ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Brincadeira ou violência? Análise da prática do bullying entre estudantes de Belo Horizonte
Play or violence? Analysis of the practice of bullying among students of Belo Horizonte
Lauriza Maria Nunes Pinto1; Cláudio Júnio Patrício1; Maicom Marques de Paula1; Márcia Andréa Nogueira Magalhaes2; Junio de Araújo Alves1; Elza Machado de Melo1
1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao Promoçao da Saúde e Prevençao de Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. UFMG, Faculdade de Educaçao. Belo Horizonte, MG - Brasil
Lauriza Maria Nunes Pinto
E-mail: laurizamaria19@gmail.com
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
INTRODUÇÃO: o bullying é um comportamento violento, sem motivação aparente, repetitivo, intencional e caracterizado pelo desequilíbrio de poder entre os envolvidos.
OBJETIVO: analisar os aspectos relacionados à prática do bullying entre estudantes de escolas públicas e privadas em Belo Horizonte.
MÉTODO: os dados para esta análise foram extraídos de pesquisa realizada entre 2013 e 2014 pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz/DMPS/FM/UFMG, na qual foram respondidos 1.217 questionários semiestruturados.
RESULTADOS: a principal forma da prática do bullying é colocar apelido e/ou expor ao ridículo. Na maioria das vezes, a prática é realizada por um grupo de meninos.
CONCLUSÃO: o bullying é um fenômeno contextual sociocultural que está relacionado à complexa rede de interação entre os indivíduos, famílias e escolas e requer intervenções no próprio local, em práticas de prevenção pautadas na participação dos próprios adolescentes.
Palavras-chave: Adolescência; Bullying; Violência; Escola.
INTRODUÇÃO
A adolescência é uma das fases que integram o ciclo de vida humana, sendo definida pela Organização Mundial da Saúde como a segunda década de vida, referindo-se a pessoas que estao na faixa etária de 10 a 19 anos. Pode ser entendida como um processo de transição entre a infância e a vida adulta e envolve transformações simultâneas nos âmbitos físico, psíquico, interativo e social, que colaboram para um período de inconstância emocional e de conflitos pessoais.1,2 E um período marcado por constantes mudanças. O adolescente precisa de exemplos com os quais possa se identificar e nem sempre os encontra na família.3 Para, além disso, é um período marcado pela não aceitação pessoal e pela avaliação do seu papel nas relações interpessoais e na sociedade. O tema é complexo, existe muita dificuldade em produzir consenso. Entretanto, pode-se inferir que nas intra e inter-relações familiares encontram-se, indubitavelmente, as explicações para os mais diversos tipos de transtornos de comportamento onde as relações sociais se estruturam.4 Famílias desorganizadas e pais agressores, opressores e violentos podem gerar adolescentes agressivos e violentos na medida em que esses exemplos são copiados.5
Espaço privilegiado de interação entre os adolescentes, o ambiente escolar propicia-lhes o exercício de habilidades pró-sociais, contribuindo para seu desenvolvimento interpessoal e fortalecimento de habilidades para a vida em sociedade. É também nesse espaço que as dificuldades de relacionamento e interação entre os pares se tornam mais evidentes. Comportamentos agressivos, discriminações, preconceitos e exclusão social são exemplos da violência tida como escolar.
Sabe-se que a violência é um problema crescente em todo o mundo. Por sua contemporânea amplitude e disseminação, tem adquirido visibilidade, sendo discutida e estudada nos diferentes setores da sociedade, a fim de identificar os fatores que a determinam. Entre os adolescentes, pode ser expressa de várias formas, ocorrendo no ambiente familiar, escolar e na comunidade. Nesse cenário, destaca-se o bullying, comportamento violento, sem motivação aparente, repetitivo, intencional e caracterizado pelo desequilíbrio de poder entre os envolvidos.6
O bullying, termo de origem inglesa advinda da palavra bully (valentao, briguento), começou a ser utilizado em pesquisas norueguesas a partir da década de 70 e hoje já é utilizado em dezenas de países, inclusive no Brasil.7 Classifica-se em: direto - colocar apelidos, agressões físicas, ofensas verbais, roubos, ameaças ou expressões e gestos que geram mal-estar nos outros; e indireto - atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação de seus desejos.8 Outra variação do bullying que vem ganhando destaque é o cyberbullying, que compreende o uso de ferramentas tecnológicas para assediar, ameaçar, constranger ou humilhar outra pessoa, simular ou tentar violar senhas das vítimas.9 Entre os envolvidos nas ocorrências de bullying têm-se os perfis de vítima, vítima-agressora, agressores e espectadores. As vítimas geralmente apresentam características diferentes das demais, estigmas e/ou atributos considerados negativos. Já a vítima-agressora é aquela que reproduz os maus-tratos sofridos. O agressor ou bully é o que age para dominar e subjugar os outros e se impor mediante o poder e a ameaça para conseguir aquilo a que se propoe. Os espectadores são os que presenciam o bullying, porém não o sofrem nem o praticam.10
Os estudos mostram que ambos os sexos se envolvem nos comportamentos de bullying - as meninas tendem a praticar agressões na forma de terror psicológico, os meninos tendem a utilizar a força física para firmarem seu poder sobre os demais.11
É sabido que o bullying ocasiona prejuízos significativos a todos os envolvidos, o que define esse fenômeno como um problema de saúde pública, demonstrando assim a necessidade de estudos voltados para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção. O objetivo deste trabalho é analisar o perfil da prática violenta do bullying entre os adolescentes de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte.
METODOLOGIA
Este trabalho é resultado de pesquisa realizada em 2013 e 2014 pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz/DMPS/FM/UFMG. Trata-se de estudo transversal cuja metodologia consiste de realização de entrevista semiestruturada utilizando questionários autoaplicáveis preenchidos por amostra de adolescentes, calculada com erro de 5%, recrutados, por sorteio, nos diferentes turnos de 33 escolas públicas e privadas selecionadas nos nove distritos sanitários de Belo Horizonte. O número de adolescentes em cada escola é proporcional ao seu tamanho. Foram incluídos no estudo os adolescentes que aceitaram participar da pesquisa e cujos pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
O questionário foi elaborado pela equipe da pesquisa a partir de subsídios originários de outros instrumentos e da literatura e testado posteriormente em estudo-piloto realizado na forma de entrevistas com 40 adolescentes das faixas etárias estudadas, sobre o entendimento destes a respeito de cada uma das perguntas existentes. Após correções necessárias, o questionário foi testado novamente, desta vez no modo em que seria utilizado na pesquisa, isto é, autoaplicável e anônimo. É estruturado em oito blocos temáticos: família, sobre você, violência, trabalho, sexualidade, escola, drogas e questoes temáticas. Para o presente trabalho, foram utilizadas sete variáveis do família e 17 do bloco escola. Os dados foram coletados em sala de aula. Sua aplicação dos questionários foi precedida de visita às escolas para contato prévio com os seus responsáveis e com os adolescentes. Nessa oportunidade, foram entregues as autorizações para a participação no estudo a serem levadas para casa e assinadas pelos pais. Adolescentes maiores de 16 anos assinaram, eles próprios, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no momento de realização da pesquisa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Responderam o questionário 1.217 adolescentes, sendo 39,2% estudantes da rede estadual de ensino; 29,7% da rede municipal; 29,7% da rede privada; e 1,4% dos alunos estudava em escolas federais. Em relação ao sexo, 45,3% eram homens e 54,7% eram mulheres, não havendo, assim, diferença significativa entre os sexos. A idade mínima foi de 10 anos e a máxima de 19. A maior parte dos estudantes tinha 15 anos (17,6%). Do total, 34,8% se autointitularam brancos, 13,1% negros, 46,6% pardos, 3,2% orientais e 2,3% indígenas.
Quando questionados, 9,2% dos alunos e alunas responderam que se sentiam ameaçados/as na escola. Em relação ao ato de sofrer piadas ou comentários maldosos, 46,4% dos estudantes relataram já terem sido vítimas de tal comportamento. Quanto ao início desse comportamento, 19,8% relataram que sempre aconteceu. Para 9,7% dos estudantes, essa prática acontece desde o início do curso; 4,8% informaram sofrer piadas e serem vítimas de comentários maldosos desde a semana anterior à pesquisa. A Figura 1 mostra as formas de bullying encontradas neste estudo.

A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar/2009 (PEN-SE) mostrou que entre os 60.973 estudantes entrevistados, do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas das 26 capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, 62,9% relataram não sofrer bullying, 25,4% que raramente sofreram e 5,4% que sempre sofreram. Quanto à frequência de "sempre sofrer bullying" em escolas públicas, ela foi acima da média das capitais na cidade de Belo Horizonte, 7,1%. A capital mineira também apresentou a maior frequência de bullying entre as demais, 6,9%.12
As vítimas de bullying têm características diferentes das demais, no tocante a raça, a problemas escolares, crianças autistas; com necessidades especiais de saúde ou doenças crônicas; obesas; adolescentes gays ou que estao questionando sua sexualidade: meninos percebidos como "muito femininos" ou meninas como "muito masculinas".13 Compoem um grupo de indivíduos cujas características e/ou atributos são considerados negativos. Em consequência do bullying, podem desenvolver quadros graves de transtornos psíquicos e/ou comportamentais como sintomas psicossomáticos, transtorno do pânico, fobia escolar, fobia social, depressão, entre outros.14
Em relação ao local de ocorrência, a rua foi citada como o principal lugar para 33,4%, seguido pela sala de aula e o pátio da escola (22,2% cada). É sabido que no ambiente escolar as manifestações de bullying ocorrem tanto nas salas de aula como no pátio, durante o recreio. Ressalta-se que as formas pelas quais se manifesta alteram-se de acordo com a idade dos envolvidos. Nesse sentido, em crianças menores, com grau escolar compreendido entre os ciclos iniciais e a 4ª série, as condutas de bullying são mais perceptíveis, caracterizam-se pelos maus-tratos físicos associados a ameaças, chantagens, comportamento abusivo e imposição de autoridade por meio da força física e ameaças psicológicas.
As áreas comuns das escolas, como o pátio do recreio, são os locais de mais incidência. Da 5ª série em diante as condutas de bullying geralmente se dao com linguagem visual, gestual e corporal. Expressam-se por intermédio de ameaças, apelidos, difamações, discriminações, ofensas, furtos, abusos sexuais, indução aos maus-tratos e exclusão da vítima do grupo social. Ocorrem principalmente no exterior da escola, tornando-se mais difícil a sua detecção. Assim como nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio a maioria dos maus-tratos acontece de forma disfarçada, por meio apelidos, ofensas, ameaças e brigas dentro e fora da escola.10
Diante de uma intimidação, 14,3% dos estudantes afirmaram falar o que estava acontecendo para os professores, 29,6% disseram contar para os pais. Já 27,8% responderam que conversavam com a coordenação ou a direção da escola. Os colegas eram os ouvintes dos relatos de intimidação para 18,8% dos estudantes. Estudos realizados por Galdino e Ferreira acerca do apoio de figuras significativas na superação do bullying no contexto escolar mencionam a família e os amigos da escola como as principais figuras buscadas, em face do desejo de sair da situação de agressão e da necessidade de serem ouvidas. Reforçam, ainda, que representam figura significativa para a vítima de bullying quem tem interesse em ajudá-la, sente-se sensibilizado com as dificuldades que ela sofre, preocupando-se com seu bem-estar e ajudando-a a superar a situação.16 Em contrapartida, consideram-se como fator de risco para ocorrência de bullying casos em que há pouca atenção dos pais frente aos relatos de maus-tratos escolares sofridos e/ou perpetrados por seus filhos; a incapacidade dos professores de lidarem com a situação; bem como o processo de negação destes e do corpo diretivo das escolas quando indagados sobre a presença do fenômeno bullying nos espaços escolares aos quais pertencem.
Sobre os agressores, verificou-se que a maioria das intimidações é feita por um grupo de meninos. Segundo os estudantes, 18,6% das intimidações são realizadas por um grupo de meninos. Em seguida, aparece o grupo formado por meninos e meninas, responsáveis por 9,1% das intimidações. Intimidações causadas apenas por meninos ou meninas individualmente corresponde a 4,6 e 1,6%, respectivamente. Conforme a literatura estudada10, quando agressoras, as meninas assumem formas mais sutis de agressão, como o bullying indireto, motivo que somado às demais formas de expressão do fenômeno tende a explicar a maior proporção do público masculino quanto aos perfis de agressor.
Outra possível explicação pode estar associada ao processo de inserção do adolescente na cultura de pares ao afastar-se do âmbito familiar e aproximar-se de outros espaços sociais. Nessa perspectiva, principalmente nas fases iniciais da adolescência, quando os grupos de pares são unissexuais e mais numerosos entre os meninos, enquanto os grupos femininos constituem-se de relações mais íntimas, influenciadas pela afetividade, laços de amizade, emoção e sentimentos, nos grupos masculinos essas relações norteiam-se pela resistência à autoridade adulta, pelas competições e alcance de objetivos.17
CONCLUSÃO
O bullying é um fenômeno contextual sociocultural, dinâmico que está relacionado à complexa rede de interação entre indivíduos, famílias e escolas; requer intervenções no próprio local, ajustadas ao contexto e ancoradas na participação processual dos adolescentes. Devolver a voz a esses sujeitos do processo de ensino e aprendizagem pode ser mais que uma alternativa para mapear a dinâmica relacional da escola.
O bullying pode variar de acordo com a idade, sexo e características individuais, além de contextos culturais e sociais. Ele pode afetar a saúde física e mental dos adolescentes, o que requer a atenção das escolas, pais e da comunidade. Conhecer os adolescentes que frequentam a escola, para além de um conceito abstrato da sua categoria social, é o desafio essencial que se apresenta aos educadores comprometidos com uma educação que se qualifica pela ousadia de alterar e questionar continuamente.
São necessárias pesquisas adicionais, especialmente análises qualitativas, para entendimento aprofundado da violência e para entender melhor as diferenças e os contextos que produzem esses comportamentos. Entretanto, a atuação dos profissionais de saúde e educação no sentido de identificar essas violências e preveni-las é algo que se impoe para a agenda atual, segundo trabalho que integre múltiplos setores, tanto nos aspectos macroestruturais - a exemplo das políticas públicas sociais - como nos microespaços, definindo-se e estabelecendo-se redes de apoio e proteção.
É importante o investimento e treinamento de profissionais da área da educação para elaboração e execução de programas de prevenção ao bullying. Torna-se necessária a tomada de consciência das graves consequências desse fenômeno que merece a atenção da pesquisa. Entre as recomendações que se estabelecem para maia compreensão do bullying e sua interação com autoestima, identifica-se a necessidade de estudos adicionais sobre a natureza do evento, abrangendo a dinâmica familiar e outras situações de vulnerabilidade, bem como estratégias qualitativas de investigação do fenômeno.
REFERENCIAS
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