RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Artigo de Revisão

Infertilidade: causa ou consequência da violência?

Infertility: cause or consequence of violence?

Cybelle Maria de Vasconcelos Costa1; Rubens Lene Carvalho Tavares2; Elza Machado de Melo1; Victor Hugo Melo1

1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, FM, Programa de Pós-Graduaçao em Saúde da Mulher. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Cybelle Maria de Vasconcelos Costa
E-mail: mariadevasconceloscostacybelle@gmail.com

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: A infertilidade acomete entre 8 a 12% dos casais da população mundial e nos países pobres atinge até 30%.É mais conhecida a associação entre infertilidade secundária e doenças sexualmente transmissíveis (DST) que são mais frequentes em vítimas de violência sexual. Por outro lado, mulheres inférteis são frequentemente discriminadas como as únicas responsáveis pela infertilidade do casal e sofrem consequências e dentre elas violência.
OBJETIVO: discutir a relação entre infertilidade e violência, a partir da revisão da literatura.
MÉTODO: Foi realizada pesquisa na base de dados NCBI (Pubmed e Lilacs), Web Science (Pubmed) e Portal Capes entre 2011 e 2016 e alguns artigos importantes para o tema.
RESULTADO: Foram selecionados 22 artigos e destes 20 relataram a infertilidade como causa da violência.
CONCLUSÃO: A violência sexual tem relação com a infertilidade feminina, e começam a surgir evidências de que a infertilidade também seja causa de violência mas são necessários mais estudos, com melhor qualidade metodológica, para confirmar essas emergentes evidências.

Palavras-chave: Infertilidade; Infertilidade Feminina; Infertilidade Masculina; Violência; Violência Doméstica; Violência por Parceiro Intimo.

 

INTRODUÇÃO

A infertilidade acomete entre 8 a 12% dos casais da população mundial.1-3 Nos Países pobres atinge até 30%.2 No Brasil não temos a estimativa exata4 Não existe um conceito universal mas é considerado infértil o casal que não consegue engravidar após doze meses de intercurso sexual regular sem proteção.5,6

A infertilidade pode ser classificada como primária ou secundária. A infertilidade primária ocorre quando o casal nunca teve filhos e pode estar relacionada a problemas genéticos, endocrinológicos e imunológicos, é estimada em 5% dos casais. A infertilidade secundária, quando ocorre em casais que já tiveram filhos, frequentemente pode estar associada a infecções sexualmente transmitidas, exposição a substâncias tóxicas, práticas socioculturais, casamento entre parentes e mutilação genital.2

A secundária, facilmente prevenível, é o tipo mais frequente em países pobres principalmente no continente africano. Em Ruanda, a história de violência sexual e de infecções geradas por ela, tais como o herpes vírus simplex tipo 2 (HSV-2) e o HIV, além de outras, são importantes preditores da infertilidade feminina;7 Outros dois patógenos, Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae, são a principal causa de doença inflamatória pélvica em mulheres e de oclusão de tubas uterinas; nos homens, o HIV e a infecção por HSV-2 representem os fatores mais frequentes de infertilidade masculina.7 Os fatores masculinos e femininos têm sido implicados na etiologia da infertilidade respectivamente cerca de 30% a 40% por cada grupo e o restante (30%) pela interação entre eles.1

Entretanto, as mulheres são frequentemente discriminadas como as únicas responsáveis pela infertilidade do casal e sofrem consequências por meio da privação econômica, social e emocional. De fato a infertilidade é uma importante causa de discórdia conjugal e divórcio.3,8 Ela é apontada como sendo ameaçadora, estressante, de alto custo, associada a baixa qualidade de vida, e a distúrbios psiquiátricos tais como depressão, ansiedade ,culpa, ideação suicida.3,9,10 A infertilidade pode, ainda, provocar a perda da estabilidade conjugal, do status social, do seguro social e isolamento; problemas com a identidade de gênero, perda da linha de continuidade familiar e alterações emocionais.6,11-14

A violência contra a mulher afeta milhoes de mulheres em todo o mundo em todas as raças, culturas, classes socioeconômicas e educacionais e é definida como qualquer ação baseada no gênero que resulte em danos e sofrimento físico, sexual, psicológico-incluindo ameaças, coerção, privação da liberdade -, e pode ocorrer tanto na vida pública quanto na privada.1 A Organização Mundial de Saúde (WHO) estima que uma em cada 5 mulheres sofre violência em sua vida. Duas formas de violência contra a mulher são mais frequentes: a provocada por parceiro íntimo e a violência doméstica.15 Esta última, é definida como sendo qualquer comportamento ou atitude violenta de outra pessoa no seio da família, estando incluídos os danos físicos, mentais, sociais, econômicos e/ou sexuais.13 A violência por parceiro íntimo é a mais comum e acomete, segundo estimativa global, até 30% das mulheres; em algumas regioes até 38% das que têm um parceiro, sofreram algum tipo de violência.15,16

A prevalência de violência por parceiro íntimo em mulheres com infertilidade feminina é bastante variada, tendo sido relatada como sendo de 1,8% em Hong Kong17, 33,6% na Turquia18, 41,6% na Nigéria e 61% no Ira3. Embora a violência interpessoal afete homens e mulheres, o padrao é diferente: entre os homens, a lesão ou morte geralmente ocorre no contexto de violência de gangues ou de rua, enquanto entre mulheres o principal risco de morrer está nas mãos do parceiro íntimo.19 Nestas situações, até 38% dos assassinatos são cometidos pelo parceiro íntimo.15 A vulnerabilidade da mulher à violência doméstica é duas vezes maior nas mulheres inférteis.18

O objetivo deste artigo foi discutir a relação entre infertilidade e violência, a partir da revisão da literatura. Foi realizada pesquisa na base de dados NCBI (Pubmed e Lilacs), Web Science (Pubmed) e Portal Capes, usando os descritores violence e infertility e as palavras-chave: domestic violence; intimate partner violence; ethic violence; physical abuse; exposure to violence; sex offenses; female infertility; male infertility. Foram selecionados 22 artigos, detalhados no Quadro 1 ( vide no final do texto - revisão da literatura e sua descrição).

 

DISCUSSÃO

É mais conhecida a associação entre infertilidade secundária e doenças sexualmente transmissíveis (DST). Não há dúvidas a respeito do aumento de incidência de DST em mulheres vítimas de violência sexual, e as DST podem ser responsáveis pela obstrução tubária, causando, assim, infertilidade7,20 além de outras consequências como dor pélvica, sendo portanto, uma das consequências da violência. Uma investigação multicêntrica observou que a maioria dos casos de infertilidade em casais africanos são induzidas por infecção genital e, portanto, possivelmente evitáveis.20 No entanto nos 22 artigos selecionados para fazer esta revisão, 20 relataram a infertilidade como uma das possíveis causas da violência.1-3,5-8,10-14,16-24

É importante ter em mente que a definição de infertilidade varia entre as culturas e que a definição biomédica pode não captar a variação cultural. A noção de infertilidade é construída sobre percepções socioculturais, particularmente, e sobre percepções respeito do valor da paternidade como um papel social.2 Uma influência sociocultural primária nas noções de infertilidade é o gênero. Na maior parte do mundo, a identidade primária das mulheres é ser esposa e mae e elas são em grande parte responsáveis para a procriação, enquanto a identidade primária dos homens é a de um provedor e protetor.2

A maioria dos artigos desta revisão envolveu indivíduos de uma sociedade considerada patriarcal, onde os homens são considerados seres superiores e têm posição dominante, poder e autoridade e são considerados confiáveis. As mulheres, por outro lado, são entendidas como seres inferiores, principalmente por causa de sua suposta instabilidade física e emocional. Esta ordem de gênero é apresentada como divina e natural.2 Um marco importante na vida de uma mulher depois do casamento é a maternidade e é esperado que ela tenha pelo menos um filho para continuar a patrilínea, ou seja, a linhagem paterna. O nascimento do filho, de preferência no primeiro ano após o casamento, é considerado essencial para provar a fecundidade de uma mulher, dar herdeiro à família e garantir a sua posição dentro do lar conjugal e dentro da sociedade. Faltam entao resultados de pesquisas realizadas em países de cultura não patriarcal para que se possa fazer as devidas comparações, e análises. Um estudo17 vem de uma sociedade que não é a favor da natalidade(Hong Kong), e foi encontrada a prevalência de violência por parceiro íntimo em mulheres com infertilidade feminina de 1,8%, que é o menor índice relatado entre os vários países citados. Este resultado seria o esperado pois, onde se tem controle de natalidade, como, por exemplo, na China, a infertilidade poderia ser vista como aliada no cumprimento das normas sociais e não haveria pressão da sociedade sobre a família que a apresenta. Tal situação não representa, entretanto, ausência de violência, pois as mulheres inférteis que querem engravidar, e não podem devido ao sistema sócio cultural imposto, poderiam estar sofrendo violência.

Outro aspecto a considerar é que a maioria dos artigos selecionados são estudos transversais, e não permitem estabelecer relação de nexo causal. Apesar de muitos eles indicarem associação significante, é necessário que pesquisas futuras se concentrem em estudos longitudinais, com metodologia rigorosa, e com grupos de estudo e controle devidamente selecionados.19 Os estudos com desenho prospectivo são mais adequados para estabelecer a relação causal entre a infertilidade/subfertilidade e início da violência por parceiro íntimo.19

 

CONCLUSÃO

A violência sexual tem relação com a infertilidade feminina, e começam a surgir evidências de que a infertilidade também seja causa de violência em alguns países. São necessários mais estudos, com melhor qualidade metodológica, para confirmar essas emergentes evidências. Entretanto, a partir da presente revisão da literatura já se pode levantar a hipótese de que há um possível ciclo vicioso: a violência causa infertilidade e, esta, causa a violência.

 

 

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