RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Artigo Original

Interfaces da violência e da ética entre adolescentes nos contextos da escola e da família

Interfaces of violence and ethics among adolescents in school and family contexts

Danielle Gonçalves Rocha1; Débora Corgosinho Nogueira Figueiredo2; Lucimar Leao Gomes3; Rafael Miranda de Oliveira4; Rosane Alves de Oliveira5; Túlio Eugênio de Souza6; Elza Machado de Melo2

1. Fundaçao Hospitalar do Estado de Minas Gerais - FHEMIG, Hospital de Ensino Instituto Raul Soares - IRS; Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós Graduaçao Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. FHEMIG, Hospital Alberto Cavalcanti - HAC; UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. FHEMIG, IRS; UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Hospital Municipal Araci de Amorim Pereira, Pronto Atendimento Francisco Gonçalves. Pedro Leopoldo, MG - Brasil; Pronto Atendimento Prudente de Morais. Prudente de Morais, MG - Brasil
6. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte; UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Tulio Eugenio de Souza
E-mail: tulioeugeniodesouza@hotmail.com

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: a adolescência é um período constituído historicamente pelo desenvolvimento humano com múltiplas transformações e necessidades emergenciais, as quais rebatem na sua condição de saúde.
OBJETIVOS: analisar a interface da violência na adolescência dentro dos contextos familiar e escolar a partir da perspectiva ética.
MÉTODO: estudo transversal descritivo realizado em 2013/2014 em Belo Horizonte-MG com 1.217 adolescentes de escolas privadas e públicas por meio da aplicação de questionários autoaplicáveis e anônimos.
RESULTADOS: 54,7% dos alunos eram do sexo feminino e 45,3% do masculino; 94,8% solteiros; 46,6% se autodeclararam pardos, 34,8% brancos e 13,1% negros; média de 14,9 anos, mediana 15 anos e desvio-padrao de 1,52; 70,3% estudavam em escolas públicas e 29,7% em escolas privadas. A partir da percepção dos estudantes quanto a temáticas éticas elaboradas a partir das formulações do desenvolvimento moral propostas por Piaget, construiu-se o Indice de Atitude Violenta (IAV), em que se verificaram medidas de tendências centrais superiores no sexo masculino; entre os que tinham pior percepção da relação com os pais e colegas e do tratamento que recebem dos professores; entre os que relataram baixo desempenho escolar e descrença em Deus.
CONCLUSÕES: contextos sociofamiliares menos harmônicos se associam a concepções e atitudes mais violentas. É necessário realizar estudos contínuos das temáticas: violência e valores morais e éticos na adolescência, considerando as rápidas transformações nas relações em que o adolescente, um ser em formação, está inserido.

Palavras-chave: Adolescente; Violência; Moral; Ética; Família; Educação.

 

INTRODUÇÃO

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os adolescentes, grupo da população na faixa etária de 10 a 19 anos, representam 20% dos mais de 190 milhoes de brasileiros,1 dado que elucida a importância do grupo e impoe necessidade de implantar políticas públicas a ele destinadas. A adolescência é um período constituído historicamente pelo desenvolvimento humano com múltiplas necessidades emergenciais. Os adolescentes exercem diversas funções cotidianamente em suas redes sociais (escola, família, trabalho) atravessadas por condições sociais diversas; transformações em seus corpos e imaginário em torno da adolescência de todos com os quais se relacionam.2

A família e a escola, parte integrante da rede social construída pelo adolescente, interferem na constituição dos valores éticos e morais apreendidos na adolescência, fase crítica para alicerçar preceitos que supostamente persistirao na vida adulta. A interação do adolescente com suas redes sociais constituídas e constituintes é o que subsidiará a construção dos seus valores morais e éticos.3

Assim, é necessário compreender essa fase da vida para o delineamento de estratégias as quais viabilizarao o suporte para lidar com as especificidades vivenciadas nesse período e que colaboram para a sua qualidade de vida, consequentemente, para sua condição de saúde.4 Diante disso, este trabalho tem como objetivo analisar a interface da violência na adolescência dentro dos contextos familiar e escolar a partir da perspectiva ética.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal descritivo decorrente da pesquisa realizada em 2013 e 2014 pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. A metodologia consistiu de entrevista semiestruturada, utilizando questionários autoaplicáveis e anônimos.

A população estudada foi delimitada por amostra calculada com erro de 5,0% (n = 1.217) de alunos de 33 escolas privadas e públicas dos noves distritos sanitários do município de Belo Horizonte, Minas Gerais de modo proporcional, nos variados turnos de funcionamento, e nas seguintes faixas etárias (de 10 a 14 anos e 15 a 19 anos) sorteados entre os pares. Os questionários foram aplicados após contato inicial com os adolescentes e seus responsáveis por meio de esclarecimentos quanto à pesquisa e viabilização nos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (dispensada assinatura dos responsáveis dos jovens acima de 16 anos). Os questionários foram coletados nas salas de aula durante o período escolar regular (tempo médio de aplicação: cerca de uma hora). Para o desenvolvimento deste trabalho foram resguardadas a identidade e integridade do público-alvo em questao, a fim de que os dados coletados tivessem a finalidade única e exclusiva para trabalhos científicos. Para tanto, foi enviado às instituições envolvidas um termo de solicitação de coleta de dados e submissão à aprovação dos Comitês de Ética em Pesquisa da UFMG.

O questionário semiestruturado em 10 blocos temáticos foi elaborado a partir de subsídios de outros instrumentos e literatura e depois foi testado em estudo-piloto com entrevista de 40 adolescentes, dentro das faixas etárias avaliadas, sobre a percepção das perguntas realizadas. Posteriormente, foi testado de novo no modo final para a pesquisa.

Um dos blocos do questionário foi estruturado à base de simulação de situações geralmente experimentadas nas escolas, com perguntas hipotéticas ao adolescente sobre o que ele faria caso as experimentasse. Tais situações foram inspiradas - e ajustadas ao contexto atual - nas formulações de Piaget sobre o desenvolvimento moral. Piaget postulava que as relações sociais têm uma contribuição essencial no desenvolvimento do valor moral do sujeito a partir do polimento da egocentricidade e do desenvolvimento da consciência, da empatia e respeito à opiniao e valores dos outros. Para tanto, ele elaborou uma coletânea de experimentos envolvendo dilemas morais simples para diferentes idades, a saber: mentira, justiça, furto e regra de jogos. Ele testava o comportamento dos participantes ao fingir não saber das regras dos jogos para possibilitar o questionamento das mesmas a partir da perspectiva das crianças e adolescentes.

O intuito desses experimentos era avaliar o desenvolvimento moral; a responsabilidade (objetiva e subjetiva); moral (autônoma e heterônoma); noções de justiça e as regras (racional, coercitiva e motora).5 As questoes do questionário pretendiam avaliar o desenvolvimento desses aspectos éticos e morais entre os adolescentes - ou a falta desse desenvolvimento, significando violência - a partir das atitudes que eles adotariam adiante das situações simuladas. Tais questoes envolviam diferentes temas da sua vida cotidiana: desaparecimento do livro, bullying entre colegas de classe, frustração quanto à participação de uma atividade comunitária devido à superlotação, perda em jogos de grupo, conflitos entre adolescentes, traições e ciúmes no namoro.

A partir da percepção dos estudantes quanto a essas temáticas éticas, formulou-se um Indice de Atitude Violenta (IAV) graduado de 0,0 a 1,0 (quanto maior o índice, maior a expressão de atitudes violentas), comparando seus valores segundo sexo, crença em Deus, notas escolares, percepção das relações com pais, colegas e professores, por meio de gráficos do tipo boxsplot.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Dos alunos avaliados, 54,7% (663) eram do sexo feminino e 45,3% (549) do masculino. Quanto ao estado civil, 94,8% (1112) eram solteiros, 4,1% (48) amigados, 0,6% (sete) casado e 0,5% (seis) separado. Na perspectiva da raça/cor, 46,6% (557) se autodeclararam pardos, 34,8% (415) brancos, 13,1% (156) negros, 3,2% (38) orientais e 2,3% (28) indígenas. Em relação à faixa etária, a média encontrada foi de 14,9 anos, mediana de 15 anos e desvio-padrao de 1,52. Quanto ao tipo de escola avaliada, 29,7% (362) eram municipais, 39,2% (477) estaduais, 1,4% (17) federal e 29,7% (361) escolas privadas.

No tocante ao contexto familiar, 64,7% (788) moravam com pai e 35,3% (429) não; 88,7% (1080) com mae e 11,3% (137) não; 58,6% (713) com irmãos e 41,3% (503) não; 3,5% (43) com padrasto/madrasta; 3,0% (37) com esposo (a), 10,5% (128) com outros parentes; 0,3% (quatro) com amigos; 1,3% (16) com outras pessoas; 0,1% (um) sozinho e 0,4% (cinco) em instituições. Destaca-se que 15,9% (191) informaram que alguém já abandonou a família.

A Figura 1 mostra os gráficos boxsplot com a análise do IAV segundo as variáveis estudadas: sexo (Gráfico A); relação com os pais (Gráfico B); com os colegas (Gráfico C); com os professores (Gráfico D); desempenho escolar (Gráfico E); e crença em Deus (Gráfico F). Na parte A da Figura 1, verificou-se que a distribuição do IAV em relação ao sexo apresentou um indicador mediano de atitude violenta maior - portanto, menos desenvolvimento de aspectos morais e éticas - para os homens. Em relação à dispersão do IAV, percebeu-se heterogeneidade maior para os homens. Diversos autores opinam que a violência entre sexo e grupos etários é fruto do cenário cultural, em que os homens são os principais agressores em um ciclo que geralmente não se cessa.6, 7

 


Figura 1 - IAV segundo sexo, relação com pais, colegas e professores; desempenho escola e crença em Deus.

 

O Gráfico B da Figura 1 mostra a distribuição do IAV relativo à percepção da relação com os pais: há certo aumento gradativo nas medidas de tendências centrais de acordo com a piora na percepção da relação. No Gráfico C, nota-se a disposição do IAV adiante da percepção da relação com outros colegas da escola, em que a mediana é maior que nos que alegam que não se relacionam bem com os colegas. No Gráfico D, a posição do IAV em relação à percepção do tratamento dos professores é relativamente superior nos estudantes que consideram que os professores não lhes tratam bem. No Gráfico E, a disposição do IAV relativo às notas escolares indica elevação nos índices do IAV de acordo com a piora no desempenho escolar.

Corroborando os dados encontrados nesta pesquisa, estudo conduzido com adolescentes em escolas públicas de São Gonçalo-RJ demonstra que ações de violência são recorrentes e continuam sendo as formas de resolução de conflitos familiares num âmbito permeado pela violência.8 Outras pesquisas indicam que a violência se configura com uma trama complexa com articulação com vários fatores, a saber: a falta de diálogo entre os componentes familiares, a falta de responsabilidade, a precariedade no apoio à família, o descontrole emocional e as consequências do próprio panorama violento no território.9

O Gráfico E mostra a distribuição do IAV em relação à crença em Deus, com menor medida de tendência central nos alunos que não tinham crença divina. Estudo de revisão de literatura quanto ao papel da religiao na prevenção da violência, promoção da saúde e reabilitação de pessoas envolvidas com a criminalidade sugere algumas pesquisas que evidenciam associação positiva entre religiosidade e sua relação com a violência, gerando melhor condição de saúde, das relações sociais e a prevenção de crimes.10

 

CONCLUSÕES

O estudo possibilitou conhecer as posturas dos adolescentes diante de valores morais e éticos associados à família, escola, religiosidade e, por decorrência da falta desses aspectos, suas atitudes violentas. As respostas dos adolescentes evidenciaram claramente o desenvolvimento das relações nessa fase da vida repleta de diversos conflitos psíquicos e comportamentais.11

O desenvolvimento das mudanças que ocorrem no processo adolescer implicará dificuldades na relação do adolescente com a família, professores e colegas, as quais podem gerar situações de embate. É muito importante refletir os limites e amplitude da violência e os valores na adolescência para que se possa contribuir com indicadores de melhorias nas políticas públicas.12

A escola é fundamental no processo de aprendizagem e educação do adolescente junto à família, que deveria ser a mola propulsora de valores. É necessário trabalho interdisciplinar que entrelace aspectos ético, social e cultural em uma fase complexa como a adolescência e tao afetada pelo contexto global e conjuntural na contemporaneidade. 13

A ênfase em trabalhos familiares, religiosos e social é um aspecto que deve ser enfatizado, pois a rede social exerce papel fundamental na compreensão, na prevenção e no tratamento de adolescentes em conflitos morais e éticos.14

Quando se sublinha a questao dos adolescentes no cenário social, familiar e educacional na sua perspectiva ética, permite-se a elaboração de estratégias que minimizam os riscos à saúde do adolescente. Assim sendo, os profissionais de saúde são convocados a intervir nessa área com o propósito de prevenir e prever relações sociais negativas que assolam os adolescentes.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à nossa orientadora, ao estatístico Ricardo Tavares e à equipe de Departamento Acadêmico de Promoção da Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG.

 

REFERENCIAS

1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Distribuição da população por sexo, segundo os grupos de idade no Brasil. Sinopse dos Resultados do Censo 2010. [citado em 2016 ago. 20]. Disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/webservice.

2. Calligaris C. A adolescência. 2ª ed. São Paulo: Publifolha; 2009.

3. Piaget J. O juízo moral na criança. 4ª ed. São Paulo: Summus; 1994.

4. Martins MO, Cavalcante VLF, Holanda GS, Oliveira CG, Maia FES, Meneses-Júnior JR, et al. Associação entre comportamento sedentário e fatores psicossociais e ambientais em adolescentes da regiao nordeste do Brasil. Rev Bras Ativ Fis Saúde. 2012;17(2):143-50.

5. Sampaio LR. A psicologia e a educação moral. Psicol Ciênc Prof. 2007;27(4):584-95.

6. Assis SG, Avanci JQ. É possível prevenir a violência? Refletindo sobre risco, proteção, prevenção e promoção da saúde. In: Njaine K. Impactos da violência na saúde. 2ª ed. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2009.

7. Ministério da Saúde (BR). Sanchéz RN, Minayo MCS. Violência contra crianças e adolescentes; questao histórica, social e de saúde. In: Lima CA. Violência faz mal à saúde. Brasília: MS; 2004.

8. Assis SG, Avanci JQ, Santos NC, Malaquias JV, Oliveira RVC. Violência social na adolescência. Rev Panam Saúde Pública. 2004;16:43-51.

9. Paludo SS, Koller SH. Toda criança tem família: criança em situação de rua também. Psicol Soc. 2008;20:42-52

10. Ribeiro FML, Minayo MCS. O papel da religiao na promoção da saúde, na prevenção da violência e na reabilitação de pessoas envolvidas com a criminalidade: revisão de literatura. Cienc Saúde Coletiva. 2014;19(6):1773-89.

11. Crivellati MMB, Durman S. Sofrimento psíquico na adolescência. Texto Contexto Enferm. 2006;15:64-70.

12. Oliveira MT, Lima MLC, Barros MDA, Paz AM, Barbosa AMF, Leite RMB. Sub-registro da violência doméstica em adolescentes: a (in) visibilidade na demanda ambulatorial de um serviço de saúde no Recife-PE, Brasil. Rev Bras Saúde Mater Infant. 2011; 11(1):29-39.

13. Sarmiento P. Bioética e infância: compromisso ético com el futuro. Pers Bioética. 2010;14(1):10-29.

14. Branco BM, Wagner A, Demarchi KA. Adolescentes infratores: rede social e funcionamento familiar. Psicol Reflexão Crít. 2008; 21(1):125-32.