ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Condições de saúde de pacientes atendidos em um centro de referência ao idoso frágil
Health conditions of patients attended at a referral center to the fragile elderly
Dorotéia Fernandes da Silva1; Marta Aparecida Goulart1; Edgar Nunes de Moraes2; Horácio Pereira de Faria3; Elizabeth Costa Dias3
1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao Promoçao da Saúde e Prevençao de Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, FM, Departamento de Clínica Médica. Belo Horizonte, MG - Brasil
3. UFMG, FM, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Programa de Pós-Graduaçao Promoçao da Saúde e Prevençao de Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
Dorotéia Fernandes da Silva
E-mail: dorofs@hc.ufmg.br; dorofs@yahoo.com.br
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
INTRODUÇÃO: os idosos mais idosos constituem um grupo crescente no Brasil e têm mais probabilidade de desenvolver doenças crônicas e incapacidades que geram necessidade de cuidados especiais.
OBJETIVO: caracterizar os idosos atendidos no Centro Mais Vida (CMV) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG), encaminhados pela atenção básica de Belo Horizonte, em 2011, quanto às doenças e condições de saúde apresentadas.
MÉTODO: estudo descritivo transversal aleatório, com tratamento estatístico das informações registradas em 881 planos de cuidado elaborados após o primeiro atendimento no serviço e provenientes de 146 centros de saúde (CS) de nove distritos sanitários de Belo Horizonte O critério de inclusão foi ser idoso (60 anos ou mais). As variáveis estudadas foram o número de doenças e condições de saúde mais frequentes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: o encaminhamento dos idosos foi mais frequente nas regionais de saúde nordeste (22,5%), leste (14,6%) e noroeste (13,0%). Em oito distritos sanitários observou-se polipatologia em mais de 50% dos idosos, chegando a 64,9%. As doenças e condições de saúde mais frequentes foram a hipertensão arterial em 74,5%, distúrbios de visão em 43,1% e depressão em 37,3%.
CONCLUSÕES: os resultados do estudo revelam a necessidade de se preparar a apoiar as equipes da atenção básica de modo a contribuir para a melhoria do atendimento aos idosos na rede municipal.
Palavras-chave: Idoso; Perfil Clínico; Serviços de Saúde para Idosos.
INTRODUÇÃO
O rápido processo de envelhecimento da população pode ser entendido como uma conquista civilizatória, porém vem acompanhado de grandes desafios, entre outros, para os serviços de saúde. No Brasil ocorre de modo acelerado, estando relacionado à melhoria das condições de vida e saúde, de saneamento e infraestrutura básica e de avanços tecnológicos e da Medicina.1 Entretanto, esses avanços acontecem de modo desigual na população e não têm sido acompanhados da adoção de políticas e intervenções de promoção de saúde e prevenção de doenças de forma suficiente para alcançar a melhoria da qualidade de vida da população idosa no âmbito social e de saúde.2
As estatísticas evidenciam o crescimento acentuado da parcela dos idosos mais idosos, isto é, com 80 anos e mais.3 Considerado um grupo mais vulnerável, apresenta elevada carga de doenças, agravos não transmissíveis crônico-degenerativos e incapacidades.4,5 Essa situação implica o aumento de demandas por atenção à saúde de maior complexidade e ações de prevenção, promoção e recuperação, que geram elevados custos. Assim, entre os desafios trazidos pelo envelhecimento da população destacam-se a prevenção e o retardamento de doenças e fragilidades.6,7
Nos serviços de saúde, os profissionais e familiares devem estar preparados para postergar e lidar com a dependência, a fragilidade e os cuidados de longa duração, o que implica a reorganização dos serviços existentes.8 Nesse cenário torna-se necessária a capacitação de profissionais de saúde e dos cuidadores familiares, visto que em nosso país a família ainda é a maior responsável pelo cuidado ao idoso frágil.4
Em Minas Gerais-MG, em 2008, foi instituído o Programa Mais vida e a Rede de Atenção à Saúde do Idoso, por meio dos Centros Mais Vida (CMV), um ponto de atenção secundária na rede de atenção à saúde do idoso frágil, para o qual é referenciado pela equipe da Atenção Primária à Saúde (APS).
Em Belo Horizonte-BH, os CMVs foram implantados pela parceria firmada entre a Secretaria de Estado de Saúde de MG, a Secretaria Municipal de Saúde de BH e o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG), com a atribuição de prestar atendimento especializado e capacitar os profissionais da APS e os cuidadores de idosos frágeis.9
Este estudo descreve o perfil demográfico e clínico dos idosos atendidos no Centro Mais Vida/Instituto Jenny de Andrade Faria (CMV/IJAF) do HC-UFMG, no ano de 2011, com o propósito de contribuir para o aprimoramento do Centro de Referência em Geriatria e Gerontologia, serviço pioneiro na capital.
MÉTODO
Foi realizado estudo descritivo, transversal dos dados obtidos a partir dos planos de cuidado (PC) elaborados para os idosos encaminhados pelas equipes da Atenção Básica do município de BH-MG e atendidos no CMV do IJAF/HC/UFMG no ano de 2011.
Foram selecionados, por amostra estratificada, 894 prontuários em um universo de 4.574 pacientes agendados para primeira consulta no CMV e registrados no Sistema de Regulação (SISREG), provenientes da macrorregiao Centro I de Belo Horizonte (BH) em 2011, considerando erro amostral de 3%.
O critério de inclusão foi ser idoso (60 anos ou mais), sendo que para o sorteio foi utilizada a função "aleatório" do programa Microsoft Excel, versão 2007, considerando-se a numeração dos planos de cuidados. Foram excluídos 13 prontuários que não apresentavam dados completos e substituídos pelo correspondente ao número sequente, resultando na amostra de 881 idosos provenientes de 146 centros de saúde (CS) de nove distritos sanitários. As variáveis estudadas foram o número de doenças e condições de saúde mais frequentes, por DS.
Na análise foi utilizado o pacote estatístico SPSS versão 20, com construção de tabelas de distribuição de frequência e diagramas de barras ou setores.10
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da UFMG, Plataforma Brasil, conforme resolução número 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), CAAE - 09099612.3.0000.5149/122 95413.0.0000.5149 e Diretoria de Ensino e Pesquisa (DEPE) do HC/UFMG PROCESSO Nº 73/12. Os autores declaram não haver conflito de interesses.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os idosos atendidos no IJAF no ano de 2011 foram encaminhados por nove distritos sanitários do município de Belo Horizonte distribuídos como demonstrado na Figura 1. A maior frequência ocorreu no DS Nordeste (22,5%), seguido pelo DS Leste (14,6%) e Noroeste (13,0%).


As condições crônicas são preditoras de incapacidades. Assim, o gerenciamento da polipatologia é essencial para a preservação da capacidade funcional do idoso. A polipatologia e as poli-incapacidades são comuns nessa fase e devem ser reconhecidas e administradas de forma efetiva, evitando iatrogenia.11
No estudo realizado, as doenças mais frequentes encontradas (Tabela 1) foram hipertensão arterial em 656 pacientes, o que corresponde a 74,5% da amostra; distúrbios de visão em 380 (43,1%); e depressão em 329 (37,3%). Observou-se também que demência, diabetes mellitus, distúrbios de audição e constipação intestinal estao presentes em proporção significativa de pacientes.

No Brasil, as doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis por 72,0% das causas de óbito, sendo 31,3% por doenças do aparelho circulatório, 16,3% por câncer, 5,2% por diabetes e 5,8% por doença respiratória crônica, atingindo preferencialmente indivíduos de grupos vulneráveis, como os idosos.12 Segundo Ramos13, em estudo realizado em São Paulo em 1984, a população de idosos apresentava alta prevalência de doenças crônicas, sendo a hipertensão arterial a principal delas.
Batista et al.14 observaram, entre os principais problemas de saúde, a hipertensão arterial (43,6%) seguida de doenças osteoarticulares. Silva et al.15 descreveram os idosos frágeis atendidos em uma unidade de saúde da família, observando que 80,4% apresentavam hipertensão arterial e 41,2% sequelas de acidente vascular.
Torres et al.16, em estudo com idosos dependentes residentes em domicílio, observaram problemas de saúde em 93,16% deles, sendo que 84,60% eram portadores de até duas doenças, sendo as mais frequentes a hipertensão arterial (23, 10%), sequelas de acidente vascular encefálico (11,10%) e artrose em joelhos (6,80%).
Schmidt et al.17, em 2009, realizaram estudo de prevalência de diabetes e hipertensão no Brasil, baseada em inquérito de morbidade autorreferida, observando que nos homens a prevalência de diabetes foi de 5,3%, no conjunto dos municípios estudados e 6,0% entre mulheres. A hipertensão arterial apresentou prevalência de 21,6% para o conjunto dos municípios.
Estudo realizado em Ouro Preto-MG mostrou que, entre os idosos avaliados, 62% referiram má-visão e, destes, 33% tinham restrição a algum tipo de atividade; 44% relataram dificuldade para ouvir, 69% para entender palavras e 31% para assistir à televisão ou ouvir rádio ou conversar ao telefone. O estudo Gene Environmental System Internactions on Aging (GENE-SIS) em Veranópolis (RS) revelou que episódios de depressão são frequentes em idosos longevos e causam impacto na qualidade de vida, estando frequentemente associados à ansiedade.18,19
Sobre a prevalência de demência, Lopes e Bottino20 observaram que ela dobra a cada cinco anos nas faixas etárias mais jovens de 70 a 84 anos e aumenta, com menos intensidade, nas idades mais avançadas. Quanto ao sexo, a maior prevalência foi entre as mulheres.
Segundo Araújo et al.21, o maior conhecimento do perfil dos idosos na população: aspectos demográficos, epidemiológicos, a distribuição etária e sua associação com aspectos clínicos, morbimortalidade auxilia a formulação e implementação de políticas e de ações concretas voltadas para a saúde e bem-estar dessas pessoas. São essenciais para o planejamento, desenvolvimento e avaliação da atenção à saúde.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando a situação do envelhecimento da população brasileira, é importante o planejamento e execução de ações de promoção, prevenção, recuperação e manutenção da saúde, o que implica a reorganização do cuidado e dos serviços de saúde, organizados em rede para o que o Centro Mais Vida na especificidade de atendimento ao idoso frágil contribua para a construção de um sistema de excelência em saúde do idoso.
REFERENCIAS
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