ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Rede de atenção à mulher em situação de violência no município de Belo Horizonte: uma primeira abordagem
Women's attention network in the situation of violence in the municipality of Belo Horizonte: a first approach
Ana Paula Chaves de Miranda1; Bruno Hudson Coutinho1; Elza Machado de Melo1; Fabiana Goulart Rabelo2; Gesiene Aparecida Cordeiro Reis3; Josimara Cordeiro Ferreira4; Lorena de Oliveira Castro5; Mateus Figueiredo Martins Costa5; Simone de Morais5
1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Secretaria Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais, Centro de Referência de Atendimento à Mulher - CERNA. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG, Hospital das Clínicas, Serviço Social; Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde, Gerência Regional de Atençao à Saúde. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Secretaria Estadual de Defesa Social de Minas Gerais, Centro de Testagem e Aconselhamento - CTA, Central de Alternativas Penais - CEAPA. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde. Belo Horizonte, MG - Brasil
Ana Paula Chaves de Miranda
E-mail: anapaulachavesdemiranda@yahoo.com.br
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
Trata-se de estudo descritivo exploratório com o objetivo de descrever a rede de atenção à mulher em situação de violência de Belo Horizonte a partir do relato de profissionais que nela atuam. A metodologia consistiu de realização de entrevistas por meio de questionários semiestruturados, autoaplicáveis e online, com profissionais da Rede de Atenção à Saúde de Belo Horizonte que estao inscritos no curso de Atualização Para Elas, de Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência, modalidade de ensino a distância da Faculdade de Medicina da UFMG, no período de julho de 2014 a setembro de 2015. Resultados: 230 profissionais responderam o questionário online; a análise revelou que os profissionais utilizam praticamente toda a rede de atenção disponível para encaminhar as mulheres, no entanto, relevante número de profissionais demonstra ainda desconhecer essa rede, o que pode comprometer a abordagem de qualidade integral e longitudinal à mulher em situação de violência.
Palavras-chave: Violência contra a Mulher; Violência Doméstica; Rede de Atenção à Mulher em Situação de Violência.
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher é um problema de saúde pública, atingindo importantes parcelas da população do Brasil e do mundo. Estudo multicêntrico realizado pela OMS1 mostra que a violência contra a mulher varia de 13%, no Japao, a 61% no Peru. No Brasil, em torno de 40% das mulheres já foram forçadas a ter relações sexuais contra a vontade.² O principal agressor à mulher em situação de violência doméstica e sexual é o companheiro, evidenciando as desigualdades de sexo.3 Logo, a prevenção e o enfrentamento da violência contra a mulher passam necessariamente pela redução das desigualdades de sexo e requerem o engajamento de diferentes setores da sociedade, para se garantir que todas as mulheres e meninas tenham acesso ao direito básico de viver sem violência.4
Os serviços de saúde desempenham papel fundamental na resposta à violência contra as mulheres, pois muitas vezes são o primeiro local onde as vítimas buscam atendimento. Assim, os serviços precisam estar organizados de maneira a contemplar as reais necessidades das usuárias, que extrapolam o poder de resolutividade de um único setor, o que requer um conjunto articulado de ações intersetoriais,5 ou seja, requer o trabalho em rede capaz de produzir o cuidado integral, humanizado e de qualidade, fundado na práxis de autonomia da mulher e voltado para a garantia dos seus direitos.6 O objetivo deste trabalho é descrever a rede de atenção à mulher em situação de violência, de Belo Horizonte, a partir do conhecimento e utilização dos profissionais nela inseridos.
METODOS
Estudo de caráter descritivo-exploratório com abordagem quantitativa e qualitativa, realizado a partir de questionário online, autoaplicável e semiestruturado, respondido por profissionais atuantes no município de Belo Horizonte-MG e inscritos no curso de atualização a distância em Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência - Curso Para Elas, da Faculdade de Medicina da UFMG, no período de julho de 2014 a setembro de 2016.
O questionário foi preenchido na plataforma FormSUS, um serviço do DataSUS para a criação de formulários na web. Os critérios de inclusão para a participação da pesquisa foram: estar inscrito no curso, aceitar o Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE) e preencher todo o questionário. Foram excluídos os questionários incompletos.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética, Projeto CAAE 14187513.0.00005149.
Para este trabalho, foram utilizadas as seguintes variáveis: sociodemográficas; tipos de violência mais atendidos nos serviços de saúde; pontos de atenção da rede; percentual de profissionais que já atenderam mulheres em situação de violência; serviços que prestam atendimento às mulheres em situação de violência; e violência sexual. Foi realizada a análise descritiva com apresentação de tabelas e gráficos.
RESULTADOS/DISCUSSÃO
Responderam ao questionário 230 profissionais, sendo a maioria deles psicólogos (49), enfermeiros (45), médicos (43) e assistentes sociais (29). As demais profissões eram Fisioterapia (7), Odontologia (5), Terapia Ocupacional (3), Farmácia (3), Nutrição (3) e Educação Física (3), Fonoaudiologia (2), Administração (1) e outras (29), não informado (8). Em relação ao local de trabalho, 38,7% dos profissionais trabalhavam em instituição pública municipal, 20% em instituição pública estadual, 19,1% em instituição pública federal, 11,7% em instituição privada, 3,9% em instituição privada filantrópica e 6,5% em outras instituições - todas ligadas direta ou indiretamente à assistência à saúde. A Figura 1 mostra os gráficos com o número de horas trabalhadas pelos profissionais e o percentual dos que atendem a mulher.
Estudo realizado em Unidade Básica de Saúde de São Paulo mostra a ausência de uma rede articulada e de referência para casos de violência contra a mulher, ficando o encaminhamento das mulheres aos serviços por conta das iniciativas dos profissionais. Por um lado, isso indica a falha do serviço, por outro, enfatiza o papel do profissional.7 Considerando tal afirmação, há de se preocupar com os dados do presente trabalho, mostrados na Figura 1, pois apesar de a maioria dos profissionais relatar que já atendeu mulheres em situação de violência, 70% deles não dedicaram hora alguma de seu trabalho para esse fim.
A Figura 2 mostra o gráfico com os tipos de violência mais atendidos nos serviços de saúde onde os entrevistados estao lotados. É importante ressaltar que, em geral, a violência sexual é acompanhada da violência física e violência psicológica.

Estudiosos em pesquisa multicêntrica realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2005, conduzida em 10 países, identificaram elevadas prevalências de violência física (12,9 a 61,0%), psicológica (19,6 a 75,1%) e sexual (6,2 a 58,6%) perpetradas por parceiros íntimos contra as mulheres.8
Na Figura 3 é mostrado o gráfico de barras horizontais com os pontos da rede de atenção à mulher em situação de violência, relatados pelos profissionais e categorizados como atenção primária, atenção secundária, demais serviços ambulatoriais da rede de enfrentamento, hospitais de referência e serviços de urgência. Os serviços de urgência se destacaram com 47,4% como espaço de atendimento a mulheres em situação de violência; e a atenção primária aparece com 44,3%. Chama a atenção a expressiva proporção de profissionais que, apesar de estarem ligados direta ou indiretamente ao setor saúde, não citaram os serviços, nos diferentes níveis de atenção: 68% dos entrevistados não souberam citar serviços ambulatoriais; 56% não souberam citar hospitais de referência; e 48% não souberam citar serviços de urgência e emergência.

Esse dado é preocupante e sugere a existência de lacunas na rede de atenção à mulher em situação de violência. Em estudos realizados no estado do Rio Grande do Sul, há evidências de que as práticas e as posturas dos profissionais dos diversos setores são diversas e desagregadas e essa configuração fragmentada da rede pode fragilizar a mulher quanto à busca pelo apoio institucional, fazendo com que ela enfrente a situação solitariamente. Constatam que há despreparo e falta de qualificação dos profissionais para lidar com a questao. E a justificativa para esse quadro é a falta de qualificação e educação permanente pelas instituições da rede.9 Outros estudos realizados em Porto Alegre10 e em Ribeirao Preto11 chegaram a essa mesma conclusão.
As Figuras 4, 5 e 6 mostram gráficos de barra nos quais é mostrada a proporção de profissionais que citaram cada serviço da rede de urgência e emergência, da rede de enfrentamento e da rede de atenção à mulher em situação de violência sexual.



O gráfico da Figura 4 mostra predominância das UPAs e hospitais públicos de referência entre os serviços de urgência e emergência. Porém, são observadas citações de serviços que não estao presentes na rede de atendimento do município de Belo Horizon-te-MG, além de considerável número de respostas em branco e inválidas.
O gráfico da Figura 5 demonstra um leque de serviços presentes na rede de enfrentamento da violência contra a mulher, relatados pelos profissionais. Tal resultado indica o reconhecimento dessas instituições, o que é fundamental na garantia da captação e atenção às mulheres, mas da mesma forma que no anterior, as citações são vagas, não constando o nome da instituição, havendo também grande número de inválidas ou em branco.
O gráfico da Figura 6 mostra a posição estratégica dos hospitais públicos de referência no atendimento à mulher em situação de violência. Apesar disso, há dificuldades para os demais serviços: não há equilíbrio quanto ao percentual de profissionais que cada instituição relata; citação de instituições que não pertencem à rede de Belo Horizonte; e relevante número de respostas inválidas e em branco.
Considerando o conjunto dos serviços mencionados, observa-se que praticamente todos os serviços existentes na rede de Belo Horizonte foram citados pelos profissionais. Por outro lado, merece destaque o fato de que, se todas as instituições foram citadas, nenhuma delas atingiu proporção de citação de 50% dos profissionais, o que, somado aos problemas descritos antes para cada rede, revela inequivocamente o desconhecimento por parte dos profissionais sobre a rede de serviços de atendimento à mulher em situação de violência. Essa realidade impoe um grande desafio a gestores e trabalhadores dos diferentes setores ligados a atenção à mulher, sendo necessário considerar esse diagnóstico quando se pensa na elaboração de estratégias voltadas para as mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A violência contra a mulher constitui violação dos direitos humanos, com importante repercussão sobre sua saúde. É um fenômeno complexo, com grande impacto social e também sobre a saúde pública, exigindo para sua prevenção e enfrentamento ações articuladas para atender a mulher na sua integralidade. O reconhecimento da violência contra a mulher como um problema de saúde pública no Brasil e a elaboração de políticas públicas que vao ao encontro da realidade e das necessidades vivenciadas na sociedade são fundamentais para que se promovam ações de prevenção e cuidado, além da conscientização da população quanto a essa problemática. O problema é real, porém obscuro e camuflado pelo preconceito e barreiras institucionais, condição agravada por uma rede fragmentada, com profissionais sem a devida qualificação. É necessário construir espaços que possibilitem um diálogo contínuo entre os profissionais, serviços e população, rumo à articulação de uma rede efetiva e de qualidade. Sem isso, continuaremos "apagando fogo" e favorecendo a impunidade dos agressores e a invisibilidade da violência, enfim, deixando as mulheres cada vez mais reféns dessa doença social.
REFERENCIAS
1. Organização Mundial da Saúde. Multi-country study on women's health and domestic violence against women: initial results on prevalence, health outcomes and women's response. Geneva: World Health Organization; 2005. [citado em 2016 out. 16]. Disponível em: http://www.who.int/gender/violence/who_multicountry_study/summary_report/summary_report_English2.pdf
2. Vale SLL, Medeiros CMR, Cavalcanti CO, Cavalcanti CCS, Souza LC. Repercussões psicoemocionais da violência doméstica: perfil de mulheres na atenção básica. Rev Rene. 2013;14(4):683-93.
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4. Garcia LP. A magnitude invisível da violência contra a mulher. Epidemiol Serv Saúde. 2016[citado em 2016 out. 26];25(3):451-4. Disponível em: http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742016000300451&lng=pt. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742016000300001
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10. Meneghel SN, Bairros F, Mueller B, Monteiro D, Oliveira LP, Collaziol ME. Rotas críticas de mulheres em situação de violência: depoimentos de mulheres e operadores em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saúde Pública. 201l;27(4):743-52.
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