RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Artigo Original

Adolescentes, violência e interações sociaisa

Adolescents, violence and social interactions

Rita Ana da Silva Lima1; Ruth Christina Dantas Johnson1; Joana D'Arc Bittencourt Alves Parreira1; Mirna Flávia de Souza Morais1; Myrtes Teixeira de Lima1; Plínio Lucius Marthi Rodrigues Nascimento Livro1; Renata de Moura Macedo1; Rodrigo Xavier1; Eugênia Ribeiro Valadares1; Elza Machado de Melo1; Paulo Roberto Ceccarelli2

1. Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-Graduaçao em Promoçao da Saúde e Prevençao da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC-MG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Elza Machado de Melo
E-mail: elzamelo@medicina.ufmg.br

Instituiçao: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: a violência envolvendo o adolescente é uma preocupação no Brasil e no mundo.
OBJETIVOS: este estudo tem como objetivo analisar o perfil de violência entre adolescentes segundo relações que eles estabelecem na família e na escola.
MÉTODOS: a metodologia consistiu de entrevista estruturada, utilizando questionários autoaplicáveis com adolescentes de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte. Participaram do estudo 1.187 adolescentes. Foram realizadas: análise descritiva com distribuição de frequência e análise bivariada, com teste de qui-quadrado de Peirce; a magnitude da associação entre as variáveis foi estimada por meio do cálculo de odds ration (OR), com intervalo de confiança de 95% e nível de significância de 5%.
RESULTADOS: os resultados mostraram que os adolescentes acolhidos e bem-tratados em suas relações familiares e escolares praticam menos atos violentos, em comparação àqueles cujas relações são marcadas por conflitos e práticas violentas.
CONCLUSÕES: identificou-se que os principais influenciadores do comportamento e desenvolvimento do adolescente são a família e a escola e que o presente funcionamento dessas instituições tem contribuído para a crescente relação entre o adolescente e o ato violento. No entanto, essas mesmas instituições possuem o potencial para reduzir esse comportamento a partir de uma relação mais efetiva com os adolescentes, que lhes permita emitir respostas saudáveis aos processos de desenvolvimento que vivenciam.

Palavras-chave: Família; Educação; Adolescente; Violência.

 

INTRODUÇÃO

Segundo Eisenstein1, "adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizado pelos impulsos do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e social e pelos esforços do indivíduo em alcançar os objetivos relacionados às expectativas culturais da sociedade em que vive". A palavra adolescente vem do latim adolescere, que significa crescer. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)2, a adolescência é a fase que vai dos 10 aos 20 anos de idade e corresponde à segunda década da vida, diferentemente do Estatuto da Criança e Adolescente, que a localiza na faixa de 12 a 18 anos de idade.

A adolescência é uma fase de muitas transformações e construções. É quando o sujeito fortalece os conhecimentos e ensinamentos da infância e adquire outros que também lhes serao úteis na vida adulta. As mudanças biológicas ocorrem de forma intensa, proporcionando mais desenvolvimento físico, assim como a maturação das funções cognitivas. As relações sociais e afetivas também se intensificam e se fortalecem. O adolescente é, portanto, um ser em desenvolvimento e formação, capaz de agir, pensar, sentir, memorizar, imaginar, descobrir, inventar, aprender e ensinar constantemente. Precisa ser acolhido, escutado, respeitado e cuidado. Como já dizia Platao citado por Rocha3: "Não faça os meninos aprenderem pela força e pela severidade, ao contrário, conduza-os por aquilo que os diverte, para que possam descobrir melhor a inclinação de suas mentes".

De modo geral, a adolescência é um fenômeno universal, porém, como processo de desenvolvimento humano, precisa ser analisada de forma contextualizada. Segundo Serra4, "há diversos mundos e diversas formas de ser adolescente". As experiências vividas ao longo da vida marcam o indivíduo como um ser único, sendo assim, a adolescência não é mais vista apenas como uma preparação para a vida adulta, mas como uma etapa da vida com sentido em si mesma.

Geralmente, a família funciona como a primeira instância de socialização da criança, configurando-se como pilar na formação de seus membros. É a partir dela que se constroem os valores éticos e morais, as crenças, os costumes e os significados presentes na sociedade. Está entre as funções da família proporcionar ao indivíduo possibilidades de desenvolvimento de cunho cognitivo, social e afetivo. Apesar das transformações da instituição familiar entre os últimos anos do século XX e os primeiros do XXI, conforme Pratta5, ela ainda é considerada "a base de segurança e bem-estar e um indicador para o desenvolvimento humano". A Escola também participa de forma relevante nesse processo de socialização do adolescente e tem o papel mais amplo de preparar as gerações mais novas para a vida em sociedade, independentemente de como tal preparação for pensada. Nesse sentido, tem-se, a exemplo, a visão otimista de Durkheim6, que identifica a educação como o desenvolvimento físico, intelectual e moral necessário ao convívio social. Por outro lado, tomando por base a visão crítica de Bourdieu7, sublinha-se a violência simbólica da escola como instituição que garante a reprodução da ordem social, com todas as suas desigualdades.7 Em síntese, ainda que compreendidas sob distintos pontos de vista, família e escola são instituições decisivas de controle e formação do sujeito em desenvolvimento.

Ao se falar de adolescência, é inevitável abordar um problema intensamente presente nesse grupo: a violência, aqui definida de acordo com o conceito proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil8, como "qualquer ação ou omissão realizadas por indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam danos físicos, emocionais, morais, espirituais a si próprios ou aos outros". Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é analisar a violência entre adolescentes segundo as características das relações que eles estabelecem na família e na escola.

 

METODOLOGIA

Este trabalho é um recorte da pesquisa realizada entre os anos de 2013 e 2014, pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz/DMPS/FM/UFMG, com diferentes turnos de 33 escolas públicas e privadas, selecionadas nos nove distritos sanitários de Belo Horizonte, independentemente de sua classe socioeconômica. Trata-se de estudo transversal cuja metodologia consiste em entrevista semiestruturada, utilizando questionários autoaplicáveis preenchidos por uma amostra calculada com margem de erro de 5%, composta de adolescentes recrutados de 33 escolas públicas e privadas, sorteadas entre os nove distritos sanitários de Belo Horizonte, sendo o número de adolescentes em cada escola proporcional à sua população (Tabela 1). Foram incluídos no estudo os adolescentes que aceitaram participar da pesquisa e cujos pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

 

O questionário foi elaborado a partir de subsídios originários de outros instrumentos e da literatura e testado, posteriormente, em estudo-piloto realizado sob a forma de entrevista com 40 adolescentes. Após as correções necessárias, os questionários foram testados novamente, desta vez no modo como seria utilizado na pesquisa, isto é, autoaplicável e anônimo. A aplicação dos questionários foi precedida de visita às escolas para contato prévio com os seus responsáveis e com os adolescentes. Os dados foram armazenados em bancos de dados utilizando o programa SPSS.

As variáveis estudadas foram: ter praticado violência de qualquer tipo: física, verbal, moral, psicológica, sexual; sexo; relação com os colegas; relação com os professores; sentir-se seguro na escola; sentir-se sozinho; brigas na família; ter presenciado violência. Foram realizadas análise descritiva com distribuição de frequência e análise bivariada, utilizando o teste de qui-quadrado de Pierce. A magnitude das associações foi estimada por meio do cálculo de odds ratio, com intervalo de confiança de 95% e nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

O total de 1.187 adolescentes preencheu os questionários, sendo que a maioria é do sexo feminino, com faixa etária entre 10 e 14 anos e se relaciona bem com os colegas e com os professores. Todavia, essa mesma maioria também se sente sozinha e já presenciou violência.

A análise bivariada mostrou que existe associação entre o comportamento violento e todas as variáveis estudadas (valor ≤ 0,05). Algumas dessas variáveis que atuam como fatores de risco e aumentam a chance do comportamento violento ocorrer são: ser do sexo masculino (chance quase três vezes maior), o que leva a inferir que o sexo interfere no comportamento violento; sentir-se sozinho (chance quase 1,5 vez maior), portanto, algo significativo para os adolescentes entrevistados e que deverá ser observado com atenção especial pela família e pela escola; brigas na família (chance quase 1,3 vez maior) e presenciar violência (chance mais de duas vezes maior).

Outras variáveis funcionam como fatores de proteção, que influenciam no sentido de diminuir as chances de ocorrência de comportamento violento: idade menor, que reduz em mais de 1/3 as chances de que o adolescente emita um comportamento violento; boa relação com os colegas, que reduz a mesma possibilidade pela metade; boa relação com os professores, que reduz em mais da metade; e se sentir seguro, que diminui em ¼ um potencial comportamento violento. A pesquisa apresenta a maior OR=2,149 no que se refere às situações de violência perto de casa, com percentual de respostas bastante significativas por aqueles que já praticaram algum tipo de violência. Também mostra que, quanto maior é a violência doméstica, maiores os reflexos negativos nos adolescentes (Tabela 1).

 

DISCUSSÃO

Fante, citada por Araújo et al.9, ressalta que, atualmente, o ambiente escolar é palco de uma proliferação da violência, incluindo brigas, invasões, depredações e até mortes. A partir dos dados apresentados, pode-se notar que a escola não é um lugar de proteção contra a violência para 22% dos alunos (Tabela 1). Quando se fala de violência na escola, além dos atos mencionados, podem-se citar os xingamentos e o autoritarismo por parte dos professores. Como afirma Kupfer10, "quando a socialização é, para um sujeito ou um grupo, sustentada pela força real, ela produz delinquência, ou seja, tentativas violentas de instaurar valores simbólicos".

Malta et al.11, ao discutirem a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar-PeNSE, sugerem, como fator significativo, que alunos que passaram por alguma situação de violência estao mais sujeitos à solidao e suas consequências, como insônia e ansiedade, afetando negativamente o aproveitamento escolar. A educação básica é uma das poucas oportunidades oferecidas para elevar a condição social do ser humano no Brasil. Ainda assim, atualmente existe elevado número de adolescentes que, mesmo frequentando a escola durante anos, concluem o ensino fundamental com sérios déficits na aprendizagem. Esses déficits, ligados ao processo de ensino e aprendizagem, poderiam, também, estar relacionados à violência que, por sua vez, diz respeito ao sistema educacional e à sua estrutura, à formação dos professores e ao ensino, que é dado aos alunos muitas vezes distante de suas realidades, entre outras questoes. A pesquisa mostra, ainda, que recorrentemente os docentes ignoram certos tipos de violência cometidos entre os alunos, considerando que lidar com tal situação não faz parte de suas atividades, deixando por conta do próprio grupo resolvê-la.

As brigas em família e o fato de presenciar violências também cooperam a solidao e o desamparo, o que recorrentemente leva o adolescente a mais atos agressivos, que podem ser entendidos como busca de estabelecimento e/ou restituição de uma ordem. 10 A violência seria entao um sinal gritante de posicionamento por parte do adolescente, ainda que isso acabe por ampliar o distúrbio o qual ele tenta solucionar.

Os professores e gestores constantemente encontram dificuldades para desempenhar as suas funções, quando se veem necessitados de conhecer as trajetórias dos adolescentes que farao parte do processo de ensino e aprendizagem da sua escola. A escola tende a se posicionar de forma fechada, focada no cumprimento do currículo já estabelecido. Essa falta de compreensão e diálogo dificulta a aproximação da escola com a família, e vice-versa. Carneiro12 afirma:

É preciso ponderar que, muitas vezes, o abandono da Escola deve-se ao fato de os sujeitos, antes de estarem batendo a cabeça nos muros da sociedade, fizeram-no contra os muros da escola, sem encontrar respaldo nela (ou mesmo formas de compensação), principalmente se considerarmos as privações econômicas ou de natureza socioafetivas pelas quais passaram.12

A presente pesquisa encontrou que um bom relacionamento com os professores pode ser um inibidor da violência, aspecto negligenciado, a julgar pela literatura, que relata violência no espaço escolar por meio de humilhação, preconceito ou discriminação.13 Costa12, em sua tese de mestrado, relata que adolescentes mais jovens sofreram as maiores violências no ambiente escolar, sendo que os adolescentes mais velhos incluíram em seus relatos outros ambientes, tais como a rua, a comunidade e o próprio domicílio.

Embora a educação seja um elo fundamental e os adultos sejam socialmente responsáveis pelos filhos adolescentes, ainda existem nas instituições brasileiras como família, escola e órgaos de ressocialização a defesa de uma educação autoritária com base em relações de poder e subordinação. Segundo Minayo14:

[...] a violência contra crianças e adolescentes é todo ato ou omissão cometido pelos pais, parentes, outras pessoas ou instituições capazes de causar dano físico, sexual e/ou psicológico à vitima. Implica a transgressão no poder/dever de proteção do adulto e da sociedade em geral.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A violência nas escolas pode variar conforme o sexo do adolescente, fatores de conflitos no ambiente familiar ou no contexto social, como também pelas características pessoais. Tendo claro o que pode provocar dificuldades na escola, profissionais e pais têm a chance de pensar em comportamentos que favoreçam o bem-estar do adolescente e, por consequência, reduzir o comportamento violento deles. A parceria entre família, escola, sociedade e estado seria um bom caminho para a construção de uma nova realidade. A violência pode afetar a saúde dos adolescentes, sendo, portanto, de extrema urgência e necessidade a atuação de pesquisadores e a intervenção de profissionais da saúde e da educação no processo de sua prevenção, articulada em rede e de forma interdisciplinar.

 

REFERENCIAS

1. Eisenstein E. Adolescência: definições, conceitos e critérios. Adolesc Saúde. 2005; 2(2): 6-7.

2. Presidência da República (BR). Lei Federal nº 8.069/90. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília; 1990.

3. Rocha NM. Auto-Estima como um dos fatores determinantes do aprendizado da criança [monografia]. Brasília: Uniceub; 2003. p. 8.

4. Serra E. Adolescência: perspectiva evolutiva. In: Anais do VII Congresso INFAD. Oviedo; 1997. p.24-8.

5. Pratta EM, Santos MA. Família e adolescência: a influência do contexto familiar no desenvolvimento psicológico de seus membros. Psicol Estud. 2007;12(2):11-9.

6. Durkheim E. Educação e sociologia. 12ª ed. São Paulo: Melhoramentos; 1978. p. 41

7. Bourdieu P. Escritos de educação. In: Nogueira MA, Catani A, organizadores. Petrópolis: Vozes; 1998.

8. Ministério da Saúde (BR). Portaria nº 737 de 16 de maio de 2001. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências. Diário Oficial da Uniao, 2001. Brasília: MS; 2001.

9. Carreiro LRR, Araujo MV, Tortorelli MF. Correlations between the perception of family violence and the report of violence in students from São Paulo. Psicol Teor Prat. 2010; 12(1): 32-42.

10. Kupfer MC. Violência da educação ou educação violenta? In: Levinsky DL, organizador. Adolescência pelos caminhos da violência. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2010.

11. Malta DC, Silva MA, Prado RR. Bullying e fatores associados em adolescentes brasileiros: análise da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2012). Rev Bras Epidemiol. 2014; 2(2):131-45.

12. Carneiro JR. A Constituição e a Atuação de Grupos, Tribos, Gangues e Galeras no entorno de uma Escola Pública de ensino Médio: uma coexistência possível? [dissertação]. Araraquara: Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista; 2006. p. 79.

13. Costa MR. Bullying entre adolescentes de um centro urbano: estudo Saúde em Beagá. [dissertação]. Belo Horizonte, MG; Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; 2012.

14. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 7ª ed. São Paulo: Hucitec; 2001.

 

a Trabalho realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG com o apoio da OPAS e do Ministério da Saúde.