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CAPES/Qualis: B2
Impacto do rastreamento do gene ret na abordagem de uma família com neoplasia endócrina múltipla tipo IIA
The impact of ret gene mutations screening in the management of a family with multiple endocrine neoplasia type IIA
Elizabete Rosária de Miranda1; Paôlla Freitas Perdigão2; Maria Marta Sarquis Soares3; Luiz Armando Cunha de Marco4
1. Mestre e Professora substituta do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
2. Doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais
3. Doutora e Professora Adjunta do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
4. Doutor e Professor Titular da Universidade Federal de Minas Gerais)
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Resumo
INTRODUÇÃO: A neoplasia endócrina múltipla tipo IIA (NEM IIA) é uma doença familial com padrão de herança autossômico dominante, expressão clínica variável e se caracteriza pela presença do carcinoma medular da tireóide, feocromocitoma e hiperparatireoidismo. Há 12 anos, mutações no gene RET foram identificadas como responsáveis pela NEM IIA. Esse gene codifica um receptor de membrana da família das tirosina-quinases, associado à proliferação e diferenciação celulares, sendo expresso nas células derivadas do neuroectoderma (células C parafoliculares e da medula adrenal), bem como nas paratireóides.
OBJETIVO: Estudar uma família com NEM IIA (quatro gerações), através do caso índice que apresentava carcinoma medular da tireóide e hiperparatireoidismo.
MÉTODO: Foram analisados o heredograma e a expressão fenotípica de 20 membros da família, bem como o seqüenciamento do gene RET (exon 11).
RESULTADOS: Cinco indivíduos apresentavam carcinoma medular da tireóide, tendo um deles também hiperparatireoidismo (caso-índice). O feocromocitoma não foi identificado. O estudo molecular do gene RET em 17 indivíduos revelou a presença da mutação Cys634Tyr no códon 634 nos cinco indivíduos com carcinoma medular da tireóide e em cinco indivíduos sem este diagnóstico (portadores).
CONCLUSÕES: O estudo clínico e molecular desta família permitiu a identificação dos indivíduos em risco de desenvolver o carcinoma medular da tireóide, uma doença potencialmente letal, bem como a adequada orientação e aconselhamento genético desses pacientes.
Palavras-chave: Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2 a/genética; Carcinoma Medular/prevenção e controle; Hiperparatireoidismo
INTRODUÇÃO
A neoplasia endócrina múltipla tipo IIA (NEM IIA) é uma doença complexa que se caracteriza por carcinoma medular da tireóide (CMT) em 95% a 100% dos casos, feocromocitoma em 30-50%, e hiperparatireoidismo em 10-20%. É transmitida por um padrão de herança autossômico dominante com elevada penetrância e expressividade clínica variável1,2,3,4 .
O CMT origina-se das células C parafoliculares que são derivadas do neuroectoderma e que produzem calcitonina. É a única apresentação clínica da NEM IIA com característica de malignidade. Seu diagnóstico pode ser feito através do aumento dos níveis plasmáticos de calcitonina, mas a identificação de mutações no gene RET, disponível há cerca de 12 anos, é capaz de antever o aparecimento do CMT e auxiliar o tratamento desses indivíduos, uma vez que a mutação desse gene determina, em quase 100% dos casos, o aparecimento dessa doença potencialmente fatal.
O feocromocitoma é a segunda manifestação fenotípica mais comum e acomete as células medulares da adrenal, também derivadas no neuroectoderma.5,6,7 Pode ser unilateral ou bilateral e apresenta uma taxa de malignidade inferior a 10%6,7,8,9. Seu diagnóstico é feito por meio da dosagem de catecolaminas e metanefrinas plasmáticas ou urinárias que geralmente estão aumentadas. A investigação clínica e a retirada cirúrgica devem anteceder a tireoidectomia profilática.11 O diagnóstico do hiperparatireoidismo pode ser feito através da dosagem plasmática do cálcio e do hormônio da paratireóide (PTH) que devem estar aumentados.
Mutações missense, ou seja, a troca de uma única base que acarreta a mudança de um aminoácido, no proto-oncogene RET (Rearranged after Transfection), constituem a base genética da NEM tipo IIA.12
O proto-oncogene RET, localiza-se no cromossomo 10 (10q11.2) e codifica um receptor de membrana da família das tirosina-quinases, associado à proliferação e diferenciação celulares.13 Mutações missense no proto-oncogene RET (gene potencialmente oncogênico) determinam a transcrição de um receptor (receptor RET) permanentemente ativo sem a presença do ligante natural, ocasionando a proliferação e diferenciação celulares desordenadas.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
Caso Clínico
A família investigada foi identificada a partir de uma paciente de 31 anos (III-8), que apresentou litíase renal com aumento do nível plasmático de cálcio e de PTH. Durante a cirurgia para a retirada de uma das paratireóides, o cirurgião notou a presença de nódulos na tireóide, que foram também retirados e enviados ao serviço de anatomia patológica.A peça operatória mostrou tratar-se de provável CMT. Um segundo tempo operatório para a totalização da tireoidectomia confirmou o achado de CMT, com o estudo imunohistoquímico positivo para calcitonina. A identificação desta paciente levou ao conhecimento de dois outros familiares de primeiro grau (II-3 e III-3) que já tinham o diagnóstico de CMT há três anos. Decidimos, então, pela visita ao grupo familiar.
Todos os membros da família foram entrevistados individualmente e orientados sobre a importância do diagnóstico clínico e laboratorial das enfermidades que compõem a NEM tipo IIA. Também foram esclarecidos a respeito da causa da NEM IIA, incluindo o significado do gene RET e suas mutações. Foram informados sobre as características de hereditariedade da NEM tipo IIA e o significado do encontro ou não de mutações neste gene.
Em duas pacientes (III-4 e III-13) fizemos o diagnóstico de CMT, antes mesmo do rastreamento do gene RET, através da análise de dados clínicos e presença de nódulos na tireóide. Realizamos a punção biópsia de agulha fina (P.A.A.F) destes nódulos, que confirmou nossa suspeita de CMT. O estudo da peça operatória da tireoidectomia reafirmou o achado da P.A.A.F.
Foi colhida uma amostra de sangue periférico daqueles pacientes que assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. O material colhido foi enviado para o Laboratório de Biologia Molecular do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde foram processadas as etapas de extração do DNA de leucócito e a purificação do DNA extraído, usando-se o WIZARD® GENOMIC DNA PURIFICATION KIT (PROMEGA WI), conforme orientação do fabricante. Seguiram-se as etapas de reação em cadeia da polimerase (PCR)14 e o seqüenciamento genético para a busca de mutações no gene RET (exon 11).
O estudo teve aprovação dos comitês de ética da Fundação Hospitalar Mário Penna e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da UFMG, bem como do Departamento de Extensão e Pesquisa (DEPE) do Hospital das Clínicas da UFMG.
RESULTADOS
O contato com as três pacientes inicialmente investigadas e as várias visitas domiciliares permitiram a construção do heredograma (Figura 1).
Identificamos neste grupo familiar a presença de 20 indivíduos (em quatro gerações diferentes), sendo 15 adultos e cinco crianças. Três indivíduos não quiseram participar desta investigação, embora tenham sido exaustivamente esclarecidos sobre a importância da pesquisa clínica e laboratorial das manifestações da NEM tipo IIA, bem como do rastreamento de mutações no gene RET (Tabela 1).

Realizamos a investigação laboratorial para a pesquisa de hiperparatireoidismo nos pacientes com CMT (II-3, III-3, III-4, III-8 e III-13) e em um paciente portador da mutação Cys634Tyr (III-12). Somente a paciente III-8 (caso-índice) apresentou um aumento significativo do cálcio total plasmático, acompanhado de um aumento do paratormônio (PTH), podendo ser considerada positiva a presença deste fenótipo. O paciente III-12 apresentou o valor do cálcio plasmático no limite superior da normalidade (11mg/dl), entretanto o PTH esteve surpreendentemente baixo (1pg/ml) (Tabela 2).

A investigação laboratorial para a identificação de feocromocitoma foi realizada em quatro dos cinco pacientes com CMT (III-3, III-4, III-8, III-13) e em um paciente portador da mutação Cys634Tyr (III-12). Nenhum desses pacientes apresentou uma excreção urinária aumentada de catecolaminas e metanefrinas, o que nos permitiu dizer que este fenótipo não esteve presente nesses indivíduos. Não investigamos a presença do feocromocitoma nos indivíduos II-3; III-5; IV-1 e IV-5 porque não conseguimos uma coleta adequada da amostra de urina de 24 horas (Tabela 3).

O rastreamento de mutações no gene RET foi realizado em todos os 17 pacientes que permitiram sua inclusão na investigação. Em 10 indivíduos, cinco deles já com o diagnóstico de CMT (II-3, III-3, III-4, III-8, III-13) e cinco assintomáticos (II-10, III-5, III-12, IV-1, IV-5), identificamos a mutação Cys634Tyr no exon 11, códon 634. Entre os pacientes assintomáticos (portadores), cinco eram crianças, com idade inferior a 12 anos (Tabela 4).

Nos pacientes II-9 e III-2 (inconclusivos) não houve definição da presença ou não da mutação.
No rastreamento do gene RET encontramos a sobreposição da base guanina (G) e adenina (A), apontada pela seta (Figura 2), no codon 634, exon 11, que nos informa a presença da mutação Cys634Tyr.

DISCUSSÃO
Aspectos Clínicos
A identificação do caso índice (III-8) e de seus familiares com CMT (II-3 e III-3) foi de fundamental importância para a busca dos pacientes em risco de apresentarem os fenótipos da NEM tipo IIA. O contato com os membros da família ofereceu a oportunidade de esclarecê-los sobre a NEM tipo IIA, a sua característica de hereditariedade e risco que cada indivíduo apresentava para o aparecimento de um dos fenótipos desta síndrome, bem como a necessidade de investigação laboratorial das doenças presentes na NEM tipo IIA. Os indivíduos também foram esclarecidos sobre o gene RET e o significado de suas mutações. Apenas três indivíduos se recusaram a participar do estudo (II-8, III-7 e III-11). O CMT esteve presente nas três gerações investigadas, seguindo o padrão de hereditariedade autossômico dominante dessa síndrome.3 Nas pacientes III-4 e III-13, o diagnóstico clínico do CMT, antecedeu o estudo molecular do gene RET.
O hiperparatireoidismo foi investigado em todos os pacientes com CMT (II-3, III-3, III-4, III-8 e III-13), sendo visto apenas no caso índice (III-8). Um dos pacientes apresentou, em uma ocasião, calcemia elevada, o que poderia ser decorrente de interferências, tais como garroteamento prolongado, desidratação e uso de alguma medicação. Essa dosagem foi, portanto, considerada inconclusiva, mas o paciente se negou a fazer nova coleta . Até o momento, o feocromocitoma foi descartado, clínica e laboratorialmente, entre os indivíduos com CMT investigados.
Aspectos moleculares
No seqüenciamento do gene RET dos dezessete indivíduos investigados, detectamos a troca de uma base nitrogenada no exon 11, em um dos alelos, a guanina (G), no códon 634 por adenina (A), no caso índice (III-8) e nos outros quatro membros com CMT (II-3, III-3, III-4 e III-13). Cinco indivíduos assintomáticos (II-10, III-5, III-12, IV-1 e IV-5) também apresentaram esta mutação. A mutação encontrada nesta família parece ser uma mutação freqüente nas famílias brasileiras com NEM tipo IIA15.
O Consenso Internacional de Diretrizes para o acompanhamento dos pacientes com NEM tipo IIA7 classifica as mutações do gene RET em três níveis de risco para o desenvolvimento do CMT: muito alto risco, alto risco e baixo risco. A mutação Cys634Tyr encontrada nos membros dessa família é classificada como de alto risco para o desenvolvimento do carcinoma medular da tireóide. Portanto esse consenso aconselha que os pacientes com tipo IIA, portadores dessa mutação, devam ser submetidos a tireoidectomia profilática, antes dos cinco anos de vida.
Para os pacientes portadores da mutação propusemos a tireoidectomia total. Os pacientes nos quais não encontramos a mutação Cys634Tyr (III-1, III-10, IV-2, IV-3 e IV-4) não necessitam de acompanhamento adicional porque nem eles nem seus descendentes têm risco para a NEM IIA, além do habitual encontrado na população.
Correlação fenótipo-genótipo
Segundo o estudo de Mulligan et al.7 , a mutação encontrada nessa família normalmente se correlaciona, além do CMT, com maior risco de desenvolvimento de feocromocitoma, mas não de hiperparatireoidismo. Encontramos 100% de correspondência entre o fenótipo CMT e o genótipo (ou seja, presença da mutação Cys634Tyr). No entanto, nem todos os pacientes portadores da mutação Cys634Tyr apresentavam o CMT, o que significa que o diagnóstico molecular pode anteceder o clínico. Como a penetrância do CMT na NEM tipo IIA é próxima de 100%7,8, pacientes assintomáticos e com a mutação Cys634Tyr devem ser submetidos à tireoidectomia total profilática, mesmo que não se encontrem nódulos tireoidianos, o que preveniria o aparecimento desta doença potencialmente letal.
A mutação encontrada nesses pacientes está freqüentemente associada ao fenótipo feocromocitoma5, embora este não tenha sido, até o momento, diagnosticado nos membros dessa família, provavelmente devido à faixa etária dos pacientes O aparecimento dessa doença, no entanto, deverá ser monitorado pelo menos anualmente. Quanto à predisposição para o desenvolvimento do hiperparatireoidismo, sabe-se que essa mutação não está freqüentemente associado a esse fenótipo16, apesar de ter sido encontrado um caso confirmado (III-8), o que também faz requerer nesta família o acompanhamento periódico da calcemia naqueles indivíduos portadores da mutação.
Como a NEM tipo IIA é uma doença familial de padrão de herança autossômico dominante que apresenta manifestações clínicas de grande impacto na sobrevida do indivíduo, como o CMT, e que tem alta penetrância na sua expressão clínica, entendemos que o rastreamento de mutações no gene RET nessas famílias seja a única maneira eficiente, até o momento, para a identificação precoce dos indivíduos em risco para esse fenótipo. Dessa maneira, identificamos nessa família cinco pacientes portadores assintomáticos para o CMT (sendo duas crianças) que seguramente se beneficiariam da tireoidectomia profilática. Além disso, a investigação nos permitiu esclarecer, aos indivíduos da família a causa da NEM tipo IIA, incluindo o significado do gene RET e suas mutações, as características de sua hereditariedade e o significado do encontro ou não de mutações. Assim, pudemos realizar o aconselhamento genético aos pacientes portadores e a tranqüilização dos não-portadores da mutação.
Agradecimentos
Agradecemos ao Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e ao Laboratório de Análises Clínicas da Fundação Hospitalar Mário Penna, que viabilizaram a tireoidectomia em alguns dos pacientes da família estudada, bem como as dosagens bioquímicas para a pesquisa de hiperparatireoidismo e feocromocitoma, sem quaisquer ônus.
Agradecemos também ao PRONEX pelo financiamento desta investigação e à Coordenação e Aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo auxílio como bolsa de estudo para a autora Elizabete Rosária de Miranda.
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