ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Políticas públicas de saúde e ações de promoção da saúde em HIV/AIDS: revisão da literatura
Public health policies and actions to promote health in HIV/AIDS: systematic review
Lilian Nobre de Moura1; Stela Maris Aguiar Lemos2
1. Faculdade Santa Rita - FaSaR, Curso de Biomedicina. Conselheiro Lafaiete, MG - Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina, Departamento de Fonoaudiologia. Belo Horizonte, MG - Brasil
Lilian Nobre de Moura
E-mail: liliannobre34@gmail.com
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
OBJETIVO: revisar e discutir as produções científicas acerca do HIV/AIDS, tendo como referência o desenvolvimento e avaliação das políticas públicas de saúde e analisar os estudos observacionais sobre a temática.
MÉTODOS: trata-se de revisão integrativa de literatura com base na iniciativa STROBE.
RESULTADOS: foram analisados sete artigos nacionais e seis internacionais que revelaram estratégias de enfretamento, como foco na prevenção e na promoção, avanços da qualidade de vida da pessoa com HIV/AIDS, assistência especializada e desafios que persistem em relação à abordagem da temática. A maioria dos estudos observacionais analisados atendeu parcialmente aos critérios descritos na iniciativa STROBE.
CONCLUSÕES: produções científicas revelaram como principais eixos temáticos: formas de financiamento para o desenvolvimento de ações ao enfrentamento da epidemia do HIV/AIDS e experiências exitosas no desenvolvimento de ações de promoção e prevenção no Brasil e no mundo. A política brasileira para o enfrentamento da epidemia é destacada com a distribuição gratuita da medicação e a quebra de patentes de medicamentos.
Palavras-chave: Políticas Públicas de Saúde; Promoção da Saúde; Síndrome da Imunodeficiência Adquirida; HIV.
INTRODUÇÃO
No período histórico inicial do HIV/AIDS o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatizaram a vigilância de doenças como estratégia para chamar a atenção para o problema e melhorar a compreensão da sociedade quanto ao crescimento, demografia e custo da epidemia desse agravo. Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Saúde (NHI) nos Estado Unidos, entre outros, procurou compreender a biologia da doença e formas de encontrar terapias eficazes e abordagens preventivas.1
Nas três décadas seguintes, a identificação do HIV - a pandemia da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) - tem provocado aumento no número de casos notificados ao redor do mundo. Em muitas populações, a infecção do HIV tornou-se endêmica e embora haja progresso na expansão do acesso à terapia antirretroviral com a estimativa de 6,6 milhoes de pessoas em tratamento em todo o mundo, os esforços de prevenção ainda são insuficientes, com 2,6 milhoes de novos casos e 1,8 milhao de mortes no ano de 2009 no mundo. Apesar dos sinais de progresso, o mundo está longe de vencer a AIDS.2
Vários eventos recentes mudaram a paisagem histórica da AIDS. As pesquisas tiveram avanços positivos, principalmente o foco em estratégias de prevenção e na eficácia do tratamento. Além disso, resoluções internacionais vêm desenvolvendo o engajamento político e as estratégias, focando agora em populações com risco muito elevado, contudo, aspectos políticos, religiosos e culturais, entre eles o estigma social e discriminação, têm diminuído a eficácia de intervenções.2
Jiang3 traz dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS - UNAIDS que, em 2008, informou que ao longo da última década a assistência internacional dos governos doadores, de instituições multilaterais e de instituições do setor privado tem aumentado com o objetivo de prevenir o HIV/AIDS e mitigar seu impacto na população em todo o mundo. Para isso, estao envolvidos programas globais, trabalhos analíticos, diálogos políticos e empréstimos, créditos e subsídios para programa de HIV/AIDS. Ainda segundo o autor, em um relatório em 2005, o Banco Mundial mostra que, para a abordagem do HIV em países em desenvolvimento, ainda se faz necessária a pactuação de um compromisso político, além da habilidade e capacidade na construção e gestao de fundo. Isso porque governos com baixo comprometimento e baixa capacidade de controle do HIV/AIDS são fatores mais comuns quando se observa a falha de projetos de prevenção e controle do HIV/AIDS em países de baixa renda.
Os programas de prevenção primária têm como foco os comportamentos saudáveis, entretanto, essa abordagem é considerada de baixa prioridade dentro das políticas de saúde.4 Portanto, o reconhecimento e o diagnóstico do vírus da imunodeficiência humana (HIV) no contexto dos cuidados primários constituem uma oportunidade para a educação do paciente e promoção da saúde.5
A literatura preconiza que intervenções com foco em comportamentos de risco contribuem para a prevenção, enquanto que as intervenções focadas na adesão do tratamento, enfrentamento e gestao do estresse melhoram a gestao da doença e a qualidade de vida do portador.4 Vale destacar, também, que o conhecimento sobre o HIV e como evitar a doença não faz automaticamente as pessoas incorporarem os comportamentos sexuais preventivos no seu dia a dia, sendo, portanto, necessário mais esforço no campo da prevenção como ações de educação continuada e campanhas pontuais abordando as populações vulneráveis.6
Este artigo justifica-se pela importância da reflexão acerca das ações e produção de conhecimento na área do HIV/AIDS no âmbito nacional e internacional e na compreensão do estado da arte da produção científica no cenário das políticas públicas de saúde e na promoção da saúde.
Assim, os objetivos do presente estudo foram revisar e discutir as produções científicas acerca do HIV/AIDS tendo como referência o desenvolvimento e avaliação das políticas públicas de saúde; e analisar os estudos observacionais sobre a temática.
METODOLOGIA
Trata-se de revisão integrativa de literatura com metodologia baseada em propostas metodológicas nacionais7,8 e internacional.9 A revisão foi realizada no período de 24 junho a 1o de agosto de 2013 sobre as relações entre HIV, AIDS, DST, promoção da saúde e políticas públicas de saúde por meio de pesquisa de literatura na base de dados da PubMed, incluindo artigos entre os anos de 2008 e 2013, realizada em duas etapas: a primeira consistiu na seleção de descritores, elaboração da estratégia de busca, da compilação dos artigos, fase descritiva; e a segunda compôs-se na análise segundo a iniciativa STROBE.10
A análise dos artigos foi realizada na iniciativa STROBE por meio da realização de análise estudos observacionais incluídos na revisão e construção de categorias segundo o atendimento aos critérios descritos na iniciativa.
REVISÃO DE LITERATURA
Na presente revisão foram encontrados 13 artigos. Para análise por meio da Iniciativa STROBE foram comparados os itens título e resumo; introdução com os subitens contexto/justificativa e objetivos; métodos com os subitens desenho do estudo, contexto, participantes, variáveis, fontes de dados, variáveis quantitativas e métodos estatísticos; resultados com os subitens participantes, dados descritivos, desfecho e resultados principais; e discussão, com os subitens limitações, interpretações e generalização.
Dos artigos observacionais descritos na Tabela 1 para os itens título e resumo, introdução e métodos, 28,6% atendem totalmente e 71,4 atendem parcialmente aos critérios apresentados na iniciativa STROBE. Para o item resultados, 14,3% atendem totalmente, 71,4% atendem parcialmente e 14,3% não atendem aos critérios estabelecidos. Para o item discussão, 28,6% dos artigos atendem aos critérios estabelecidos, 57,1% atendem parcialmente e 14,3% não atendem. É possível verificar que nenhum dos artigos observacionais incluídos nesta revisão sistemática atende em sua totalidade aos critérios estabelecidos, prevalecendo o atendimento parcial ao protocolo de análise da iniciativa STROBE.
Nesse contexto, vale destacar que a ausência de descrição completa da metodologia utilizada na construção dos artigos observacionais segundo a iniciativa STROBE pode comprometer a interpretação dos resultados, a reprodutibilidade dos estudos e o planejamento para novas pesquisas. Além disso, o avanço científico depende, em grande medida, do compartilhamento adequado da informação científica e da produção de conhecimento.
Após a análise dos artigos incluídos nesta revisão, foi observada a carência de trabalhos que abordem, simultaneamente, os eixos temáticos, HIV/AIDS e doenças sexualmente transmissíveis (DST) relacionados a políticas públicas de saúde e das DSTs à promoção da saúde.
Ao longo dos anos, especialistas em HIV/AIDS chegaram ao consenso de que três realidades são inquestionáveis em relação ao agravo: a) a busca pela cura e a luta contra a pandemia deve ser global e não nacional; b) a prevenção deve ser inevitavelmente ligada ao diagnóstico e tratamento precoce, o que significa o uso de abordagens eficazes ligadas à comunidade com sistemas de saúde organizados; c) embora o comportamento desempenhe papel importante na questao do risco de se contrair o HIV, os esforços de prevenção necessitam integrar abordagens comportamentais associadas a abordagens biomédicas para que, de forma complementar, auxiliem na redução da incidência do agravo.1,2
Para países com alta prevalência de AIDS, a questao social central deverá ser considerada, exigindo estratégias de longo prazo e de emergência. A AIDS continuará a ser um desafio para as futuras gerações e para uma resposta eficaz é urgente à reformulação de ações para deter a epidemia, considerando que não há solução de curto prazo eficaz para a erradicação da doença/agravo.11-17
CONCLUSÃO
Baseado na análise de dados, é possível afirmar que, embora haja limitações em relação ao número de artigos finais e ao uso de apenas uma base de dados (PubMed), a presente revisão pode colaborar para a análise exploratória do estado da arte do conhecimento na área. Além disso, os dados aqui apresentados podem contribuir para o planejamento de futuras pesquisas e orientação de novas perguntas de pesquisa na área de políticas públicas de abordagem do HIV/AIDS.
O presente artigo também contribui para aprofundar o conhecimento sobre as ações de promoção de saúde entre populações vulneráveis, pois reúne informações relevantes e de boa qualidade sobre o assunto e ressalta estratégias de prevenção, comportamentais e sociais já consolidadas como, por exemplo, a identificação dos fatores que influenciam no uso do preservativo como estratégia de prevenção e promoção da saúde.
As produções científicas revelaram como principais eixos temáticos as formas de financiamento para o desenvolvimento de ações ao enfrentamento da epidemia do HIV/AIDS, experiências exitosas no desenvolvimento de ações de promoção e prevenção no Brasil e no mundo. Vale ressaltar, ainda, a política brasileira para o enfrentamento da epidemia, com destaque para a distribuição gratuita da medicação e a quebra de patentes para viabilizar a produção nacional. Verificou-se, ainda, que a maioria dos estudos observacionais analisados atendeu apenas parcialmente aos critérios descritos na iniciativa STROBE.
REFERENCIAS
1. Narayan KMV, Ali MK, Del Rio C, Koplan JP, Curran J. Global Noncommunicable Diseases: lessons from the HIV/AIDS experience. New Eng J Med. 2011;365:1099-107.
2. Larson HJ, Bertozzi, S, Piot, P. Redesigning the AIDS response for long-term impact. Bull World Health Organ. 2011;89:846-52.
3. Jiang Z, Wang D, Yang S, Duan M, Bu P, Green A, et al. Integrated response toward HIV: a health promotion case study from China. Health Prom Inter. 2010;26(2):196-211.
4. Fisher EB, Fitzgibbon ML, Glasgow RE, Haire-Joshu D, Hayman LL, Kaplan RM, et al. Behavior matters. Am J Prev Med. 2011;40(5):e15-e30.
5. Chu C, Selwyn PA. Diagnosis and Initial Management of acute HIV infection. Am Family Phys. 2010;81(10):1239-44.
6. Wamoyi J, Mbonye M, Seeley J, Birungi J, Jaffar S. Changes in sexual desires and behaviours of people living with HIV after initiation of ART: implications for HIV prevention and health promotion. BMC Public Health. 2011;11(4):633-9.
7. Sampaio R, Mancini MC. Estudos de revisão sistemática: um guia para síntese. Rev Bras Fisioter. 2007;11(1):83-9.
8. Mendes KDS, Silveira RCCP, Galvao CM. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto Contexto Enferm. 2008;17(4):758-64.
9. Braga R, Melo M. Como fazer uma revisão baseada na evidência. Rev Port Clin Geral. 2009;25(1):660-6.
10. Malta M, Cardoso LO, Bastos FI, Magnanini MMF, Silva CMFP. Iniciativa STROBE: subsídios para a comunicação de estudos observacionais. Rev Saúde Pública. 2010;44(3):559-65.
11. Meis C. Cultura empowerment: promoção à saúde e prevenção da AIDS entre prostitutas no Rio de Janeiro. Ciênc Saúde Coletiva. 2011;16(supl.1):1437-44.
12. Massoni VA, Monteiro MI. Vulnerabilidade à doenças sexualmente transmissíveis / AIDS e uso de drogas psicoativas por caminhoneiros. Rev Bras Enferm. 2010;63(1):79-83.
13. Grangeiro A, Escuder, MML, Castilho, EA. Evaluation of strategies by the Brazilian Ministry of Health to stimulate the municipal response to AIDS. Cad Saúde Pública. 2011;27(1):S114-S128.
14. Souza VS, Czeresnia D. Demandas e expectativas de usuários de centro de testagem e aconselhamento anti-HIV. Rev Saúde Pública. 2010;44(3):1-6.
15. Lippman AS, Donini A, Diaz J, Chinaglia M, Reingold A, Kerrigan D. Social-environmental factors and protective sexual behavior among sex workers: the encontros intervention in Brazil. Am J Public Health. 2010;100(1):S216-S223.
16. Amico P, Gobet B, Avila-Figueroa C, Aran C, Lay P. Pattern and levels of spending allocated to HIV prevention programs in low- and middle-income countries. BMC Public Health. 2012;12(2):221-9.
17. Grangeiro A, Escuder MM, Veras MA, Barreira D, Ferraz D, Kayano J. Voluntary counseling and testing (VCT) services and their contribution to access to HIV diagnosis in Brazil. Cad Saúde Pública. 2009;25(9):2053-63.
Copyright 2026 Revista Médica de Minas Gerais

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License