RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 34 S62-S70 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2024v34s3a10

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Artigo Original

Análise de perfis epidemiológicos de risco em pacientes em uso da profilaxia préexposição ao HIV (prep, pre-exposure prophylaxis) na cidade de Barbacena - MG

Analysis of epidemiological risk profiles in the use of pre-exposure prophylaxis to HIV (prep, preexposure prophylaxis) in the city of Barbacena - MG

Isabela Nunes de Souza; Giovana Sena Veloso Stefani Moreira; Rafaella Borges Grama; Bruno Henrique de Souza Silva; Geovanna Rodrigues Nunes Vilela; Lucas Mendonça Simões; Herbert José Fernandes

Faculdade de Medicina de Barbacena, Barbacena, Minas Gerais – Brasil

Endereço para correspondência

Giovana Sena Veloso
giovanasena26@hotmail.com

Resumo

OBJETIVO: pretende analisar, através de prontuários, a prevalência de infecções sexualmente transmissíveis (IST's) e identificar os fatores comportamentais e os perfis epidemiológicos de risco que ocasionaram o contágio.
MÉTODOS: trata-se de um estudo observacional, do tipo transversal, realizado com uma amostra selecionada por conveniência por meio de prontuários, excluindo aqueles que abandonaram o tratamento no período da pesquisa e gestantes.
RESULTADOS: a maioria dos indivíduos era do sexo masculino (92,1%), homossexuais (68,8%), possuíam parceiros esporádicos (81,2%) e se autodeclararam brancos (57,8%). Observou-se que, 79% eram usuários de drogas, sendo o álcool e a maconha as mais prevalentes. A descoberta da PrEP foi feita em 81,58% por amigos usuários do serviço. Em ambos os prontuários, se expuseram sexualmente desprotegidos (77,6-56,5%), utilizam preservativo quase sempre (38,1-36,8%). A maioria não apresentou IST's nos últimos 12 meses (71,0-77,3%), e na testagem rápida a maioria teve resultado negativo para sífilis, hepatite B e C e HIV. Nota-se redução da prevalência de IST's e aumento do uso de preservativos em pacientes que fazem uso de drogas comparado com a exposição sexual de risco no último prontuário comparado ao primeiro prontuário. Não houve mudanças no número de parcerias sexuais.
CONCLUSÃO: o estudo servirá como base para novos trabalhos, sugerindo a PrEP como uma forma de ampliação das opções preventivas.

Palavras-chave: HIV. Profilaxia Pré-Exposição. Infecções Sexualmente Transmissíveis. Preservativos.

 

INTRODUÇÃO

A identificação da primeira infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV, do inglês Human Immunodeficience Virus) ocorreu em 1981 e, desde então, destaca-se como um fenômeno global, dinâmico e instável, com a ocorrência dependente de fatores comportamentais, individuais e coletivos.1 Trata-se de uma enfermidade que permeia diversos tabus e preconceitos, fator limitante por gerar medo e constrangimento de possíveis infectados realizarem o teste e procurarem ajuda, além da sua grande magnitude devido a extensão dos danos causados na sociedade por ser uma patologia, até então, sem cura. Contudo, em meados da década de 1990, houve o surgimento da terapia antirretroviral (ARV) de alta potência, aumentando a expectativa e a qualidade de vida dos portadores de HIV.2

No Brasil, a terapia antirretroviral é fornecida de forma gratuita pelo Ministério da Saúde, fato que, somado ao aumento da sobrevida dos pacientes, torna essa medicação de grande importância na prevenção da transmissão do HIV. Nesse cenário, foi criado a Profilaxia Pré-exposição (PrEP, do inglês Pre-Exposure Prophylaxis), medicamento profilático apenas para o HIV e indicado pelo Ministério da Saúde para todos os indivíduos, a partir de 15 anos, que possuem risco de contrair o vírus.3,4 Em contrapartida, alguns estudos mostram que o risco de se praticar sexo sem preservativo tem aumentado em pacientes que estão em uso desses medicamentos, o que ressalta a responsabilidade dos serviços de saúde em acompanhar de forma integral e efetiva esses pacientes visando sempre a prevenção da transmissão e de complicações decorrentes da AIDS.5,6,7

Ademais, a infecção por outras IST's (Infecções Sexualmente Transmissíveis) aumenta a chance de imunodepressão nesses pacientes, consequentemente, há um aumento na dificuldade de controle da carga viral e no risco de contaminação por vírus resistentes aos antirretrovirais.3 Com isso, o uso do preservativo, um método simples e efetivo contra uma ampla variedade de IST's, como sífilis, tricomoníase e herpes genital, é uma das armas mais importantes na luta contra a transmissão do HIV e não deve ser dispensável, uma vez que tem o intuito de evitar a reinfecção de cepas já resistentes aos antirretrovirais, diminuir a carga viral durante as relações sexuais e evitar a transmissão de outras doenças sexualmente transmissíveis.

Desse modo, o governo criou diversas políticas públicas de enfrentamento a doença através do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA/SEA), cuja estratégia é a prevenção combinada do HIV, onde é oferecido a realização de testagem rápida para HIV, sífilis, hepatite B e C, disponibilização de preservativos, aconselhamento e diagnóstico oportuno das IST's, além do fornecimento dos antirretrovirais de forma gratuita para terapia e prevenção.8,1 Infelizmente, apesar das intervenções e campanhas pelo país, nota-se que tais doenças continuam presentes intrinsecamente ligadas à sociedade e exigem atenção para que seja sanado.

Dado o exposto, objetiva-se com o presente estudo analisar, através de prontuários dos usuários da PrEP, a prevalência de infecções sexualmente transmissíveis e identificar os fatores comportamentais de risco que ocasionaram o contágio, como o não uso de preservativos nas relações sexuais, de pacientes em acompanhamento pelo CTA/SEA de Barbacena entre 2020 e 2023. Tendo em vista que o detalhamento das infecções sexualmente transmissíveis e sua prevalência, bem como a identificação de perfis epidemiológicos de risco mais prevalentes, pode auxiliar no desenvolvimento de intervenções apropriadas e ações mais concretas direcionadas para uma população prioritária, de forma a criar condutas mais adequadas e eficientes para controle dessas infecções.

 

MATERIAL OU CASUÍSTICA

Este estudo foi realizado no Centro de Especialidades Multiprofissionais (CEM) em Barbacena- MG, por meio do serviço do Centro de Aconselhamento à Testagem (CTA), foi realizada uma análise de 76 prontuários de usuários de PrEP dessa mesma unidade, no período de 2020 a 2023, onde foram coletados os dados pelos acadêmicos da Faculdade de Medicina de Barbacena (FAME), para preencher as informações necessárias do questionário presente nesse trabalho.

 

MÉTODOS

Desenho do estudo (população)

Trata-se de um estudo observacional, do tipo transversal, realizado com uma amostra selecionada por conveniência, coletado informações de prontuários de usuários de PrEP, provenientes do Centro de Testagem e Aconselhamento /Serviço de Atenção Especializada (CTA/SAE) de Barbacena que se estabelece no Centro de Especialidades Multiprofissionais (CEM) de Barbacena, responsável por oferecer testes rápidos para detecção de IST's, bem como aconselhamento sobre prevenção e tratamento dessas doenças. A amostra incluiu o prontuário de indivíduos adultos, de ambos os sexos, entre o período de 2020 a 2023, e excluiu gestantes e aqueles que abandonaram o tratamento no período da pesquisa. A análise desses prontuários foi realizada a partir da coleta de informações da avaliação do paciente na primeira consulta para adentrar no programa de PrEP (1º prontuário) e da última avaliação do paciente até a data prevista para coleta de dados (último prontuário).

Variáveis

As variáveis coletadas dos prontuários foram obtidas através de uma ficha clínica elaborada pelos pesquisadores e um médico infectologista, seguindo o protocolo clínico e as diretrizes terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de risco à infecção pelo HIV, disponibilizado pelo Ministério da Saúde. Abrangeu dados referentes a características sociodemográficas (estado civil, profissão, raça, sexo, idade, naturalidade e orientação sexual), clínicas (comorbidades, uso de medicações, se sim quais), testagem para doenças sexualmente transmissíveis e história prévia de IST's) e comportamentais dos pacientes como fatores de risco para infecções sexualmente transmissíveis (piercing, tatuagens, uso de drogas como álcool, maconha, cocaína, crack, bala, LSD, cigarro e heroína, número de parceiros e o tipo de parceiro se é eventual ou fixo), informações sobre o uso de preservativos (qual frequência e se houve relação sexual desprotegida) e se houve algum tipo de exposição ao vírus, em caso afirmativo, qual tipo de exposição.

Aspectos éticos

O presente estudo foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em pesquisa da Faculdade de Medicina de Barbacena e aprovado sob o parecer de número 5.511.614.

Análise estatística

Os dados obtidos dos prontuários foram transcritos para formulário e desses para planilha eletrônica e processados em software estatístico STATA v. 9.2, para a produção de tabelas com frequências absoluta e relativa das variáveis do estudo. A existência de relação entre as variáveis de estudo foi medida através dos testes de Quiquadrado e Exato de Fisher. Foram consideradas significativas as diferenças observadas com valor-p menor ou igual a 0,05.

 

RESULTADOS

Nos anos de 2021 a 2023, foram coletados dados dos prontuários de 76 pacientes atendidos e acompanhados no Centro de Testagem e Aconselhamento de Barbacena visando analisar o perfil de pacientes em uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV na cidade de Barbacena – MG. Dentre estes, a maioria era do sexo masculino (92,1%), possuíam parceiros eventuais (84,2%), se autodeclararam brancos (57,8%) e homens homossexuais (69,7%). A média de idade dos participantes foi de 29,88 e desvio padrão de 7,54, variando entre 18 e 51 anos. Observou-se que a maioria eram usuários de drogas (90,7%), sendo o álcool (100%) e a maconha (40,5%) os mais prevalentes. Em relação a descoberta da Profilaxia pré-Exposição, a maioria relatou adquirir conhecimento sobre o medicamento por amigos usuários do serviço (81,5%). A exposição de risco foi um dos motivos relatados mais prevalentes da procura pela PrEP (28,9%). Com relação a medicações de uso contínuo, a maioria não faz uso de nenhum medicamento (53,9%), porém entre os que fazem uso de algum (40,7%) os mais comuns foram antidepressivos (30,7%) e benzodiazepínicos (29,0%).

 

 

Na Tabela 2, estão representados os resultados referentes à comparação do primeiro prontuário com o último, destacando a vida sexual e exposições de risco de cada participante. Respectivamente, observou-se no que se refere a relações sexuais desprotegidas um percentual de 77,6% e 56,5%. Já no que se refere ao uso de preservativo mais da metade das vezes, a frequência foi similar entre os prontuários, cerca de 38,1% e 36,8%, respectivamente. Em relação as IST's, a maioria não apresentou IST's nos últimos 12 meses na avaliação dos prontuários (71,0% - 77,3%).

 

 

Na Tabela 3, evidencia-se os resultados da testagem rápida oferecidos pelo CTA/SAE nos prontuários analisados. A maioria obteve resultado negativo para as doenças testadas.

 

 

Na tabela 4 são apresentados os resultados da análise univariada comparando dados demográficos com variáreis de exposição de risco e entre si. Observou-se redução das IST's comparado com exposição sexual de risco no último prontuário em comparação com o primeiro prontuário. Observou-se ainda que independente de orientação sexual, tipo de parceiro e tipo de relacionamento não houve mudança no número de parcerias sexuais.

 

 

Na tabela 5, observou-se redução do percentual de exposição de risco e aumento do percentual de uso de preservativos em pacientes que fazem uso de drogas quando comparados o primeiro prontuário com o último dos pacientes.

 

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, a maioria dos indivíduos usuários da PrEP, na cidade de Barbacena, foi do sexo masculino (92%) com média de idade de aproximadamente 30 anos, dentre eles 69,7% eram homossexuais, 84,2% relataram apresentar parceiros esporádicos e 90,7% eram usuários de drogas, com maior prevalência do uso de álcool e maconha. Ressalta-se que, como observado nos estudos de prevalência da PrEP no Brasil, este perfil epidemiológico e de hábitos de vida se assemelha ao perfil de usuários da profilaxia em território nacional, cuja prevalência são homens cis, destacando-se, homens que fazem sexo com outros homens cis (HSH) (82%) e homens heterossexuais cis (6,1%), com 41,9% destes com média de idade de 30 a 39 anos.9 

Além disso, foi possível perceber que a maioria dos indivíduos, independentemente da orientação sexual, possui mais de um parceiro (72,1%) e, ao relacionar as variáveis sobre o tipo de relacionamento e o tipo de parceiro, nota-se que dentre os que declararam parceria fixa (15,5%), menos da metade vive de forma monogâmica (41,5%), assim como indivíduos que se declararam como casados e namorando (18,3%), apenas 28,5% se relacionam com apenas uma só pessoa. De modo similar, o Instituto de Pesquisa e Saúde (IPS) da Universidade de Caxias do Sul mostrou que o maior risco da infecção pelo HIV está diretamente relacionado ao comportamento sexual, como o sexo anal receptivo, a multiplicidade de parceiros, a maior frequência de relações sexuais e o uso inconsistente de preservativo.10 Dessa forma, uma das primeiras recomendações do uso da PrEP no território brasileiro, em 2017, pelas diretrizes do MS, foram direcionadas a essas populações sob alto risco.11 Sendo assim, essa abordagem reflete no perfil da maioria dos usuários identificados neste estudo.

Associado à multiplicidade de parceiros, é perceptível que há a prevalência do uso de álcool e outras drogas, sendo este um fator de risco adicional a que esses indivíduos estão expostos. No presente estudo, dentre esses usuários de substâncias entorpecentes, não houve redução do consumo de álcool entre os prontuários. Assim como, o uso de preservativo também se mostrou irregular, em ambos, mais de 60% dos indivíduos não utilizam proteção em todas as relações sexuais. A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira evidenciou que o uso de drogas, lícitas ou ilícitas, constitui fator de vulnerabilidade para IST's e mostrou que aproximadamente 60% dos participantes entre 25 e 34 anos usavam álcool e apenas 51,0% relataram o uso de preservativo de forma consistente com parceiros casuais.12 Não obstante, a ferramenta da OMS para implementação da PrEP, faz incentivo ao uso da profilaxia para qualquer indivíduo que faça sexo após beber álcool e/ou usar drogas recreativas, assim como aqueles que não usam preservativo de maneira regular.13

Foi observado entre os participantes uma maior prevalência de indivíduos que se autodeclararam brancos (57,8%) em comparação com os negros (40,7%). Conforme observado no painel de monitoramento da PrEP, divulgado pelo MS, em 2022, houve uma distribuição percentual dos usuários segundo a raça/cor da pele, de 43% entre indivíduos negros e 56% entre brancos.9 Esses dados demonstram que, mesmo sendo a população negra a mais afetada pela AIDS, eles ainda são minorias dentro do sistema de saúde, essa disparidade pode ser explicada por questões socioeconômicas, níveis de escolaridade e desigualdade social.14 A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira mostrou que indivíduos brancos possuem maior conhecimento acerca das formas de transmissão do HIV do que os negros, o que corrobora para que estes sejam a minoria dentre os usuários da profilaxia.12

O estudo em questão, foi conduzido em população de cidade de médio porte, onde o conhecimento de novas alternativas para a prevenção de IST's se mostrou baixo, uma vez que, dos usuários da PrEP, 81,5% afirmaram adquirir conhecimento do medicamento por intermédio de amigos, enquanto apenas 15,7% referiram o conhecimento por meio do sistema de saúde. Tais dados evidenciam uma lacuna no acesso ao serviço de PrEP evidenciando a necessidade de maiores políticas públicas destinadas não somente à população geral, mas também aos profissionais de saúde que muitas vezes desconhecem essa abordagem.15 Estudos mostram que, enquanto países desenvolvidos avançam nos debates envolvendo a PrEP, países em desenvolvimento, que vêm registrando uma maior proporção de casos novos de HIV, ainda estudam estratégias de implementação e adesão.16

Além disso, a PrEP é um método complementar das demais formas de prevenção existentes, não sendo suficiente para prevenir outras IST's.17 No entanto, nesta amostra, os dados não demonstraram aumento na ocorrência de outras IST's entre os usuários. Diferente do encontrado em alguns estudos internacionais, como uma revisão sistemática de 2018 que englobou ensaios abertos e estudos observacionais publicados até agosto de 2017, com aproximadamente 6.671 participantes, acompanhados de 3 a 18 meses, onde concluiu-se que o uso de PrEP foi associado ao aumento de diagnósticos de IST's em HSH, destacando-se as infecções retais e por clamídia.18 Tal como, um estudo conduzido no estado de Victoria, na Austrália, publicado em 2019, com 2.981 participantes, avaliados durante um período de dois anos, demonstram uma alta incidência de IST's na população em uso da PrEP, sendo as principais infecção por clamídia, gonorreia e sífilis.19 Contudo, essas pesquisas demonstraram a realidade de países distintos, haja vista que o Brasil só implementou a PrEP no SUS em 2017 e Barbacena começou a distribuição em 2020. O atual estudo é regional, avaliando somente 76 pessoas, em um período curto e que não demonstrou o aumento da incidência de IST.

Contudo, algumas limitações deste estudo devem ser consideradas. Primeiramente, a amostra engloba um número pequeno de participantes, acompanhados por um curto espaço de tempo, isso pode ser insuficiente para detectar a incidência de novas IST's. Além disso, os dados do UNAIDS (Joint United Nations Programme on HIV/AIDS) revelam que a maioria dos indivíduos acreditam que seus prontuários não são confidenciais, o que corrobora para o número expressivo de "não relatados" encontrados nos prontuários analisados.15 Por fim, o estudo foi realizado na cidade de Barbacena – MG e, por isso, as barreiras identificadas podem não ser aplicáveis para outras cidades, estados ou países, devido às diferenças socioeconômicas, educacionais e no acesso ao sistema de saúde. Ademais, grande parte dos estudos foram realizados em outros países, o que pode não corroborar com os resultados obtidos no presente estudo pelas diferenças culturais, estruturais e étnicas. Outro ponto de limitação se deve aos estigmas em torno do HIV e usuários da PrEP, como raça e orientação sexual.20 

No entanto, o atual estudo demonstra sua relevância destacada devido à escassez de produção científica sobre o tema no Brasil. A implantação da PrEP em 2017, representou grande avanço no enfrentamento do HIV/AIDS, dado o custo bilionário associado ao tratamento e prevenção dessas enfermidades.21 Destaca-se que, mesmo de maneira sutil, dentre aqueles indivíduos que utilizam algum tipo de droga, observou uma diminuição na exposição de risco (17,1%) e o aumento na frequência do uso de preservativos (6,6%). Sugere-se, que o contato com o profissional de saúde, o acompanhamento frequente, as testagens periódicas e a relação médico paciente como fatores que corroboram para esse resultado.11 Portanto, a metodologia contribuiu à literatura com dados atualizados relacionados a estes pacientes da região da cidade de Barbacena, além de incitar a discussão e divulgação do tema, que oferece a oportunidade de conhecimento de novas formas de prevenção combinada que podem gerar grande impacto no enfrentamento da epidemia do HIV, tornando a análise destes dados como de suma importância. A partir deles, é possível realizar o direcionamento e elaboração de campanhas mais assertivas e efetivas para a divulgação, educação e prevenção da infecção pelo HIV, tanto para a população quanto para os profissionais da área da saúde.

 

CONCLUSÃO

A população da PrEP de Barbacena se caracterizou pela maioria de indivíduos do sexo masculino, com parceiros eventuais, brancos e homossexuais. Destaca-se a exposição sexualmente desprotegida, além do uso do preservativo quase sempre, como fatores de maior prevalência. Houve redução da exposição de risco e aumento do uso de preservativo na amostra avaliada. Sendo assim, seria de suma importância que fossem implementadas políticas públicas para divulgação tanto do serviço nos Centros de Aconselhamento à Testagem (CTA) como do serviço da Profilaxia pré-Exposição, para que mais pessoas pudessem se beneficiar e diminuir o índice da contaminação pelo vírus da Imunodeficiência Humana, que por sua vez, também gera gastos para o sistema público de saúde do país.

 

AGRADECIMENTOS

A todos os profissionais colaboradores, pelo incentivo e empenho dedicado à elaboração deste trabalho, destaque para o Dr. Herbert José Fernandes, a Dra. Leda Marília Fonseca Lucinda e ao MSc. Márcio Heitor Stelmo da Silva que foram essenciais para a conclusão do estudo. Ao Centro de Testagem e Aconselhamento de Barbacena-MG, pelo fornecimento de dados fundamentais para a pesquisa e pela boa recepção e disponibilidade.

 

REFERÊNCIAS

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