ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Acidentes por Animais Peçonhentos no Estado de Minas Gerais
Reported Accidents Involving Venomous Animals in the State of Minas Gerais
Raquel Tôrres Guerra Camilo de Oliveira; Gabriel Figueiredo Miranda; Francisco Costa Araújo Neto; Pedro Simão Nimer; Carlos Eduardo Leal Vidal; Marcio Stelmo da Silva
Faculdade de Medicina de Barbacena. Barbacena, Minas Gerais - Brasil
Endereço para correspondênciaRaquel Tôrres Guerra Camilo de Oliveira
E-mail: raqueltgc.oliv@gmail.com
Resumo
INTRODUÇÃO: Avaliar as tendências dos acidentes envolvendo animais peçonhentos e suas variáveis, através da avaliação da distribuição dos envenenamentos-ano, por macrorregião de saúde, sexo e desfechos de óbito ou cura no estado de Minas Gerais, entre 2010 e 2022.
MÉTODOS: Estudo descritivo das notificações de acidentes com animais peçonhentos, registradas entre 2010 e 2022, através da base de dados on- line no Tabnet do Portal da Vigilância em Saúde da Secretaria do Estado de Minas Gerais.
RESULTADOS: Dos 476.386 acidentes avaliados, acidentes com escorpiões tiveram maior média de casos registrados (21.579). A maioria dos óbitos foi causada por escorpiões (355) e a maior taxa de letalidade foi observada em acidentes com abelhas (0,4%). A cura foi mais prevalente nos acidentes envolvendo abelhas e escorpiões (96,6% em ambos). Foi observado uma incidência maior de acidentes envolvendo o sexo masculino, independente do animal causador. A faixa etária com maior número de acidentes reportados foi a de 15-24 anos (75.558). A maior taxa de incidência acumulada ocorreu na macrorregião Norte (5.668,5) e a menor na Sudeste (1.086,8). A maior taxa de incidência por serpentes e aranhas foi observada na macrorregião Leste do Sul (619,6 e 726,5, respectivamente), por abelhas foi na macrorregião Sul (327,9) e por escorpiões na Norte (4834,7).
CONCLUSÕES: A maior incidência de acidentes com animais peçonhentos envolveu escorpiões, entre as faixas etárias 15-24 anos, com predomínio nas macrorregiões Norte e Nordeste. Os acidentes envolvendo abelhas apresentaram a maior taxa de letalidade e foram mais observados entre as idades de 15 e 24 anos nas macrorregiões Sul e Noroeste. Entre as serpentes e aranhas, observou-se uma prevalência na faixa etária de 45 e 54 anos. Na avaliação geral dos acidentes, observou-se a predominância do sexo masculino. Encontrou-se uma tendência de aumento progressivo dos acidentes entre os anos de 2010 a 2020 e uma tendência decrescente entre os anos de 2020 e 2021.
Palavras-chave: Animais peçonhentos. Acidentes Ofídicos. Venenos de Serpentes. Picadas de Escorpião. Venenos de Aranha. Abelhas.
INTRODUÇÃO
O Brasil possui uma grande biodiversidade de animais e, com isso, acidentes de importância médica são muito comuns. Dentre eles, os que envolvem animais peçonhentos merecem um olhar especial devido à magnitude da morbimortalidade e à capacidade de produzir sequelas temporárias ou permanentes e até mesmo óbitos, principalmente em áreas rurais e campos, constituindo um problema de Saúde Pública.1
Os animais peçonhentos são aqueles capazes de produzir peçonha e a inocular, através de condições naturais, em suas presas ou predadores. Ressalta-se que, nos acidentes, esses animais agem principalmente por instinto de defesa; sendo assim, a maior parte dos agravos observados ocorre por descuido ou imprudência humana. No cenário Brasileiro, observa-se a predominância de ocorrências causadas por serpentes, escorpiões, aranhas e abelhas.2
Em 31 de agosto de 2010 incluído na Lista de Notificação Compulsória (LNC) do Brasil, na publicação da portaria N° 2.472, e no ano de 2017 esse agravo, com enfoque nos acidentes ofídicos, foi incluído formalmente, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na lista de Doenças Tropicais Negligenciadas, devido ao alto número de notificações registradas e devido à tendência de acometer, principalmente, populações vulneráveis, devendo, assim, ser notificados imediatamente após a confirmação.3,4 Essa medida ajuda a traçar estratégias e ações para prevenir esse tipo de acidente, havendo, hoje, um estabelecimento de cotas de soros antiofídicos para as Secretarias Estaduais de Saúde, para distribuição de acordo com a demanda estimada para cada estado.5,6
Os acidentes com animais peçonhentos seguem, apesar da implementação de programas governamentais de controle, com elevada prevalência, estimando uma ocorrência mundial de 1.841.000 casos de envenenamentos anualmente, resultando em uma média de 1,02 óbitos por 100.000 habitantes no ano de 2019.4 No Brasil, no ano de 2019, foram registradas 284.952 notificações de acidentes por animais peçonhentos.5
As análises dos padrões observados em acidentes envolvendo animais peçonhentos são estratégias extremamente úteis para uma análise adequada da maneira em que tais eventos se apresentam na natureza, permitindo verificar se eles exibem progressão, atenuação ou estacionariedade em sua incidência. Ressalta-se a relevância da contemplação do perfil epidemiológico como guia para a implementação de políticas de prevenção dos acidentes e para nortear a produção e distribuição de soros entre as Unidades da Federação (UFs) e suas respectivas Macrorregiões de Saúde e direcionar atenção a determinado grupo de risco ou localidade.7
O território que abrange o estado de Minas Gerais é distribuído entre 14 macrorregiões de saúde, (Sul, Centro-sul, Centro, Jequitinhonha, Oeste, Leste, Sudeste, Norte, Noroeste, Leste do Sul, Nordeste, Triângulo do Sul, Triângulo do Norte e Vale do Aço), instituídas por um Plano Diretor de Regionalização (PDR) a fim de direcionar uma descentralização que proporcione um maior e mais adequado acesso do usuário considerando os princípios da integralidade, equidade e economia de escala. Estas regiões se diferenciam em sua economia, vegetação, grau de desenvolvimento e população. A maior parte da população de cada uma dessas macrorregiões vive em zona urbana, mas o percentual de cada uma delas apresenta grande variação, com Jequitinhonha tendo a maior taxa de população em zona rural (39,54%) e a Centro tendo a menor (4,47%), trazendo um impacto diferente sobre os acidentes estudados.8
Existem poucos estudos de relevância epidemiológica que envolvam a análise dos perfis dos acidentes por animais peçonhentos no Estado de Minas Gerais. Portanto, o presente estudo terá como objetivo analisar as tendências dos acidentes envolvendo abelhas, aranhas, escorpiões, serpentes e suas variáveis, através da avaliação da distribuição dos envenenamentos por ano, macrorregião de saúde, sexo e faixa etária da vítima, tempo entre a picada e o atendimento e desfechos de óbito ou cura no estado de Minas Gerais.
MÉTODOS
Foi realizado um estudo descritivo que utilizou a base de dados on-line do Portal da Vigilância em Saúde da Secretaria do Estado de Minas Gerais (Tabnet), referente às notificações de acidentes com animais peçonhentos no período compreendido entre 2010 a 2022, que tem como principal fonte os registros computados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde sobre acidentes com animais peçonhentos ocorridos no Estado de Minas Gerais.5,9
A ficha do SINAN presente em hospitais para o registro dos acidentes envolvendo animais peçonhentos compreende 64 variáveis, das quais 21 estão disponíveis para análise on-line. Destas variáveis na base de dados on-line, apenas algumas, como tipo do animal causador (abelha, aranha, escorpião ou serpente e suas variáveis botrópico e crotálico), distribuição dos envenenamentos por ano e por macrorregião de notificação, sexo e faixa etária da vítima, tempo entre picada e atendimento e desfechos de óbito ou cura, foram consideradas nesse estudo.5
Foram utilizados os dados de casos registrados dos acidentes causados por serpentes, aranhas, escorpiões, abelhas no período de 2010 a 2022. Os dados coletados foram processados em planilha eletrônica, para confecção de tabelas do tipo linhas por colunas com frequência absoluta e relativa das notificações, letalidade, taxa de incidência acumulada e média.
O Valor total de notificações computadas no período varia conforme a tabela em função da omissão automática de dados não classificados nas variáveis que foram utilizadas na tabela. A taxa de letalidade foi obtida através da divisão do número de óbitos relacionados a determinado tipo de acidente pelo número de casos registrados pelo mesmo tipo de acidente; esse valor foi posteriormente multiplicado por 100 para que o resultado pudesse ser expressado em porcentagem.
RESULTADOS
Durante o período de 2010 a 2022, 476.386 acidentes por animais peçonhentos foram registrados no estado de Minas Gerais a maioria foi acidentes escorpiônicos com 321.216 casos reportados (média de 21.579 casos por ano), seguido de acidentes com aranhas com o total de 47.644 casos (média anual de 3.632 casos), acidentes ofídicos 41.360 casos (média de 3.328 casos/ano) e abelhas 28.182 casos (2.310 casos por ano).
O número mais elevado entre as notificações de acidentes causados por escorpiões foi registrado no ano de 2020 (36.580 casos), o maior valor envolvendo aranhas foi notificado no ano de 2018 (5243 notificações). Para serpentes, o ano de maior notificação foi 2011 (3.959 casos notificados) e para abelhas o ano de 2019 (2.924 casos). O maior número de acidentes ignorados ou em branco (533 casos) foi observado no ano de 2020. (Tabela 1).
A maioria dos óbitos pelo agravo notificado foi causada por escorpiões (total de 355 óbitos em 321.212 casos registrados) seguida por serpentes (total de 125 óbitos), abelha (100 óbitos) e aranha (36 óbitos). Entre as serpentes, observou-se que acidentes botrópicos apresentaram um maior número de notificações (26.944).
A avaliação do percentual da evolução para óbito ou cura em relação ao tipo de acidente reportado, explicitada em gráfico formado a partir dos dados da evolução do caso, em número absoluto, por tipo de acidente envolvendo animal peçonhento, indicou que a maior taxa de letalidade foi observada em abelhas (0,4%,) seguida por serpentes (0,3%). Dentre os acidentes envolvendo serpentes, foi observada uma maior taxa de letalidade em acidentes do tipo crotálico (0.5%), referente à família da Cascavel, identificadas pela presença de guizo ou chocalho na extremidade caudal, quando comparada ao tipo botrópico (0,3%), ocasionados por serpentes da família da Jararaca, Jararacuçu e outros, tipo este com maior número de espécies no Brasil. A maioria das curas foram em acidentes envolvendo abelhas e escorpiões, com a taxa de cura equivalente a 96,6% em ambos. (Tabela 2 e Gráfico 1).
O Valor total de notificações computadas no período varia conforme a tabela em função da omissão automática de dados não classificados nas variáveis que foram utilizadas na tabela.
Em todas as notificações de acidentes com animais peçonhentos, observou-se uma incidência maior em indivíduos do sexo masculino, independente do animal envolvido na situação. Os valores mais discrepantes foram observados em acidentes ofídicos (75,3% dos casos no sexo masculino), enquanto nos acidentes causados por escorpiões (51,8% homens e 48,2% mulheres) e aranhas (59,5% homens e 40,5% mulheres) foi observada menor diferença entre as porcentagens. Os acidentes envolvendo abelhas também foram mais prevalentes no sexo masculino (66,5%). (TABELA 3).
A faixa etária que apresentou o menor número de registros de envenenamentos foi a de <1 ano (6553 casos), já a com maior número foi a de 15-24 anos (total de 75.558 casos). O maior número de registros de envenenamentos por escorpiões foi a de 15 a 24 anos (49.855), assim como em abelhas (5.590), decrescendo nas faixas etárias seguintes. O maior número de notificações por acidentes envolvendo serpentes foi observado na entre as idades de 45 a 54 anos (8.123 notificações), seguido pelas faixas de 35 a 44 anos (7.812) e 25 a 34 anos (6.950). Os acidentes causados por aranhas e serpentes apresentam um padrão crescente no número de notificações do 1º ao 54º ano de idade e decrescem nas faixas etárias seguintes. O maior número de acidentes reportados foi observado nas faixas de 45-54 anos (7.456). Em todos os acidentes reportados, foi observado o padrão de menor taxa de agravos registrados na população de idade inferior a 1 ano. As faixas etárias que apresentaram os maiores números de acidentes não notificados ou em branco foram de 15 a 24 anos (1003), 25 a 34 anos (818) e 35 a 44 anos (663). (Tabela 4).
A taxa de incidência acumulada de notificações por 100.000 habitantes nas macrorregiões de Minas Gerais é um parâmetro para a avaliação do risco para a população. Na região Centro Sul, foi observado um risco populacional maior para o envenenamento por aranhas, enquanto nas demais macrorregiões por escorpião. No período avaliado pelo estudo observou-se que maior taxa de incidência acumulada ocorreu na região Norte (5668,5), principalmente devido a acidentes por escorpião (4834,7), seguida da região Nordeste (4937,1) também devido, principalmente, a acidentes escorpiônicos (4142,4). A menor taxa de incidência acumulada ocorreu na região Sudeste (1086,9). Em relação aos acidentes por serpentes, as macrorregiões com maiores taxas de incidência acumulada foram a Leste do Sul (619,6) e a Nordeste (538,4). Nos acidentes envolvendo aranhas, as regiões Leste do Sul (726,5) e Sul (509,4) apresentaram as maiores taxas de incidência acumulada de notificações. Por último, analisando a taxas de incidência acumulada de acidentes por abelhas, as regiões com maior número de notificações por 100.000 habitantes foram a Sul (327,9) e a Noroeste (256,1). As regiões que apresentaram os maiores números de acidentes ignorados ou em branco foram Norte (50,7) e Jequitinhonha (49,0) enquanto o menor número de agravos ignorados ou em branco foi observado nas macrorregiões do Vale do Aço (12,2) e Triangulo do Norte (12,3). (Tabela 5).
DISCUSSÃO
O presente estudo avaliou acidentes com animais peçonhentos registrados no período de 2010 a 2022. Foi notificado um total de 476.386 acidentes por animais peçonhentos no estado de Minas Gerais.
Inicialmente, foi traçado o padrão de crescimento ou redução do número de notificações. Ao se analisar o comportamento temporal do agravo, encontrou- se uma tendência crescente entre os anos de 2010 a 2020, respeitando o padrão esperado observado por outros estudos realizados em territórios de Minas Gerais.10 Encontrou-se, porém, uma tendência decrescente entre os anos de 2020 (50.854 acidentes reportados) e 2021 (45.946), essa graduação diferiu da tendência à estabilidade observada por Nunes et. al no período de 1993 a 1996 na cidade de Belo Horizonte.10 Em nosso estudo o período de avaliação abrangeu a pandemia de COVID-19, declarada pela OMS no período de 11 e marco de 2020 a 5 de maio de 2023.11,12 Sugere-se que a diminuição dos casos de acidentes com animais peçonhentos registrados nesse período pode ser devido à política de isolamento social e ao maior cuidado apresentado pela população com a limpeza doméstica e menor deslocamento no meio externo.13 Além disso, a provável sobrecarga dos profissionais de saúde durante a pandemia do SARS-CoV-2 e a ineficiência no preenchimento da ficha de notificação do SINAN, pode justificar o número elevado de acidentes ignorados ou em branco (533 casos) também observado no ano de 2020.14
A maioria dos casos registrados nos anos observados equivale a acidentes escorpiônicos, que representam 321.216 dos agravos reportados, com uma média de 21.579 casos por ano, um valor muito superior ao observado em acidentes envolvendo abelhas (média 3.632 casos ao ano). Essa discrepância na frequência pode estar relacionada ao fato de o acidente ser prevalente tanto em áreas rurais quanto urbanas e à possível associação do ambiente domiciliar como local de risco para picadas de escorpiões. A influência da expansão urbana desordenada e do acúmulo de entulhos e lixos podem ser facilitadores da inserção desses animais no meio urbano, fatores importantes a serem considerados atualmente, pois esses acidentes apresentam tendência de crescimento em todo o território brasileiro. Os acidentes com aranhas, com 47.644 casos, ocuparam o segundo lugar entre os maiores números reportados (média anual de 3.632 casos reportados, padrão divergente do observado por Souza et. al., 2022.7
A literatura é mais escassa em relação à associação entre a ocorrência de acidentes com animais peçonhentos em relação ao sexo, faixa etária e macrorregião de saúde. Estudo realizado por Silva et. al em 2015, que comparou o perfil de acidentes com animais peçonhentos no Brasil por sexo e idade, observou maior prevalência do sexo masculino em agravos envolvendo serpentes enquanto em acidentes com escorpiões e aranhas observou-se pouca diferença na frequência entre os dois sexos. Esses dados se assemelham ao notado no presente estudo, sugerindo uma possível associação com a maior atividade masculina nos campos, local de ocorrência da maior parte dos casos de ofidismo, e da presença dos aracnídeos e escorpiões em áreas urbanas e domicílios.15
A avaliação do percentual da evolução para óbito ou cura em relação ao tipo de acidente reportado, indicou que a maior taxa de letalidade foi causada por abelhas, seguida de serpentes, padrão que difere de estudo realizado com dados nacionais no período de 2007 a 2019, que observou maior letalidade relacionada ao ofidismo no país.7 Entre os 5 principais tipos de acidentes por animais peçonhentos (Abelhas, Aranhas, Escorpiões, Lagartas e Serpentes) o acidente por abelhas é o único que não possui um soro específico para o tratamento no Brasil, o que pode ser fator de influência na maior taxa de letalidade observada.16
A maioria das curas foram em acidentes envolvendo abelhas e escorpiões, com a taxa equivalente a 96,6% em ambos, o que pode estar relacionado ao alto número de subnotificações observados no estudo quanto a cura envolvendo os outros tipos de animais. O fato dos acidentes envolvendo abelhas apresentarem tanto a maior letalidade quanto a maior prevalência de evoluções para a cura é devido ao número de notificações ignoradas/branco ter sido menor (3,1%) entre todos os tipos de acidente, dando números mais fidedignos sobre a real evolução dos acidentes.
No Brasil, estima-se a existência de aproximadamente 250 espécies de serpentes, das quais cerca de 70 são consideradas peçonhentas.17 Dentre esses animais, observa-se a predominância de acidentes envolvendo o gênero Bothrops (família da Jararaca e Jararacuçu e outros) e Crotalus (Cascavel), que, devido a tal predominância receberam enfoque no presente estudo. Os acidentes do gênero Lachesis (Surucucu) e Micrurus (Coral) são considerados raros.18 Dentre os acidentes envolvendo serpentes, foi observada uma letalidade maior em acidentes do tipo crotálico quando comparada a taxa de óbito por serpentes do tipo botrópico. As serpentes do tipo crotálico (cascavéis) tem a insuficiência renal aguda como complicação principal, apesar da maioria dos acidentes ofídicos apresentar letalidade geral muito baixa (0,3%), o tempo entre o acidente e o atendimento e a idade do indivíduo acometido podem favorecer complicações e elevar esse valor em até 8 vezes.19,20
Considerando o total de casos notificados, foi observado um elevado número de cura (456.866) em detrimento do número de óbitos pelo agravo notificado (646). A alta taxa de cura constatada relaciona-se, então, com a capacidade brasileira em produzir soros específicos, o país é referência mundial nesse aspecto e possui institutos especializados como a Fundação Ezequiel Dias no estado de Minas Gerais e o Butantan em São Paulo. Outro fator que colabora para o alto número de curas é a distribuição a nível nacional do Sistema Único de Saúde que verifica a necessidade de cada localidade conforme o registro no SINAN.21
Em todas as notificações de acidentes com animais peçonhentos, observou-se uma incidência maior em indivíduos do sexo masculino, independente do animal envolvido na situação. A maior prevalência foi observada em acidentes ofídicos (75,3% dos casos no sexo masculino) e em indivíduos na faixa etária de 15 a 54 anos assim como em estudo realizado por Silva et. al em 2015 que demonstrou a mesma relação entre o sexo masculino e a idade economicamente ativa, sugerindo risco ocupacional relacionado a atividades rurais.15 Os acidentes com abelhas ocorrem predominantemente na zona urbana levando a uma situação epidemiológica na qual há pouca discrepância na incidência entre homens e mulheres, mas ainda com uma predominância no sexo masculino (66,5% dos casos) que sugere que homens exibem um maior comportamento e risco, se sujeitando a situações reportadas como indevidas como a remoção das colônias de abelhas em lugares públicos ou residências sem equipamento ou treinamento adequado, uso de sons de motores de aparelhos de jardinagem, por exemplo, exercem extrema irritação em abelhas e, no campo, pouca atenção à presença de abelhas, principalmente no momento de arar a terra com tratores.16
Assim como em estudo realizado em 2019 por Carmo et. al, observou-se um padrão homogêneo de distribuição dos envenenamentos por escorpiões entre as faixas de 15 aos 44 anos, faixa etária considerada economicamente ativa. É relevante enfatizar que a maioria dos casos graves de acidentes escopiônicos ocorre em crianças.22,23
Os acidentes causados por aranhas apresentam um padrão crescente no número de notificações do 1º ao 54º ano de idade. A maior concentração de casos reportados foi entre as faixas de 45 a 54 anos, fatos que devem estar relacionados às atividades domésticas, como a limpeza da casa e o ato da lavagem de roupas, e ao manuseio de entulho e materiais de construção.10,24
Ademais, foi notado o mesmo padrão crescente de notificações nos acidentes envolvendo serpentes, com valores mais elevados entre as idades de 25 a 54 anos e predomínio em indivíduos no sexo masculino. Tal achado demonstra o ofidísimo como problema de saúde ocupacional, por afetar, principalmente, indivíduos que se encontram em faixa etária produtiva. Esses acidentes podem estar sendo causados pela participação do homem nas atividades agrícolas já que acidentes com serpentes apresentaram sua maior taxa de incidência acumulada na macrorregião Leste do Sul, que contempla municípios que têm suas economias voltadas para a agricultura e a pecuária como as cidades de Manhuaçu e Viçosa.
Os acidentes com abelhas, têm o maior índice de letalidade registrado e apresentaram um maior número de registros entre as idades de 15 a 24 anos (5.590), apontando a população jovem como a de maior risco de morte por abelha.
Ao analisarmos o risco coletivo de sofrer acidentes com animais peçonhentos nas respectivas macrorregiões de saúde, através da taxa de incidência acumulada, observou-se que houve um risco populacional geral maior para o envenenamento por escorpiões.
Em relação aos acidentes por serpentes, as macrorregiões com maiores taxas de incidência acumulada foram a Leste do Sul (619,6) e a Nordeste (538,4), regiões com economia voltada para a agropecuária e vegetação típica de mata atlântica. Nos acidentes envolvendo aranhas, as regiões Leste do Sul e Sul apresentaram as maiores taxas de incidência acumulada de notificações. Analisando as taxas de incidência acumulada de acidentes por abelhas, as regiões com maior número de notificações por 100.000 habitantes foram as Sul e Noroeste, que englobam cidades com economia voltada para o cultivo e exportação do café, forte atrativo para os polinizadores.
Por último, no período avaliado, notou-se que a maior taxa de incidência acumulada ocorreu na macrorregião Norte (Montes Claros), principalmente devido a acidentes por escorpião (4.834,7), seguida da região Nordeste (Teófilo Otoni) também devido, principalmente, a acidentes escorpiônicos (4.142,4), padrão condizente com dados reportados por Melo et. al, em 2023.23 Dentre os fatores que podem estar contribuindo com os valores mais elevados da taxa de incidência acumulada nas macrorregiões citadas, destaca-se a economia das cidades englobadas (como o exemplo do cultivo do café na macrorregião Sul), a vegetação, clima e histórico de dispersão desses animais.25
O número de estudos sobre o tema é limitado, sendo necessário maiores investigações das causas, características e consequências dos acidentes por animais peçonhentos com o intuito de melhorar as políticas de prevenção e promoção da saúde nesse âmbito. Além disso, é importante sempre estar atualizando as informações sobre esses agravos para que as políticas governamentais de prevenção de acidentes, preparação profissional e distribuição de insumos estejam de acordo com o perfil epidemiológico de cada macrorregião de saúde do estado.
Quanto às limitações deste estudo, destaca-se a escassez de pesquisas semelhantes realizadas no estado de Minas Gerais como fator que comprometeu a comparabilidade dos resultados. Ademais, pode ser ressaltada a utilização de dados secundários, que possui como principal desvantagem metodológica o subregistro de informações e/ou subnotificação de casos; observa-se na avaliação dos dados que muitos são ignorados ou em branco. O fato de os dados terem sido obtidos de um instrumento preenchido por diferentes profissionais (a ficha de investigação de acidentes por animais peçonhentos do SINAN), com possíveis divergências na sua interpretação, pode ter gerado viés de informação.
Contudo, apesar dessas limitações, a realização de estudos com base nessa fonte de dados é de extrema importância, uma vez que não há outros meios de medir a magnitude do problema e nem outros sistemas nacionais que possibilitem a comparação desses achados.21
CONCLUSÃO
No presente estudo, a maior incidência de acidentes com animais peçonhentos envolveu escorpiões, entre as faixas etárias (15-24 anos), com predomínio nas macrorregiões de saúde Norte e Nordeste. Os acidentes envolvendo abelhas apresentaram a maior taxa de letalidade e foram mais observados entre as idades de 15 e 24 anos nas macrorregiões Sul e Noroeste. Entre as serpentes e aranhas, observou-se uma prevalência na faixa etária compreendida entre 45 e 54 anos.
Na avaliação geral dos acidentes, observou-se a predominância do sexo masculino entre os indivíduos envolvidos.
Ao se analisar o comportamento temporal do agravo, encontrou-se uma tendência crescente entre os anos de 2010 a 2020 e uma flutuação entre os anos de 2020 a 2022, podendo ser explicado por se tratar de período que abrange a pandemia do COVID-19, mas que não extrapola o valor total de notificações desses agravos observado no período anterior.
Portanto, o presente trabalho traz potenciais benefícios ao evidenciar o perfil epidemiológico das diversas macrorregiões de saúde de Minas Gerais e, assim, melhorar as políticas públicas de combate e prevenção de acidentes com animais peçonhentos, além de servir de base para controle do nível de adesão ao processo de Notificação Compulsória necessário.
AGRADECIMENTOS
À minha mãe, Sandra, exemplo de mulher e médica, pela sorte de nascer seguindo seus passos.
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