Departamento de Pediatria, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil
Ana Luisa Lodi Jimenez
E-mail: analodijimenez@gmail.com
Recebido em: 13 Fevereiro 2025
Aprovado em: 30 Agosto 2025
Data de Publicação: 9 Janeiro 2026.
Editor Associado Responsável:
Alexandre Moura
Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, Minas Gerais.
Belo Horizonte/MG, Brasil.
Fontes apoiadoras: Não houve fontes apoiadoras
Conflito de Interesse: Não há.
Resumo
INTRODUÇÃO: A tuberculose (TB), causada pelo Mycobacterium tuberculosis, permanece um desafio de saúde pública global. O Brasil, listado entre os 30 países com maior carga de TB, registra alta morbimortalidade, especialmente em crianças menores de 15 anos. O diagnóstico precoce em pediatria é dificultado pela inespecificidade dos sintomas e baixa sensibilidade dos testes laboratoriais. Desde 2015, o Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB) tem sido implementado no Brasil, com avanços significativos no diagnóstico.
OBJETIVO: Avaliar a eficácia do TRM-TB no diagnóstico de TB pulmonar pediátrica em Minas Gerais e seu impacto na notificação da doença entre 2007 e 2022.
MÉTODOS: Estudo transversal, retrospectivo e descritivo, com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e do DataSUS. Foram analisadas notificações de TB pulmonar em crianças de 0 a 14 anos, com ênfase nos métodos diagnósticos utilizados e nos desfechos clínicos.
RESULTADOS: A incidência de TB variou entre 1,18 e 2,34 casos por 100.000 habitantes. O TRM-TB apresentou crescente utilização, com sensibilidade aprimorada após a introdução do Xpert MTB/RIF Ultra. Apesar de avanços, muitos diagnósticos ainda ocorrem sem confirmação laboratorial. Observou-se maior taxa de cura (91,79%) entre crianças de 5 a 9 anos, enquanto menores de 1 ano apresentaram maior mortalidade (7,38%).
CONCLUSÃO: O TRM-TB trouxe benefícios significativos para o diagnóstico pediátrico de TB, mas desafios persistem, incluindo a baixa sensibilidade em crianças e as barreiras ao diagnóstico precoce. Estudos futuros são necessários para aprimorar estratégias diagnósticas e terapêuticas.
Palavras-chave: Tuberculose pulmonar; Testes diagnósticos; Pediatria.
INTRODUÇÃO
A Tuberculose (TB) é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e representa um grande desafio para a saúde pública mundial. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é um dos 30 países com maior carga de TB no mundo, sendo identificados, no ano de 2022, 5.845 casos de morte pela doença no país e mais de 130 casos no estado de Minas Gerais1,2. Estima-se que crianças e adolescentes abaixo de 15 anos representam 11% dos casos de TB mundial, o que equivale a 1,1 milhão de casos por ano2.
Segundo Boletim Epidemiológico, em 2022, a TB constituiu a segunda principal causa de óbito por agente infeccioso no Brasil, com um coeficiente de mortalidade de 2,72 óbitos por 100 mil habitantes1. No ano de 2024, o estado de Minas Gerais apresentou uma incidência de 19,9 casos novos de TB por 100 mil habitantes, com um coeficiente de mortalidade de 1,6 óbitos por 100 mil habitantes3.
No presente estudo, abordaremos a TB pulmonar, mais especificamente na população pediátrica até 14 anos. A infecção é mais comum em crianças entre 1 e 4 anos e com maior risco para desenvolver as formas graves e disseminadas nos menores de 2 anos de idade, com alta morbimortalidade. Nos adolescentes apresenta-se clinicamente semelhante à TB dos adultos2.
O grande desafio da TB pediátrica é a realização do diagnóstico precoce, essencial para prevenir formas graves e óbitos. No entanto, a inespecificidade dos sinais e sintomas, a semelhança com outras doenças comuns da infância e a apresentação paucibacilar da infecção dificultam esse processo. Além disso, os testes diagnósticos disponíveis, tradicionalmente usados em adultos, apresentam baixa sensibilidade e especificidade em crianças, agravadas pela dificuldade de obtenção de amostras adequadas4. Em especial, dependendo da faixa etária, a criança muitas vezes não consegue produzir escarro, inviabilizando exames laboratoriais, e mesmo quando as amostras são obtidas, sua carga bacilar reduzida compromete a sensibilidade dos testes5.
No Brasil, a partir do ano de 2002, o Programa Nacional de controle de Tuberculose recomenda que o diagnóstico de TB intratorácica em crianças seja realizado a partir de um escore que inclui os sintomas clínicos, a epidemiologia, o resultado do Teste Tuberculínico (PPD), a avaliação de exames radiológicos e o estado nutricional do paciente, sendo assim, não é necessária a confirmação bacteriológica6.
Desde 2010, a OMS recomenda o uso do Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB) em países endêmicos, como o Brasil7. Esse exame, baseado na técnica da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), é capaz de detectar a presença do M. tuberculosis e identificar mutações associadas à resistência à rifampicina em cerca de duas horas7,8. No Brasil, o TRM-TB foi incorporado em 2014 como um dos critérios de diagnóstico laboratorial da TB, ao lado da baciloscopia (BAAR) e da cultura9. Inicialmente, o teste molecular utilizado era o Xpert MTB/RIF, que, a partir de 2019, foi substituído pelo Xpert MTB/RIF Ultra, trazendo avanços significativos10. A nova versão apresenta sensibilidade aprimorada, especialmente em casos de tuberculose paucibacilar, mais frequentes em crianças e em pessoas vivendo com HIV, permitindo detectar menores quantidades de bacilos e traços genéticos do M. tuberculosis, recurso especialmente valioso na população pediátrica3,11.
O presente estudo avalia a eficácia do teste diagnóstico TRM-TB na identificação de TB em pacientes pediátricos, com análise do real impacto de sua implementação para o diagnóstico de TB Pulmonar no estado brasileiro de Minas Gerais.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal retrospectivo descritivo-analítico com abordagem quantitativa.
Foram estudados pacientes pediátricos de 0 a 14 anos de idade com diagnóstico de Tuberculose Pulmonar notificada através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) no estado de Minas Gerais entre os anos de 2007 e 2022. Os dados foram coletados por meio do TABNET, um tabulador de domínio público que disponibiliza informações das bases de dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, para obter dados gerais da população de Minas Gerais, especificamente da população-alvo do estudo, foram consultadas as Estimativas preliminares populacionais elaboradas pelo Ministério da Saúde - 2000 a 2021. Para o ano de 2022, os dados da população foram obtidos através de estimativas da Projeção da população do Brasil e Unidades da Federação por sexo e idade para o período 2010-2060 (edição 2018), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foram incluídos no presente estudo pacientes com idade entre 0 e 14 anos, notificados com TB pulmonar no estado de Minas Gerais. Foram excluídos os casos que não se enquadraram na faixa etária estabelecida, bem como aqueles com diagnóstico de formas extrapulmonares da doença. Foram analisadas as seguintes variáveis: ano de notificação (de 2007 a 2022) no estado de Minas Gerais, faixa etária, diagnóstico de tuberculose pulmonar, confirmação laboratorial, resultados da baciloscopia de escarro, da cultura e do teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB), além dos desfechos registrados, classificados como cura, abandono, óbito por tuberculose, óbito por outras causas, transferência, tuberculose droga-resistente (TB-DR), falência e abandono primário.
No contexto da notificação pelo SINAN, a cura da TB é considerada quando há ausência de Mycobacterium tuberculosis no organismo do paciente, avaliada por profissional de saúde mediante exame clínico e confirmação laboratorial. Para os casos com confirmação bacteriológica no início do tratamento, são considerados curados aqueles que apresentaram, ao término da terapêutica, pelo menos duas baciloscopias de escarro negativas, sendo uma delas obrigatoriamente realizada na fase final do tratamento12. Esse conceito está em consonância com a definição estabelecida pela OMS, que também considera curado o paciente com TB pulmonar bacilífera que apresente negativação da baciloscopia em pelo menos duas amostras, incluindo obrigatoriamente uma ao final do tratamento. De forma complementar, a OMS utiliza ainda o indicador de "tratamento com sucesso", que engloba tanto os casos classificados como curados quanto aqueles que completaram o tratamento, mesmo sem confirmação bacteriológica final. Entretanto, na base de dados utilizada neste estudo, apenas a variável "cura" foi considerada para avaliação dos desfechos favoráveis13.
Em relação ao TRM-TB, no presente estudo, que incluiu pacientes de 0 a 14 anos com TB pulmonar, a detecção do Mycobacterium tuberculosis em traços, com resistência indeterminada, foi considerada positiva para TB em crianças menores de 10 anos. Para pacientes entre 10 e 14 anos, esse mesmo resultado foi classificado como inconclusivo. A detecção do bacilo com resistência à rifampicina não detectada foi considerada indicativa de tuberculose sem resistência, enquanto a detecção com resistência identificada foi interpretada como tuberculose resistente à rifampicina. Resultados sem conclusão, inválidos ou com erro foram classificados como inconclusivos14.
A partir das informações obtidas, foi conduzida uma análise detalhada do banco de dados DataSUS, obtendo informações precisas sobre pacientes com resultados positivos para TB Pulmonar, os testes diagnósticos utilizados e os desfechos dos pacientes.
RESULTADOS
No período de análise, de 2007 a 2022, foram obtidos dados da população total de 0 a 14 anos no estado de Minas Gerais e o número de notificações de TB pulmonar na mesma faixa etária. A partir desses dados, foi calculada a incidência da doença por faixa etária, expressa em casos por 100.000 habitantes (Gráfico 1). De acordo com a definição da OMS, indivíduos com menos de 10 anos são classificados como crianças, enquanto aqueles com idade entre 10 e 19 anos são considerados adolescentes15. Neste estudo, essa classificação foi adotada, sendo considerados crianças os pacientes de 0 a 9 anos e adolescentes aqueles com idade entre 10 e 14 anos.
Observa-se que a maior incidência da doença foi registrada no ano de 2022, com 2,34 casos por 100.000 habitantes, enquanto a menor incidência ocorreu em 2015, com 1,18 casos por 100.000 habitantes. Ao longo do período analisado, verifica-se uma tendência geral de estabilidade na incidência dos casos. A análise por faixa etária demonstra que os menores de 10 anos apresentaram taxas mais elevadas e com maiores oscilações ao longo da série histórica, enquanto adolescentes de 10 a 14 anos mantiveram taxas inferiores e mais estáveis durante todo o período.
A seguir, apresentamos o número de testes diagnósticos microbiológicos realizados em cada ano do período estudado, incluindo; BAAR, cultura de escarro e TRM-TB (Gráfico 2).
Com base no Gráfico 2, é possível avaliar um crescimento na realização de TRM-TB ao longo dos anos, desde sua incorporação ao SUS no ano de 2015, com uma linha de tendência ascendente. Com relação aos outros testes diagnósticos, observa-se um crescimento da realização de teste de cultura de escarro ao longo do período avaliado. O teste de BAAR foi o mais utilizado em todos os anos avaliados, exceto em 2022.
Com relação à confirmação diagnóstica laboratorial, identificou-se o número de notificações de tuberculose pulmonar na população de 0 a 14 anos que apresentaram confirmação microbiológica, bem como os casos em que o diagnóstico foi realizado com base no escore clínico-radiológico-laboratorial, sem confirmação microbiológica. A partir desses dados, foi calculado, por faixa etária, o percentual de casos com confirmação laboratorial em relação ao total de casos notificados, cuja distribuição será apresentada no Gráfico 3.
Observa-se que, no período de 2007 a 2022, o percentual de casos de tuberculose pulmonar confirmados laboratorialmente em Minas Gerais variou de forma distinta entre as faixas etárias. A faixa de 10 a 14 anos apresentou os maiores percentuais de confirmação ao longo dos anos, mantendo-se relativamente estável entre 50% e 75%, alcançando 60,0% em 2022. Em menores de 1 ano, houve oscilações mais acentuadas, com percentuais que variaram amplamente, atingindo 61,9% no último ano analisado. Na faixa de 5 a 9 anos, observa-se uma tendência de crescimento, partindo de 16,7% em 2007 e chegando a 33,3% em 2022. Por outro lado, a faixa etária de 1 a 4 anos manteve-se com os menores percentuais durante quase toda a série histórica, ainda que com um leve aumento nos últimos anos, atingindo 16,1% em 2022.
Especificamente sobre o TRM-TB, avaliaram-se os resultados obtidos em todos os testes realizados no período de 2015 a 2022. Essas informações estão descritas na Tabela 1.
Na faixa etária de menores de 10 anos, foram realizados 68 testes no período analisado, dos quais 34 (50,0%) detectaram Mycobacterium tuberculosis sensível à rifampicina e 1 caso (1,5%) apresentou resistência detectada. Considerando o critério do presente estudo, que classifica como positivo o resultado "trace" nessa faixa etária, a taxa geral de positividade foi de 64,0%. Observou-se uma tendência de aumento do percentual de positividade ao longo dos anos, alcançando 72,7% em 2020. Por outro lado, 24 testes (35,3%) foram negativos e 9 (13,2%) apresentaram resultados inconclusivos.
Entre os pacientes de 10 a 14 anos, foram realizados 51 testes no período, com 36 (70,6%) positivos para M. tuberculosis sensível à rifampicina e 2 (3,9%) casos de resistência detectada. A taxa global de positividade foi de 74,5%, superior à observada na faixa etária mais jovem. Houve registro de resultados inconclusivos em 3 testes (5,8%) e negativos em 10 (19,6%). Nesta faixa etária, também se identificou uma elevação gradual da positividade, atingindo 100% nos anos de 2021 e 2022.
Por fim, foram avaliados os desfechos dos pacientes com diagnóstico de TB Pulmonar e categorizados por faixa etária (Tabela 2).
DISCUSSÃO
O estudo iniciou com a análise de dados epidemiológicos da TB Pulmonar na população em questão, visando compreender e interpretar o número de casos da doença e o impacto dos testes diagnósticos nas notificações.
Em relação à incidência de TB pulmonar, observou-se uma redução nos anos de 2019, 2020 e 2021, quando comparados a 2018, ano em que a taxa foi de 2,15 casos por 100.000 habitantes. Nos três anos subsequentes, as taxas de incidência por 100.000 habitantes foram de 1,87 em 2019, 1,50 em 2020 e 1,53 em 2021, período este impactado pela pandemia de COVID-19. A hipótese de subnotificações durante a pandemia pode justificar essa redução observada, uma vez que o isolamento social, o uso constante de máscaras e o surgimento de quadros respiratórios com sintomas semelhantes aos da TB, COVID-19 e outras doenças respiratórias, podem ter dificultado o diagnóstico preciso e, consequentemente, a notificação de casos de TB pulmonar. Portanto, não se pode considerar que os dados referentes aos anos de 2019 a 2021 representem um retrato fiel da realidade da incidência da doença, em razão dos subdiagnósticos e subnotificações ocorridos nesse período8.
No ano de 2022, a incidência da TB pulmonar volta a crescer, alcançando seu maior valor desde 2007, 2,34 a cada 100.000 habitantes. A interpretação de que, em 2022, com a drástica redução das medidas de isolamento social, com maior flexibilização de regras, declínio dos casos de COVID-19 e aumento da cobertura vacinal contra o SARS-CoV-2, trouxe um cenário de ajuste da identificação e notificação de outras infecções respiratórias, incluindo a TB pulmonar, de modo a se considerar a incidência deste ano um número quantitativo real16-18.
Analisando o Gráfico 2, entre os anos de 2007 e 2014, foram utilizados basicamente dois testes: cultura de escarro e a baciloscopia de escarro (BAAR). Após 2014, incorporou-se o Xpert MTB-Rif (TRM-TB) como mais um teste diagnóstico no Sistema Único de Saúde, que apresentou, desde então, crescente e gradual utilização. A partir de 2020, há um equilíbrio entre os três testes realizados e apresentados nas fichas de notificação, que chegam próximos de um mesmo patamar em 2022 (30 TRM-TB realizados, 34 culturas realizadas e 32 BAAR realizados). Entretanto, o teste mais utilizado em todos os anos, de 2007 a 2021, foi o BAAR, exceto em 2022, no qual a cultura de escarro foi mais realizada.
O Gráfico 3 revela importantes tendências na confirmação microbiológica da tuberculose pulmonar na população pediátrica e adolescente do estado. A análise dos dados demonstra uma clara variação entre as faixas etárias, com destaque para a maior positividade laboratorial entre adolescentes (10 a 14 anos), quando comparados às crianças menores de 10 anos.
De modo geral, adolescentes apresentaram, ao longo de todo o período analisado, os maiores percentuais de confirmação laboratorial, frequentemente superiores a 50% e, em alguns anos, ultrapassando 70%. Esse padrão é compatível com a apresentação clínica da TB nessa faixa etária, que tende a se assemelhar à forma adulta da doença, com maior carga bacilar, maior frequência de cavitação pulmonar e maior capacidade de expectoração, o que facilita a detecção do bacilo tanto por baciloscopia quanto por testes moleculares19. Já entre as crianças, especialmente as menores de 5 anos - e mais notadamente entre os menores de 1 ano -, os percentuais de confirmação laboratorial são sistematicamente mais baixos. Em muitos anos, especialmente antes de 2014, esses grupos registram taxas próximas de 0%, o que reflete as dificuldades já conhecidas do diagnóstico microbiológico nessa população. Em crianças pequenas, a TB é geralmente paucibacilar, com menor eliminação de bacilos, o que reduz a sensibilidade dos métodos diagnósticos tradicionais20. Além disso, a maioria dessas crianças não consegue produzir escarro, sendo necessária a coleta de amostras alternativas, como lavado gástrico, aspirado nasofaríngeo ou indução de escarro, procedimentos tecnicamente mais complexos, que requerem estrutura e capacitação específicas para sua realização21. Importante destacar que, no presente estudo, por se tratar de dados de notificação, não é possível identificar qual tipo de amostra foi utilizada para diagnóstico em cada paciente. Ainda assim, observa-se, como esperado, que quanto menor a idade, menor tende a ser o percentual de positividade.
Entretanto, a partir de 2015, observou-se um aumento expressivo no percentual de positividade laboratorial entre crianças menores de 1 ano, comportamento que não era o mais esperado considerando os fatores previamente discutidos. Destaca-se, particularmente, o ano de 2022, no qual a proporção de casos de tuberculose confirmados por exame laboratorial ultrapassou 60%. Esse achado, contudo, deve ser interpretado com cautela. No período total analisado, foram registrados apenas 141 casos nessa faixa etária, sendo que, em 2022, notificaram-se 21 casos, dos quais 13 (61,9%) apresentaram confirmação laboratorial. O número reduzido de casos, sobretudo quando consideradas análises anuais, pode levar à superestimação das proporções observadas, configurando uma limitação à generalização desses resultados para a população infantil nessa faixa etária.
A discussão sobre os dados de confirmação laboratorial pode ser enriquecida com uma divisão do período analisado em três fases distintas, relacionadas à introdução e aprimoramento dos métodos moleculares de diagnóstico.
No primeiro período, de 2007 a 2013, anterior à incorporação do TRM-TB, o diagnóstico laboratorial era baseado exclusivamente em baciloscopia e cultura. Nesse intervalo, os percentuais de confirmação laboratorial nas crianças menores de 5 anos eram extremamente baixos, como evidenciado no Gráfico 3, e apenas os adolescentes apresentavam taxas consideráveis de positividade, refletindo os limites dos métodos disponíveis à época.
A segunda fase, de 2014 a 2018, corresponde ao período de implantação do TRM-TB (Xpert MTB/RIF), incorporado ao SUS em 201422. A introdução desse método molecular representou um avanço considerável, especialmente na população pediátrica. Observa-se, a partir de 2015, um aumento na positividade em todas as faixas etárias, incluindo as crianças menores, embora os percentuais ainda permaneçam baixos nos grupos etários mais jovens. Os dados da Tabela 1 confirmam essa tendência: entre 2016 e 2018, os percentuais de positividade entre menores de 10 anos variaram de 25% a 50%, ainda baixos, mas superiores aos períodos anteriores.
A terceira fase, de 2019 em diante, reflete o período de uso do Xpert MTB/RIF Ultra, versão aprimorada do TRM, com sensibilidade significativamente superior. Essa nova versão permite a detecção de menores quantidades de bacilos e de fragmentos genéticos (resultando "traces") do M. tuberculosis, sendo especialmente útil em crianças e pessoas vivendo com HIV3,14,23.
Os dados da Tabela 1 reforçam essa tendência. A partir de 2019, a positividade entre menores de 10 anos atinge 45% em 2019 e chega a 75% em 2020, com manutenção de valores elevados em 2021 (72,7%). O ano de 2022 também se destaca, com uma positividade de 57,8% nessa faixa etária. Os pacientes de 10 a 14 anos, por sua vez, apresentam positividade consistentemente superior ao longo de todo o período: 75% em 2016, 57,1% em 2017, e atingindo 85,7% em 2022. A positividade geral entre 2015 e 2022 foi de 74,5% para adolescentes, contra 59% para menores de 10 anos.
Diante dessa variação de positividade conforme a idade, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose orienta uma conduta diagnóstica diferente conforme a faixa etária. Em crianças, recomenda-se a realização de cultura mesmo nos casos com resultado negativo no TRM-TB, dada a limitação do teste nessa população. Já em adolescentes, a cultura é indicada apenas quando o TRM-TB é positivo, pois a apresentação clínica e a positividade do teste tendem a ser mais confiáveis nessa faixa etária14-17.
Quanto à avaliação dos desfechos dos pacientes, ilustrados na Tabela 2, identificou-se uma taxa de cura menor na faixa etária abaixo de 1 ano, com 92 curas (61,74%) entre 149 pacientes. As taxas de cura aumentaram nas faixas etárias de 1 a 4 anos, 5 a 9 anos e 10 a 14 anos, com 240 curas (81,63%) em 294 pacientes, 246 curas (91,79%) em 268 pacientes e 401 curas (86,42%) em 464 pacientes, respectivamente. Com relação ao número de óbitos, observa-se um número mais elevado na faixa etária de menores de 1 ano, com 11 óbitos registrados (7,38%), enquanto nas outras faixas etárias os óbitos foram mais baixos: 1 óbito (0,34%) em crianças de 1 a 4 anos, 1 óbito (0,37%) em crianças de 5 a 9 anos e 3 óbitos (0,65%) em adolescentes de 10 a 14 anos. Esses dados estão de acordo com outros estudos que demonstram uma maior mortalidade nessa faixa etária e destacam a fragilidade das crianças menores de 1 ano, que apresentam maior risco de formas graves da doença e, consequentemente, maior morbimortalidade24.
Além disso, observou-se um número expressivo de abandonos do tratamento, especialmente nas faixas etárias de menores de 1 ano (10,74%) e de 1 a 4 anos (10,20%). O abandono do tratamento pode ser explicado pela duração prolongada do tratamento, efeitos colaterais das medicações, complexidade do regime terapêutico e fatores socioeconômicos que impactam a adesão ao tratamento. Tal abandono é um fator desfavorável, pois aumenta o risco de complicações, transmissão da TB e desenvolvimento de resistência medicamentosa25,26.
Por fim, a incidência de TB droga resistente (TB-DR) foi baixa, com apenas 1 caso (0,67%) registrado em crianças menores de 1 ano e 2 casos (0,43%) na faixa etária de 10 a 14 anos. Esse dado sugere que a TB-DR não apresenta alta prevalência no estado de Minas Gerais. Entretanto, a resistência a medicamentos, incluindo a rifampicina, é uma preocupação significativa em outras regiões do Brasil, como o estado do Rio Grande do Sul, onde a TB-DR é mais prevalente27,28. Portanto, a vigilância contínua é essencial para entender melhor a dinâmica dessa resistência na população pediátrica.
CONCLUSÃO
A implementação do TRM-TB representou um marco significativo no diagnóstico da TB na infância, especialmente em um estado endêmico como Minas Gerais. A partir da sua incorporação, foi possível observar um aumento nos percentuais de confirmação laboratorial, o que tem implicações diretas na escolha e início precoce do tratamento adequado.
Apesar desses avanços, são necessários mais estudos para identificar estratégias complementares que ampliem a sensibilidade diagnóstica em faixas etárias mais vulneráveis. O aperfeiçoamento contínuo do diagnóstico da TB infantil exige a articulação entre inovação tecnológica, capacitação profissional e fortalecimento da rede de atenção em saúde.
LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Em termos de generalização, os resultados deste estudo se aplicam principalmente à população pediátrica atendida no Sistema Único de Saúde (SUS) no estado de Minas Gerais, sendo um reflexo das políticas de saúde pública e da evolução tecnológica dos testes diagnósticos na última década. No entanto, os dados podem não ser plenamente representativos de todas as regiões do estado, especialmente em áreas com menor acesso a recursos e serviços de saúde, o que pode afetar a precisão e a cobertura do diagnóstico e tratamento. As limitações no acesso a testes diagnósticos em algumas regiões podem, portanto, comprometer a aplicabilidade dos resultados em contextos diferentes.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:
Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: ALL Jimenez; ARB Araújo; AHS Sathler. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - rascunho original: ALL Jimenez; ARB Araújo; DO Russo; TMS Candiani; LMO Diniz. Validação, Software: ALL Jimenez. Curadoria de Dados & Análise Formal: DO Russo; TMS Candiani.
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Copyright© 2021 Jimenez et al. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Licença Internacional que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado.
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