ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Pneumonia redonda como diagnóstico diferencial de massa pulmonar: um relato de caso
Round pneumonia as a differential diagnosis of lung mass: a case report
Laura Magalhães Reiff*1; Larissa Julie Florindo1; Luisa Botti Guimarães2; Cláudia Gonçalves Magalhães2
1. Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil
2. Hospital Regional Doutor João Penido, Minas Gerais, Brasil
Laura Magalhães Reiff
Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.
E-mail: lauramreiff@icloud.com
Recebido em:27 Novembro 2024.
Aprovado em:26 Março 2025.
Data de Publicação: 18 Julho 2025.
Editor Associado Responsável:
Nestor Barbosa de Andrade
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia.
Uberlândia/MG, Brasil.
Conflito de Interesse: Não há.
Comitê de Ética: Número do Parecer - 78219724.3.0000.5119.
Resumo
INTRODUÇÃO: A pneumonia redonda, um padrão radiológico atípico de infecção pulmonar, é uma manifestação rara das pneumonias, sendo ainda menos reportada em adultos em comparação à população infantil, com menos de 1% dos casos se manifestando como lesão redonda.
OBJETIVOS: Descrever um caso de pneumonia redonda em um adulto mimetizando uma massa pulmonar.
RELATO DE CASO: Paciente, masculino, 51 anos, tabagista, admitido com quadro de infecção do trato respiratório inferior e tomografia de tórax evidenciando hipodensidade ovalada em lobo médio do hemitórax direito de aspecto inespecífico. Apesar de tratamento antimicrobiano e melhora clínica, houve persistência do padrão radiológico, o que levantou a hipótese de malignidade, seguindo-se a investigação com biópsia e imuno-histoquímica. Com resultados negativos para malignidade, após 60 dias do início da sintomatologia, constatou-se desaparecimento total da imagem, concluindo a hipótese de pneumonia redonda.
CONCLUSÃO: A pneumonia redonda na prática clínica possui grande semelhança com o câncer de pulmão em imagem. Embora características como febre e tosse podem apontar para etiologia infecciosa, ocasionalmente, o carcinoma broncogênico pode se apresentar também como pneumonia secundária à obstrução do brônquio com infecção sobreposta, o que torna o diagnóstico definitivo difícil. Diante de uma imagem radiológica arredondada e uma clínica característica, é importante considerar a hipótese de neoplasia pulmonar. Entretanto, a instituição de antibioticoterapia seguida de repetição da radiografia torácica em 3 a 4 semanas deve ser considerada, pois a pneumonia redonda pode ocorrer em pacientes de todas as idades, adiando procedimentos diagnósticos mais invasivos e de maiores complexidades.
Palavras-chave: Pneumonia; Radiografia pulmonar de massa; Diagnóstico diferencial.
INTRODUÇÃO
A pneumonia redonda (PR), pseudotumoral ou pneumonia organizada, é uma apresentação radiológica atípica de infecção pulmonar, caracterizada por um formato oval ou consolidação arredondada distribuída em padrão não segmentar1-3. É uma apresentação rara das pneumonias, sendo ainda menos reportada em adultos em comparação à população infantil, com menos de 1% dos casos se manifestando como lesão redonda4.
A presença de imagens redondas encontradas nas radiografias de tórax, especialmente de pacientes mais velhos e/ou com fatores de risco, sugere a possibilidade de neoplasias malignas, já que nem sempre o tamanho, a forma, a localização, a regularidade da superfície, presença ou ausência de lobulações ou cavitações são critérios que permitem estabelecer o caráter benigno da doença5. Nesse sentido, ao encontrarmos uma imagem compatível com massa intratorácica, devemos nos lembrar de diagnósticos diferenciais, como carcinoma broncogênico ou mesmo teratoma2.
O presente artigo tem como objetivo descrever um caso de pneumonia redonda em um adulto mimetizando uma massa pulmonar.
RELATO DE CASO
Paciente masculino, 51 anos, tabagista, etilista, usuário de droga ilícita do tipo crack e esplenectomizado por trauma prévio, transferido de um serviço de urgência com relato de tosse com expectoração purulenta, dor torácica pleurítica à direita, febre e perda ponderal iniciados há 15 dias. Internação prévia com uso de ceftriaxona por 7 dias, BAAR, e ANTI-HIV negativos e tomografia de tórax evidenciando hipodensidade ovalada em lobo médio do hemitórax direito, medindo 4,6 x 3,9 cm com aspecto inespecífico associada a derrame pleural bibasal discreto e imagem em vidro fosco nas porções inferiores dos lobos superiores, sem linfonodomegalias mediastinais ou lobares. No momento da admissão, encontrava-se assintomático, sem alterações no exame físico. Foram solicitados exames laboratoriais de admissão com PCR elevado (47 mg/dL), leucocitose (21600 mm3) com desvio à esquerda e trombocitose (755000 mm3). Foi iniciado novo esquema antimicrobiano com amoxicilina e clavulanato por 7 dias e solicitada broncoscopia, com pesquisa de BAAR, cultura para BK e TRM-TB negativos. Apesar de ter ocorrido melhora laboratorial parcial nos exames subsequentes, associado a melhora clínica após o período de antibioticoterapia ter sido finalizado, a radiografia e a tomografia de tórax realizadas posteriormente demonstraram persistência de massa pulmonar heterogênea medindo 4,4 x 4,2 cm (Figura 1). Embora tais achados sugerissem um processo infeccioso, a malignidade não poderia ser descartada. Foi realizada biópsia transtorácica guiada por TC sugestiva de um processo inflamatório agudo. A seguir, a amostra foi encaminhada para imuno-histoquímica, que mostrou fragmentos de parênquima pulmonar com foco de supuração e alvéolos apresentando discreto espessamento fibroinflamatório. Ausência de granulomas ou sinais de efeito citopático viral. Positividade para TTF-1 em pneumócitos reativos e ausência de neoplasia, favorecendo a hipótese de pneumonia aguda em organização. Devido à situação de vulnerabilidade social, embora assintomático e sem agravamento clínico, o paciente permaneceu internado aguardando os resultados dos exames. Após o resultado da biópsia e da imuno-histoquímica, foi realizada radiografia de tórax, transcorridos 60 dias do início da sintomatologia, que mostrou desaparecimento total da imagem (Figura 2), concluindo a hipótese de pneumonia redonda e paciente recebeu alta.


DISCUSSÃO
A PR é geralmente considerada uma doença infantil e raramente relatada em adultos6. A patogênese dessa doença não é clara, mas pode elucidar o porquê de sua incidência ser maior em crianças. Alguns argumentam que os poros de Kohn e os canais de Lambert nos pulmões, responsáveis pela comunicação intra-alveolar, podem ser bloqueados ou mal desenvolvidos, resultando em compactação e consolidação confluente4. Em crianças, essas comunicações geralmente não são bem desenvolvidas e há escassez de alvéolos e tecido conectivo nos septos, contribuindo para gerar regiões de consolidações confluentes e bem delimitadas, resultando em maior prevalência dessa pneumonia3,4.
Outros argumentam que a PR pode representar um estágio inicial da pneumonia, quando a infecção ainda está contida, uma vez que sua propagação ocorre de maneira centrífuga, determinando posteriormente o aparecimento da imagem típica da pneumonia, tal como as formas segmentar ou lobar3. Desse modo, acredita-se que a sua verdadeira incidência é muito superior à relatada, uma vez que muitos casos são tratados com antibióticos previamente à confirmação por imagem1,4.
O seu quadro é variável, podendo ser leve, imitando uma síndrome viral aguda ou com pacientes assintomáticos6. Entretanto, os pacientes geralmente se apresentam com doença febril aguda, tosse, dispneia, taquipneia e dor torácica pleurítica1, como relatado pelo paciente deste relato. Sinais de consolidação parenquimatosa, como macicez à percussão e estertores estão frequentemente presentes na ausculta respiratória1. Um aspecto interessante deste caso foi a ausência de sinais propedêuticos de consolidação pulmonar ao exame físico.
Em relação ao seu aspecto em exames de imagens, a pneumonia redonda é caracterizada por consolidações pulmonares ovaladas, infiltrados intersticiais ou cavitações que podem simular uma neoplasia pulmonar. Esses achados podem ocorrer em qualquer parte do pulmão, embora o pulmão direito seja mais frequentemente afetado7. Observa-se que nos exames de imagem realizados na investigação clínica do paciente relatado, seus achados vão ao encontro das evidências na literatura médica.
Vários microrganismos são relatados como causadores da PR, embora Streptococcus pneumoniae, Coxiella burnetii e o Coronavírus sejam os agentes etiológicos mais comuns associados a essa condição em adultos4. No caso clínico em questão, o tratamento foi dirigido empiricamente para o Streptococcus pneumoniae, de acordo com as recomendações do manejo de pneumonia adquirida em comunidade da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia8. Na maior parte dos casos, a pneumonia redonda, após o uso de antibioticoterapia, segue um curso benigno com resolução terapêutica e radiológica em 2 a 4 semanas3.
A importância de identificar a pneumonia redonda na prática clínica reside na sua grande semelhança com o câncer de pulmão em imagem, como evidenciado na Tabela 1. Embora características como febre e tosse podem apontar para etiologia infecciosa, ocasionalmente, o carcinoma broncogênico pode se apresentar também como pneumonia secundária à obstrução do brônquio com infecção sobreposta4.
No paciente em questão, apesar do quadro infeccioso respiratório acompanhado de leucocitose com desvio à esquerda, elevação da proteína C reativa e trombocitose ser altamente sugestivo de pneumonia, diante da situação de vulnerabilidade social aliada à sua região epidemiológica de alta incidência de tuberculose, a primeira hipótese diagnóstica a ser descartada foi a tuberculose. Tendo em vista a persistência de massa pulmonar radiografada após uso de antibioticoterapia por 14 dias, somado à idade do paciente e ao seu histórico de tabagismo, a neoplasia pulmonar permaneceu como diagnóstico diferencial importante, sugerindo a necessidade de seguimento da investigação com biópsia.
Portanto, o estabelecimento do diagnóstico definitivo se torna difícil, visto que mesmo a tomografia por emissão de pósitrons F18-FDG não é capaz de diferenciar pneumonia redonda de neoplasia primária de pulmão. Isso pode levar a biópsias invasivas desnecessárias, resultando em aumento da morbidade4.
CONCLUSÃO
Diante de uma imagem radiológica arredondada e uma clínica característica é importante considerar a hipótese de neoplasia pulmonar, principalmente em pacientes com mais de 50 anos e com história de tabagismo. Contudo, na presença de sinais e sintomas sugestivos de infecção do parênquima pulmonar, deve-se considerar a hipótese de pneumonia redonda. Assim, a instituição de antibioticoterapia seguida de repetição da radiografia torácica em 3 a 4 semanas deve ser considerada em todos os adultos que apresentam massa pulmonar solitária, pois a pneumonia redonda pode ocorrer em pacientes de todas as idades, adiando procedimentos diagnósticos mais invasivos e de maiores complexidades.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:
Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: LMR; LJF. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - rascunho original: LMR; LBG. Validação, Software: CGM. Recursos & Aquisição de Financiamento: CGM. Curadoria de Dados & Análise Formal: CGM.
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REFERÊNCIAS
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2. Jardim C, Ferreira JC, Takagaki TY, Souza R. Pneumonia redonda/Pneumonia pseudotumoral. Rev Assoc Med Bras 2003;49(3):225-43.
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4. Gupta S, Goyal P, Rosinski A. A Disappearing Lung Mass: Round Pneumonia. Am J Med. 2019;132(8):e656-7.
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8. Corrêa RA, Costa AN, Lundgren F, Michelim L, Figueiredo MR, Holanda M, et al. Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na comunidade 2018. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-25.
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