ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Determinantes e fatores de risco para envolvimento de idosos em acidentes de transporte: revisão de literatura de 2006 a 2015
Determinants and risk factors for elderly involvement in transport accidents: literature review from 2006 to 2015
Andréia Cirina Barbosa de Paiva1; Vânia Paula Carvalho2; Ronaro de Andrade Ferreira3; Rosely Fantoni4; Maria das Graças Cirino Franca4; Flávio Santos Pimenta5; Marcos Vinicius da Silva6; Maria Beatriz de Oliveira7
1. Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de Minas Gerais - DER-MG; Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG .Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Unimed Aeromédica; Instituto de Educaçao Continuada da PUC Minas. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. BHTRANS, Universidade FUMEC, Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. DER-MG; Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
5. Acadêmico do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais - UFMG; Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
6. BHTRANS; Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
7. DER-MG, Núcleo de Contratos dos Serviços de Tecnologia da Informaçao e Comunicaçao; Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil
Andréia Cirina Barbosa de Paiva
E-mail: cirina.pos@hotmail.com
Instituiçao: Grupo de Pesquisa Saúde e Violência no Trânsito da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
INTRODUÇÃO: o aumento na proporção e longevidade da população idosa associado aos riscos envolvidos nos seus deslocamentos tem levado a aumento no número de idosos vítimas de acidentes de transportes, demandando cada vez mais serviços na área da saúde e tornando a questao uma das principais preocupações da sociedade e do poder público. O objetivo deste estudo é descrever o conhecimento científico produzido na área da saúde sobre determinantes e fatores de risco de envolvimento de idosos em acidentes de trânsito, no período de 2006 a 2015
METODOLOGIA: estudo exploratório, de abordagem descritiva, realizado por meio de revisão de literatura nas bases de dados da Scielo, Medline, LILACS, IBECS e BDENF, no período de janeiro a novembro de 2015.
RESULTADOS: os trabalhos selecionados revelam como principais determinantes e fatores de risco as perdas funcionais, as doenças preexistentes, o uso de medicamentos e a falta de acessibilidade nos espaços públicos.
CONCLUSÃO: foram identificados fatores: a) intrínsecos; b) sociais; c) extrínsecos de risco ou ambientais, sendo os fatores fisiológicos os mais citados, principalmente as perdas funcionais, as doenças preexistentes e o uso de medicamentos. O poder público pode e deve promover a inclusão do idoso, reorganizando os seus serviços e oferecendo infraestrutura viária segura. É pertinente e oportuno avançar no estudo do impacto do envolvimento de condutores de motocicletas em acidentes de trânsito na vitimização de pedestres idosos e no estudo dos mecanismos de ocorrência das quedas, que podem estar associadas às situações de trânsito.
Palavras-chave: Acidente de Trânsito; Idoso; Fatores de Risco.
INTRODUÇÃO
Nos países em desenvolvimento, ter 60 anos ou mais define a pessoa como idosa.1 O crescimento desse segmento populacional tem conduzido ao aumento de pessoas nessa faixa etária nas cenas de trânsito.2 Doenças e incapacidades são consequências naturais do envelhecimento e muitas vezes elas inibem a integração social da pessoa idosa e a satisfação de suas necessidades, por dificultar seu ir e vir e propiciar o aumento do risco de acidentes nos seus deslocamentos.
Com o avançar da idade, as taxas de morbimortalidade de idosos por acidentes e violências apresentam-se crescentes, principalmente os acidentes de trânsito (AT)3-5, que respondem por importante parcela da internação dessa população específica.6 O número de dias de internação desse grupo etário tende a aumentar com o avançar da idade.7
A população idosa no Brasil apresenta as taxas mais elevadas de óbitos como pedestre8. Consulta ao Datasus indicou que 38,3% dos idosos que morreram devido a acidentes de transporte no Brasil em 2014 eram pedestres, e nas demais faixas etárias 18,0% eram pedestres.
Mortes e lesões decorrentes de trânsito devem ser inaceitáveis, uma vez que esse evento é previsível e evitável.9,10 Pesquisar os seus determinantes pode contribuir para a formulação de políticas de segurança viária efetivas, eficazes, eficientes e, finalmente, exitosas. O objetivo deste estudo foi identificar os determinantes e os fatores de risco associados ao envolvimento de idosos em acidentes de transportes.
MATERIAL E MÉTODOS
Este é um estudo exploratório, de abordagem descritiva, realizada por meio de uma revisão de literatura nas bases de dados de publicações científicas da área da saúde nos idiomas português, inglês e espanhol.11
Entre janeiro e novembro de 2015, procedeu-se à busca nas bases de dados Medline (PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da saúde (LILACS), Sicentific Electronic Library Online (SciELO), Indice Bibliográfico Espanhol de Ciências da Saúde (IBECS) e Base de Dados em Enfermagem (BDENF) de publicações realizadas entre 2006 e 2015, com a seguinte estratégia de busca:
(("Acidentes de Trânsito" OR "Accidentes de Tránsito" OR "Accidents, Traffic" OR "Traffic Accidents" OR "Traffic Accident" OR atropelamento OR " running over" OR "run over" OR "External Causes" OR "Causas Externas")) AND (mh:m01.060.116.100* OR idoso OR ancian* OR "old people" OR "tercera edad" OR "terceira idade" OR elderly OR aged OR "aged, 80 and over") AND (instance: "regional")).
Pela análise dos títulos e leitura dos resumos, foram excluídas as publicações que não apresentavam resultados com informações epidemiológicas relacionadas a acidentes de trânsito com idosos e as teses, monografias e publicações não convencionais. No conjunto de textos selecionados, foram lidos os resumos e os textos completos e analisados aqueles que tratavam de determinantes ou fatores de risco.
RESULTADOS
Pode-se observar que as publicações sobre fatores e determinantes ainda são escassas, das 704 publicações recuperadas, foram encontradas 186 na Medline, 98 na SCIELO, 333 na Lilacs, 59 na IBECS e 28 na BDENF. Houve 34 duplicadas, sendo recuperadas 670 publicações. E após análise inicial, chegou-se a 31 textos, em que 20 apresentaram fatores de risco para acidentes de transportes com idosos.
A Tabela 1 apresenta ano, país, título, autores e periódico das publicações.
Determinantes e/ou fatores de risco
A análise dos textos indicou os seguintes fatores ou determinantes, que foram agrupados em: a) intrínsecos (Tabela 2); b) sociais (Tabela 3); ou c) extrínsecos de risco ou ambientais (Tabela 4).



DISCUSSÃO
As publicações levantadas evidenciam a reverberação dos seguintes aspectos: a prevalência de quedas sobre atropelamentos, o debate alicerçado nas questoes relativas ao envelhecimento e ao reconhecimento da temática trânsito como problema de saúde pública e à necessidade do trabalho transdisciplinar.12-15
Freire5 demonstrou que o coeficiente de mortalidade por causas externas aumenta, para ambos os sexos, na medida em que aumenta a idade do idoso. Estudo sobre mortalidade intra-hospitalar do idoso pedestre em Teera trouxe resultado similar.16 Além disto, lesões que poderiam ser facilmente toleradas por pacientes jovens podem resultar em elevado índice de mortalidade no idoso.3 Doenças subjacentes, como a osteoporose, tornam essa faixa etária propensa a fraturas, mesmo em traumas de baixa intensidade.16
Entre os fatores fisiológicos, os mais proeminentes são a redução da capacidade funcional, a polipatologia e a polifarmácia.14,15,17
A questao da mortalidade por AT também se relaciona à condição do indivíduo no trânsito (pedestre, condutor, passageiro ou ciclista).18
Com a idade vem o declínio das capacidades cognitivas, sensoriais e motoras, fundamentais para se evitar acidentes de trânsito.2,18 Os idosos têm capacidade reduzida para dividir a atenção, sendo a utilização simultânea do telefone celular um fator que pode aumentar mais ainda o risco de AT naqueles usuários da via. No trânsito, a audição é faculdade essencial para coleta de informações que lhes vêm por detrás e, em pessoas com 65 anos ou acima, 30% da audição são perdidos.19-23
Com a doença de Alzheimer a autocrítica se reduz e as pessoas não reconhecem as próprias limitações.24
Apresentar alguma doença prévia é um "fator preditivo da mortalidade em vítimas de trauma", em razao das complicações resultantes de lesões e traumas.21 Por exemplo, junto com a artrite vem o uso de medicamentos anti-inflamatórios não esteroides e a dor, que afeta a concentração e equilíbrio físico, prejudicando a condução19 ou a locomoção. O mesmo ocorre com a depressão ou eventos estressantes.17
Efeitos colaterais dos medicamentos (psicotrópicos-antidepressivos, sedativos, neurolépticos, betabloqueadores, anticoagulantes...) podem ser tao ou mais prejudiciais para a segurança no trânsito que as doenças que eles combatem.13,19,20
Bertran encontrou relação significativa entre AT e diabetes e supoe que isso se deve ao efeito do consumo de antidiabéticos.22
Em comparação às mulheres idosas, os homens idosos levam uma vida mais ativa, têm mais contato com o mundo exterior. Para os homens idosos, o risco de acidentes, especialmente de trânsito, é maior e gera mais letalidade.25,26
Estudo no Egito revelou que a maioria das vítimas de trânsito eram pedestres e que a maioria dos acidentes com pedestres idosos foi devida a quedas, por ocasiao de uma travessia de uma via e/ou de uma falha ao estimar a proximidade de um veículo ou não perceber a aproximação de um veículo.18
Falhas na infraestrutura física de vias públicas também são determinantes para os acidentes: a falta de calçamentos, irregularidades, buracos. Além disso, muitos idosos são vítimas de atropelamentos em avenidas largas cujo tempo do semáforo é insuficiente para a velocidade de caminhamento do idoso ou mesmo utilizando a faixa de pedestres.27
Estudos realizados no Brasil revelaram a alta prevalência de AT envolvendo motocicleta e pedestres idosos.12,25
Os autores relatam diversas limitações nos seus estudos, principalmente: subnotificação, sobretudo dos casos de lesões mais leves ou de pessoas que possuem planos privados de saúde ou da identificação do papel do idoso no trânsito (condutor, pedestres, passageiro).
É consenso que o foco em relação ao idoso é a melhoria de sua qualidade de vida, que consiste em "adicionar vida aos anos" e a manutenção de sua independência e autonomia.18,25
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo possibilitam identificar a escassez de produções científicas sobre a morbimortalidade de idosos por acidente de trânsito nessa faixa etária, o que limita o conhecimento sobre a complexidade do que é ser idoso e, ao mesmo tempo, usuário das vias.
Os autores fazem projeções de aumento no número de idosos na população e no número de vítimas de trânsito idosas - especialmente nos atropelamentos -, em razao do aumento de sua exposição às situações de trânsito.
As investigações sugerem que significativa parcela de quedas pode estar relacionada às situações de trânsito, apesar de não serem registradas como tal.
Oportuno e pertinente é o estudo do impacto do envolvimento de condutores de motocicletas em acidentes de trânsito na vitimização de pedestres idosos, associado ao aumento expressivo da frota de motocicletas nos últimos anos.
Foram identificados fatores: a) intrínsecos; b) sociais; c) extrínsecos de risco ou ambientais. Na abordagem dos fatores que diretamente ou indiretamente estao associadas ao desfecho do acidente, os fatores de risco mais evidenciados pelos autores residem nos aspectos fisiológicos e indicam principalmente as perdas funcionais, as doenças preexistentes e o uso de medicamentos.
É consenso que se deve dar mais atenção a essa temática, por meio de estudos e da formulação de políticas públicas baseadas em ações de promoção de saúde, prevenção e proteção, para a construção de uma cidade saudável e que seja um ambiente físico e social mais amigável para os idosos.
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