RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 35 S46-S53 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2025v35s6.07

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Resumo

Intoxicação exógena em minas gerais, análise por macrorregiões

Exogenous intoxication in minas gerais, analysis by macroregions

Ana Clara Campos Bomtempo; Daniel Couto Filstein; Giovanna Goldner; Marco Antonio Pereira Carvalho; Tiago Candian Moreira Cobra; Carlos Eduardo Leal Vidal

Faculdade de Medicina de Barbacena, Barbacena, Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Carlos Eduardo Leal Vidal
e-mail: celv@uol.com.br

Resumo

INTRODUÇÃO: No Brasil, entre 2007 e 2017 houveram 5.662.456 óbitos por intoxicação exógena. Dada a escassez de estudos específicos acerca de tal problemática em Minas Gerais, este estudo visa analisar o panorama das intoxicações exógenas nas 16 macrorregiões do estado.
OBJETIVO: Descrever e analisar o panorama de intoxicações exógenas nas 16 macrorregiões de Minas Gerais no período de 2013 a 2021.
MATERIAIS E MÉTODOS: Estudo observacional ecológico realizado no período de 2013 a 2021 acerca das 16 macrorregiões de Minas Gerais, dados obtidos através do banco de dados SINAN (DATASUS) segundo variáveis de escolha, cálculo da população realizado com base em dados do DATASUS e estimativas e projeções populacionais do IBGE, nível de significância adotado de 5%, software utilizado SPSS versão 25.
RESULTADOS: Entre 2013 e 2021, em Minas Gerais, ocorreram 104633 notificações confirmadas de intoxicação em MG, predominando as notificações em jovens adultos, mulheres e pessoas de raça parda. Medicamentos foram a principal causa de intoxicação, seguidos por agrotóxicos. Tentativas de autoextermínio representaram a maioria dos casos, com prevalência entre mulheres e adultos jovens.
CONCLUSÃO: Este estudo oferece uma análise detalhada das intoxicações exógenas em Minas Gerais, através de dados do SINAN e DATASUS. Identifica macrorregiões com maior incidência de notificações e sugere estratégias de saúde pública, além de monitoramento contínuo. Sugere-se a necessidade de futuros estudos que devam investigar variações regionais e avaliar a eficácia de políticas públicas, com adaptação contínua de prevenções.

Palavras-chave: Intoxicação. Suicídio. Acidentes. Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias.

 

INTRODUÇÃO E LITERATURA

A intoxicação exógena pode ser compreendida como um conjunto de manifestações clínicas e/ou laboratoriais devido à ingestão ou contato do organismo com um ou mais agentes tóxicos, podendo ocorrer de forma acidental ou intencional.1,2 Os principais agentes tóxicos são representados pelos medicamentos, agrotóxicos, raticidas, produtos veterinários, produtos de uso domiciliar, cosméticos, produtos químicos de uso industrial, metais, drogas de abuso, plantas tóxicas, alimentos e bebidas.2

As intoxicações podem ser manifestar de forma aguda ou crônica, de forma leve, moderada ou grave, dependendo da quantidade e concentração da substância, do tempo de contato com o agente tóxico, da toxicidade do produto, da suscetibilidade do organismo e do intervalo decorrido entre a exposição e o atendimento médico.1-3

As intoxicações exógenas representam um importante problema de saúde pública global. A OMS contabilizou que, em 2016, o envenenamento não intencional causou 106.683 mortes e a perda de 6,3 milhões de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALYs).4 Presume-se que de 1,5 a 3% da população mundial é intoxicada anualmente, com cerca de 0,1 a 0,4 % resultando em óbito. Globalmente, mais de 84.000 pessoas morreram devido a envenenamento em 2019, aproximadamente 9.000 a menos que no ano 2.000. O número de mortes em 2019 traduziu-se em uma taxa de 1,1 mortes por 100 000 habitantes, sendo 67% superior nos homens.5

No Brasil, no período de 2007 a 2017, foram registrados 5.662.456 óbitos por intoxicação exógena nas faixas etárias entre 15 a 69 anos, totalizando 317.687 DALYs.3 Outro estudo, contemplando o mesmo período, registrou 833.282 quadros de intoxicação, verificando predomínio de casos no sexo feminino (54,3%), na zona urbana (86,3%) e na região Sudeste (47,7%). Os medicamentos foram os principais agentes associados às intoxicações (40,3%).6

Com relação aos estados brasileiros, foram localizados 23 artigos nas bases de dados BVS (Biblioteca Virtual em Saúde)7 e SciELO-Br,8 no período de 2013 a 2023 e com o descritor "intoxicações exógenas" presente no título ou resumo do artigo. Os estudos foram realizados em 11 estados, sendo três nas regiões sul, sudeste e nordeste e dois na região Centro-Oeste. Especificamente em Minas Gerais (MG) apenas um estudo foi localizado.9

Considerando o exposto e, dada a escassez de estudos específicos sobre o tema, notadamente em MG, esse estudo objetivou descrever e analisar o panorama das intoxicações exógenas nas 16 macrorregiões de saúde do estado.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo observacional ecológico, em que foram analisados dados referentes aos casos de intoxicação exógena nas macrorregiões de saúde de Minas Gerais durante o período de 2013 até 2021, considerando indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades. As unidades de análise foram o estado de MG como um todo e as suas 16 macrorregiões de saúde, que compreendem 853 municípios. Essas macrorregiões possuem características distintas quanto à densidade demográfica e condições socioeconômicas, sendo as regiões situadas ao norte do estado (Norte, Noroeste, Nordeste e Jequitinhonha) as que concentram municípios com situação socioeconômica menos favorecida e baixos indicadores de desenvolvimento. As demais apresentam melhores indicadores de desenvolvimento econômico e social.

Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).10 O cálculo da população foi realizado com base nos dados obtidos do DATASUS e por meio das estimativas e projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foram analisadas, de forma conjunta e por macrorregião, as seguintes variáveis: total de notificações, total de notificações por ano, sexo, raça, faixa etária e escolaridade. Foram igualmente analisados os dados referentes à circunstância da intoxicação, o agente tóxico, o tipo de exposição e a evolução dos casos. O nível de significância adotado foi de 5% e os dados processados pelo software SPSS.

 

CONSIDERAÇÕES ÉTICAS

Por se tratar de uma pesquisa que utilizou informações de acesso público e, também, banco de dados sem possibilidade de identificação individual, não houve necessidade de submeter o estudo ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP), conforme Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

No período de 2013 a 2021 ocorreram 167.815 notificações de intoxicação em MG, das quais 104663 (63,4%) foram confirmadas como tal, sendo o restante caracterizado como "só exposição" (23,6%), reação adversa (3,9%), "outro diagnóstico" (1,6%) e síndrome de abstinência (0,6%). Casos sem informação ou em branco totalizaram 7,9%. A maioria das intoxicações ocorreu na faixa etária de 20 a 39 anos (44,8%), no sexo feminino (60,6%), naqueles com escolaridade inferior a nove anos de estudo (22,0%) e na raça parda (41,3%). Esses dados são apresentados na Tabela 1.

 

 

No entanto, os dados relativos à escolaridade estavam ausentes em 45% das notificações confirmadas em MG e em mais de 50% nas macrorregiões Centro, Leste, Nordeste e Vale do Aço. As macrorregiões com melhores indicadores nesse aspecto foram a Sul, Sudoeste e Extremo-Sul (média de 14% de não preenchimento).

Os critérios utilizados para confirmação de todos os casos notificados, independente do diagnóstico, foram, em sua maioria, clínicos ou clínicos/epidemiológicos (85,9%). Confirmação laboratorial foi realizada em 3,6% dos casos e para 10,5% não havia informação. As macrorregiões Leste e Vale do Aço exibiram os piores indicadores com relação à completude dos dados, com percentuais de dados não informados ou em branco de 61,9% e 51,7%, respectivamente. Os critérios clínico/laboratoriais também foram os menores nessas regiões. As regiões com maiores percentuais de confirmação por via clínico/laboratorial foram a Centro Sul, Centro e Jequitinhonha. Com relação ao tipo de exposição, a maioria das intoxicações (67,0%) foi do tipo aguda-única.

Quanto ao agente, a maior parte das intoxicações se deu por uso de medicamentos (56,8%), seguida por drogas de abuso (10,7%) e agrotóxicos (10,2%). Apenas para 5,3% dos casos essa informação não estava disponível. Percentualmente, as intoxicações medicamentosas foram mais observadas na região Oeste (69,7%), por drogas de abuso no Vale do Aço (36,4%) e por agrotóxicos na macro Nordeste (19,1%). Esses dados estão apresentados na Tabela 2.

 

 

Entre os cinco tipos de agrotóxicos responsáveis pelas intoxicações (agrícola, doméstico, saúde pública, raticida e produto veterinário), o mais comum foi o raticida (50,3%), seguido pelos de uso agrícola (29,6%). Percentualmente, as intoxicações por raticidas foram mais frequentes nas regiões Leste (67,3%) e Vale do Aço (66,1%) e as relacionadas a agrotóxicos agrícolas nas regiões Extremo Sul (47,2%) e Triângulo do Norte (45,8%).

Em relação às circunstâncias das intoxicações, 55,4% foram por tentativa de autoextermínio (TAE), 14,8% acidentais e 12,4% por abuso. Entre as macrorregiões, as TAE corresponderam a 72,7 e 71,5% nas macros Sudeste e Oeste.

A proporção de tentativas de suicídio em relação ao total de intoxicações variou de 41,1% (macrorregião Vale do Aço) a 72,7% (macrorregião oeste). Mais da metade das tentativas ocorreu na faixa etária de 20 a 39 anos (média: 50,6%), e esse percentual foi semelhante entre as demais regiões. Houve predomínio de TAE no sexo feminino (72,2%), com razão entre os sexos de 2,6, variando de 2,0 no Extremo-Sul a 3,2 no Vale do Aço. As TAE foram igualmente distribuídas entre aqueles com escolaridade inferior e naqueles com nível de escolaridade igual ou maior que nove anos (24,9%), mas para 45,7% o nível educacional não foi informado.

Os agentes tóxicos mais utilizados nas TAE foram os medicamentos (77,9% na média estadual), com percentuais mais elevados nas macrorregiões Vale do Aço (84,2%) e Centro Sul (81,4%). Percentuais mais baixos foram verificados nas macros Nordeste (64,8%) e Norte (68,2%). As TAE por uso de medicação predominaram na faixa etária dos 20-39 anos (50,4%).

A segunda classe de agentes mais utilizada foram os agrotóxicos (11,8%), tendo a macrorregião Nordeste exibido os maiores percentuais (22,4%), o dobro da média estadual. Nesta classe de substâncias, os raticidas responderam por 67% das tentativas, seguidos pelos agrotóxicos agrícolas (18,3%), mas esses percentuais não se distribuíram de maneira uniforme em todas as regiões. Por exemplo, na macrorregião Extremo-Sul os agrotóxicos agrícolas responderam por 37,6% do total das intoxicações por essa classe de agentes, mais que o dobro da média, e a 4,3% na macro Leste. De forma inversa, o uso de raticidas correspondeu a 51,0% e 86,2%, respectivamente, nas macrorregiões Extremo-Sul e Leste.

Dos casos confirmados de intoxicação apenas 4393 (4,2%) foram relacionados ao trabalho, sendo 58,9% do sexo masculino, com razão média entre os sexos de 1,4, mas praticamente igual (1,0 a 1,1) nas macrorregiões Centro-Sul, Jequitinhonha, Sudeste e T. do Norte. Na macro Centro predominaram as intoxicações relacionadas ao trabalho entre as mulheres (54,2%). Do total, 1722 (38,9%) foram devido à intoxicação por agrotóxicos e 880 (19,9%) relacionados a produtos químicos. Para 8,2% os dados eram ignorados ou em branco. Em relação ao sexo, nos homens predominaram as intoxicações por agrotóxicos (51,1%), com a macro Sudoeste registrando 79,3% dessas intoxicações entre os homens. Nas mulheres as intoxicações relacionadas a medicamentos (24,7%) foram as mais observadas, seguindo-se as relacionadas a agrotóxicos (21,6%). No entanto, a região T. Norte registrou 52,1% de intoxicações relacionadas a agrotóxicos, enquanto foi de apenas 5,8% na macro Centro-Sul. Na macro Nordeste predominaram as intoxicações por produtos químicos (45,1% contra uma média de 21,5%). Com relação à idade, as intoxicações associadas ao trabalho foram mais prevalentes na faixa etária dos 20 aos 39 anos (53,3% dos casos), seguida por aqueles com idade entre 40 e 59 anos (29,5%).

Foram notificados 1472 óbitos entre todos os casos confirmados, sendo 1285 por intoxicação e o restante por outras causas, o que representa uma taxa de letalidade por intoxicação equivalente a 1,2%. As mortes foram mais observadas nas faixas etárias de 20-39 anos (37,9%) e 40-59 anos (36,2%), no sexo masculino (55,7%). O principal agente tóxico associado às mortes em homens foram os agrotóxicos (33,8%), seguido por intoxicação medicamentosa (24,9%). Para as mulheres ocorreu o inverso, sendo 60,5% mortes por medicação e 14,5% por agrotóxicos. Mortes por exposição ao trabalho representaram apenas 2,5% dos óbitos. Em todo o estado de Minas Gerais predominaram os óbitos por medicamentos (40,7%) seguido pelos óbitos devidos a intoxicação por agrotóxicos (25,5%). No entanto esses percentuais se invertem nas macrorregiões Sul, Extremo Sul, Norte, Noroeste e Nordeste, que apresentaram percentuais de óbitos por agrotóxicos superiores a 41%.

Maior percentual de óbitos (taxa de letalidade por intoxicação exógena) foi observado na macro sudeste (3,7%). Mais uma vez a macrorregião Leste teve o maior percentual de desfechos ignorados ou em branco (49,4%), seguida pela macro Nordeste (16,2%), contra uma média de 6,7% em MG. Entre todos os casos predominou a cura sem sequela na evolução final dos casos (88,4%).

Ocorreram 897 óbitos em decorrência das TAE, que foram responsáveis por 80,6% das mortes em mulheres e 60,7% dos óbitos no sexo masculino. Quanto ao agente tóxico, 48,6% foram devido a medicamentos e 31,5% por agrotóxicos, mas essa proporção não foi homogênea dentro do estado. Para metade das macrorregiões predominaram os óbitos relacionados à ingestão de agrotóxicos, principalmente nas regiões mais ao norte e nas macros Sul e Extremo-Sul. A taxa de letalidade média no período foi maior nas faixas etárias mais elevadas, correspondendo a 7,1% nos maiores de 60 anos (variando de 2,0% na macro Centro Sul até 20,6% na macro Nordeste), 2,8% na faixa de 40-59 anos (com variação de 1,5% no Vale do Aço a 7,0% na Sudeste), 1,2 naqueles com idade entre 20-39 anos (variando de 0,5% no Jequitinhonha a 2,8% na Sudeste) e de 0,6 nos menores de 20 anos (variando de 0,0% no Jequitinhonha a 1,4% na Sudeste).

A incidência anual de intoxicações foi calculada dividindo-se o número de casos confirmados pela população residente em cada macrorregião, com maior taxa média de incidência observada nas macrorregiões Centro-Sul e Vale do Aço. Ao contrário, menores taxas foram verificadas nas macrorregiões Norte, Nordeste e Leste. Em relação às TAE, as maiores taxas de incidência foram observadas nas macrorregiões Centro-Sul e Sudoeste. (Tabelas 3 e 4).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A notificação de intoxicações exógenas integra a lista de doenças e agravos de notificação compulsória do SINAN. Neste estudo, que compreendeu o período de 2013 e 2021, verificou-se a ocorrência de mais de 100 mil notificações confirmadas de intoxicações exógenas, destacando-se, respectivamente como circunstância e agente tóxico, as tentativas de autoextermínio e as intoxicações medicamentosas. Foram observadas variações significativas entre as macrorregiões, tanto nas características epidemiológicas quanto nas taxas anuais de intoxicação, mas a maioria das macrorregiões apresentou tendência estacionária no período. As maiores taxas de incidência de intoxicação foram verificadas nas macrorregiões Vale do Aço e Centro-Sul, que também apresentaram elevadas taxas de TAE.

Globalmente, os resultados obtidos apontaram para maior frequência de intoxicações nos adultos, naqueles com menor escolaridade e no sexo feminino. O tipo de exposição predominante foi o denominado aguda-única. Esses dados estão de acordo ao verificado em nível nacional compreendendo o período de 2007 a 2017 e em outros estados brasileiros.6,11,12

Com relação à diferença entre os sexos, estudos nacionais e internacionais apontam maior percentual de intoxicações em mulheres,6,11,12 o que parece estar relacionado ao maior consumo de medicamentos (especialmente antidepressivos e ansiolíticos)9 e à maior ocorrência de TAE por ingestão medicamentosa no sexo feminino.13

No Brasil, a prevalência geral no uso de medicamentos pela população é alta. Pesquisa realizada com usuários da atenção primária identificou que 76,2% deles relataram estar em uso de pelo menos um medicamento, o que pode estar relacionado à facilidade de acesso aos fármacos nas unidades de saúde e ou por compra sem prescrição médica.14 Medidas com o objetivo de diminuir as intoxicações e, consequentemente, as tentativas de suicídio e mortes a ele relacionadas, incluem a prescrição de medicamentos com menor potencial letal, a dispensação de pequenas quantidades de medicamentos por vez e a limitação de medicamentos ao alcance do paciente.14

No que diz respeito à escolaridade, os dados relatados em outros estudos são inconclusivos, com relatos de maior ocorrência (em torno de 25%) naqueles com nível educacional mais baixo.6,11,12 Considerando-se as cinco regiões brasileiras, o percentual de intoxicações é maior entre aqueles com ensino fundamental, completo ou incompleto, do que naqueles com escolaridade igual ou maior que nove anos de estudo (20,4% e 15,0%, respectivamente).6 Porém, assim como na presente pesquisa a incompletude das informações sobre escolaridade no SINAN em nível nacional é bem elevada, com média de 41,3% no mesmo período considerado, o que prejudica a interpretação dos achados.15

Esse estudo apontou número elevado de tentativas de suicídio por intoxicação exógena, mas os valores encontrados podem estar subestimados. Independentemente do meio utilizado, para cada tentativa documentada existem outras quatro que não são registradas, e parcela significativa de vítimas não busca auxílio nos serviços de saúde.16 E a pandemia da COVID-19 pode ter contribuído para diminuição da procura por atendimento. De fato, a comparação da taxa de incidência média dos dois anos anteriores à pandemia (2018-19) com a média dos anos seguintes (2020-21) mostrou diminuição das notificações nos dois anos pandêmicos em 75% das macrorregiões, tanto para as intoxicações de forma geral quanto para as TAE. Estudo realizado na Bahia comparando período pré-pandemia e período pandêmico evidenciou pequena diminuição no número absoluto de notificações de intoxicações exógenas e percentuais semelhantes de TAE nos dois períodos considerados.17

As tentativas de suicídio tendem a ser recorrentes e o risco de suicídio aumenta de acordo com o número de tentativas e a intervalos de tempo menores entre elas. Nos serviços de emergência estima-se que de 30% a 60% dos pacientes atendidos por TAE tiveram tentativas prévias e que de 10% a 25% farão nova tentativa dentro do prazo de um ano. Presume-se que de 1% a 5% das pessoas em geral e de 3% a 20% dos adolescentes podem tentar suicídio ao longo da vida.18

Esses dados implicam no manejo apropriado das TAE pelos profissionais de saúde da atenção básica, dos serviços de emergência e dos serviços de saúde mental. As tentativas de suicídio são fenômenos complexos e multifatoriais, envolvendo determinantes sociais, econômicos, psiquiátricos, psicológicos e culturais, exigindo capacitação constante dos profissionais,18,19 especialmente naquelas macrorregiões que exibiram altas taxas de incidência.

Em números absolutos, entre 2011 e 2018, o Brasil apresentou aumento de 497,5% nos casos notificados de violência autoprovocada, independente do agente causal.20 No mesmo período o estado de Minas Gerais apresentou aumento de 461,5%, passando de 2377 para 13348 notificações.20 Esse aumento expressivo pode estar relacionado à publicação da portaria 1271, de 2014, que definiu a lista nacional de agravos de notificação, promovendo normatização e melhora no sistema a partir daquele ano.12

O predomínio de TAE entre as mulheres está em conformidade com o descrito na literatura, com razão entre os sexos maior que 2:1 Globalmente os homens apresentam maior risco de morte por suicídio em relação às mulheres, as quais apresentam maiores prevalências de ideação e tentativas de suicídio.16,19,21 Essa desigualdade tem sido associada, nos homens, ao maior comportamento agressivo, consumo de álcool mais elevado, maior intenção de morrer, emprego de métodos mais letais nas tentativas e menor busca por serviços de saúde mental.19

Com relação à escolaridade, o percentual de TAE foi semelhante entre aqueles com ensino fundamental e naqueles com ensino médio (completos ou incompletos). No entanto, o percentual de incompletude desses dados correspondeu a quase metade das notificações. Os achados do presente estudo estão em conformidade com os relatados no período de 2011 a 2016 para as tentativas de suicídio no Brasil, independentemente do método utilizado.21

A intoxicação exógena é um dos três principais meios utilizados nas tentativas e suicídios no Brasil, sendo os medicamentos e pesticidas relacionados a 70% dos casos.16 Em Minas Gerais as intoxicações exógenas foram responsáveis por aproximadamente 12% das mortes por suicídio, a segunda causa de óbito por autoextermínio.22

As diferenças encontradas entre as macrorregiões, especialmente com relação aos agentes e às circunstâncias da intoxicação podem estar relacionadas a características locais e culturais, podem ser devido a diferenças entre notificações de casos ou ao acesso a sistemas de saúde e qualidade dos mesmos. Ou simplesmente serem de caráter aleatório.

Regiões em que a economia é principalmente agrícola, podem contribuir para aumento das intoxicações por agrotóxicos. De fato, dados do Ministério da Saúde (MS) mostram crescimento da comercialização de agrotóxicos no país entre 2007 e 2014 e o correspondente aumento do número de intoxicações por esses agentes.23 O Relatório do MS aponta ainda para o problema das subnotificações de casos de intoxicação por agrotóxicos e de dados insuficientes sobre a exposição de trabalhadores e da população em geral. As unidades federativas que mais utilizam agrotóxicos são os estados de São Paulo (25%), Paraná (16%), Minas Gerais (12%), Rio Grande do Sul (12%), Mato Grosso (9%), Goiás (8%) e Mato Grosso do Sul (5%).23

Estudo compreendendo as notificações de intoxicações por agrotóxico em MG no período de 2011 a 2020 apontou o ano de 2013 com maior número de registros e redução progressiva dessas intoxicações até o final do período.24 Os referidos dados estão em concordância com o presente estudo, onde a maior taxa de incidência foi verificada em 2013, seguida por redução progressiva até 2021.

Outros estudos, no entanto, relataram aumento progressivo das intoxicações ao longo dos anos no Brasil e em alguns estados.24 No Rio Grande do Sul houve aumento nos registros durante o período de 2011 a 2018, predominando as intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola e destacando-se as ocorrências acidentais (40%) e tentativa de suicídio (26%).25 No Espírito Santo, no período de 2007 a 2016, prevaleceram também as intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola, mas predominaram os casos de tentativa de autoextermínio (48,5%) contra 27,5% de intoxicação acidental.26 Em ambos os estados os homens foram os mais acometidos, com percentual um pouco acima de 60%. Em nível nacional, estudo compreendendo um período de 13 anos mostrou crescimento das taxas de incidência dessas intoxicações, passando de 1,71 em 2001 para 5,56 notificações por 100 mil habitantes em 2014.27

O uso de agrotóxicos foi regulamentado por legislação específica no Brasil durante o período das análises, e sua utilização no campo é fiscalizada periodicamente pelos órgãos competentes.28 Essas medidas contribuíram para o estabelecimento de normas rígidas de segurança no setor agropecuário e, provavelmente, estão associadas à baixa frequência dessas intoxicações relacionadas ao trabalho em todas as macrorregiões analisadas no período do estudo.

Existe grande detalhamento nas intoxicações por agrotóxicos, o que é importante para o estabelecimento de medidas preventivas que envolvam a saúde do trabalhador agropecuário. Porém o mesmo parâmetro de preocupação não é observado em relação a outros agentes tóxicos, como os medicamentos, que representam expressiva parcela do percentual de intoxicações exógenas.29 Ressalta-se, ainda, que as principais circunstâncias das intoxicações são as tentativas de suicídio, cujo percentual foi 13 vezes maior que às intoxicações relacionadas ao trabalho. Ainda nesse aspecto, as intoxicações por agrotóxicos ocupam a segunda posição como agente mais utilizado para tentativas de autoextermínio.

A principal limitação desse estudo se refere à baixa completitude dos dados, a qual, junto com a subnotificação, prejudicam a caracterização epidemiológica desses agravos e as consequentes medidas para a prevenção e ações em saúde. Vários escores podem ser utilizados na avaliação dos Sistemas de Informação em Saúde (SIS), e a leitura de todos eles confirma a baixa completitude verificada nesse estudo.30

Em geral, os principais fatores associados à baixa completitude e subnotificação de casos incluem o preenchimento incorreto das fichas, escassez de informações, não conhecimento da importância das notificações e da sua relevância em saúde pública, desconhecimento da lista de doenças e agravos submetidos à vigilância e preocupação com a quebra da confidencialidade das informações.16

No caso das TAE, a literatura aponta para a dificuldade dos profissionais na identificação adequada das intoxicações como intencionais e não-intencionais, o que pode levar a erros nas notificações. Além disso, é comum a subnotificação da tentativa/suicídio por motivos socioculturais e estruturais.16

 

CONCLUSÃO

Este estudo contribui para o entendimento da distribuição e dos determinantes das intoxicações exógenas em Minas Gerais, oferecendo uma base sólida para futuras pesquisas e intervenções.

Os dados indicam uma necessidade urgente de estratégias de prevenção direcionadas, especialmente nas macrorregiões com maior incidência. Programas de educação em saúde, regulamentação mais rigorosa do uso de agrotóxicos e medicamentos, e a implementação de sistemas de monitoramento contínuo são medidas essenciais para reduzir a ocorrência de intoxicações. Além disso, a baixa frequência de intoxicações relacionadas ao trabalho sugere que as normas de segurança no setor agropecuário estão sendo eficazes, mas ainda há espaço para melhorias, especialmente no que diz respeito à fiscalização e ao treinamento dos trabalhadores.

Novos estudos devem explorar mais profundamente as causas subjacentes às variações regionais e avaliar a eficácia das políticas públicas implementadas. A continuidade do monitoramento e a adaptação das estratégias de prevenção são cruciais para a redução dos casos de intoxicação e para a promoção da saúde pública no estado.

 

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