ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Estratégias na urgência em psiquiatria: contribuições da psicanálise
Strategies in the urgency in psychiatry: contributions of psychoanalysis
Renato Diniz Silveira1; Carlos Alberto Pereira Pinto2
1. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Curso de Medicina; Fundaçao Hospitalar de Minas Gerais - FHEMIG, Hospital de Ensino Instituto Raul Soares. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
Carlos Alberto Pereira Pinto
E-mail: carlos_app@hotmail.com
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
O presente trabalho pretende refletir acerca das ações geralmente tomadas nos momentos de urgência psiquiátrica, onde um imperativo imediatista é convocado a partir do saber biologicista, e cujo resultado é o silenciamento do sujeito e de seus sintomas. Serao levantadas as contribuições que a Psicanálise pode ofertar nesse momento, em que, muito além da explosão fenomenológica de sinais e sintomas, algo novo do sujeito desponta e urge ser escutado. Para tanto, serao utilizados os referenciais teóricos do campo da saúde mental e da psicanálise que propoe pensar que tipo de intervenção é possível na crise.
Palavras-chave: Transtornos Psicóticos; Psicanálise; Intervenção na Crise.
RELATO DE CASO
P.R.S., 20 anos de idade, nascido e residente em uma cidade da Regiao Metropolitana de Belo Horizonte, estudante do terceiro ano do segundo grau. Foi levado por familiares e policiais militares até o Instituto Raul Soares devido à agitação psicomotora súbita, heteroagressividade, coprolalia dirigida a familiares e estar destruindo móveis e pertences de sua residência. Quando chegou na recepção do acolhimento, L.R.S tentava agredir os funcionários do setor, dizendo que todos ali "estavam com o capeta no corpo". O estado mental revelava: campo de consciência estreitado, hipotenacidade e hipervigilância, logorreia, prolixidade, pensamento acelerado com laços associativos frouxos, delírios com conteúdo religioso e persecutório proeminente, repetitivo. Apresentava-se com humor exaltado, afeto incongruente e inadequado, impulsividade, crítica prejudicada. De acordo com relato de familiares eram recorrentes comportamento inadequado e agitação psicomotora, que motivaram algumas internações em outras instituições psiquiátricas. Não aderia a tratamentos propostos.
INTRODUÇÃO
De novo, e não ainda pela última vez, a pergunta que insiste: o que é a urgência? E alguém muito acostumado com respostas coloca uma questao, a saber, de que urgência que estamos tratando. Entao, vamos delimitar dois campos, a Psiquiatria de um lado e a Psicanálise do outro, deixando, entretanto, de construir muros pesados de separação. Se a psiquiatria nos convoca a dar uma resposta imediata diante dos mais diversos quadros fenomenológicos que podem se apresentar, a psicanálise nos chama a ocupar um outro lugar, um lugar que dê espaço para a particularidade da fala de cada sujeito. Podemos dizer sobre a urgência, com Lacan, algo sobre o impossível de suportar. Mas para quem é impossível? Qual é a demanda que se deita nesses campos? Responde-se de uma maneira geral: para a psicanálise, é impossível de suportar para o sujeito, para a Psiquiatria, é impossível de suportar para o corpo social.
DISCUSSÃO DO CASO
Entao é que chega P.R.S em um plantao psiquiátrico. Gritando, com os braços amarrados por um lençol. A família conta que ele havia quebrado tudo. Tudo o quê? Tudo mesmo, até a televisão. Além da família, vieram os vizinhos, vieram os policiais, vieram os pastores da igreja que a mae frequenta, porque o filho nunca quis vir, dizia não precisar de médico, que não tinha nada, que já tinha mais de dezoito anos e era maior de idade. Amarrado, ameaçava bater em todo mundo, mataria todo o mundo, pois estava quieto e foram mexer com ele. A família dizia que o paciente precisava urgente de um remédio, de um psiquiatra. Uma pergunta necessária para esse momento era: que urgência é esta? O que podemos dizer é que esse momento é marcado por um estado de intenso embaraço ou esmagamento do sujeito. Quinet recorrendo ao texto freudiano nos lembra de que na psicose um fragmento da realidade rejeitada retorna sem parar, para forçar a abertura na vida psíquica.1 Para Lacan o momento da crise pode ser traduzido pelo seguinte: o que é recusado na ordem simbólica ressurge no real, ou seja; o fenômeno alucinatório se dá pelo reaparecimento, no real, daquilo que não pôde ser simbolizado, ou entao, recusado pelo sujeito.2 Assim, quando se busca responder à questao do fenômeno psicótico, entende-se que se trata de uma emergência na realidade de uma significação enorme que não se parece com nada - e isso, na medida em que não se pode ligá-la a nada, já que ela jamais entrou no sistema de simbolização-, mas que pode, em certas condições, ameaçar todo o edifício.3 Quando questionado sobre o ocorrido P.R.S não responde, somente lança um olhar sobre o lençol amarrado. Ao ser desamarrado quebra uma cadeira do consultório, e os enfermeiros entram. O atendimento psiquiátrico se convidava na sugestao do enfermeiro: injeção de haldol com fenergan. Mas P.R.S deu outro rumo ao atendimento: "eu não vou tomar sossega leao". É lançada a questao para o paciente: "entao o que deve ser feito, pois quebrar tudo de novo não você não irá." A recusa pelo silenciamento farmacológico nos aponta esse insuportável colocado para o sujeito, ao mesmo tempo em que fornece a entrada de um elemento novo que possibilite circunscrever algo desse insuportável. Nesse momento uma aposta é feita embasada a partir de um cálculo clínico. P.R.S é convidado a ir para a sala de atividades. Chegando lá, cartolina e pincel atômico na mão, ele desenha círculos durante uma hora. Em seguida, dorme. Ao acordar, fala das vozes que estao sempre exigindo, mandando, "tirando a vida". Explica que as vozes mandam desenhar, cobrir tudo com caneta, completar a folha. "Quando acaba o papel, desenho nas paredes, com pedra de barro. Minha mae não quer deixar, ela não sabe [...]".
Bem, quem é que sabe? A resposta é uma: o próprio sujeito. Com o tempo, e com muitas ressalvas, contaria alguma coisa disso, coisa delirante com sua marca inconfundível de certeza. Mas vamos devagar, para não compreender: o lugar a ser ocupado pelos técnicos que acompanham P.R.S é uma linha tênue, situada entre o estabelecimento de um secretário novo para expedir as cartolinas e a demanda do meio social do paciente, que continuamente recorre, para que repensemos a necessidade de sua internação. Outra vez, os campos: a quem se atende, quando se atende à psicose? Vamos pensar em P.R.S, que chegou sem uma única pergunta sequer, mas com um excesso de respostas. Um dia, fazendo bolas nas cartolinas, foi indagado a ele o que eram. Sua resposta brota de um campo rico para a clínica. Ele nos diz que eram pingunusi e descobrimos o que representavam: cada bola era uma significação, uma solução para cada problema da humanidade. A psicanálise nos aponta que para o psicótico, a significação coloca-se no plano da compreensão; compreensão que não está inserida em um plano articulado dentro do contexto na trama simbólica. Neste sentido, podemos concluir com Lacan de que é impossível, para o analista, compreender a produção delirante do sujeito psicótico. O delírio se coloca de forma distinta da linguagem comum através da figura de linguagem denominada neologismo (o uso de palavras novas ou antigas com sentido novo).2
Mais uma vez Lacan contribui em nossa discussão ao dizer que para o psicótico o delírio assume um sentido particular, em sua certeza e em sua perplexidade e que mesmo assim não, é num outro registro que é preciso abordar o que se passa na psicose. É impossível que se chegue a determinar o número mínimo de pontos de ligação fundamentais entre o significante e significado necessários para que o ser humano seja dito normal, e que, quando eles não estao estabelecidos, ou afrouxam, produzem o psicótico.2
Durante meses ele chegava, e conduzia seu "secretário" à tal sala, cartolinas, bolas. Com sua estabilização, o aparato farmacológico já poderia diminuir. Um novo contrato já poderia ocorrer. Certa vez ao ser indagado sobre as bolas, ele diz que não entendia o porquê da constante pergunta, uma vez que já sabíamos. Isso nos remete ao sujeito suposto saber, mola da transferência no tratamento da neurose, mas que aqui há uma clara diferença: aqui a suposição de saber é substituída pela certeza psicótica, fruto do aprisionamento do paciente nas garras do Outro, que lhe toma enquanto objeto. Agora entao é possível delimitar a urgência, ao menos neste caso: P.R.S veio ao tratamento, porque as significações caíam por cima dele, como uma estante lotada de livros em tombo infinito. Aqui, cartolina pode virar um delicado roteiro para organizar o grande prejuízo do desmoronamento das estantes de significações: desenha-se uma de cada vez. Há aqui o testemunho dessa condição, que é um pedido sem palavras para que ao oferecer cartolinas, possa sugerir uma saída, ainda que bem atrapalhada, para a construção de um grande eixo de soluções para os problemas da humanidade, idéia central que vem fundar o assentamento delirante em P.R.S. Ora, fazer bolas aí, é cercar realmente o gozo do Outro que invade o sujeito na psicose.4
P.R.S escreve e circunscreve as significações que ele não tem como reconhecer enquanto próprias: a foraclusão do Nome-do-pai na psicose expoe, à um tempo só, toda cadeia de significantes, desmoronamento que assume vida própria e se expressa à revelia do sujeito. Lacan nos diz que o sujeito é antes falado do que fala: reconhecemos aí os símbolos do inconsciente sob formas petrificadas.5 Entao, porque da urgência de P.R.S? A psiquiatria atual, onde se coloca? Há tantos anos atendendo a demanda policialesca do meio social, trabalhando com a difícil noção de normalidade, a psiquiatria pode agora lançar mão de testes e de recursos biológicos bem desenvolvidos, medicamentos específicos, e buscar um caminho que de debruce na particularidade desse sujeito que se apresenta, ou seja, se atentar nos pingunusi que ele nos coloca. Ora, coisa estranha isso de fornecer cartolinas para o desenho do delírio, pode nos dizer certa psiquiatria reducionista, disposta a sossegar sempre o leao. Parênteses aqui: se Lacan dizia que a vida dos analistas não era cor de rosa, o mesmo podemos dizer sobre a psiquiatria.6 Não se trata de um romanceamento da questao do tratamento. Alguém desavisado me pergunta sobre o uso da arte no tratamento, a grande descoberta do recurso artístico na urgência da psicose, afinal tratava-se de pincel atômico e cartolinas. Reconhecemos aqui a modéstia das possibilidades artísticas: P.R.S também poderia desenhar círculos em seu corpo usando a ponta dos próprios dedos.
Ou seja, o recurso não pode ser adjetivado de artístico, mas antes, é melhor não adjetivá-lo aí, deixemos apenas: recurso. Se podemos admitir, como Lacan, que o psicanalista não deve jamais recuar diante da psicose, podemos entao pensar que o psiquiatra também não deve, pois o que parece tao óbvio, a saber, que os psiquiatras atendem à psicose, pode ser revisitado na seguinte questao: o fato de medicar o delírio, o que muitas vezes pode ser erroneamente confundido com sedação e o exercício mero de observar a articulação do paciente com seu meio social significa atender ao psicótico? O incurável permeia as estruturas: se o incurável na neurose é a falta, em P.R.S é a foraclusão do Nome do Pai. Novamente nos bate a lembrança do paciente dizendo que ele sabe, ou que ele soube o que fazer com sua urgência. Se podemos considerar, à partir da psicanálise, que a loucura contém em si sua impossível cura, qual é a direção do atendimento?
Certamente, não é o deciframento de cada pingunusi que esse sujeito desenha, aliás, trabalho inútil, já que ele tem certeza que eu já sei as respostas. Mas aqui em P.R.S, (em outros nomes a direção pode variar), podemos lhe oferecer, além da medicação que tem funcionado como mais um meio para que o delírio dele prossiga, as cartolinas feitas de puro sossega-leao, para que ele possa construir alguma fila de prioridades para servir à humanidade, esboçando uma tênue ordem no despencamento das estantes tao expostas de seu inconsciente.
REFERENCIAS
1. Quinet A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1997.
2. Lacan J. O seminário livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1985.
3. Lacan J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Lacan J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1998.
4. Laurent E.Versões da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1995.
5. Lacan J. O seminário livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1985.
6. Miller J, Lacan J. Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1997.
Copyright 2026 Revista Médica de Minas Gerais

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License