RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Artigo Original

Encontros e diálogos na escola: promoção da saúde e prevenção da violência entre adolescentes

Meetings and dialogues at school: health promotion and prevention of violence among adolescents

Kléber Rangel Silva1; Nivea Soares da Silva2; Daniela de Almeida Ochoa Cruz3; Janete dos Reis Coimbra4; Tammy Angelina Mendonça Claret5; Elza Machado de Melo6

1. Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, Diretoria de Promoçao da Saúde e de Agravos Nao Transmissíveis. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós Graduaçao em Promoçao da Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao em Promoçao da Saúde e Prevençao da Violência; Prefeitura de Belo Horizonte-PBH, Núcleo de Vigilância em Saúde Ambiental. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. PBH, Secretaria Municipal de Saúde-SMSA, Núcleo de Apoio à Saúde da Família. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. UFMG, FM, Programa de Pós Graduaçao em Promoçao da Saúde e Prevençao da Violência. PBH, SMSA. Belo Horizonte, MG - Brasil
6. UFMG, FM, Departamento de Medicina Preventiva e Social. Programa de Pós Graduaçao em Promoçao da Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Kléber Rangel Silva
E-mail: kleber.rangel.silva@gmail.com

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: partindo da tese habermasiana da colonização do mundo da vida pelo sistema, compreende-se o fenômeno da violência como a expressão de sua função mediadora das relações sociais em substituição ao reconhecimento intersubjetivo mediado linguisticamente.
OBJETIVO: compreender reflexivamente os sentidos atribuídos à violência por um grupo de adolescentes de uma escola pública de Belo Horizonte-MG, na perspectiva da promoção da saúde e à luz da Teoria da Ação Comunicativa de Habermas.
MÉTODOS: foram selecionados 12 adolescentes (10 do sexo feminino e dois do sexo masculino) e realizados 13 encontros (oficinas). Os dados foram coletados por meio das técnicas de pesquisa observação participante e diário de campo. Trata-se de estudo qualitativo em que foi empregado o método hermenêutico-dialético para a análise de dados.
RESULTADOS: a realização das oficinas representou a possibilidade de reconstruir os laços sociais por meio de metodologia participativa e o restabelecimento das relações dialógicas para o reconhecimento intersubjetivo com base na solidariedade entre os adolescentes. Nos encontros foram abordados fragmentos do mundo da vida desses sujeitos expressos em temas, como racismo, trabalho, relações familiares, exclusão social e pobreza. Os resultados também revelam a necessidade de mais integração entre os atores da comunidade escolar, bem como para uma efetiva articulação em rede entre a escola e os serviços de saúde localizados em seu território.
CONCLUSÃO: percebeu-se que o contexto de violência estrutural e simbólica não exclui a possibilidade de realizar ações solidárias coordenadas de forma coletiva.

Palavras-chave: Promoção da Saúde; Violência; Adolescentes; Saúde Escolar.

 

INTRODUÇÃO

É no cenário de complexidade representado pelo fenômeno da violência que se insere este trabalho. O objetivo foi compreender reflexivamente os sentidos atribuídos à violência por um grupo de adolescentes do ensino médio de uma escola pública de Belo Horizonte-MG, participantes do projeto Frutos do Morro, que se estrutura na premissa de que a Promoção da Saúde, fundada na práxis de autonomia - que por sua vez se inspira na Teoria da Ação Comunicativa de Habermas -, constitui estratégia privilegiada do setor saúde para prevenir a violência.

A realidade observada, em que os jovens estao mais sujeitos à morte por homicídio do que por quaisquer outras causas, jndica a necessidade de se trabalhar com esse segmento social, de modo a intervir nos processos que produzem situações de violência e abuso. O maior número de vítimas do sexo masculino, pobres e negros realça outros fatores preocupantes, advindos de questoes de sexo e raça, que traduzem a fragilidade observada nas áreas mais pobres do país.

Contextualizando historicamente, a Promoção da Saúde delineou-se no Brasil como política de bem-estar, que implica a necessidade de produção de cuidados e a recuperação das políticas sociais e de saúde como relações entre sujeitos sociais, como abordado por Bodstein1. Isso está em consonância à proposta explicativa da violência desenvolvida por Melo², para quem a colonização do mundo da vida pelo sistema produz, no período contemporâneo moderno, uma fragmentação das relações sociais, em que a violência assume o papel da mediação das relações interpessoais. E a esse respeito pondera: "A Promoção da Saúde, em sua estratégia de mediação, representa uma alternativa para a recuperação dos vínculos solidários entre os sujeitos para a superação da violência e construção de uma cultura de paz".

Neste trabalho, a escola é compreendida como um território de limites e possibilidades, conflitos e afetos, dentro do qual se propoe a observação da violência, inserida na complexidade de sua relação com os arranjos forjados em torno da dinâmica social e territorial da escola. Esta, além de outras práticas, também incorpora metodologias de participação ativa dos estudantes na comunidade, mediadas pelo diálogo.

Fundamentação teórica

Segundo Marcondes3, a constituição de um campo para a saúde pública de conhecimentos e práticas de Promoção da Saúde pode ser entendida pelo acúmulo histórico que se estabeleceu por meio de três eixos articulados que conformariam os contornos da Promoção da Saúde, a saber: as limitações do modelo biomédico, a ampliação do conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promoção.

Para Buss4, o conceito de Promoção da Saúde tem sido interpretado de diferentes formas ao longo de sua construção, ou seja, sob uma perspectiva conservadora e sob outra crítica. A primeira encontra-se centrada na redução do peso econômico dos serviços de saúde ao responsabilizar o indivíduo pela construção de seu estado de saúde desejável. Na segunda, o cerne é a transformação social mediante a capacitação dos cidadaos. Em ambos se podem perceber indícios da presença de modelos de comunicação inerentes ao desenvolvimento dessas concepções.

Levando em consideração a perspectiva do discurso como espaço de luta e transformação social, verificam-se alguns pontos paradigmáticos de tensão no campo concernente à comunicação em saúde, entre eles: a assimetria de poderes entre emissores e receptores versus o direito à fala e a participação efetiva na formulação de políticas; e a tendência à centralização e fragmentação versus estratégias mais descentralizadas, permanentes, intersetoriais e plurais.

Em sua premissa de atuar na comunidade que o cerca, é preciso que o profissional de saúde tenha noção básica não apenas dos princípios de comunicação social e individual, mas também da forma como abordar os sujeitos e a comunidade, respeitando a cultura local para que possa implementar, em conjunto com a comunidade, as ações da Promoção da Saúde.

Pode ocorrer o entendimento da comunicação no setor da saúde como transferência de um polo detentor de conhecimentos e habilidades para outro "desprovido" desses recursos. Essa forma de interação constrói objetos, mas não sujeitos. É um tipo de comunicação que desconsidera a intersubjetividade intrínseca à dialogicidade que deve ser estabelecida em um discurso no campo das ações de Promoção da Saúde. Essa forma de agir deixa de lidar com a alteridade, tao cara à noção de cidadania e geração de autonomia dos sujeitos discursivos da Promoção da Saúde.

Teoria da ação comunicativa

Como crítica a essa discussão, a dissertação apresenta como referencial teórico o agir comunicativo, de Habermas, que apresenta uma análise das diferentes formas de interação humana, destacando os mecanismos de coordenação de ações, modelos de racionalidade e paradigmas filosóficos.5

Para Habermas, a realização e validação dos processos dialógicos baseiam-se na aceitação, por parte do interlocutor, de que o projeto de mundo e de vida que orienta esse discurso é correto desde um ponto de vista ético, moral e político não apenas na proposição de enunciados aceitáveis intersubjetivamente como expressão da realidade, mas também na sua capacidade de expressar autenticamente a perspectiva subjetiva daquele que profere o discurso.

O referido autor aborda as condições da convivência humana, ou seja, da interação entre sujeitos competentes que utilizam a linguagem com a finalidade de se entender, buscando consenso sobre o mundo em que vivem e suas ações nesse mundo.6

A constituição de sujeito com maior grau de autonomia e crítica e, portanto, vinculada aos ideais de uma sociedade pautada pelos princípios de justiça, equidade e democracia plena exige um modelo habermasiano de comunicação nas ações e práticas de Promoção da Saúde.

Para Habermas, há o mundo objetivo, o qual se refere ao mundo físico ou ao estado de coisas existentes; o mundo social (ou normativo) relacionado às normas sociais ou culturais sob as quais agimos; e o mundo subjetivo, que se refere ao mundo interno dos indivíduos.6

Habermas apresenta também o conceito de mundo da vida, que segundo ele é constituído pela cultura, pela sociedade e pela personalidade. Essas três dimensões articuladas pela linguagem fornecem o "pano de fundo", que permite intersubjetivamente que as ações sejam orientadas.

Adotando como ponto de partida a crítica à teoria da ação de Weber, J. Habermas propoe, entao, quatro tipos de ação: a) ação instrumental, teleológica ou estratégica: é a forma de conhecimento e intervenção sobre estados de coisas do mundo objetivo, validada pela verdade ou pela eficácia da intervenção sobre o mundo. Transforma-se em estratégica quando envolve outros atores sobre os quais se pretende influenciar; b) ação normativa: voltada para a produção e legitimação de normas sociais; c) ação expressiva: está voltada para a comunicação e reconhecimento para a autenticidade de estados internos do indivíduo; d) ação comunicativa: corresponde a uma ação intersubjetiva mediada linguisticamente em que são levantadas pretensões de validade (enunciados) que podem ser aceitos ou não pelos interlocutores. Com a presença de preocupações éticas, é a única que pressupoe o uso da linguagem em todas as suas dimensões, estando referida ao mesmo tempo aos três mundos (objetivo, normativo e subjetivo) articulados pelo mundo da vida.

Assim propoe Habermas: a linguagem é uma forma de ação, pois, pelo seu componente performativo (tipo de relação intersubjetiva implícita), constitui-se em uma maneira de relacionar-se intersubjetivamente com o(s) mundo(s) que desencadeia(m) outros tipos de ação.6

Buscou-se realizar a aproximação entre a Promoção da Saúde e a Teoria do Agir Comunicativo de Habermas e tomar como referência uma concepção conceitual ampla do processo saúde-doença e de seus determinantes sociais. Nessa perspectiva, a Promoção da Saúde propoe a articulação (por meio da capacitação e intersetorialidade) de saberes técnicos e populares e a mobilização de recursos institucionais e comunitários, públicos e privados, para seu enfrentamento e resolução, na busca por melhores condições de qualidade de vida.7

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo qualitativo que consistiu na realização de 13 encontros, com duração de duas horas cada, entre os meses de abril e julho de 2012, que culminaram na construção de uma peça de teatro, escrita e encenada pelos participantes. Utilizou-se como técnicas de coletas de dados a observação participante e confecção de diário de campo. O grupo de participantes desta pesquisa é constituído por um coletivo de adolescentes regularmente matriculados na Escola Municipal Oswaldo Cruz (EMOC) localizada no Aglomerado Urbano Morro das Pedras, do município de Belo Horizonte-MG. Foram selecionados 12 adolescentes com idades que variavam de 13 a 16 anos. Dos adolescentes selecionados, 10 são do sexo feminino e apenas dois do sexo masculino. Participaram, também, da realização das oficinas quatro estudantes do curso de Medicina, integrantes do projeto Frutos do Morro, uma pedagoga que trabalha no Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG) e uma mestre em Ciências Farmacêuticas, pesquisadora do Núcleo de Promoção da Saúde e Paz, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG. Os sujeitos participantes da pesquisa receberam esclarecimentos sobre a pesquisa e um termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi entregue e assinado pelos adolescentes participantes. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa COEP da UFMG, sob o parecer de número ETIC 355/09.

A metodologia utilizada nas oficinas foi orientada pela perspectiva crítica da hermenêutica-dialética, de acordo com Minayo.8 Assim, buscou-se a criação de espaços em que os adolescentes pudessem construir novos conhecimentos por meio do diálogo e da produção de novos sentidos a respeito de sua própria realidade9. O tema central dos encontros foi definido coletivamente e incluiu: a) as relações de poder na escola; b) as diversas formas de violência; c) a possibilidade de diálogo entre a comunidade escolar.

No momento inicial da oficina, eram realizadas dinâmicas de grupo, jogos e exercícios de aquecimento. Algumas vezes, foram utilizados filmes cujas temáticas estavam relacionadas ao contexto de trabalho do grupo e funcionavam como disparadores do diálogo. Em seguida, o grupo elegia o tema que seria trabalhado no dia e iniciava-se a discussão que, muitas vezes, era concretizada mediante a construção de cartazes e/ou mediante a elaboração de textos, como o roteiro da peça de teatro. Ao final das oficinas buscava-se fechar as atividades com uma pequena avaliação em que os participantes eram convidados a relatar sobre o que lhes pareceu mais importante nas discussões sobre as novas questoes que haviam surgido e sobre a metodologia utilizada.

Para realizar a análise do material desta pesquisa qualitativa, foi utilizado o método de interpretação de sentidos, que se inscreve na perspectiva das correntes compreensivas das ciências sociais, analisando: a) palavras; b) ações; c) conjuntos de inter-relações; d) grupos; e) instituições; f) conjunturas, entre outros corpos analíticos.10 Para proceder à análise e interpretação do material de pesquisa coletado durante o trabalho de campo, orientamo-nos pelas seguintes etapas, conforme proposto por Gomes10: a) leitura compreensiva do material selecionado; b) exploração do material; c) elaboração de síntese interpretativa.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A definição das categorias foi realizada com base no referencial teórico (Teoria da Ação Comunicativa de Habermas), dos temas desenvolvidos durante as oficinas (Promoção da Saúde e Prevenção da Violência) em seu contexto - a escola e os dados empíricos coletados. São elas: "Diálogo na escola mediado pela violência" e "Violência superada pelo diálogo".

Diálogo na escola mediado pela violência

Para a realização da análise dos dados a partir da perspectiva adotada para este trabalho, a violência será definida, de acordo com Melo5, "como qualquer situação em que um ator social perde a sua condição de sujeito frente a um outro". Nesse caso, não há o reconhecimento intersubjetivo mediado linguisticamente, tal qual proposto por Habermas em sua Teoria da Ação Comunicativa. O que se percebe é a manifestação da violência como mediadora da relação, seja por meio do emprego assimétrico de uma relação de poder, seja pelo uso da força física, seja de qualquer outra forma de coerção, portanto, aqui, considera-se tanto a violência física, quanto a violência simbólica. É justamente na fragmentação da relação social baseada no reconhecimento mútuo que a violência se manifesta com a verificação da ocorrência daquilo que Habermas chamou de colonização do mundo da vida pelo sistema.

A concepção de violência como mediadora das relações, da maneira como é compreendida neste trabalho, permite alcançar e apreender algo um pouco mais além do que se manifesta na escola. A peça de teatro elaborada durante as oficinas permite apreender, em boa medida, o surgimento de um tema dominante: o racismo. Aqui fica claro que a percepção do grupo informa que às pessoas negras não é permitido acessar determinadas condições econômico-sociais, tampouco penetrar em espaços socialmente construídos pelos e para os ricos, já que o negro é taxado de pobre, portanto, indesejado nos lugares (nesse caso, a própria residência) do rico. O contexto realçado a partir dessa situação é representado na peça de teatro como uma situação de violência para aquele grupo na medida em que o racismo estigmatiza e destitui a condição de sujeito do negro.

Essas análises não são revestidas de um viés estanque, mas sim compreendidas como um recorte de pesquisa das relações ocorridas dentro de um espaço de interação peculiar, participativo, no interior da escola, apreendidas por meio da fala de uma parte de seus estudantes. É justamente por compreender esse recorte que se realça a segunda categoria, a "Violência superada pelo diálogo", em que se aposta na possibilidade real e concreta da superação da violência pelo diálogo.

Violência superada pelo diálogo

A criação de espaços de reconhecimento recíproco entre os sujeitos da interação ressalta a possibilidade de reconstruir os vínculos com base em laços de respeito, confiança e solidariedade e representa, por si mesmo, as pistas para superar as relações de violência.

Melo² lembra que as oficinas são espaços planejados, mas que permitem a todos os participantes da interação realizar seus projetos, ali produzindo significativo potencial pedagógico, visto que há o compartilhamento de saberes entre os adolescentes - do Morro - e os alunos - da Universidade -, em que o reconhecimento das diferenças enriquece a relação e um contribui para a formação do outro. Conclui dizendo que "cada qual é o autor de tudo que se produz num encontro que gera um novo jeito de viver e conviver, que gera liderança e, por isso, a possibilidade de transformação".

Na mesma citação do trecho da peça de teatro selecionada para retratar a violência representada pelo racismo, pode-se perceber também que o personagem representado pelo homem negro não possui um nome próprio no enredo. Essa não foi uma escolha feita à revelia pelos autores-estudantes. Em uma das oficinas no EMOC, uma estudante reconhecida pelas colegas como a "redatora oficial" por ter sido a responsável pela maior parte da criação da história e escrita do texto explicou que isso ocorreu devido à sua relação conflituosa com o pai e que ela não o reconhecia como sua referência como figura paterna. E não o nomeou no texto da peça de teatro, pois ela desejaria anular a presença dele em sua vida.

No entanto, em verdade, o que esse movimento representou foi a possibilidade real de ela problematizar, por meio do discurso, essa relevante questao de sua vida. Ou seja, ela criou, a partir de sua interação e reconhecimento mútuo intersubjetivo com os seus pares, as condições de possibilidade concretas para superar uma situação de violência vivenciada em sua vida familiar cotidiana. São, portanto, fragmentos do mundo da vida passíveis de serem reconstruídos por meio do reconhecimento recíproco entre os sujeitos da interação em ato.

Representa uma forma de se desenvolver, de maneira crítica, uma condição vivenciada pelas pessoas daquele grupo. E mais: se no mundo da vida concreta eles são vítimas desse tipo de preconceito, ao tratá-lo na história da peça estao criando um espaço de reflexão e, empoderados, podem colocá-lo "em outro lugar", que não seja na posição de quem agride com o preconceito, mas sim de quem não se deixa oprimir ao percebê-lo.

Na medida em que essa manifestação se expressa por meio da fala, ela se torna objeto de discurso, passível de ser problematizada, indagada, questionada pelos sujeitos em uma determinada esfera pública. E justamente na ação de fala daquele sujeito ele coloca em questao seu mundo da vida, ou seja, ele expoe elementos de seu mundo real, concreto e cotidiano, onde a inserção se realiza como potência de vida. Participar da esfera pública também tem o condao de conferir o "estatuto de cidadao". Essa reflexão representa a síntese deste trabalho de pesquisa, que em sua essência trata de reconstruir nos espaços da vida cotidiana as condições de reconhecimento intersubjetivo mediadas linguisticamente para superar as situações de violência. Esse complexo processo também inclui a reflexão acerca do lugar do adolescente na sociedade; de suas interações na escola e na família, com as mensagens veiculadas na mídia; de sua experiência com esse fenômeno; e do imaginário coletivo.10

A apreensão da subjetividade daquele grupo em interação por meio da estratégia de criação (elaboração, invenção) do texto de uma peça de teatro mostrou-se bastante adequada aos objetivos da pesquisa e foi possível suscitar temas como racismo, trabalho, exclusão social, entre outros. Essa metodologia propiciou a potencialização das capacidades de elaboração coletiva de superação de situações de violência, na medida em que são abertas perspectivas de novas formas de conhecimento e transformação da realidade.

Com o olhar atento para as sutilezas das interações entre os sujeitos da comunidade escolar, particularmente para as relações dialógicas estabelecidas entre os estudantes, é possível contribuir positivamente para a redescoberta das riquezas dos momentos de encontro que o cotidiano da vida escolar proporciona. O intuito é incentivar a criação de espaços de reconhecimento mútuo para fortalecer os vínculos e consolidar relações mais solidárias, cooperativas e respeitosas.

 

CONCLUSÃO

No ambiente escolar, observam-se vários e distintos caminhos possíveis para promover a saúde, o que mostra a diversidade de percursos e as especificidades locais que precisam ser consideradas e respeitadas, além de incentivadas pela reflexão e problematização. É nesse contexto que essa pesquisa se insere e compartilha esse campo de conhecimentos com uma série de outros trabalhos, projetos de pesquisa e de intervenção.

Em relação aos 12 adolescentes, pode-se dizer que foi possível abordar temas referentes às suas próprias vidas e, assim, realizar uma relação intra e extramuros da escola. São questoes do mundo da vida dos sujeitos adolescentes como violência, trabalho, racismo, relações familiares, pobreza, entre outras.

Os resultados apresentados permitem inferir algumas limitações da pesquisa, entre as quais se podem citar: a) a questao da sustentabilidade, ou seja, tornar esse tipo de iniciativa uma ação perene na escola; b) a interação com todos os atores presentes no cotidiano da comunidade escolar e interação com a comunidade no território onde a escola está localizada, para estabelecer vínculos com o serviço de saúde e demais aparelhos sociais presentes no território. Apesar das limitações da pesquisa, ela propiciou conhecer a realidade local, transitar no território da escola, articular ações de forma participativa com os adolescentes, compartilhar conhecimentos acerca do tema violência e desenvolver práticas reflexivas de sua superação.

A participação em projetos de extensão também contribuiu para a formação acadêmica dos graduandos, sobretudo em temas como metodologia de pesquisa; saúde pública e promoção da saúde; risco e violência; violência e promoção da cultura da paz. E, principalmente, contribuiu para a vivência de imersão na realidade local para conhecer o território de uma escola, o contato com experiências pedagógicas alternativas e transformadoras com a inserção da literatura e do teatro, bem como as possibilidades de desempenho do profissional de saúde nesse espaço da vida social que, também, é um espaço de produção de saúde.

As ações de Promoção da Saúde na escola que se apoiam na Teoria da Ação Comunicativa de Habermas, verificado por esta pesquisa, propiciaram uma riqueza de problematizações sobre o tema e mostraram que o trabalho (teórico e prático) em Promoção da Saúde pode ser bastante promissor na busca por melhores condições de saúde. É um referencial para a reflexão e a ação e não necessariamente um ideal passível de realização plena em todas as realidades possíveis. Nesta pesquisa é compreendida como uma aposta certeira na capacidade de autonomia e emancipação dos adolescentes como sujeitos de direitos para a busca compartilhada de soluções para o enfrentamento da violência e construção de uma cultura de paz na escola.

 

REFERENCIAS

1. Bodstein RCA. Ciências sociais e saúde coletiva: novas questoes, novas abordagens. Cad Saúde Pública. 1992; 8(2):140-9.

2. Melo EM, Melo MAM, Pimenta SMO, Lemos SMA, Chaves AB, Pinto LMN. A violência rompendo interações: as interações superando a violência. Rev Bras Saude Mater Infant. 2007; 7(1):89-98.

3. Marcondes WB. A convergência de referências na promoção da saúde. Saude Soc. 2004; 13(1):5-13.

4. Buss PM. Uma introdução ao conceito de promoção da saúde. In: Czeresnia D, Freitas CM, organizadores. Promoção da saúde: conceitos, reflexoes, tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003. p. 15-38.

5. Melo EM. Ação comunicativa, democracia e saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2005; 10:167-78.

6. Artmann E. Interdisciplinaridade no enfoque intersubjetivo habermasiano: reflexoes sobre planejamento e AIDS. Ciênc Saúde Coletiva. 2001; 6(1):183-95.

7. Buss PM. Promoção da saúde e qualidade de vida. Ciênc Saúde Coletiva. 2000; 5(1):163-77.

8. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 11ª ed. São Paulo: Hucitec; 2007. 406 p.

9. Spink MJ. Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez; 2004.

10. Gomes R. Pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa; 2014.