ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Percepções de alunos sobre mudanças geradas na prática profissional a partir do curso a distância "Atenção Integral à Mulher em Situação de Violência"
Perceptions of students about changes in their professional practice from the distance course "Integral Attention to Women in Situation of Violence"
Carolina Alves Reynaldo Dias1; Angela Moreira2; Elisane Adriana Santos Rodrigues3; Denise Monteiro de Barros Caixeta4; Adriana Perini2; Elza Machado de Melo2; Victor Hugo Melo2
1. Centro Universitário Newton Paiva. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Gerente do Centro de Saúde Sao Bernardo. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG - Brasil
Carolina Alves Reynaldo Dias
E-mail: carolreynaldo@hotmail.com
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
Este estudo de abordagem qualitativa tem por objetivo identificar mudanças nas perspectivas de profissionais durante o desenvolvimento do curso Atenção Integral à Mulher em Situação de Violência, modalidade de Ensino à Distância (EAD) relacionadas à abordagem à mulher em situação de violência, com duração de 60 horas. A pesquisa foi realizada a partir dos registros oriundos dos discursos obtidos nos fóruns de discussão dos quatro cursos realizados no período entre agosto de 2014 e julho de 2016. Os sujeitos foram 189 alunos. Para a compreensão dos discursos, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo temática e construção das seguintes categorias: mudanças na esfera reflexiva; mudanças na esfera de ação; mudanças na esfera elaborativa. Verificou-se que o curso EAD proporcionou relevante aproximação dos alunos ao tema proposto, promoveu sensibilização, aquisição de conhecimentos, desenvolvimento de habilidades, olhar crítico, capacidade propositiva e de transmissão dos conhecimentos adquiridos. A avaliação realizada demonstrou o potencial do curso EAD para a transformação de práticas e qualificação da assistência aos envolvidos.
Palavras-chave: Violência; Educação Continuada; Violência contra a Mulher.
INTRODUÇÃO
O curso de Atualização em Atenção Integral à Saúde da Mulher em Situação de Violência - Para Elas, iniciado em agosto de 2014, faz parte do Projeto Para Elas. Por Elas, Por Eles, Por Nós, de âmbito nacional. Foi estruturado na modalidade de ensino a distância, em que os participantes realizam seus estudos de forma autônoma, guiados pelo material didático disponível na plataforma Moodle de ensino-aprendizagem e assessorados por tutores qualificados na área de prevenção da violência. Dividido em três módulos, o curso conta com um fórum de discussão ao final de cada módulo, em que os participantes podem expor suas considerações sobre os materiais estudados. O curso possuiu ainda um portfólio reflexivo como ferramenta, em que cada participante faz seus registros a partir de resposta a atividades programadas e tem "feedbacks" dos tutores. Trabalha com a capacitação de profissionais de todas as regioes do Brasil, que atendem as mulheres em situação de violência, já tendo capacitado 333 profissionais, sendo sua principal pretensão a modificação da visão dos participantes quanto à violência.
Entraves culturais nas diferentes regioes do país fazem com que a violência contra a mulher seja tolerada em diversas situações e muitas vezes não seja reconhecida em todas as suas formas, tanto no âmbito público como no privado.1 A violência contra a mulher é um problema de saúde pública, pois tem influência direta na sua saúde e gera consequências que podem ser de caráter imediato, mediato ou em longo prazo.2-4 Quando nos referimos às vítimas de violência, os danos físicos e os danos psicológicos2,4-7 são de extrema importância, sendo de responsabilidade dos profissionais de saúde o tratamento de sequelas, bem como a notificação dos casos identificados.8
Estudos mostram que os profissionais se sentem inseguros e mesmo despreparados para atender mulheres em situação de violência e que terminam por realizar uma prática reducionista e biologicista nessa atenção à saúde da mulher.9 Para se identificar e diagnosticar os possíveis casos de violência doméstica, é necessário que os profissionais desenvolvam uma escuta qualificada e um olhar treinado, uma vez que esse contato muitas vezes representa a única chance de ajuda para mulheres em situação de violência. A não compreensão da importância dessa atuação pode possibilitar que essa situação seja perpetuada.10
Dessa forma, a garantia da qualificação dos profissionais para o atendimento às mulheres em situação de violência só ocorrerá caso essa formação seja oferecida, de forma específica, desde os processos de formação acadêmica, ressaltando a importância de que sejam oferecidos aos profissionais espaços para atualizações e capacitações sobre o tema.11
A proposta do curso a distância do Projeto Para Elas segue a orientação do Ministério da Saúde, que acredita na educação permanente dos profissionais como forma inovadora e transformadora das práticas das organizações de saúde.12 Ao completar o curso, espera-se que o aluno possa aplicar as reflexoes e as análises realizadas para propor intervenções e mudanças nos serviços de saúde onde atua.
Este estudo pretende avaliar as possíveis mudanças dos profissionais na abordagem da mulher em situação de violência, a partir de sua capacitação no curso Para Elas, utilizando os relatos desses profissionais registrados nos fóruns de discussão dos quatro cursos realizados nos últimos dois anos.
METODOLOGIA
Esta pesquisa foi realizada sob a análise qualitativa, na qual se utilizaram discursos obtidos nos Fóruns I, II e III de discussão do curso EAD no período de agosto de 2014 a julho de 2016. Os sujeitos foram 189 alunos, uma vez que se optou por analisar os discursos de alunos que preencheram o questionário de avaliação final do curso. Esse recorte permitiu atuar sobre os discursos de sujeitos que realizaram todas as atividades previstas no curso em foco.
No Fórum I, a discussão girou em torno das seguintes proposições "Vocês leram sobre as teorias de autores clássicos na Unidade I como essas abordagens podem contribuir para asua prática, para a reflexão e compreensão da violência? Esses autores ajudaram a pensar na superação da violência? Apontem alternativas e propostas".
No Fórum II, os alunos assistiram ao curta-metragem Vida Mariaa e relacionaram às discussões provocadas nas Unidades I e II.
No Fórum III, trabalhou-se com a seguinte questao: "O curso apresentou alguma contribuição para a sua prática?". Essa questao era apresentada pelos tutores e supervisão pedagógica e discutida no Fórum da Unidade III - que contém, basicamente, casos clínicos simulados de violência contra a mulher - via plataforma Moodle, após o término de todas as atividades.
Para a compreensão dos discursos foi utilizada a técnica de análise de conteúdo temática.13 Após a leitura flutuante dos registros, buscou-se, de forma intencional, identificar registros que identificassem mudanças nas perspectivas relacionadas à abordagem à mulher em situação de violência após o desenvolvimento dos estudos. Em seguida, partiu-se para a construção de categorias de análise correspondentes.
Este estudo faz parte do Projeto Para Elas. Por Elas, Por Eles, Por Nós, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da UFMG (Projeto CAAE14187513.0.0000.5149) em dezembro de 2011 e pelo Fundo Nacional de Saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Desdobramento das práticas profissionais a partir do EAD
Na análise dos discursos foram observados diversos desdobramentos ilustrados como mudanças que foram classificadas em três esferas: reflexiva, de ação e elaborativa. Na esfera da reflexão foram inseridos os discursos que estavam voltados para a análise do cotidiano social, político e do trabalho, relacionados às teorias estudadas. Na esfera da ação foram utilizados os discursos que abordam as mudanças reais na prática de trabalho, baseadas nas teorias estudadas. Na esfera elaborativa foram compilados os discursos que indicam o planejamento de ações amplas para o setor saúde, norteados pelas teorias e documentos estudados. Para ilustrar esses desdobramentos, alguns trechos de discursos serao reproduzidos a seguir.
Mudanças na esfera reflexiva
Na análise dos discursos podem-se identificar momentos de reflexão sobre a situação da mulher no contexto atual. Os discursos mostram tanto a identificação da importância de movimentos sociais e de políticas públicas voltadas para a garantia do direito das mulheres, quanto para a relevância da participação das mulheres na vida pública. Os discursos destacam a importância do material estudado para o despertar dessas reflexoes, como se pode observar:
O retorno à teoria, às políticas e aos materiais normativos é fundamental já que as mudanças na realidade e em nós mesmos são constantes. Reconhecer essa necessidade é importante - buscar apoio teórico, das equipes com as quais trabalhamos e de outros serviços fortalece nossa prática e, consequentemente, o cuidado que podemos construir (M.H.).
Além disso, foi possível detectar situações em que o participante conseguiu avaliar sua conduta prévia no atendimento às mulheres em situação de violência como inadequada, devido à falta de conhecimento técnico, concluindo que a partir da capacitação estará mais qualificado para fazê-lo:
[O curso foi] Muito produtivo e enriquecedor para minha trajetória pessoal e profissional [...] Mesmo já tendo atendido mulheres vítimas de violência e naquele momento ter oferecido o meu esforço em atender de forma respeitosa e sensível, devido à falta de um conhecimento mais amplo sobre toda uma rede de atendimento e proteção à mulher, constato que minha atuação ficou muito restrita à questao técnica (A.M.V.).
A sensibilização de profissionais da saúde para o problema da violência é um grande desafio.9 Sendo assim, pode-se verificar que o conhecimento teórico é essencial para embasar uma reflexão sobre a realidade. Discute-se que a identificação da violência depende da mobilização de recursos internos, sensibilidade, habilidade e disponibilidade para ouvir o outro. Além disso, é necessário um intenso investimento para a capacitação profissional.14
Mudanças na esfera de ação
Entre os discursos analisados, a esfera prática teve grande destaque. Relatos de desenvolvimento de habilidades para acolher, atender, encaminhar e acompanhar a mulher em situação de violência traduzem como a participação no curso pode alterar o dia a dia no trabalho. O desejo de transformar a realidade a partir da disseminação de conhecimentos adquiridos e de um olhar mais sensível para identificação da violência foram pontuados em alguns relatos, como no trecho a seguir:
Ser agente de transformação após todo conteúdo oferecido é o meu objetivo. Atender de maneira integral, humanizada às mulheres vitimadas, oferecendo informação e recursos para lutarem por seus direitos, esses por vezes conquistados com muito sofrimento, é o resumo do que aprendemos a desenvolver aqui, tendo agora em mãos/mente conhecimentos de todas as etapas dos procedimentos adequados ao atender uma mulher em situação de violência (J.M.S.).
A capacitação para o atendimento qualificado, que se traduz nos depoimentos como mudança de atitude na abordagem da violência, faz-se necessária, uma vez que os profissionais de saúde são expostos no seu dia a dia a situações complexas quando o assunto é diagnóstico e enfrentamento à violência.9 Dessa forma, as mudanças de comportamento relatadas podem ser ressaltadas como um sinal de sucesso do curso Para Elas, principalmente quando identificado o desejo de multiplicação dos conhecimentos consolidados.
Mudanças na esfera elaborativa
É possível verificar que alguns alunos conseguiram reconhecer pontos críticos referentes ao atendimento de mulher em situação de violência em sua regiao de atuação. Esse fato foi associado à proposição de soluções para fomentar mudanças relacionadas aos problemas:
Infelizmente, identifiquei algumas lacunas nesses serviços [de atenção à mulher em situação de violência] em minha regiao, [...] me senti mais encorajada a conversar com responsáveis por esse setor na regiao e abrir discussões para o que pode ser feito em relação a esses desfalques (I.FC.).
Fica evidente, também, que o curso foi capaz de permitir um olhar crítico sobre a realidade local, de forma a recuperar ideias e instigar a elaboração de propostas para alterar o fluxo dessas pacientes:
[...] essa discussão suscitou algo que há muito estava engavetado, a reestruturação do fluxo de atendimento das vítimas de violência em nosso serviço [Hospital Regional], a ideia é que possamos interagir com a rede na sequência e assim poder desenhar todo este caminho a ser percorrido (D.G.).
A percepção mais ampla sobre as dificuldades de prover a atenção integral à mulher em situação de violência, ao entender que a violência é um problema estrutural, é fundamental para fomentar mudanças. Sabe-se que para o planejamento de qualquer ação para grupos específicos, faz-se necessário coletar dados locais com o objetivo de identificar prioridades, direcionar a criação de programas e garantir o monitoramento das ações propostas.15 Não é possível garantir que os depoimentos examinados reflitam efetivas mudanças das realidades locais. Entretanto, o despertar desse tipo de sentimento mostra o alto potencial de transformação que o Curso Para elas, modalidade EAD, pode impulsionar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A capacitação dos profissionais para a abordagem da violência se apresenta como uma importante estratégia de qualificação da assistência aos envolvidos nessas situações. Este estudo mostra essa possibilidade ao tratar de uma experiência em formação que aborda o tema de forma ampla, considerando a sensibilização, o desenvolvimento de conceitos, a evolução do problema nas sociedades, a legislação, a discussão de casos, a tomada de decisão e a perspectiva de redes de enfrentamento.
As reflexoes provocadas a partir do curso em discussão propiciam o alargamento das perspectivas dos participantes acerca da temática da violência. Isso ocorre no campo da sensibilização, da aquisição de conhecimentos e habilidades, do olhar crítico sobre a realidade e da capacidade propositiva. Além disso, a formação permite que os participantes se reconheçam como capazes de transmitir o conhecimento adquirido, o que provoca um movimento dinâmico e estimulante de mudanças de práticas e posturas adiante das situações de violência.
A metodologia do ensino a distância (EAD) é outro fator relacionado ao êxito dessa proposta de capacitação. Tal modalidade permite atingir maior número de profissionais que lidam com a violência em todo o país, consumindo menos quantidade de recursos para seu desenvolvimento do que um curso presencial.
Dessa forma, a experiência apresentada possibilita a efetivação de mudanças no interior dos serviços que lidam cotidianamente com o fenômeno da violência, isto é, nos locais onde o problema se instala e se apresenta como contingente de atuação. É nessa perspectiva que as políticas públicas se efetivam na prática, quando os atores envolvidos se sentem mais preparados e contextualizados sobre seu propósito de ação em prol da sociedade.
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a Vida Maria é um filme de direção de Márcio Ramos, produzido por Joelma Ramos e Mário Ramos (VIACG e Trio Filmes. Ceará, 2006) indicado para provocar as discussões no fórum de encerramento da unidade II, em que se faz o contraste entre os direitos adquiridos pela mulheres -verificados ao longo da Unidade Didática - e a realidade de muitas mulheres brasileiras - apresentada no curta metragem de nove minutos.
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