ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Os desenlaces contemporâneos
Contemporary Outcomes
Luís Fernando Duarte Couto
Fundaçao Hospitalar de Minas Gerais - FHEMIG, Centro Mineiro de Toxicomania; Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC-MG, Curso de Medicina. Belo Horizonte, MG - Brasil
Endereço para correspondênciaLuís Fernando Duarte Couto
E-mail: luisfdcouto@gmail.com
Instituiçao: Centro Mineiro de Toxicomania da FHEMIG Belo Horizonte, MG - Brasil
Senhor Editor,
Nos dias 08 e 09 de novembro de 2016 aconteceu a XXVI Jornada de Trabalhos do Centro Mineiro de Toxicomania e I Encontro de Saúde Mental da FHEMIG, cujo tema foi "os desenlaces contemporâneos: efeitos na clínica, na política e na formação". O evento contou com a grande participação dos trabalhadores de saúde mental de Minas Gerais e as discussões se deram a partir do campo da prática em sua articulação com os campos teóricos diversos.
Este texto foi produzido para a mesa de abertura e procurou desenvolver a temática do evento dentro dos três eixos - clínica, política e formação -, bem como lançar questoes sobre os temas que foram propostos.
OS DESENLACES CONTEMPORANEOS
O tema desta jornada - os desenlaces contemporâneos e seus efeitos na clínica, na política e na formação - tem nos colocado a trabalho nos últimos meses. Existe na expressão "o desenlace contemporâneo" uma articulação entre o laço e o tempo.
O contemporâneo é uma relação com o tempo. Nas palavras de Agamben, "é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distância",1 Ou seja: ser contemporâneo implica não se ajustar perfeitamente a esse tempo. É preciso não se encaixar muito bem em uma época para dela tomar distância e pensá-la. É também essa a advertência que Zizek faz ao propor "mirar obliquamente" a violência contemporânea para não se entorpecer e se misturar a ela.2 É um olhar de rabo de olho.
E será o olhar que conduz à segunda dimensão trazida nesta jornada, o laço. O laço que, cada vez mais, parece se dissolver em um mundo líquido e que aparece de relance (se olhar-se obliquamente) nos laços transferenciais, nas relações entre os serviços, nas amizades, nos relacionamentos, nas famílias. Ou seja: o laço que pode ser um outro nome para o amor. Assim, o desenlace que aparece no título proposto para esse encontro pode ser também entendido como um desligamento ou um "desamor".
Parece ser prudente dizer que é o olhar contemporâneo o que produz ou não produz o amor. Nesses tempos líquidos o amor é uma névoa. Retoma-se aqui a fala de Daniel Roy, psicanalista francês que esteve em Belo Horizonte em setembro deste ano, quando diz que, em Romeu e Julieta, Shakespeare afirma que o amor é uma névoa fabricada pelos olhares. Com ele parece concordar Riobaldo de Guimaraes Rosa ao ressaltar que "Diadorim é minha neblina".3 É esse laço vaporizado que permite aproximar, mas também pode turvar a visão.
Lembro de Catarina
Catarina é uma mulher que existiu na escrita de Clarice Lispector em um conto chamado "Os laços de família".4 Em uma viagem de táxi para a estação de trem, um sacolejo faz Catarina ser lançada contra sua mae, "em uma intimidade de corpo há muito esquecida". Nunca haviam realmente se abraçado e se beijado e a responsabilidade do amor deu a Catarina um gosto amargo de sangue. "Como se mae e filha fossem vida e repugnância".4
Lembro de Catarina por causa da última semana que foi tao difícil para nós no CMT. A morte de uma paciente levou a pensar que o laço de família pode ser também um peso que conjuga vida e repugnância. Assumir o papel de mae parece não ser fácil e, para essa paciente, talvez fosse impossível.
Para Bauman5, os laços humanos são uma bênção e uma maldição. Estabelecer laços pode não ser tao simples e, acredito, não devemos nos guiar pelo imperativo de produzi-los a qualquer custo (mesmo que isso fosse possível). Talvez seja preciso suportar a dificuldade estrutural com o laço em uma maneira singular de existir. Suportar é tolerar e dar suporte.
E essa dimensão conduz ao desenlace na política se se pensar a política, como afirma Hanna Arendt, como um meio pelo qual se escapa "da igualdade perante a morte para uma diferenciação capaz de assegurar alguma imortalidade". Ela afirma, ainda, que a morte deve ser a experiência mais antipolítica que existe, já que é a companhia de nossos semelhantes a condição para a existência de toda política.6
São esses os tempos de mudanças políticas que sugerem um caminho de mais segregação, ruptura de laços e morte. Tempos de arranjos que jogam contra o processo democrático, negociatas cínicas que operam sempre em causa própria. E é o que nos leva, para usar um termo lacaniano, à figura do canalha: aquele que sabe do caráter cínico do mundo contemporâneo e o utiliza a seu favor.7 É nesse mundo em que canalhas tomam o poder por vias colaterais que é preciso resistir, em uma atitude política, como forma de existir. Nessa maré de retrocessos, talvez seja, além de política, uma atitude ética, ir contra a corrente.
O mundo roda e revela mais uma vez o que Agamben afirmou: o contemporâneo é também anacrônico1. Afinal, nada mais contemporâneo e anacrônico que a possibilidade de retroceder 52 anos nos próximos 20.
Mas parece haver alguns feixes de luz em um mundo que produz cada vez mais segregação e invisibilidades. E assim se chega ao terceiro ponto que se pretende trabalhar nesta jornada: a questao da formação.
A formação pode ser uma ferramenta poderosa: ao mesmo tempo em que se constitui como uma prática da liberdade, possibilita transmitir que cada forma de existência é única, singular e, qualquer que seja a diferença, esta cabe no mundo, porque no mundo cabem todos os mais de sete bilhoes de diferenças.
É preciso repensar a formação que também sofre as influências do estado liquefeito do mundo contemporâneo. O saber que a universidade propoe é questionável porque as cidades universitárias não se mostraram modelos da diversidade do Universo. Afinal, a universidade aparece em sua maior potência de produção de saber quando é ocupada pelas cidades. Destaca-se, da intervenção que Celso Renato fez em nosso evento preparatório, sua frase: "A universidade precisa sair de si!", afirmando que ela precisa ir além de seus muros e se aproximar dos territórios de uma cidade. Parece que isso começou a acontecer nas últimas semanas. A universidade saiu de si, enlouqueceu, permitiu-se ser ocupada pela cidade - e só pode ser esse o movimento que a fará avançar.
Esta é a mensagem que quero deixar e desejo que tenhamos ótimos dois dias de intenso trabalho, produção de novos saberes e novos laços.
Luís Fernando Duarte Couto
Coordenador da XXVI Jornada de Trabalhos do Centro Mineiro de Toxicomania e I Encontro de Saúde Mental da FHEMIG.
REFERENCIAS
1. Agamben G. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos; 2009.
2. Zizek S.Violência: seis reflexoes laterais. São Paulo: Bontempo; 2014.
3. Guimaraes Rosa J. Grande sertao: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1986.
4. Lispector C."Os laços de família". In: Laços de Família: contos. Rio de Janeiro: Rocco; 2009.
5. Bauman Z. Conferência para o "Fronteiras do Pensamento". 2011. [citado em 2016 nov. 07]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A
6. Arendt H. Da violência. Brasília: Editora Universidade de Brasília; 1985.
7. Santiago J.A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2001.
* Centro Mineiro de Toxicomania (CMT) é um Centro de Atenção Psicossocial para o tratamento de usuários de álcool ou outras drogas (CAPS-AD) da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG). As outras unidades de saúde mental da FHEMIG são: Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, Centro Psíquico da Adolescência e Infância, Hospital Galba Velloso, Instituto Raul Soares.
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