ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Profissionais da saúde e cultura machista
Health professionals and male chauvinist culture
Cristiane Savala Rezende Brandao; Enylda Motta Gonçalves Antunes; Hudson André de Jesus; Laudna Maria Pontes Milhioli; Marcell Felipe Alves dos Santos; Mariana Carla de Freitas; Patricia Gonzalez; Viviane Nunes Pinto
Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
Endereço para correspondênciaMarcell Filipe Alves dos Santos
E-mail: marcell.filipe@hotmail
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
Este artigo trata da análise de dados da pesquisa realizada com profissionais da área da saúde da rede de Belo Horizonte, matriculados no Curso Para Elas de Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência, da Faculdade de Medicina da UFMG, na modalidade de ensino a distância. O objetivo foi analisar a percepção desses profissionais sobre relações de gênero, especialmente a cultura machista. A metodologia consistiu de realização de entrevistas semiestruturadas, com a utilização de questionários autoaplicáveis, online, por meio da plataforma FormSUS. Como resultado, pode-se perceber que ainda persistem valores machistas pautando percepções sobre relações de gênero, mesmo entre profissionais de saúde, entre os quais, era de se esperar, eles não existissem mais. Tal fato reitera a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde que atendem as mulheres vítimas de violência e serao importantes para o avanço para relações de gênero mais igualitárias.
Palavras-chave: Violência; Identidade de Gênero; Mulheres; Pessoal de Saúde; Violência contra a Mulher.
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher tem raízes profundas que se disseminaram por meio da cultura e que ainda perduram na contemporaneidade. Essa violência decorrente do sexo, seja física, moral, sexual, verbal, psicológica ou patrimonial, é a materialização de uma relação de poder que acompanha a história da humanidade. Argumenta Tavares1 que a violência de gênero não diz respeito ao aspecto biológico, mas sim aos papéis impostos a homens e mulheres, reforçados por uma sociedade culturalmente patriarcal.
Atualmente a violência passou a ser vista como um problema de saúde pública, contudo, o setor de saúde nem sempre oferece uma resposta satisfatória à questao. Muitas vezes os profissionais se sentem tao despreparados que não identificam as mulheres em situação de violência, mesmo quando as lesões apresentadas trazem evidências da violência ocorrida. Tratam as lesões sem adentrarem na causa, quando na verdade deveriam averiguar a situação e procederem à notificação, a qual é uma obrigação legal. Segundo Villela2, os espaços e fluxos de trabalho são pouco adequados à tarefa tao sensível e a percepção dos profissionais é permeada por estereótipos de sexo e visões machistas.
Pensando na atuação de profissionais de saúde no atendimento a mulheres em situação de violência, este artigo tem o objetivo de analisar a percepção dos profissionais sobre as relações de gênero, especialmente a presença de valores da cultura machista entre profissionais de saúde que atuam na cidade de Belo Horizonte, inscritos no Curso Para Elas/UFMG.
MÉTODO
Estudo de caráter descritivo-exploratório com abordagem quantitativa cuja amostra está composta de profissionais de saúde que atuam na cidade de Belo Horizontea e que efetivaram sua matrícula no curso de atualização em Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência.
Todos os profissionais matriculados tiveram acesso ao questionário online, que continha perguntas abertas e fechadas. Tal questionário, composto de 66 questoes, foi aplicado por meio da plataforma FormSUS (serviço do DataSUS para a criação de formulários na Web), após a aceitação do Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE). Seu preenchimento ocorreu entre os meses de abril 2014 e setembro de 2016. O link de acesso ao questionário foi enviado por e-mail previamente cadastrado, com login e senha individual. Os dados foram colhidos em planilha do Excel e exportados para o programa estatístico SPSS 19.0v., com o qual foram feitas as análises que serao apresentadas. Foram estudadas neste artigo as variáveis sociodemográficas e as referentes às relações de gênero.
RESULTADOS
Participaram do estudo 230 profissionais, em sua maioria mulheres - 173 (75,2%) - e 57 homens (24,8%), com idade acima de 20 anos (66,1% estao entre os 20 e 39 anos). Na pesquisa, 56,1% dos profissionais afirmaram trabalhar em instituições que fazem atendimentos a mulheres em situações de violências, já 29,6% sugerem o contrário, não trabalham. E, por fim, 14,4% não souberam responder. A Figura 1 mostra o perfil de formação dos profissionais que participaram da entrevista.

A Tabela 1 mostra os aspectos culturais relativos a relações de gênero, adotados pelos profissionais. Verifica-se que, mesmo para questoes de forte ingrediente de poder na relação entre homem e mulher, como é o caso da mulher dever obediência ao marido ou ser obrigada a ter relações com eles, encontrou-se a concordância de alguns profissionais. Embora poucos concordem com o silêncio sobre a violência doméstica, muitos defendem um ponto de vista que chega a ser contraditório, de que problemas familiares devem ficar circunscritos à família. Por fim, e muito importante, é significativo o percentual de profissionais que atribuem a responsabilidade da violência à mulher e muito elevado o percentual de profissionais que acreditam que o sucesso da mulher incomoda o homem
Entre os entrevistados, 203 (88,3%) têm opiniao de que as mulheres também praticam violência contra os homens.
Sobre os principais obstáculos dos profissionais que fazem algum tipo de atendimento a mulheres, os profissionais relatam estrutura física inadequada (57%); equipe multiprofissional incompleta (61,3%); ausência de redes que possam ser referência para casos de encaminhamento (53%); e capacitação insuficiente (61,8%).
DISCUSSÃO
Segundo Lettiere3, a violência contra a mulher, embora presente na maioria das sociedades, continua sendo considerada um fenômeno quase invisível e muitas vezes aceito socialmente como "normal"; uma situação esperada e costumeira, o que pode explicar por que ainda há profissionais, inclusive do sexo feminino, que concordam que as mulheres devam obedecer ao marido mesmo que discorde dele. Mais importante ainda é o fato de muitos profissionais adotarem o ditado de que a roupa suja se lava em casa, principalmente porque os motivos que dificultam o rompimento da relação violenta são atos e sentimentos apreendidos socioculturalmente como a censura da família e da comunidade, a dependência afetiva e econômica; e assim as vítimas buscam não expor os problemas internos familiares4.
Os resultados mostram que ainda há profissionais da saúde que lidam com a questao da violência contra as mulheres e possuem uma visão completamente distorcida, entendendo que a mulher deve se submeter às vontades dos homens. Nesse sentido, enfatiza Falcke5 que, em nossa sociedade tradicional, esperava-se da mulher delicadeza, subordinação e obediência: era vista como a principal responsável pelo cuidado da casa, do marido e dos filhos. Os homens, por sua vez, eram educados de modo proativo. Considerados os principais provedores e chefes de família, tinham a obrigação de serem fortes e corajosos. As culturas patriarcais, durante muito tempo, reforçaram as diferenças entre homens e mulheres, colocando os primeiros em posição hierárquica superior, fato favorecedor da violência e que prevalece nos dias atuais.
Argumenta, ainda, Tavares6 que a violência de gênero não está pautada nas diferenças biológicas entre homens e mulheres e sim os papéis que lhes são impostos, reforçado por culturas patriarcais que estabelecem relações de violência entre os sexos. Segundo Gomes e Diniz7, nessas sociedades, homens e mulheres encontram-se ancorados em papéis sociais de gênero, nos quais o homem tem o direito de controlar os desejos e as vontades de suas parceiras.
Importante proporção de profissionais concorda que a forma de a mulher se vestir justifica a violência, encontrando-se, portanto, uma percepção machista em que se espera que ela não deva existir, o que é corroborado pelo trabalho de Franzoi8, no qual o autor notifica a influência da cultura de dominação masculina na perspectiva pessoal, independentemente da formação e da profissão exercida.
Bourdieu9 mostra que a cultura opressora está sólida em todos nós e que "a força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica se impoe como neutra e não tem necessidade se enunciar em discursos que visem a legitimá-la". Segundo ele, os homens se sentem incomodados a partir do momento em que a diferença biológica entre os sexos não é mais vista como "justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho". É compreensível, pois, o incômodo frente ao sucesso financeiro da mulher, pois ele é exemplo concreto que se contrapoe à naturalização biológica da dominação.
Como conclusão, reitera-se a necessidade de investimento nos profissionais de saúde, para que eles possam ser capazes de identificar a cultura machista e refletir sobre ela, criando condições de enfrentá-la de forma diferente e não pela ótica do senso comum, que estaria mais propensa, pela força da cultura vigente, a reproduzir a dominação masculina.
REFERENCIAS
1. Tavares DMC. Violência contra mulher: um problema de saúde pública [dissertação]. São Paulo: Departamento de Prática de Saúde, Universidade de São Paulo; 2000. 113f.
2. Villela W, Lago T. Conquistas e desafios no atendimento das mulheres que sofreram violência sexual. Cad Saúde Pública. 2007; 23(2):471-5.
3. Lettiere A, Nakano AMS, Rodrigues DT. Violence against women: visibility of the problem according to the health team. Rev Esc Enferm USP. 2008[citado em 2016 fev. 20];42(3):467-73. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342008000300008&lng=pt.
4. Bandeira LM. Violência de gênero: a construção de um campo teórico e de investigação. Rev Soc Estado. 2014;29(2):20-4.
5. Falcke D. Violencia conjugal: um fenômeno interacional. Contextos Clínicos. 2009;2(2):81-90.
6. Tavares DMC. Violência doméstica uma questao de saúde pública. São Paulo: USP; 2000.
7. Gomes NPG, Diniz NMF. Homens desvelando as formas da violência conjugal. Acta Paul Enferm. 2008;21(2):262-7
8. Franzoi NM, Fonseca RMGS, Guedes RN. Violência de gênero: concepções de profissionais das equipes de saúde da família. Rev Latino-Am Enferm. 2011[citado em 2016 out. 15];19(3):589- 97. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v19n3/pt_19.pdf
9. Bourdieu P. A dominação masculina. 13ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 1998.
a Questionários preenchidos por profissionais que não trabalhavam na cidade de Belo Horizonte-MG foram adotados como critérios de exclusão.
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