RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Relato de Caso

Coorte de Homens que Fazem Sexo com outros Homens (HSH) em Belo Horizonte: Experiências de construção de questionário para processo avaliativo do Estudo, na perspectiva de seus voluntários

Cohort of Men who have Sex with Men (MSM) in Belo Horizonte: Experiences of constructing a questionnaire for the evaluation process of the Study, from the perspective of its volunteers

Júlio César Andrade1; Luana de Freitas Vieira2; Edison Ildefonso Oliveira3; Ulysses Barros Panisset4

1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência; UFMG, Projeto Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Fafich, Curso de Psicologia; UFMG, Projeto Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG, Projeto Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. UFMG, FM, Departamento de Medicina Preventiva e Social. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Júlio César Andrade
E-mail: julionorkub@gmail.com

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte-MG, Brasil.

Resumo

Este artigo descreve a experiência de construção de questionário da pesquisa de avaliação do Projeto Horizonte: coorte de homossexuais e bissexuais masculinos em Belo Horizonte-MG, destinada a conhecer "o significado do estudo, na perspectiva de seus voluntários", na qual se pretende que o sujeito da pesquisa avalie também sua participação, a estrutura, funcionamento e qualidade das ações realizadas. São descritas as etapas da elaboração e pré-testagem do instrumento de coleta de dados e suas limitações. Para sua confecção, foram ouvidos os pesquisadores e pessoal de apoio do estudo em entrevistas individuais, juntamente com os próprios voluntários, por meio de grupos focais. Durante o processo de construção e validação do questionário, os voluntários demonstraram interesse em participar, explicitaram a importância dessa iniciativa, relatando como percebem o projeto e com apontamentos em relação à sua estrutura e funcionamento. Concluiu-se que, mesmo com as dificuldades enfrentadas, foi possível tal iniciativa, cujos depoimentos iniciais revelaram a relevância da coorte - visão positiva, como importante espaço de promoção de saúde à população LGBT, a ser confirmado ao término da pesquisa avaliativa.

Palavras-chave: Avaliação/métodos; Coleta de Dados; Inquéritos e Questionários; Estudos de Coortes; Pesquisa Qualitativa; Pesquisa Quantitativa.

 

INTRODUÇÃO

Em 1992, o Ministério da Saúde criou o Comitê Nacional de Vacinas Anti-HIV/Aids como parte do compromisso brasileiro na luta mundial contra a AIDS. Naquela ocasiao, definiram-se centros de pesquisas para futuras vacinas anti-HIV nas capitais Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Assim, com o apoio do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), estabeleceram-se estudos multicêntricos, longitudinais e sociocomportamentais nessas cidades.1

O "Projeto Horizonte: coorte de homossexuais e bissexuais masculinos de Belo Horizonte", sediado na Faculdade de Medicina da UFMG, constitui um desses estudos epidemiológicos e de prevenção e tem por objetivos avaliar: a) prevalência e incidência do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST) nessa população; b) impacto das intervenções educativas na redução do risco; c) possibilidade de acompanhamento dos voluntários a longo prazo; d) participação de voluntários em futuros ensaios clínicos com vacinas anti-HIV.2

Esse estudo, aprovado pelo comitê de Ética da UFMG, encontra-se em funcionamento ininterrupto desde 1994. Os pré-requisitos para participar são: a) idade acima de 18 anos; b) sorologia negativa para HIV; c) residir na regiao metropolitana de Belo Horizonte; d) não possuir transtorno psiquiátrico ou dependência de substâncias químicas que possam comprometer a participação.2 O projeto possui os componentes: psicossocial, clínico, epidemiológico e laboratorial. Equipe multidisciplinar de pesquisadores, docentes e alunos de graduação e pos-graduação da UFMG, das áreas de psicologia, sociologia, medicina, epidemiologia, estatística, gestao de serviços de saúde e comunicação social, juntamente com profissionais de apoio, são responsáveis por seu desenvolvimento.

O acompanhamento individual de seus voluntários ocorre mediante protocolo que inclui: a) acolhimento, com as explicações dos objetivos e desenho do estudo e discussão de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), na entrevista inicial; b) avaliação sociocomportamental - coleta de dados, aconselhamento pré e pós-teste para exames laboratoriais (HIV, VDRL, Hepatites B/C, hemograma) e orientações preventivas; c) avaliação médica. Para aqueles que demandam atendimentos complementares, consultas extras e encaminhamentos são viabilizados sempre que necessário. Esses procedimentos ocorrem tanto na visita de admissão quanto nos retornos semestrais.

Após coleta das informações, ao orientar e esclarecer dúvidas, principalmente quanto ao uso correto e consistente do preservativo, as equipes - psicossocial e médica - verificam conhecimentos sobre IST, vacinas/tratamento anti-HIV, posturas na prevenção de doenças, estado de saúde atual e pregresso. Abordam ainda questoes relacionadas a sexualidade, cidadania, direitos sexuais LGBT e diversos temas correlatos condizentes com a sua realidade, objetivando redução de vulnerabilidades dessa população. Entre os retornos semestrais, periodicamente são realizadas intervenções educativas coletivas que compreendem fóruns de debates com temas diversos, filmes comentados, oficinas e palestras, entre outros.

Em toda a sua existência, foi observada a crescente relevância do projeto como espaço educativo e de prestação de serviço para promoção da saúde sexual de parte do segmento LGBT por meio de relatos espontâneos dos voluntários, dos profissionais e estagiários sobre sua importância, vínculo estabelecido, contribuições para qualidade de vida, mudanças de comportamentos, erros e acertos.

Todas essas sinalizações têm fornecido para os pesquisadores do projeto bons materiais para a pavimentação de caminho seguro e adequado, mas não suficientes para uma afirmação científica, devido ao aspecto subjetivo e não sistematizado dessas manifestações. Não que o caráter subjetivo não tenha validade e importância, pelo contrário. Segundo Uchimura e Bosi3:1564, "não obstante, é possível encontrar, na literatura, algumas experiências de avaliação que não se prendem à medição e incorporam a subjetividade ao processo avaliativo".

Avaliar a coorte, do ponto de vista do voluntário, é considerá-lo o ator principal nesse processo. Interessa aos pesquisadores saber qual o significado do projeto para ele, como têm ocorrido sua aprendizagem e a assimilação das ações de prevenção recebidas e conhecer as transformações ocorridas em sua vida, os motivos para adesão, sentimentos, expectativas e sugestoes. Entende-se que as informações obtidas, como parte de uma avaliação geral do Horizonte, possam contribuir para estimar o impacto das intervenções educativas, um dos objetivos do Projeto Horizonte. Neste artigo, é relatada a experiência de construção do questionário específico à "Avaliação do Projeto Horizonte: o significado do estudo na perspectiva de seus voluntários", que incluiu a participação dos próprios voluntários na sua construção e validação, bem como algumas dificuldades e entraves ocorridos nesse processo.

 

DESCRIÇÃO

Os pesquisadores, inclinados por uma investigação qualitativa, aceitaram o desafio de construir um instrumento com características predominantemente objetivas, que permitisse "ouvir", com praticidade, maior número possível de voluntários, cerca de 300, em acompanhamento, de tal forma que eles tivessem oportunidade de manifestar suas críticas e opinioes mais reservadas, anonimamente, em relação também à própria equipe, evitando-se constrangimentos.

A escolha se fez por questionário semiestruturado, autoaplicável. No entanto, apurou-se uma contradição: o questionário pretendido, o eixo principal, tem uma dimensão qualitativa, subjetiva, sendo que se optou por uma investigação que permitisse a mensuração das informações, de forma a possibilitar análises em extensão. Para superar essa questao, Serapioni4 postula que:

Finalmente, para evitar equívocos, convém explicitar que a premissa de base que norteia a nossa proposta de trabalho de avaliação fundamenta-se na pluralidade metodológica e reconhece que a avaliação de qualidade, embora valorize as perspectivas de diversos atores sociais, nem sempre se inclui no campo da análise qualitativa. Algumas dimensões da qualidade são objetivas e implicam processos de mensuração; outras refletem a experiência e a subjetividade dos atores. O importante [...] é que o processo de análise seja baseado em "atividade científica, que requer, para sua execução, determinado rigor metodológico.4:208

Descrevem-se, a seguir, as etapas percorridas para o desenvolvimento do instrumento de coleta de dados:

1. levantamento preliminar para planejar o conteúdo a ser investigado. Inicialmente foram analisadas 15 questoes do formulário sociocomportamental do Projeto Horizonte, relacionadas ao propósito desta pesquisa;

2. consulta à equipe: realização de nove entrevistas individuais com o grupo de pesquisadores e de apoio do Projeto Horizonte, considerando a experiência profissional e o conhecimento sobre o projeto;

3. pesquisa exploratória para a construção do instrumento. Optou-se pela realização de quatro grupos focais, considerando que esse método possui, entre suas características, para Godim5:151 , a promoção da autorreflexão. "Uma posição intermediária entre a observação participante e as entrevistas em profundidade".

Os grupos focais foram constituídos de voluntários pertencentes a períodos de retornos semestrais distintos: a) GF1 "misto" (da admissão ao 24º retorno); b) GF2 "novatos" (do 1º ao 5º retorno); c) GF3 "intermediários" (6º ao 10º retorno); d) GF4 "veteranos" (11º ao 24º retorno). O objetivo dessa estratificação foi possibilitar aprofundar as reflexoes sobre o projeto, a partir das trocas de experiências e questionamentos, em função dos diversos tempos de experiência com a coorte. A seguir, descreve-se o roteiro do grupo focal (Tabela 1).

 

 

4. pré-teste do questionário - uma vez confirmado nos grupos focais que o instrumento seria autoaplicável a fim de garantir o anonimato, foi elaborado pelos pesquisadores um questionário cujas questoes abertas e fechadas6 foram sugeridas e avaliadas pelos voluntários. Posteriormente foi submetido à revisão por um grupo de oito voluntários indicados pela equipe, que identificaram acertos, inadequações e correções necessárias. Uma vez corrigido, foi pré-testado em 26 voluntários escolhidos aleatoriamente, de diversos tempos de seguimento (retornos semestrais), e avaliado pelo estatístico. A aplicação do questionário foi realizada por estudante de Psicologia (monitor) treinado nos aspectos éticos e técnicos.

 

RESULTADOS

Em relação aos grupos focais, inicialmente foi identificado entre os voluntários o conceito que tinham sobre avaliação, obtendo-se respostas do tipo:

Avaliar, pra mim, é poder perceber o que... o que aconteceu, como aconteceu, tirar as conclusões daí e modificar o que tiver que modificar. É incrementar, né? É você poder modificar a partir de determinado momento o que aconteceu (Voluntário GF1).

Foram realizados quatro encontros (31 voluntários), por sua condição de envolvimento com o estudo - desembaraço e capacidade crítica. O tempo médio de cada reuniao foi de duas horas e proporcionou discussão de temas afins como cidadania, luta por direitos e fazer política, conforme se pode observar ao serem perguntados sobre a iniciativa de avaliar o Projeto Horizonte:

[...] Entao! Acredito que é uma coisa legal; hoje perde-se tempo debatendo, criticando, elogiando. É uma maneira de se fazer política, isso é política. Por mais que você não queira, é uma política. Uma vez que você defende a sua cor, você faz uma política, porque alguém não gosta daquela cor e você defende ela. Entao, o processo todo se dá por ali. Entao, eu acho assim, o projeto está precisando de muito mais implementações? Com certeza! (Voluntário, GF3).

Em relação ao ato de avaliar a participação do voluntário durante o desenvolvimento da coorte, disseram, por exemplo: "Eu acho,... que [avaliar] a atuação dele, ... a presença dele dentro do projeto... Como é estar no projeto? Pesquisar talvez qual o sentido dele estar no projeto. Porque ele está no projeto? ... Que contribuição ele poderia dar?" (Voluntário,GF4).

O projeto foi descrito também como um espaço de acolhimento, de apoio e serviço de saúde, verificado em uma das colocações dos voluntários:

[...] quando eu comecei, eu falei assim: os exames de seis em seis meses entraram como um apoio, né? Na área médica muitas pessoas não têm condições de pagar uma assistência médica. Como você tá dentro do Hospital das Clínicas, faz parte da UFMG, a gente teria um apoio, uma coisa assim, né? Uma ajuda... (Voluntário, GF2).

As informações mais relevantes de cada grupo em relação aos objetivos propostos foram selecionadas e, entre elas, aquelas mais significativas compuseram um grupo de categorias de análises (Tabela 2) que possibilitaram a confecção de questionário semiestruturado, com linguagem, conteúdo e estrutura adequados. Os pontos centrais do instrumento estabelecido estao descritos na Tabela 3.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A metodologia da pesquisa apresentada integrou métodos qualitativo e quantitativo, numa posição complementar. Para Minayo e Sanches7:

[...] ambas as abordagens são necessárias, porém, em muitas circunstâncias, insuficientes para abarcar toda a realidade observada. Portanto, elas podem e devem ser utilizadas, em tais circunstâncias, como complementares, sempre que o planejamento da investigação esteja em conformidade.7:240

A partir desse entendimento, os pesquisadores, ao se lançarem no desafio de construir uma pesquisa com tal característica e com a participação dos voluntários ao longo do processo8, pretenderam uma análise mensurável das informações de grande parte dos voluntários em acompanhamento no projeto, considerando seus perfis e diversos tempos de permanência no estudo. Outros fatores que se somaram a essa escolha foram a economia de tempo e de recursos financeiros e, principalmente, a importância do anonimato em relação aos integrantes da equipe, tendo em vista que o preenchimento do questionário pelo voluntário se daria em outro momento, de maneira reservada, o que não poderia ocorrer, por exemplo, em uma entrevista em profundidade.

Observou-se durante o período de pré-testagem dos questionários mais disponibilidade e interesse dos voluntários considerados "intermediários" e "veteranos" em participar dessa iniciativa, em relação aos "novatos", que se mostraram um pouco mais reticentes. Quando perguntados sobre o interesse em participar, estes, apesar de sinalizarem positivamente, apresentavam dificuldades no comparecimento. Talvez isso tenha sua explicação por não terem estabelecido vínculo mais forte com o projeto. Para contornar essa situação, planejou-se para o decorrer da pesquisa o agendamento das entrevistas para o mesmo dia em que o voluntário tivesse de comparecer ao Projeto Horizonte.

Outra dificuldade foi em atender aos aspectos metodológicos tais como o de proporcionalidade para cada retorno, aleatoriedade dos respondentes, assim como critérios éticos relacionados a procedimentos que impedissem alguma eventual identificação de forma indireta dos questionários. Chaves e Paulon9:124 escrevem:

Convém, ainda, relatar que todo tropeço e gaguejo trazem consigo momentos de parada, vácuos de linguagem, pontos de escuridao que contêm, também e paradoxalmente, potências criadoras.

Esses "tropeços" e "gaguejos" permitiram questionar a nossa prática e criar novas estratégias de registros no banco de dados e de comunicação, respeitando-se os protocolos estabelecidos. Assim, passou-se a contatar os voluntários que haviam feito seus retornos semestrais recentemente, pois a experiência mostrou que tais voluntários eram mais receptivos ao nosso convite do que aqueles que haviam feito seus retornos há mais tempo. Para estes, cuidado especial foi tomado quanto à agilidade nos atendimentos.

Quanto aos procedimentos de aplicação do questionário na pré-testagem, antes de sua explicação e orientações de preenchimento, o monitor acompanhava a leitura do TCLE pelo voluntário e, passo a passo, ia detalhando seus tópicos, esclarecendo cada dúvida. Um caderno de campo era utilizado, no qual as observações e comentários diversos auxiliavam na condução e monitoramento. A média de duração do questionário variou de 20 a 50 minutos, conforme as habilidades e capacidade de compreensão dos respondentes, assim como o registro de condições ambientais, interferências, dúvidas não previstas ou mesmo falha na aplicação dos instrumentos.

Um caso específico para ilustrar e que sugere o envolvimento no Projeto Horizonte foi o de um voluntário, muito solícito, que, ao término do questionário perguntou se o fato de participarem da pesquisa ajudaria a garantir sua continuidade e o envio de verbas sem interrupção, demonstrando preocupação com o futuro do estudo.

Beste estudo concorda-se com Souza e Carvalho10:99 quando afirmam que "qualquer neutralidade que o pesquisador-psicólogo almeje atingir, buscando um distanciamento de seu interlocutor, é absolutamente artificial". No entanto, o monitor foi orientado a manter uma "postura mais distante", a seguir certa padronização do conteúdo de suas falas durante a interação com o voluntário, embora considerando as características de cada um, com vistas a compreender bem qual era o seu papel naquela relação: de auxiliar o voluntário em uma avaliação participativa8 na qual este era o ator principal e, por isso, não deveria emitir algum tipo de juízo de valor sobre o Projeto Horizonte naquela ocasiao, pois é justamente nessa atribuição de valor que consiste uma avaliação.

Nesse processo, o papel do voluntário era avaliar e se avaliar - do monitor, apenas auxiliá-lo nesse momento que era dele. Alguns voluntários explicitavam suas dificuldades em responder as questoes abertas quanto à construção das respostas, já que tais questoes implicavam uma reflexão mais elaborada sobre as experiências pessoais dentro e fora do Projeto Horizonte, além da comparação, inevitável, com as questoes fechadas. Uma particularidade ocorrida foi de um voluntário que solicitou auxílio em decorrência de dificuldade de leitura ou escrita, evidenciando outro tipo de limitação que teríamos de contornar.

 

CONCLUSÃO

A construção do instrumento de avaliação do Projeto Horizonte, a partir do ponto de vista de seus voluntários, culminando em um questionário semiestruturado e autorresponsivo, específico à coorte Horizonte, evidenciou a importância da interação pesquisador-sujeito, tendo em vista que a colaboração deste foi constante.

Constataram-se a relevância e a aceitabilidade dessa iniciativa, verificadas no decorrer das atividades que precederam os encontros dos grupos focais e na boa vontade dos participantes em contribuir com o trabalho, tanto no comparecimento - apesar das dificuldades -, quanto nos depoimentos em outros momentos distintos. As discussões realizadas nos grupos focais proporcionaram grande riqueza e aprofundamento de assuntos diversos, mostrando a importância da participação de voluntários de pesquisa em ações avaliativas do Próprio Projeto. Isto pôde ser percebido nas observações, críticas e sugestoes dos voluntários, inclusive algumas já implementadas como, por exemplo, a sugestao de novas placas indicativas da localização no prédio onde o projeto funciona, assim como de sua secretaria.

Essas informações preliminares, entre outras, foram fundamentais para a constatação de que esse processo de avaliação formal, que deveria ter sido contínuo no projeto e ouvindo seus sujeitos, prioriza a discussão e o debate coletivo sobre a atribuição de valor e, principalmente, como se deve estar aberto a seus saberes, seus horizontes, suas vivências e suas expressões. A avaliação poderá oferecer condições e informações relevantes para o conhecimento que confirmem acertos e, de maneira importante, indiquem falhas para possíveis correções, como também sugestoes que possam ser incorporadas não apenas ao desenvolvimento e enriquecimento do estudo, como, principalmente, contribuam para novas políticas públicas de DST/AIDS e afins destinadas à população LGBT. Os depoimentos iniciais destacam a relevância do Projeto Horizonte como espaço de educação e promoção da saúde, a ser confirmado ao término da pesquisa avaliativa.

 

REFERENCIAS

1. Ministério da Saúde (BR). Plano Brasileiro de Vacinas Anti-HIV 2008-2012. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2008.

2. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Bela Vista e Horizonte: estudos comportamentais e epidemiológicos entre homens que fazem sexo com homens. 2ª ed. Brasília: MS; 2001.

3. Uchimura KY, Bosi MLM. Qualidade e subjetividade na avaliação de programas e serviços em saúde. Cad Saúde Pública. 2002;18(6):1561-9.

4. Serapioni M. Avaliação da qualidade em saúde: delineamentos para um modelo multidimensional e correlacional. In: Bosi MLM, Mercado FJ, organizadores. Avaliação Qualitativa de Programas de Saúde: enfoques emergentes. Petrópolis:Vozes; 2006. p.208

5. Gondim SMG.Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: desafios metodológicos. Paidéia. 2003;12(24):149-61.

6. Nogueira R.Elaboração e análise de questionários:uma revisão da literatura básica e a aplicação dos conceitos a um caso real. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD; 2002. p.2

7. Minayo MCS, Sanches O. Quantitativo-Qualitativo: oposição ou complementaridade? Cad Saúde Pública. 1993;9(3):239-62.

8. Paulon SM, Chaves AGCR, Eidelwein C,Passos E, Righi LB,Verdi M, et al. Errâncias e itinerâncias de uma pesquisa avaliativa em saúde: a construção de uma metodologia participativa. Saúde Transf Soc. 2014;5(2):20-8.

9. Chaves AGCR, Paulon SM. Sobre tropeçar, gaguejar, participar: intencionalidades e experimentações numa pesquisa avaliativa em saúde. Saúde Transf Soc. 2014;5(2):123-4.

10. Souza SJ, Carvalho CS. Ética e pesquisa: o compromisso com o discurso do outro. Rev Polis Psique. 2016;6(1):98-112.