ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Avaliação de sintomas de transtornos alimentares em alunos de uma universidade pública
Evaluation of food disorders symptoms in students of a public university
Gisele Araújo Magalhaes1; Karine Ferreira dos Santos1; Tatiana Resende Prado Rangel de Oliveira2; Marcia Rocha Parizzi2; Cristiane de Freitas Cunha1
1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao Promoçao da Saúde e Prevençao de Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Belo Horizonte, MG - Brasil
Cristiane de Freitas Cunha
E-mail: cristianedefreitascunha@gmail.com
Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil
Resumo
A abordagem de sujeitos com transtornos alimentares (TA) que acometem, sobretudo, adolescentes e jovens adultos é um grande desafio.
OBJETIVO: investigar a relação entre a escolha do curso universitário e os sintomas de transtornos alimentares.
METODOLOGIA: a população-alvo foi constituída de alunos que ingressaram no 2o semestre de 2008 na UFMG. A identificação dos sintomas de TA foi realizada por meio de dois questionários: Eating Attitudes Test (EAT) e Bulimic Inventory Test Edinburgh (BITE). Para estratificação de dados demográficos utilizou-se questionário demográfico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: foram entrevistados 374 alunos, dos quais 57,2% eram do sexo feminino e 29,9% tinham menos de 20 anos de idade. Do total, 6,7% apresentaram comportamento de risco para anorexia nervosa (AN) e 28,7% para bulimia nervosa (BN). Os alunos do curso de Medicina apresentaram maior prevalência de comportamento de risco de AN, seguido de outros cursos das Ciências da Saúde e Ciências Humanas. Percebe-se que o comportamento de risco para AN é maior entre as mulheres do que entre homens. As instituições devem estar atentas para identificar e dar apoio adequado aos alunos com risco de TA.
Palavras-chave: Transtornos da Alimentação e da Ingestao de Alimentos; Anorexia; Bulimia.
INTRODUÇÃO
Atualmente, a AN e BN são as principais síndromes psiquiátricas estabelecidas no Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais V no grupo dos Transtornos Alimentares (TA). De acordo com esse manual, tanto a AN quanto a BN compartilham uma distorção grosseira da imagem e o desconforto com a forma e o peso corporal. A busca obstinada por uma magreza idealizada e inatingível predispoe esses pacientes aos comportamentos alimentares inadequados para perda de peso.1-4
A incidência de transtornos alimentares (TA) como anorexia nervosa (AN) e bulimia nervosa (BN) é recorrente no universo acadêmico contemporâneo. A literatura revela a inserção em cursos como Nutrição, Medicina e Dança como risco para TA. Conhecer a realidade de seus alunos é importante para que as instituições de ensino possam cuidar da promoção de saúde de seus jovens.3
Este artigo tem como objetivo identificar a proporção de alunos universitários com possíveis comportamentos de risco para TA.
METODOLOGIA
Para identificação dos sintomas de transtornos alimentares em diferentes cursos universitários, foram convidados a participar da pesquisa alunos que ingressaram na Universidade Federal de Minas Gerais no segundo semestre de 2008. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UFMG. Foram incluídos todos os alunos que concordaram em participar da pesquisa.
Por meio de um questionário demográfico estratificaram-se dados relativos a idade, sexo, curso e o número de identificação. Para identificação dos sintomas de transtornos alimentares, foram aplicados dois questionários, o Bulimic Investigatory Test Edinburgh (BITE) e o Eating Attitudes Test (EAT), que são os instrumentos mais usados para rastreamento de comportamentos de risco para TA e mensuração dos principais aspectos psicopatológicos envolvidos.5-10
O EAT contém 26 questoes de autopreenchimento e utiliza respostas do tipo "sempre", "frequentemente", "às vezes", "raramente", "nunca", em formato de múltipla escolha, divididas em subescalas, conforme descrito na Tabela 1.5,11,12

As perguntas são pontuadas na escala da seguinte forma: a resposta extrema na direção anoréxica (dependendo da direção de cada pergunta) recebe três pontos; a resposta seguinte recebe dois pontos; e a próxima recebe um ponto. As três últimas escolhas não recebem pontuação. Considera-se sintomática pontuação igual ou superior a 21.
O BITE é um instrumento autoaplicado para avaliar a presença e a gravidade de sintomas de bulimia nervosa.5,8 Compreende 33 questoes autopreenchíveis divididas em duas subescalas de pontuação: a escala sintomática avalia a presença de sintomas bulímicos e a escala de gravidade avalia a intensidade dos sintomas bulímicos presentes, de acordo com a frequência com que ocorrem. Na escala sintomática, a máxima pontuação possível é de 30 pontos. Essa pontuação subdivide-se em três grupos, como apresentado na Tabela 2. Constituem essa escala todas as questoes, exceto as questoes 6, 7 e 27. As questoes 1, 13, 21, 23 e 31 somam um ponto para a resposta "não". As demais 25 questoes somam um ponto para a resposta "sim".8-10,12

Os indivíduos que atingem alta pontuação apresentam grande probabilidade para preencher o critério diagnóstico de bulimia nervosa, segundo o DSM-V, indicando um padrao alimentar altamente desorganizado e a presença de episódios compulsivos. Uma pontuação entre 15 e 19 pode refletir um grupo subclínico de bulímicos. Uma pontuação sintomática média, entre 10 e 19, sugere hábito alimentar não usual, porém insuficiente para preencher todos os critérios de diagnóstico para bulimia nervosa. Escala sintomática entre zero e 10 preenche os limites normais de padrao alimentar. Tal pontuação indica a ausência tanto de compulsão alimentar quanto de bulimia nervosa.8,10,13
Para comparar os resultados finais das escalas EAT e BITE por sexo, período e curso, foi utilizado o teste qui-quadrado de Pearson para comparação de proporções ou do teste exato de Fisher, apropriado para amostras com pequenas frequências. Todas as análises foram feitas para o grupo total. Em todas as análises, considerou-se nível de 5% de significância (p≤0,05). Foi utilizado o software Statistical Package for the Social Scienc (SPSS), versão 12.0.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A UFMG, em 2008, oferecia 59 cursos dentro e fora de Belo Horizonte. Foram analisados 22 cursos somente em Belo Horizonte, total de 37,2% de cursos oferecidos.
No total, 374 alunos (20% dos alunos que ingressaram no 2º semestre de 2008 no campus de Belo Horizonte) responderam aos questionários, dos quais 47 (12,6%) faziam curso de Engenharia, 2,4% curso das Ciências Exatas, 20,9% o curso de Medicina, 8% Nutrição, 20,9% outros cursos da área de saúde, 11,8% Ciências Humanas, 7,8% Geociências, 12,8% Ciências Econômicas e 2,9%, Música.
Dos alunos entrevistados, 57,2% eram do sexo feminino, 29,9% tinham entre 18 anos e 19 anos e 11 meses e 70% tinham 20 anos ou mais.
Algumas perdas de dados decorreram por erro no preenchimento e representaram 3,7% do total.
Do total de alunos entrevistados, 6,7% apresentaram comportamento sintomático na escala EAT. Além disso, 28,7% tinham padrao alimentar não usual na escala BITE e apenas em 2,9% o comportamento alimentar era compulsivo e com grande possibilidade de bulimia.
As maiores prevalências de comportamento de risco para AN foram observadas para os cursos de Medicina (9,1%), outros cursos das Ciências da Saúde (9,5%) e Ciências Humanas (9,8%). Entretanto, não se obteve diferença significativa entre os cursos.
Houve diferença significativa das prevalências entre homens e mulheres (valor-p<0,05). Percebe-se que a prevalência de EAT ≥ 21 foi de 10,2% entre as mulheres e de apenas 2% entre os homens. A prevalência de BITE, indicativo de possibilidade de bulimia, foi de 4% entre as mulheres e de apenas 1,4% entre os homens.
Em relação à idade, não houve diferença significativa.
No presente estudo, o comportamento alimentar compulsivo e a grande possibilidade de BN não foram observados nos cursos de Engenharia (e em outros cursos das Ciências Exatas), nem no curso de Música. A maior prevalência de comportamento de risco para BN foi observada para os outros cursos de Ciências da Saúde (4,2%), Ciências Humanas (4,7%) e Ciências Econômicas (4,4%). Entretanto, não se pode afirmar que existe diferença significativa entre os cursos (valor-p=0,547).
No curso de Nutrição, não foi observado risco de sintomas positivos para o EAT e observou-se prevalência de 3,4% para risco de comportamento grave e de 17,2% para comportamento de risco para bulimia de acordo com o BITE. Nesse curso, ocorreu evasão de cerca de 50% dos alunos durante a aplicação dos testes.
Algumas alunas do curso de Nutrição que não participaram do estudo procuraram a pesquisadora com demanda de ajuda relacionada aos seus sintomas alimentares. Essas alunas haviam participado de estudos semelhantes e relataram mal-estar com os questionários, relatando não os terem respondido com franqueza.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora os instrumentos usados tenham valor como rastreamento para o comportamento alimentar de risco para anorexia e bulimia nervosa, deve-se considerar que se trata de uma questao complexa. O relato das alunas que expressaram mal-estar com o questionário mostra a importância da subjetividade e do sofrimento psíquico. Na clínica e no ambiente acadêmico, uma abordagem acolhedora e atenta, sem discriminação e julgamentos, pode ser uma grande oportunidade de construção de vínculo e de abertura de uma possibilidade de tratamento.2,7
REFERENCIAS
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