RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26 e1819 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160119

Voltar ao Sumário

Artigo Original

Representações sobre o uso de esteroides anabólico-androgênicos em grupo de homens praticantes de musculação na cidade de Belo Horizonte

Representations about the use of anabolic-androgenic steroids among male weight training practitioners in the city of Belo Horizonte

Fernando Vitor Lima1; Rui Proença Garcia2

1. Profissional de Educaçao Física. Doutor em Ciência do Desporto. Universidade do Porto; Professor Adjunto da Escola de Educaçao Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
2. Profissional de Educaçao Física. Doutor em Ciência do Desporto. Professor Catedrático da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto, Porto, Portugal

Endereço para correspondência

Fernando Vitor Lima
E-mail: fernandolimanet@netscape.net

Recebido em: 23/09/2015.
Aprovado em: 15/12/2016.

Instituiçao: UFMG Escola de Educaçao Física. Av. Antônio Carlos, 6627, Campus Pampulha, Belo Horizonte, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: Esteroides anabólico-androgênicos (EAA) vêm sendo utilizados de maneira crescente associados ao treinamento musculação visando objetivos estéticos e de desenvolvimento da força muscular.
OBJETIVO: Este estudo objetivou investigar em um grupo de homens praticantes de musculação as informações circulantes sobre o uso dos EAA.
MATERIAIS E MÉTODOS: Foi realizado um procedimento etnográfico, por meio de entrevista semiestruturada, organizada em três categorias, que buscava identificar os conhecimentos dos participantes sobre os EAA, como acessam a tais conhecimentos e quem seriam as referências pessoais detentoras de tais conhecimentos. Participaram 12 praticantes de musculação em academias das regioes sul e central de Belo Horizonte. A análise buscou identificar as representações sobre estas drogas no contexto do treinamento muscular.
RESULTADOS: As respostas mostraram que os anabolizantes são entendidos como aceleradores da hipertrofia muscular e as informações que sustentam o uso estao localizadas em diferentes fontes, sendo manipuladas de acordo com representações sobre a interferência da droga no treinamento e seus efeitos no organismo. Médicos e praticantes de musculação experientes no uso foram mencionados como mediadores para a disseminação destas informações. Percebeu-se a utilização do saber científico (re)elaborado a partir das representações referentes ao processo de treinamento e uso dos EAA.
CONCLUSÃO: Os depoimentos coletados permitem inferir que o uso dos EAA deve ser analisado além das teorias científicas ancoradas em saberes médicos, sendo importante considerar também como aqueles que fazem uso dessas teorias (nesse caso, os praticantes de musculação) as representam em seus cotidianos de treinamento e envolvimento direto com elas.

Palavras-chave: Anabolizantes; Treinamento de Resistência; Comunicação.

 

INTRODUÇÃO E LITERATURA

Segundo Courtine,1 especialmente na década de 80 do século 20, tudo que estivesse relacionado à intervenção no corpo e no exercício apresentou uma onda de crescimento significativa no mercado. Nesse contexto a prática da musculação veio se direcionando cada vez mais para a busca da hipertrofia muscular e o músculo se tornou o símbolo produzido nas academias de musculação. Segundo Pope,2 descrevendo este fenômeno, parece haver uma mensagem no mercado dizendo que "se você é homem de verdade, deve parecer maior e melhor do que você é".

O treinamento na musculação, quando realizado de maneira adequada, conduz ao desenvolvimento da hipertrofia e da força muscular.3 Porém, existem limites para que os programas de treinamento possam produzir tais resultados. O confrontamento dessas limitações com a busca ansiosa pelo desenvolvimento da musculatura em níveis cada vez mais elevados pode disparar uma procura por informações relativas a outras possibilidades. O uso de esteroides anabólico- androgênicos (EAA) vem sendo uma destas principais possibilidades.

Os EAA são drogas utilizadas como coadjuvantes para o tratamento de algumas doenças como anemia, osteoporose, hipogonadismo, entre outras,4,5 e o seu uso inadequado pode aumentar o risco do surgimento de reações adversas como a redução da função sexual, acne, agressividade, ginecomastia, neoplasias.5

O uso de EAA está disseminado entre praticantes de musculação e uma das suas principais razoes é o aprimoramento da aparência física,6,7 entendido como o aumento da massa muscular e redução da gordura corporal. As experiências de uso dos EAA são compartilhadas entre estes indivíduos que buscam referência em registros impressos, virtuais ou de comunicação pessoal.

Na percepção de Kutscher et al.,8 os prováveis especialistas em EAA nos esportes não seriam os médicos, "mas atletas que distribuem sua experiência anedótica com EAA como dogma a qualquer um que queira ouvir". Até a década de 1970, o uso destas drogas estava essencialmente restrito a atletas e fisiculturistas de elite, sendo que a partir dos anos de 1980 houve sua difusão para outros setores da sociedade, intermediada por literatura dedicada a estimular o uso e orientar a autoprescrição.9

Além disto, a Internet provém meio no qual ampla rede de supostos especialistas disseminam informações sobre o uso e oportunidades de sua compra e venda ilegal.10 Sendo assim, existe um conjunto de informações circulando livremente sobre as relações entre os diferentes EAA, as dosagens e seus efeitos no organismo que vem sendo acessadas e disseminadas entre praticantes de musculação.

Este cenário parece refletir a abordagem de Hoberman,11 que destaca que cada vez mais se desenvolvem novas drogas e novos usos para elas, usos que podem ser definidos e até tornados obrigatórios de acordo com o desejo de certos grupos sociais, neste caso, os praticantes de musculação. Esse processo pode ser analisado considerando as representações sociais que permeiam estes grupos, uma vez que o entendimento das representações remete à maneira como as pessoas se relacionam entre si e com o mundo ao seu redor e o dotam de significados. As representações permitem que as pessoas emprestem sentido à existência de algo, ou seja, que elas tomem consciência da existência de alguma coisa, modificando a sua forma de ver, sentir e pensar.12

Em determinados grupos, o desenvolvimento de um conjunto de representações acerca das drogas e da aparência muscular vem lançando um olhar positivo na perspectiva de que músculos devem ser hipertrofiados - e esse deve ser um objetivo pessoal - assim como o fato de que certas drogas (nesse caso, os EAA) encontram espaço nesse processo. Isso vem sendo demonstrado por diferentes autores que investigaram essa relação músculo - EAA - treinamento.13-19 Dessa forma, deve-se compreender a rede de representações associadas ao treinamento na musculação, aos anabolizantes e às informações que os circundam na direção de justificar a busca por estes resultados físicos mediados pelo seu uso.

Percebe-se que há o desenvolvimento de informações sobre o monitoramento e controle do treinamento na musculação e a apreciação dos resultados musculares, bem como sobre os mecanismos de ação e controle do uso dos EAA. Porém, as possibilidades reais de conhecer e controlar o seu uso nas dosagens necessárias ao rápido e acentuado processo de hipertrofia da musculatura necessitam de análise abrangente e detalhada, considerando não somente o campo das ciências médicas, mas também outros, relacionados ao envolvimento do indivíduo com "o que está tomando.".

Outra referência de discussão está inserida na perfusão do conhecimento e dos objetos por meio da rede de "multicondutores", ou seja, indivíduos que podem "largar, transferir, defletir, modificar, ignorar ou deturpar as alegações que precisem de nossa ajuda parar se disseminar e durar."20 Vale ressaltar ainda que, para vários indivíduos, o uso de EAA é quase uma condição prévia para a realização do treinamento e a falta desta ajuda química pode significar a perda do prazer na prática.21

Considerando-se que os EAA vêm sendo utilizados associados à prática da musculação e que este uso está ancorado em conjunto de informações disseminadas nesse meio, esta pesquisa buscou investigar, através de entrevistas semiestruturadas com grupo de praticantes de musculação que informações são essas; buscou também entender como essas informações vêm se legitimando e disseminando nesse meio.

 

CASUISTICA E MÉTODOS

Esta investigação foi realizada em praticantes de musculação na cidade de Belo Horizonte, e desenvolvida com o uso de metodologia qualitativa etnográfica, na medida em que buscou explorar um cenário social ou cultural.22 Procedimentos etnográficos incluem, dentre diferentes possibilidades, a entrevista semiestruturada.

O objetivo foi investigar os saberes circulantes sobre os anabolizantes entre praticantes de musculação. Os conteúdos foram abordados a partir de um diálogo que buscou a aproximação entre pesquisador e sujeito da pesquisa, uma vez que uma entrevista dessa natureza envolve uma forma de interação social complexa. A partir desse primeiro momento, desenvolveu-se a entrevista "propriamente dita", ou seja, a abordagem do assunto de interesse da pesquisa.

As informações foram coletadas na cidade de Belo Horizonte com 12 praticantes de musculação, com idades entre 21 e 48 anos. Considerando que o uso de EAA vem sendo associado ao treinamento na musculação e que este uso é mais frequente entre homens, optou-se por determinar estes dois critérios de inclusão: sexo masculino e praticantes de musculação à época da pesquisa.

O número de entrevistados não foi determinado previamente, sendo que esse número foi limitado por dois fatores: a dificuldade encontrada, já nos contatos iniciais, em conseguir pessoas dispostas a conversar sobre esse tema, cuja característica polêmica e de caráter pessoal dificultou a participação de número maior de voluntários, o que demandou muito tempo de espera (às vezes semanas) por resposta positiva; o outro fator foi o estabelecimento de um corte, a partir do momento em que as respostas dos sujeitos começassem a se parecer repetitivas.

Os contatos com os sujeitos foram realizados por indicação de professores colaboradores em seis academias da regiao centro-sul da cidade. Estas indicações foram baseadas nos critérios de inclusão da pesquisa, ou seja, praticantes de musculação, masculinos, e que se dispusessem a expor livremente seus conhecimentos sobre essas drogas em entrevista com o pesquisador. Os colaboradores realizaram um contato prévio explicando introdutoriamente a pesquisa e, caso houvesse interesse, o autor da pesquisa contatava o sujeito para agendar a entrevista.

Para elaboração do roteiro das entrevistas, foi realizado levantamento de estudos que utilizaram questionários e entrevistas relacionadas ao objetivo deste trabalho.6,15,19,23-30 Nestes estudos foram identificadas categorias relacionadas aos efeitos do EAA no organismo, às fontes de informação, aos motivos para o uso e ao histórico de uso.

Foi realizada, também, identificação de temas relevantes junto a peritos em conteúdos relacionados ao uso de EAA, incluindo profissionais das áreas da medicina, farmacologia, educação física, direito e atletas de alto nível em esportes de força. Entre estes surgiram temas relacionados às fontes de informação e à sua disseminação, aos detentores do conhecimento sobre este uso específico, aos motivos para o uso, ao conceito de EAA, e aos efeitos no organismo. Este material coletado foi processado por meio da redução de dados.31

O amplo espectro de dados coletados no processo de elaboração do roteiro foi organizado e utilizado para a versão final do questionário da pesquisa, dentro dos seus limites e objetivos. A presente pesquisa se valeu da redução concomitante, ou seja, paralelamente ao procedimento de levantamento desse material. Desta forma, chegou-se às categorias estabelecidas para o roteiro das entrevistas:

1) Para que servem: agrupou questoes relacionadas às informações que o respondente dispunha sobre o que são estas drogas, a necessidade do uso e sobre os efeitos no organismo associados à prática da musculação;

2) Como saber: as questoes buscaram identificar os meios disponíveis e as fontes, na vivência do respondente, utilizadas para se alcançar as informações presentes no tema anterior;

3) Quem sabe: relacionada aos personagens, de acordo com os entrevistados, que detinham o conhecimento sobre o uso dos anabolizantes associados à prática da musculação. O roteiro das entrevistas não previu perguntar se o entrevistado era usuário de EAA, sendo que o principal critério de inclusão dos sujeitos na pesquisa foi estarem praticando musculação à época da pesquisa.

As entrevistas foram realizadas na residência do entrevistado ou na academia de musculação, em sala e horários apropriados às condições de privacidade, sem interferências externas, transcorrendo sem limite de tempo e possibilitando abordagem adequada aos interesses do trabalho. Após a devida autorização, as entrevistas foram registradas em gravador e seus conteúdos transcritos na íntegra. Além disto foram feitas notas escritas pelo entrevistador visando auxiliar a formulação de novas questoes, facilitando também a análise posterior por meio de observações percebidas na entrevista.23

O entrevistado foi estimulado a falar o que sabe, "da maneira que sabe"; e a análise de entrevistas, ao buscar integrar o que diferentes pessoas disseram, buscou identificar o seu significado e suas representações.23,32 A análise das respostas não se voltou exclusivamente para a técnica de tratamento de informação, conforme é considerada em análise de conteúdo, sendo que nessa pesquisa a identificação de categorias nas respostas dos sujeitos mostrou-se como elemento integrante do processo de sua compreensão, uma vez que determinar categorias pode permitir agrupar as informações de mesma natureza, diferenciando-as de acordo com características próprias. Vale ressaltar que a análise buscou referencial também a partir da bibliografia médico-científica. Porém, a utilização desse referencial para a discussão não deixou de considerar o medicamento como representação.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, de acordo com o Parecer ETIC nº337/05, e os participantes assinaram o Formulário de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

As respostas fizeram referência às categorias do roteiro da entrevista. Relacionaram-se com a aceleração do processo de hipertrofia muscular (para que servem), com os meios para acessar as informações pertinentes ao uso de EAA (como saber) e com os personagens que seriam os principais detentores desta informação (quem sabe). Alguns depoimentos serao mencionados visando exemplificar as respostas registradas. Desta forma, será evitada a citação repetitiva de respostas comuns a todos os sujeitos.

Os entrevistados não expuseram um conceito claro do que são os EAA quando da abordagem do primeiro tema - para que servem. Isto pode ser devido ao fato de que essa pergunta conceitual não foi realizada de maneira direta, mas apontaram como entendiam a utilidade do uso. Uma ideia recorrente esteve associada à aceleração do processo de hipertrofia: "... é o ganho rápido ... de hipertrofia de definição" (entrevistado 1); "... faz aumentar bastante ... muito mais rápido" (entrevistado 2); "... uma pessoa que busca um resultado, mas que não consegue esperar ..." (entrevistado 3).

Esta mesma perspectiva de aceleração da hipertrofia foi verificada também entre praticantes de musculação na cidade de Salvador.29 De acordo com a literatura, a administração de determinadas quantidades destas drogas pode acelerar o ganho de massa muscular, principalmente se associadas ao treinamento na musculação com carga de treinamento adequada.4

Neste caso, as dosagens utilizadas são muito elevadas quando comparadas ao seu uso terapêutico. Exemplificando, enquanto a utilização médico-terapêutica, para certos anabolizantes, pode atingir valores inferiores a 15 miligramas por dia, o uso por atletas alcança valores de até 300 miligramas/dia e em períodos prolongados e contínuos de até sete anos.33 Para Parkinson e Evans,30 essas doses variavam de 70 a 6000 mg por semana, em períodos entre 4 e 20 semanas.

Outra resposta exemplifica a tentativa de redução da complexidade do processo de associação entre diferentes drogas e seus efeitos: "às vezes, você usa drogas diferentes ... uma sobrecarrega mais o fígado a outra não, uma sobrecarrega menos o fígado, mas pega mais a parte renal. Entao, ele usa as duas, uma quantidade menor, o efeito é potencializado, mas a sobrecarga nos órgaos é minimizada" (entrevistado 7).

Neste depoimento percebe-se esta redução do entendimento da associação de diferentes drogas e suas interações com os sistemas orgânicos, sendo que não estao disponíveis informações conclusivas sobre os efeitos de diferentes associações de anabolizantes, especialmente se for considerada a ampla variabilidade e magnitudes das doses utilizadas pelos praticantes de musculação. Cabe investigar se esta tentativa de fundamentação apresentada seria um caminho para que este entrevistado pudesse justificar o seu uso, assim como permitir que certos indivíduos pudessem se passar por detentores desse conhecimento.

Os caminhos apontados pelos entrevistados para se obter as informações relativas ao uso parecem se apoiar nas experiências de usuários e na interação com fontes ligadas à literatura impressa e endereços eletrônicos na Internet. O entrevistado 1 pontuou: "Internet tá aí; todo mundo utiliza, conhecimento para quem quer é o que não falta." De acordo com o entrevistado 5: "sobre a droga em si eu acho que é de boca a boca." Segundo o entrevistado 2: "Em contatos na academia ... na própria academia é fácil de você saber informações...".

Essa facilidade apresentada em obter informações, assim como a interpretação de que estariam disponíveis a qualquer interessado, parece não considerar que o processo de aquisição e utilização dessas drogas talvez não se resuma somente em acessá-las e assumi-las porque estariam "fáceis".

O entrevistado 7 respondeu: "eu pegava o Guyton, lia, pegava outro livro de farmacologia, lia. Eu buscava fontes na qual eu sabia que era a parte médica ... entao, a pessoa tenta ganhar muita informação para não errar". Já o entrevistado 6 mencionou que usuários reproduziam as dosagens que, supostamente, funcionaram para os colegas: "alguém que tomou e nele deu certo ... aí passa para o outro - deu certo em mim, toma também".

Quando questionado se tais informações refletiam uma suposta "verdade" sobre estas drogas, respondeu: "Verdade que o anabolizante dá resultado que dependendo da substância, se você quer ficar cortado, você vai tomar uma e vai ficar cortado, se quiser ficar forte vai tomar outra e vai ficar forte ..." e que "não adianta ficar alardeando que faz mal, sendo que a pessoa vai tomar uma dosagem x que de repente ela toma e não deu em nada". O entrevistado 11, ao ser questionado sobre a origem de uma possível garantia de que as informações disponíveis estavam corretas, foi taxativo: "Não existe garantia ... bom, até entao não existe. Atualmente, não existe garantia nenhuma não".

Os médicos foram citados frequentemente como sendo especialistas sobre os EAA. O entrevistado 1 mencionou que "o que pode mais aproximar dos anabolizantes são os próprios médicos ...". O entrevistado 7 respondeu: "vai no médico, se o médico passar para você é uma coisa, porque ele é o profissional apto, não sou eu ..." De acordo com o entrevistado 12, "alguns médicos, que mexem com medicina esportiva ...". Esta sugestao de que o uso deve ser auxiliado pelo médico não considera que a prescrição de medicamentos com estes objetivos e nestas dosagens pode não encontrar respaldo na legislação vigente.34

A autoadministração de EAA foi apontada como um caminho para o conhecimento necessário ao uso e um corpo com a musculatura hipertrofiada reforçaria a competência em lidar com a prescrição. O entrevistado 2 apontou: "... acho mesmo que quem usa também deve entender alguma coisa; o cara tem um reflexo em si ..." e para o entrevistado 10: "... vamos falar os caras fortes da academia; que a galera vai mais nos caras fortes da academia ...". Segundo ainda o entrevistado 8: "... é ter uma prática ... que eu falo é tomar anabolizante mesmo ...".

Foram mencionadas também a disponibilidade de dinheiro para a compra, a imitação de outros usuários e uma suposta autopercepção dos efeitos nos seus próprios organismos. De acordo com o entrevistado 10, "... eu acho que é a (EAA) que está disponível ... vai depender do dinheiro que o cara tem" e ainda "... fisiculturista faz assim, entao, eles fazem a mesma coisa". O entrevistado 8 disse que "esse conhecimento de senso comum, ele é bem difundido; as pessoas podem não entender o que está por trás, mas perceber fisicamente o que estao sentindo".

 

DISCUSSÃO

A decisão por entrevistar pessoas parte do pressuposto de que esse é um procedimento significativo para recolher dados relevantes. Uma parcela significativa destes dados associa-se a concepções e representações das práticas que não poderao ser reunidas se o investigador não interagir de maneira mais direta com os mesmos. Patton23 aponta que entrevistar permite saber além daquilo que se pode observar diretamente, sendo necessário perguntar às pessoas como elas organizam os sentidos que associam com o que acontece no mundo.

De acordo com Quivy e Campenhoudt,24 a entrevista semiestruturada é conduzida pelo investigador de acordo com temas pré-determinados, permitindo que o entrevistado possa exprimir com liberdade a apreensão que faz de suas próprias práticas. A entrevista semiestruturada permite uma aproximação direta com os sujeitos da pesquisa por meio de uma relação humana estabelecida, tornando possível antes um entendimento do problema do que uma explicação propriamente dita.25

Percebe-se, atualmente, volume crescente de pessoas dispostas a utilizar doses elevadas de EAA para aumentar a sua massa muscular, mesmo sabendo da existência de reações adversas. Considerando essa ampla disseminação no meio da musculação, pode ser sugerido que a repetição de mesmo discurso centrado em questoes médicas, especialmente nos riscos associados à autoadministração, não parece alcançar ressonância significativa nesse meio, o que dificulta a compreensão dessa situação.

Informações circulam no universo dos praticantes de musculação e são legitimadas de forma a contribuir para que esse uso venha se perpetuando e esse fato não pode ser considerado completamente marginal à prática social de se usar medicamentos. Considerando entao que a relação estabelecida entre os praticantes de musculação com os EAA será perpassada pela maneira como estes indivíduos representam essas drogas no seu contexto de treinamento da musculatura, essa pesquisa buscou analisar os saberes que vêm dando sustentação para esse uso, apesar do confronto existente com o desencorajamento a essa prática oriundo do saber médico-científico.

Este estudo etnográfico, por meio de entrevistas qualitativas semiestruturadas, foi estabelecido para investigar as informações associadas ao uso dos EAA em grupo de homens praticantes de musculação, não sendo o uso destas drogas critério de inclusão para participar da pesquisa.

Os resultados mostraram que esse grupo não se apoia somente nos saberes médico-científicos quando se refere ao uso de EAA e a atividade física de musculação. Porém, esses saberes vêm sendo interpretados de maneira diversa de acordo com representações sociais relativas ao uso, aos efeitos no organismo, à disseminação das informações e seus agentes e aos possíveis especialistas no tema. E isso parece, em certa medida, contribuir para que o resultado seja tentativa de sustentar o seu uso corrente.

A literatura apresenta alguns trabalhos que utilizaram as modalidades de entrevistas e questionários visando investigar o conhecimento acerca dos EAA. Em estudo onde registraram as respostas de 6.930 estudantes em 10 escolas do estado de Colorado nos Estados Unidos, Tanner et al.28 identificaram algumas concepções sobre a interação dos EAA com o organismo, assim como as fontes de sua origem.

Foi verificado que 92% dos participantes da pesquisa obtinham informações sobre essas drogas na televisão, 67% com amigos, 27% em revistas de musculação e 10% com médicos. As respostas apontaram ainda que 79% de não usuários e 59% de usuários acreditavam que os EAA poderiam aumentar a massa muscular e 10% dos não usuários e 15% de usuários acreditavam, erradamente, que essa substância poderia aumentar a estatura do indivíduo. Muitos deles (40% dos não usuários e 54% dos usuários) acreditavam, também erradamente, que os anabolizantes poderiam melhorar o rendimento aeróbico.

Vale ressaltar que à época deste estudo citado, ainda não havia o acesso aos meios digitais para obtenção de informações da maneira como acontece hoje. Porém, mesmo com o conhecimento disponível atualmente através de tais meios, permitindo aos praticantes de musculação se municiarem com volume aumentado de informações, os registros de Iriart e Andrade29 indicam que o uso ainda acontece de forma irregular, incentivado pela falta de motivação para treinar e insatisfação com os músculos, sendo que as informações se originam frequentemente da experiência pessoal, observação de outros praticantes e dos casos conhecidos.

Depoimentos registrados por Sabino18 e Iriart e Andrade29 entre praticantes de musculação, mostraram que a utilização de EAA se inicia, muito frequentemente, por intermédio dos instrutores e de outros veteranos no uso. Além disso, em levantamento feito entre 500 usuários, o conhecimento sobre as reações adversas e a experiência pessoal com as mesmas não foram suficientes para conduzir à interrupção ou redução de seu uso.30

O entendimento apresentado pelos entrevistados desta pesquisa sobre as possíveis respostas do organismo ao uso dos EAA associados ao treinamento na musculação se conecta ao estabelecimento das doses e a frequência do uso, sendo que os regimes de utilização estao localizados de maneira difusa entre praticantes de musculação.

Os depoimentos sugeriram que essas dosagens são determinadas, muitas vezes, pela disponibilidade de compra e pelo preço ou são baseadas naquelas que parecem funcionar para os colegas. Além disto, o uso vem sendo feito de maneira cíclica e cada ciclo é diferente de outros ciclos, sendo que os usuários se baseiam em suas crenças e inferências, não sendo possível prever qual EAA poderá exercer o melhor aprimoramento do desempenho.4

Neste contexto, a pesquisa científica atualmente estabelecida enfrenta vários desafios, sob o ponto de vista metodológico, no sentido de investigar os reais efeitos do uso dos anabolizantes. Um problema adicional que pode ser identificado é a combinação de diferentes substâncias, tornando difícil emitir conclusões baseadas no conhecimento existente sobre elas isoladamente.35

Neste sentido, um conjunto de representações vem permitindo que estas pessoas, em algum sentido, tomem suas referências pessoais e teóricas como legítimas. O depoimento do entrevistado 7 sobre a combinação de diferentes EAA e suas interações com os órgaos internos (neste caso o fígado e os rins) denota um entendimento equivocado sobre os mecanismos fisiológicos de resposta ao uso de diferentes drogas.

A concepção do entrevistado 6 de que certa substância proporcionará maior definição muscular ("ficar cortado") e de que outra proporcionará maior hipertrofia e força, satisfazendo a vontade imediata do indivíduo, parece reproduzir representações que sugerem redução de todo o complexo de interações possíveis no organismo em relação às dosagens de diferentes drogas.

Em outro momento este entrevistado sugere que "ficar alardeando que faz mal" é atitude infundada e inócua e "de repente ele tomou e não deu nada" é uma situação legítima, e que merece ser considerada para a interpretação do uso; denotando um entendimento elaborado, supostamente, a partir de práticas verificadas em outros usuários que acabam por resultar em conjunto de representações acerca das interações droga/organismo/treinamento.

De acordo com Durkheim,36 os indivíduos apreendem o mundo por meio de um conjunto de representações coletivas originadas no seu meio através das relações sociais estabelecidas. Moscovici37 acrescenta a ideia de que não somente a sociedade, mas também o indivíduo é agente efetivo na produção das representações, sendo que estas não estao localizadas de maneira cristalizada nas relações sociais.

Segundo Durkheim,36 a verificação que o indivíduo faz através das próprias experiências permitem que as representações estejam, de certa forma, adequadas aos objetos a que se referem. Representações permeiam as relações humanas, produzindo e modificando essas relações que se manifestam, por exemplo, na maneira como a vida é vivida em termos de saúde, doença, estética e desempenho, ou ainda em relação ao corpo, à droga, ao músculo.

Os depoimentos coletados nas entrevistas denotam a difusão das informações relacionadas ao uso dos EAA neste grupo de praticantes de musculação entrevistado. Nesse momento, diferentes fontes de informação obtêm legitimação (em diferentes níveis e momentos) em relação à busca empreendida pelo praticante. Foram mencionados livros científicos, revistas comerciais, Internet e usuários destas drogas e, também, diferentes personagens como médicos, professores de Educação Física, farmacêuticos.

Além disto, todo este conjunto de informações parece estar ancorado nas representações presentes no grupo em relação a diversos temas, como o conceito sobre as drogas, as dosagens prescritas e as interações com o organismo. A disseminação livre destas informações entre todos esses diferentes meios de acessá-las, e também entre os diferentes grupos de pessoas referenciadas, resulta em re-elaboração do que foi dito, escrito e efetivamente colocado em prática no meio do treinamento na musculação.

O resultado deste processo registrado nas entrevistas encontra referência na perspectiva de Latour20 ao propor que "não devemos procurar as qualidades intrínsecas de qualquer afirmação, mas sim todas as transformações por que ela passa mais tarde em mãos alheias". Todos estes temas considerados de maneira interdependente com o treinamento na musculação, no qual as potencialidades dos EAA estao colocadas, em determinados momentos, além das suas possibilidades reais de ação.

Sendo assim, não está sendo feita referência somente ao agente bioquímico e aos procedimentos previstos na prática médica, mas às representações destas drogas que são feitas pelos praticantes de musculação entrevistados. Ou seja, o uso de EAA não deveria ser analisado somente com as informações disponibilizadas pelo laboratório que as desenvolveu. Desse modo, parafraseando Durkheim,36 do fato de existir (sobre os EAA) um saber científico com algum fundamento, não se segue de modo algum que a realidade que os fundamenta esteja objetivamente de acordo com a idéia que deles (os EAA) fazem os praticantes de musculação.

Observando-se o desenvolvimento físico com o treinamento na musculação, percebe-se a busca pelos resultados esperados sendo controlada pelo praticante por intermédio de alguns parâmetros: 1) o próprio desempenho nas sessões de treinamento - quantidade de peso levantado, número de exercícios e outras variáveis do treinamento; 2) as observações fornecidas pelo professor com relação ao programa prescrito; 3) a auto-observação perante o espelho; 4) as observações fornecidas pelos outros praticantes; 5) a troca de percepções com indivíduos fora da academia.

A experiência individual de que alguns desses parâmetros seja vivenciado de maneira positiva (além da própria prática em si), ou mesmo a contemplação dessa possibilidade (mesmo que ainda não concretizada) poderá conduzir o praticante a persistir no treinamento. Como exemplo, a expectativa de aumento da capacidade de levantar mais pesos nos exercícios, ou de se visualizar no espelho com músculos cada vez mais hipertrofiados, poderao ser percebidos como recompensas pelo esforço despendido.

Essas percepções poderiam servir, ao menos, para alimentar devaneios sobre a capacidade individual de controlar o desenvolvimento da musculatura na direção pretendida. De acordo com Campbell,38 devaneios se processam mentalmente (sob determinado controle individual) como algo positivo para o indivíduo, antecipando uma situação que pode até não se tornar realidade, mas que servirá para motivar comportamentos na direção desta imaginação. Neste caso, a antecipação imaginada da aparência corporal musculosa poderia motivar a busca por informações sobre determinados meios que permitissem a realização desta imaginação, como é o caso do uso dos EAA.

Campbell38 propoe que a imaginação, na forma do devaneio, permite a manipulação das imagens mentalmente elaboradas de maneira que possam, deliberadamente, proporcionar o deleite que delas é esperado, mas sem perder certa conexão com a realidade - supostamente - possível. Esta realidade poderia ser o desenvolvimento rápido da massa muscular em níveis cada vez mais elevados, de forma agradável, dentro de certos limites; ou intermediado pelo uso de EAA.

Pode ser sugerido ainda que cada vez que um determinado objetivo momentâneo de ganho de força e massa muscular venha a ser imaginado e alcançado, poderá ser posteriormente substituído por nova imaginação de resultado adicional e relativamente diferente desse já obtido; isso em função de ganho relativo a si próprio, ou em relação à comparação com outros praticantes ou mesmo com relação a expectativas geradas pelas observações recebidas de outros.

Mesmo não sendo possível atingi-los, tais resultados parecem estar cada vez mais perto, sempre que o praticante percebe, pelos parâmetros citados, algum desenvolvimento. Entretanto, ainda seriam necessárias novas pesquisas que tornem possível identificar elementos suficientes para confirmar tal expectativa.

A maneira como estas informações foram expostas pelos entrevistados parece torná-las significativas somente para quem está inserido nesse contexto, sendo que as mesmas podem ser consideradas sem valor para quem está fora do grupo,16 permitindo entao tornar o uso algo positivo e até supostamente necessário na busca pelos objetivos estabelecidos.

Nesse caso, o conhecimento sobre a droga não estaria conectado somente à capacidade de criá-la (como é o caso dos laboratórios e dos cientistas), mas a capacidade de usá-las de formas diversas, de acordo com representações presentes sobre a relação EAA-treinamento na musculação. Neste contexto, Pignarre39 sugere que estabelecer a associação entre as possibilidades de ação de determinada substância no organismo e os mecanismos sociais que a circundam requer a transposição de longo caminho.

Apesar de o grupo entrevistado apresentar algum conhecimento cientificamente sustentado sobre a interferência dos EAA no processo de treinamento para hipertrofia muscular, muitos equívocos foram verificados nos depoimentos; que parecem se sustentar neste grupo e podem manter toda a cultura de uso de EAA associado ao treinamento na musculação.

Diante disso, não basta somente contradizer os praticantes a respeito das fontes que supostamente sustentam a prescrição, uma vez que estas parecem apresentar credibilidade dentro deste grupo. Isto deverá ser complementado pelo entendimento das representações sobre a droga e seu uso na musculação. Como característica imanente às representações, elas são ao mesmo tempo construídas no âmbito coletivo como também se desenvolvem de acordo com o cotidiano das experiências práticas individuais. Entre estes praticantes de musculação entrevistados, percebeu-se a importância essencial atribuída a estas experiências práticas.

 

CONCLUSÃO

As informações elaboradas e disseminadas neste grupo de praticantes de musculação sobre o uso de EAA associam-se à possibilidade de acelerar o processo de hipertrofia muscular resultante do treinamento, estando localizados de maneira dispersa em diversas fontes. O uso dos EAA está baseado em várias fontes, de maneira a criar certa persuasão de que seu uso é viável e seguro, de acordo com representações associadas ao treinamento na musculação. Não se trata somente de compreender as teorias científicas, mas como as pessoas que fazem uso dessas teorias (nesse caso, os praticantes de musculação) as representam em sua vida prática de envolvimento direto com os EAA.

 

REFERENCIAS

1. Courtine J. Os stakhanovistas do narcisismo: body building e puritanismo ostentatório na cultura americana do corpo. In: Sant'Anna DB, org. Políticas do corpo. São Paulo: Estação Liberdade; 1995. p. 81-114.

2. Pope HG Jr, Kouri EM, Hudson JI. Effects of supraphysiologic doses of testosterone on mood and aggression in normal men: a randomized controlled trial. Arch Gen Psychiatry. 2000;57(2):133-40.

3. American College of Sports Medicine. American College of Sports Medicine position stand. Progression models in resistance training for healthy adults. Med Sci Sports Exerc. 2009;41(3):687-708.

4. Hartgens F, Kuipers H. Effects of androgenic-anabolic steroids in athletes. Sports Med. 2004;34(8):513-54.

5. Kicman AT. Pharmacology of anabolic steroids. Br J Pharmacol. 2008;154(3):502-21.

6. Nilsson S, Spak F, Marklund B, Baigi A, Allebeck P. Attitudes and behaviors with regards to androgenic anabolic steroids among male adolescents in a county of Sweden. Subst Use Misuse. 2004;39(8):1183-97.

7. Petersson A, Bengtsson J, Voltaire-Carlsson A, Thiblin I. Substance abusers' motives for using anabolic androgenic steroids. Drug Alcohol Depend. 2010;111(1-2):170-2.

8. Kutscher EC, Lund BC, Perry PJ. Anabolic steroids: a review for the clinician. Sports Med. 2002;32(5):285-96.

9. Kanayama G, Hudson JI, Pope HG Jr. Illicit anabolic-androgenic steroid use. Horm Behav. 2010;58(1):111-21.

10. Melrose D, Ocker L, Bonnette R, Spaniol F. The internet and steroids: a less than honest relationship. Strength Cond J. 2011;33(2):95-9.

11. Hoberman J. Testosterone dreams: rejuvenation, aphrodisia, doping. Berkeley: University of California Press; 2005. 381 p.

12. Santiago LV. Os valores orientadores das práticas desportivas em grupos emergentes da terceira idade: Um estudo sobre as suas construções simbólicas [Tese de doutorado]. Porto: Universidade do Porto; 1999.

13. Wright JE. Anabolic Steroids and Sports II. Natick: Sports Sciences Consultants; 1982. 217 p.

14. Wright JE, Cowart vs. Anabolic steroids: altered states. Carmel: Benchmark Press; 1990. 214 p.

15. Wang MQ, Yesalis CE, Fitzhugh EC, Buckley WE. Desire for weight gain and potential risks of adolescent males using anabolic steroids. Percept Mot Skills. 1994;78(1):267-74.

16. Monaghan LF. Bodybuilding, drugs and risk. London: Routledge; 2001. 213 p.

17. Rasch PD. Male body satisfaction, physical self-concept and the use of nutritional supplements, anabolic steroids, and compulsive exercise [Tese de doutorado]. Provo: Brigham Young University; 2004. 108 p.

18. Sabino C. O peso da forma. Cotidiano e Uso de Drogas entre Fisiculturistas. Dissertação [Tese de doutorado]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ; 2004. 366 p.

19. Striegel H, Simon P, Frisch S, Roecker K, Dietz K, Dickhuth HH, et al. Anabolic ergogenic substance users in fitness-sports: a distinct group supported by the health care system. Drug Alcohol Depend. 2006;81(1):11-9.

20. Latour B. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. 1a ed. São Paulo: Unesp; 2000. 438 p.

21. Iriart JAB, Chaves JC, Orleans RG. Culto ao corpo e uso de anabolizantes. Cad Saúde Pública. 2009;25(4):773-82.

22. Atkinson P, Coffey A, Delamont S, Lofland J, Lofland L. Handbook of Ethnography. London: Sage; 2002.

23. Patton MQ. Qualitative evaluation and research methods. 2nd ed. Thousand Oaks: Sage; 1990. 532 p.

24. Quivy R, Campenhoudt LV. Manual de investigação em Ciências Sociais. 3ª ed. Lisboa: Gradiva; 2003.

25. Denzin NK, Lincoln Y. Collecting and interpreting qualitative materials. London: Sage; 1998.

26. Johnson MD, Jay MS, Shoup B, Rickert VI. Anabolic steroid use by male adolescents. Pediatrics. 1989;83(6):921-4.

27. Goldberg L, Bents R, Bosworth E, Trevisan L, Elliot DL. Anabolic steroid education and adolescents: do scare tactics work? Pediatrics. 1991;87(3):283-6.

28. Tanner SM, Miller DW, Alongi C. Anabolic steroid use by adolescents: prevalence, motives, and knowledge of risks. Clin J Sport Med. 1995;5(2):108-15.

29. Iriart JAB, Andrade TM. Musculação, uso de esteroides anabolizantes e percepção de risco entre jovens fisiculturistas de um bairro popular de Salvador, Bahia, Brasil. Cad Saúde Pública. 2002;18(5):1379-87.

30. Parkinson AB, Evans NA. Anabolic androgenic steroids: a survey of 500 users. Med Sci Sports Exerc. 2006;38(4):644-51.

31. Lessard-Hérbert M, Goyette G, Boutin G. Investigação qualitativa: fundamentos e Prática. 2ª ed. Lisboa: Instituto Piaget; 1990.

32. Garcia RP. A convergência e cruzamento de saberes no desporto. In: Pereira AL, Costa A, Garcia RP, orgs. O desporto entre lugares: o lugar das ciências humanas para a compreensão do desporto. Porto: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto; 2006. p. 15-33.

33. Yesalis CE. Anabolic steroids in sports and exercise. Champaign: Human Kinetics; 2000.

34. Osório-de-Castro CGS, Pepe VLE. Prescrição de medicamentos. Rio de Janeiro: Ensp, Fiocruz; data de publicação. [citado 2016 Maio 4]. Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/ portal-ensp/judicializacao/pdfs/516.pdf

35. Bahrke MS, Yesalis CE. Performance Enhancing Substances in Sport and exercise. Champaign: Human Kinetics; 2002. 373 p.

36. Durkheim E. As formas elementares da vida religiosa. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 2003. 626 p.

37. Moscovici S. A representação social da psicanálise Rio de Janeiro: Zahar; 1978.

38. Campbell CA. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco; 2001. 404 p.

39. Pignarre P. O que é o medicamento? Um objeto estranho entre ciência, mercado e sociedade. São Paulo: Editora 34; 1999.