RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

Voltar ao Sumário

Artigo Original

Escotismo como prática de promoção de saúde e prevenção da violência

Scouting as a practice of health promotion and violence prevention

Gustavo Ribeiro Bedran1; Ana Paula Martins Lara2; Alda Martins Gonçalves3; Antonio Leite Alves Radicchi4

1. Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais - SES-MG. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG, Escola de Enfermagem. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. UFMG, FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao de Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Gustavo Ribeiro Bedran
E-mail: chefemontanha@gmail.com

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: o escotismo pode ser considerado medida social alternativa ema proporção que complementa de forma cidada a educação de crianças e jovens.
OBJETIVO: analisar o escotismo como fator de promoção de saúde e prevenção da violência.
METODOLOGIA: análise de conteúdo de natureza qualitativa, por meio de aplicação de entrevista semiestruturada.
RESULTADOS E DISCUSSÕES: as análises das entrevistas demonstraram que, embora pequena parcela da população exposta às situações de vulnerabilidade social tenha acesso ao escotismo, este se mostra eficaz como meio de trabalhar a promoção de saúde e prevenção da violência.
CONCLUSÕES: nos termos das manifestações dos entrevistados, o escotismo pode ser considerado uma medida social alternativa de promoção de saúde e prevenção da violência.

Palavras-chave: Anestesia Intravenosa; Propofol; Propofol/farmacocinética; Farmacocinética.

 

INTRODUÇÃO

O escotismo é um movimento educacional para jovens e crianças, com a colaboração de adultos, voluntários, sem vínculos político-partidários, que valoriza a participação de pessoas de todas as origens sociais, raças e crenças, de acordo com o propósito, princípios e métodos concebidos pelo seu fundador, Baden-Powell, adotados pela Uniao dos Escoteiros do Brasil.1

O propósito do movimento escoteiro é contribuir para que os jovens assumam seu próprio desenvolvimento, especialmente do caráter, ajudando-os a realizar suas plenas potencialidades físicas, intelectuais, sociais, afetivas e espirituais, como cidadaos responsáveis, participantes e úteis em suas comunidades.1

O método escoteiro, por sua vez, é considerado um sistema de progressão, cuja intenção é estimular que cada criança e jovem desenvolva suas capacidades e seus interesses, colocando desafios a serem superados - aventuras -, incentivando a explorar, a descobrir, a experimentar, a inventar e a criar a capacidade de achar soluções para os problemas cotidianos.

Corrobora-se a ideia popular de que o escotismo é "bom" para crianças e jovens. No entanto, este estudo demonstrou um novo enfoque, pois, além da visão clássica de prática psicopedagógica, o escotismo também atua na promoção de saúde e prevenção da violência, nas mais diversas formas.

Salienta-se que a violência tem sido uma das maiores causas de morte na regiao, um problema de saúde pública não só no Brasil, como em todo mundo. A prevenção é medida que se faz necessária para preservar gerações de crianças e jovens que estao morrendo antes de alcançarem a vida adulta.2

Como na prevenção da violência, a promoção de saúde é também uma medida em que o escotismo pode e deve atuar, buscando inserção e adesão junto às comunidades locais, trabalhando com crianças e jovens, principalmente com aquelas de mais vulnerabilidade social, por meio de medidas sociais alternativas.

Neste trabalho, entende-se por medida social alternativa aquela que atua territorialmente, fazendo intervenção junto à comunidade local por meio de práticas escoteiras que se caracterizam por serem apresentadas como uma educação não formal.

O Grupo Escoteiro (GE) escolhido para este estudo foi GE Mangabeiras, também chamado de 21 GEMAN, que possui mais de 30 anos. Sua sede encontra-se dentro do Parque das Mangabeiras, na cidade de Belo Horizonte, fazendo fronteira com o Aglomerado da Serra, considerado o maior conjunto de favelas da capital mineira. O objetivo principal do estudo foi analisar o escotismo como fator de promoção de saúde e prevenção da violência.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo qualitativo e exploratório realizado em um grupo escoteiro (GE) vinculado à Uniao dos Escoteiros do Brasil (UEB), localizado no interior do Parque das Mangabeiras, área fronteiriça com o Aglomerado da Serra, regiao onde moram os participantes da pesquisa. Optou-se pela pesquisa qualitativa, por esta ser uma metodologia que permite revelar processos sociais referentes a grupos particulares, além de propiciar a construção de novas abordagens, revisão e criação de novos conceitos e categorias, para compreender a lógica interna do grupo em estudo.3,4

O 21 GEMAN possui em seus quadros participantes egressos desse Aglomerado, sendo esses jovens e adultos os sujeitos do presente estudo. A opção por esse GE se deu pelo fato de o pesquisador ali trabalhar como voluntário desde 1997. Escolhendo-o como cenário de estudo, busca melhor conhecê-lo, para subsidiar sua prática no grupo, contribuindo com os jovens, com seus familiares e com a comunidade.

Atualmente, o 21 GEMAN recebe 142 jovens de sete a 21 anos, divididos em ramos escoteiros conforme suas idades: Ramo Lobinho, de 6,5 a 10 anos; Ramo Escoteiro, de 11 a 14; Ramo Sênior, de 15 a 17; e Ramo Pioneiro, de 18 a 21. Conta com 38 voluntários, também chamados de escotistas, que trabalham na parte administrativa e na condução dos trabalhos com as crianças e jovens.

Participaram do estudo os atuais integrantes do grupo e os egressos do movimento escoteiro, oriundos do Aglomerado da Serra, registrados no Grupo Escoteiro Mangabeiras, nos últimos 10 anos. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas utilizando instrumento elaborado e testado pelo pesquisador, no qual foram incorporadas perguntas sobre as características sociodemográficas dos participantes e perguntas diretamente relacionadas ao tema da pesquisa. Todas as entrevistas foram realizadas após a assinatura no Termo de Consentimento, Livre e Esclarecido (TCLE) por todos os sujeitos, gravadas e transcritas. Em seguida, o material foi submetido à análise de conteúdo, com reiteradas leituras de todo o material transcrito. A partir de entao, foram definidas as seguintes categorias de análise: olhar dos entrevistados sobre o movimento, promoção de saúde, prevenção da violência.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características dos participantes

Foram entrevistadas 12 pessoas que participam ou participaram do escotismo, advindos do Aglomerado da Serra, sendo seis participantes do sexo feminino e seis do masculino (Tabela 1). Todos responderam à pergunta final acerca da nota que dariam ao movimento escoteiro, numa escala de zero a cinco, sendo a média de 4,43.

 

 

Olhar dos entrevistados sobre movimento escoteiro

Eu só queria dizer que valeu a pena eu ter entrado pro escoteiro [...] eu me esforço pra ser útil aqui porque eu sei que isso pode mudar a vida de muitas pessoas como mudou a minha vida (E4).

Os entrevistados discorreram nessa categoria sobre aspectos que consideravam como a própria essência do escotismo, como suas características mais marcantes. Consideram quase que como "outro mundo" o escotismo, um lugar de regras e pautado em valores que são muito fortes para seus membros. Olha, na minha vida ele tem muita importância porque só de valores, questao de fraternidade, questao de amizade, questao de fazer a diferença pra tentar melhorar o mundo (E4). Ou ainda: entao eu acho que respeito a gente aprende muito aqui. É... Lealdade, ser leal, ser verdadeiro (E7).

Todos os entrevistados viram o escotismo como positivo em suas vidas: movimento escoteiro é ótimo, muito ótimo mesmo. [...] mas eu falo assim: "O gente, eu só sei que é uma coisa boa (E1). Para eles:

Não tem coisa ruim no escoteiro "cara". Não entendo como uma coisa no mundo, no planeta Terra pode ser tao bom! [...] Eu não arrependo de nada que eu fiz na vida antes do escoteiro porque se eu não tivesse feito aquilo eu não estaria aqui hoje, entao eu só agradeço (E3).

Em relação ao respeito ao meio ambiente, os entrevistados corroboram uma das premissas do escotismo, constante no livro Escotismo para Rapazes, de seu fundador Baden-Powell, ressaltando que as atividades prioritariamente devem ocorrer ao ar livre junto à natureza e se deve preservá-la.5 Suas falas são expressivas: [...] porque foi aqui [movimento escoteiro] que eu aprendi que a gente tem que respeitar a natureza (E1); [...] Ah, eu brinco aprendendo. Aprendendo a cuidar da natureza, a cuidar dos bichos e tudo (E5). Estudo norte-americano relaciona as atividades ao ar livre desenvolvidas pelo escotismo na natureza, como benéficas à saúde6.

Sobre a cidadania, todos os entrevistados a enfatizaram de alguma forma, seja como valor à vida, valor à família, respeito às pessoas, relacionada à caridade e à cidadania propriamente dita. São valores constantes que demonstram que a formação do caráter cidadao é muito forte no escotismo, permanecendo mesmo naqueles que não fazem mais parte do movimento escoteiro. Ah, eu aprendi o valor da vida [...] eu fui criada num lugar que ninguém respeita ninguém e agora eu tenho consciência que a gente tem que respeitar as pessoas (E1).

A relação do escotismo com a comunidade onde habitam e o exercício de promoção da cidadania foram objeto de estudos pregressos7,8, bem elucidado na seguinte fala: [...] contribui, contribui [escotismo] muito pra nossa conduta dentro da nossa sociedade como cidadao. [...], de fazer projetos sociais, ajudar de alguma forma a sociedade (E10) (grifos nossos).

Pesquisa realizada com jovens escoteiros da Bélgica, França e Escócia revela que os mesmos são encorajados a tomar decisões, tornado-se sujeitos ativos nas suas comunidades locais9, o que aparece também na fala de um participante: são os atos que a gente aprende aqui no Movimento Escoteiro, vai passando pra família, da família expande pros primos, pros vizinhos, aí vai pra comunidade (E6).

Também sobre a participação cidada escoteira na sociedade, recente pesquisa aduz que o movimento escoteiro estimula os jovens ao respeito e ao compromisso com a natureza, com os indivíduos e consigo próprio. Essa é uma diretriz do projeto político pedagógico do escotismo: formar cidadaos saudáveis, justos e úteis para a sociedade, como preconizou seu criador, Baden-Powell.10

Ainda em relação à cidadania e à visão dos entrevistados sobre escotismo, na fala a seguir pode-se perceber que o mesmo carrega algum preconceito social, por exemplo, ser considerado "elitizado":

[...] eu nasci aqui no Aglomerado da Serra e quando eu era criança eu tinha vontade de participar de grupos escoteiros, só que minha mae tinha nove filhos e falava: "ah, isso aí não dá não, isso é coisa só pra rico" e os pobres não participavam. Tinha aquela coisa toda da gente não poder participar (E4).

Em Belo Horizonte a prefeitura vem apoiando a criação de grupos escoteiros como forma de promover a inclusão social11. A Fundação Caio Martins vem criando grupos escoteiros em seus centros educacionais espalhados pelo interior do estado de Minas Gerais com o mesmo objetivo12, pois a situação de pobreza de seus membros, inclusive para deslocamentos, chega a ser um inibidor da prática do escotismo. A gente já pensou em afastar muitas vezes por causa disso. Por causa de dinheiro. [...] e muitos ficam assim "Entao nem vou ir, porque tem que pagar (E2).

O escotismo promove o crescimento pessoal e atua no fortalecimento da autoestima, na persistência dos entrevistados, ajudando nas atividades escolares e desenvolvendo o crescimento intelectual e espírito de liderança de seus membros:

[...] provavelmente se eu não tivesse entrado no movimento, hoje em dia eu seria uma pessoa desestruturada da vida. [...] se o escoteiro não tivesse acontecido, entrado na minha vida, provavelmente eu seria uma pessoa de mau, uma pessoa malvada, que como eu nasci na favela, ele tem o caminho bom e o caminho horrível, entao, provavelmente, eu ia seguir o caminho horrível (E3) (grifos nossos).

[...] é um movimento que engrandece o ser humano, [...] O tempo que eu fiquei eu aprendi muito aqui (E7).

[...] Aprendi que nem tudo na vida consegue fácil, que eu já passei muita coisa no escoteiro e mesmo assim eu não desisti tao fácil (E11).

Esse enfoque é visto como facilitador de crescimento pessoal em estudo que aborda seus efeitos em adolescentes13, bem como em pesquisa que revela o escotismo como responsável por promover o desenvolvimento dos jovens, especialmente em relação aos princípios de ética, iniciativa, responsabilidade e confiança.14

Pesquisa inglesa, cujo título original é Measuring what scouting contributes to local communities, traz como exemplos de resultados positivos o fato de o escotismo ter ajudado os jovens no desenvolvimento de lideranças e habilidades, no fazer novas amizades, na construção de relacionamentos com outras pessoas, na apresentação de mais confiança e interesse em assuntos locais, nacionais e internacionais. Em relação aos adultos ouvidos, as falas demonstram que o movimento escoteiro ajuda no desenvolvimento de habilidades pessoais e vocacionais, o que é corroborado pela literatura.15

Em relação à convivência social, o escotismo, de acordo com sua filosofia ideológica de fraternidade universal entre seus membros16, é visto pelos entrevistados como uma fraternidade, uma família na qual a uniao, carinho e confiança são muito fortes em seus membros:

Todo mundo na favela chamava ela de monstro, chamava ela de feia e na hora que as meninas abraçaram ela e chamaram ela de irma... as meninas até choraram junto com ela e falaram assim: "Não, aqui todo mundo é irmão, não tem nada de monstro aqui não" (E1).

[...] é uma amizade meio que até de irmão que eu tenho pra mim (E7).

Entao, quem tá no grupo escoteiro, você tá junto em todos os momentos. No momento da alegria você tá junto, no momento da tristeza você tá junto, nos momentos da dificuldade você tá junto (E4).

Promoção de saúde

Na verdade a questao de saúde vai de ações isoladas que a gente acaba chegando num consenso que precisa (E7).

Observam-se, nessa categoria, conceitos distintos dos entrevistados em relação à mesma palavra "saúde", relacionados a higiene corporal, primeiros socorros, campanhas públicas, atividades físicas. Isso ocorre tanto em relação à tenra idade de alguns, quanto ao nível de escolaridade de outros, como nas falas a seguir: exercício físico hoje em dia é importante e intelectualmente também ajuda, acho que isso ajuda na saúde também (E8).

Podem-se abstrair falas sobre saúde pública, por exemplo, sobre campanhas de doações de sangue e primeiros socorros, ambas ações de serviços prestados à sociedade:

[...] fizeram até uma Campanha Nacional de doação de sangue, aí envolveu projeto com a prefeitura, faculdades, centros Hemominas. [...] Vao na comunidade, na escola, assim eles vao divulgando (E6).

[...] Quando o SAMU chegou foi mais fácil pra eles fazerem o serviço todo porque a gente já tinha aplicado os primeiros socorros, aí eles até deram os parabéns pra gente. [...] Já é a segunda vez (E2).

O escotismo, segundo a fala entrevistados corroborada pela literatura17-21 , promove práticas saudáveis, por exemplo, cuidado com o corpo - entao, assim, o cuidado com o corpo é essencial. [...] Entao, eu acho que fala muito a questao da limpeza do corpo (E4) - ou cuidado com a alimentação - tem que comer coisas certas. Tipo verdura, legume, não comer muita fritura (E6) - ou ainda prática de atividades físicas - [...] eu coloco até físicas também, porque aqui a gente tem várias atividades, você não tá sempre parado, você tá fazendo as atividades, entao até promoção de saúde eu colocaria também (E9). E explicam:

O fato da gente estar sempre em atividade física assim e a gente sempre trabalha a alimentação quando a gente tá indo pra uma atividade, a gente sempre pensa muito no que vai comer, que hora que vai comer, a água e isso vai tornando a gente um pouco mais saudável também fora daqui (E10) (grifos nossos).

Alguns entrevistados por sua vez entenderam não haver qualquer relação do escotismo com aspectos relacionados à saúde, como se comprova no exemplo a seguir: mas acho também que não tem nada a ver isso não. Relacionado à saúde não (E2).

Prevenção da violência

Acho que contribui pra gente se tornar uma pessoa menos violenta em todos os sentidos, eu acho (E10).

Percebe-se nos dizeres dos participantes que o escotismo ensina o respeito à diferença e o diálogo como forma de evitar conflitos, melhorando a atitude pessoal de seus membros:

Eu acredito que o Movimento Escoteiro pode diminuir essa violência, porque quando a gente trabalha aqui com os meninos a gente fala da questao de tá junto, dos trabalhos em grupos e isso faz com que eu ajude o outro, que a gente tenha um diálogo com o outro (E4).

Entao eu acho que escoteiro, independente da briga, independente de onde for, ele vai tentar apaziguar, ele vai tentar conversar com as pessoas, principalmente se forem pessoas que estao no convívio com ele e tal (E7).

Estudos norte-americanos22 e europeus23 demonstram que a atuação do escotismo é indicada como forma de resolução de conflitos entre jovens em situação de vulnerabilidade social. A evitação da violência se expressa em muitas falas:

O escoteiro, ele te ensina que as pessoas não são agressivas, que nós somos seres humanos racionais (E3).

Tem no meio de convivência, de conviver com todo mundo, de respeitar todos os credos religiosos, raça, opinioes, aí tenta passar um pouco o modo de convivência, da história, aí isso afeta a convivência sobre a violência na comunidade, em outros lugares (E6).

[...] eu saí de lá, do Aglomerado da Serra, vamos supor, menos... condição social menor que o pessoal, às vezes aqui, que frequenta o grupo escoteiro, de ver que são pessoas boas, pessoas humildes também e que, às vezes, só por ter uma condição não quer dizer que eu tenha que desejar o que ele tem, porque o pessoal, a violência ocorre muito pela desigualdade social (E9).

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNI-CEF) publicou em parceria com a Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM) um trabalho enfocando o tema da proteção da violência infantil, relatando casos, por exemplo, de escoteiros na Namíbia que são treinados para atuarem como multiplicadores de conhecimento, discutindo a violência, o abuso infantil e ensinando a forma não violenta de resolução de conflitos.24

As drogas foram um tema bastante comum nas falas dos entrevistados, relacionadas à evitação da violência. Embora seja relacionada também à promoção da saúde, as falas se fizeram presentes sempre que o assunto foi violência.

Algumas falas demonstram a possibilidade de o escotismo atuar na promoção de saúde, não só de seus membros, mas também na comunidade em que vivem:

Eu sei que é por causa que o movimento existe pros meninos não ficar violento e nem entrar no meio das drogas. É pra evitar que eles entra nesse mundo. É isso que eu sei (E1).

[...] muita gente lá do meu bairro usa muita droga. Entao eu acho que se eles conhecessem o movimento, eu acho, acho não, tenho certeza que eles parariam de usar [...] pelo fato de eu ser escoteira mesmo aconteceu de eu tirá uma pessoa, uma menina, das drogas (E2) (grifos nossos).

Não só a questao da violência, mas vamos supor, a questao da droga. No Aglomerado a gente vê casos gritantes de famílias envolvidas na droga, aí quando eu vejo que tem um menino que na família dele tem pessoas que mexe com droga, e ele tá aqui no movimento, a gente vê que ele não quer aquilo pra ele, que ele é um bom exemplo pra família dele (E4) (grifos nossos).

Alguns estudos internacionais relacionaram a promoção de saúde e o escotismo, em especial na questao do uso do álcool25 e do fumo26, abordando também a questao da violência que gera o consumo dessas drogas. O movimento escoteiro trabalha conscientizando os jovens para melhor saúde pessoal, alertando-os quanto aos perigos de todos os tipos de drogas.

Em relação à competição saudável, nos dizeres dos entrevistados a visão que têm sobre competição, nas suas atividades escoteiras, ensinando que ganhar ou perder faz parte da vida:

[...] aqui tem alguns jogos que a gente faz que quebra um pouco disso, claro que tem um tipo de competição, mas é totalmente saudável o que tem aqui (E9).

[...] é um lugar muito pra aprender a ganhar, a perder, competir, discutir, tem muita gente com ideias diferentes e às vezes o pau quebra mesmo, mas de um jeito sadio. É bom ver a opiniao dos outros (E10).

Um dos entrevistados não associou a prática do escotismo com a prevenção da violência:

Eu acho que não. Ah, não sei explicar, mas... não (E11).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebe-se, ao conjugar a literatura apresentada ao longo deste estudo e os dizeres dos entrevistados, que o movimento escoteiro contribui para desenvolver a cidadania em seus membros, atuando como medida social alternativa que representa a educação não formal.

Nas falas de ex-membros do escotismo, constata-se, mesmo com o passar dos anos, que as boas práticas dos aspectos relacionados à cidadania fazem parte do cotidiano de suas vidas.

Do ponto de vista de políticas públicas de promoção da saúde e prevenção da violência, a presente pesquisa poderá contribuir na elaboração e/ou aprimoramento das mesmas, voltadas especialmente para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

Há um impacto cidadao nos estudos científicos, sejam nacionais ou internacionais, bem como nos dizeres dos entrevistados que o Movimento Escoteiro produz, como meio de salvaguardar a integridade física e emocional de seus membros.

Diante de todo exposto, pode-se afirmar que o objetivo primário e os objetivos secundários foram atingidos no presente estudo, na medida em que, ao final, conclui-se que o escotismo, como fator de promoção de saúde e prevenção da violência, é uma medida social alternativa. Ficou claro que os entrevistados percebem o papel do escotismo nesse percurso e o impacto do movimento escoteiro na vida dos que estao frequentando ou frequentaram o Grupo Escoteiro Mangabeiras.

 

REFERENCIAS

1. Uniao dos Escoteiros do Brasil. Princípio, organização e regras. 9ª ed. Curitiba: Escritório Nacional; 2008.

2. Melo EM. Podemos prevenir a violência? Podemos prevenir a violência teorias e práticas. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2010. p. 1-24.

3. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2007.

4. Minayo MCS. O desafio do conhecimento. 11ª ed. São Paulo: Hucitec; 2008.

5. Baden-Powell GL. Escotismo para rapazes. Curitiba: Escoteira-UEB; 2006.

6. Hackensmith CW. Contributors to the Scouting Movement in north america. Can J Hist Sport Phys Educ. 1973;4(1):48.

7. Mills S. An instruction in good citizenship': scouting and the historical geographies of citizenship education. Transactions Of The Institute Of British Geographers. 2013; 38(1):120-34.

8. Sundmar B. Citizenship and children's identity in the wonderful adventures of nils and scouting for boys. Child Literature Educ. 2009; 40(2):109-19.

9. World Scout Bureau. The educational impact of scouting: three case studies on adolescence. Genebra: World Scout Bureau; 1995. p.1-227.

10. Silva CML. A contribuição do movimento escoteiro na educação do Brasil: aspectos do projeto político pedagógico do movimento e reflexos na educação para a cidadania [monografia]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2011.

11. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Sala de Notícias. Belo Horizonte ganha mais um grupo de escoteiros. [citado em 2012 nov. 04]. Disponível em: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/contents.do?evento=conteudo&idConteudo=56779&chPlc=56779&viewbusca=s.

12. Fundação Caio Martins. Escoteiros de Minas Gerais iniciam parceria com a Fundação Educacional Caio Martins do Governo de Minas - Projeto Caio Martins. [citado em 04 jun 2012]. Disponível em: http://www.fucam.mg.gov.br/component/content/article/10-noticias/516-noticia415.

13. Royse D. Scouting and Girl Scout curriculum as interventions: effects on adolescents' self-esteem. Adolescence. 1998 Mar; 33(129):159-68.

14. Picada G. A contribuição do escotismo para a formação profissional [monografia]. Canoas: Universidade Luterana do Brasil; 2010.

15. Public and Corporate Economic Consultants. Impact assessment evaluation of the scout association. Londres: Scout Association of United Kingdom; 2011.

16. Vallory E. Global Citizenship Education. Barcelona: Universitat Pompeu; 2007. [citado em 2013 maio 04]. Disponível em: http://www.escoltes.org/documents-interns/global-citizenship-education.

17. Sotgiu A, Mereu A, Spiga G, Coroneo V, Contu P. A healthy nutrition programme with child 'Cub Scouts'. Glob Health Promot. 2009; 16(4):61-4.

18. Cullen KW, Bartholomew LK, Parcel GS. Girl scouting: an effective channel for nutrition education. J Nutr Educ. 1997; 29(2):86-91.

19. Neumark-Sztainer D, Sherwood NE, Coller T, Hannan PJJ. Primary prevention of disordered eating among preadolescent girls: feasibility and short-term effect of a community-based intervention. Am Diet Assoc. 2000; 100(12):1466-73.

20. Rosenkranz RR, Behrens TK, Dzewaltowski DA. A group-randomized controlled trial for health promotion in Girl Scouts: healthier troops in a SNAP (Scouting Nutrition & Activity Program. BMC Public Health. 2010; 19:10-81. doi: 10.1186/1471-2458-10-81.

21. Gallaway MS, Jago R, Baranowski T, Baranowski JC, Diamond PM. Psychosocial and demographic predictors of fruit, juice and vegetable consumption among 11-14-year-old Boy Scouts. Public Health Nutr. 2007; 10(12):1508-14.

22. Sigler RT. Gang violence. J Hith Care Poor Underserved. 1995; 6(2):198-204.

23. Servais O. The social contribution of scouting - the state of research in french-speaking Belgium. Genebra: World Scientific Congress; 2007.

24. UNICEF. International Save the Children Alliance. World Organisation of the Scout Movement. Our right to be protected from violence activities learning and taking action for children and young people. New York: UNICEF; 2006. p.78.

25. Arevian M. Training trainees, young activists, to conduct awareness campaigns about prevention of substance abuse among Lebanese/Armenian young people. J Interprof Care. 2010; 24(2):173-82.

26. Bonard L, Janin-Jacquat B, Michaud PA. Who are the adolescents who stop smoking? Eur J Pediatr. 2001; 160(7):430-5.