RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26 e1804 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160104

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Educação Médica

Acolhida aos calouros em medicina: descrição de forma solidária de sua inserção na vida acadêmica

Welcoming to Freshmen students in Medical School: a solidarity description on their insertion in academic life

Ana Maura Freitas Marques Figueiredo; Dayane Tabatha Santos Duraes; José Wilson de Brito Sales; Marco Antônio Dias Figueiredo; Renata Inez de Freitas Marques; Luiza Augusta Rosa Rossi-Barbosa

Faculdades Unidas do Norte de Minas - FUNORTE. Montes Claros, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Ana Maura Freitas Marques Figueiredo
E-mail: annamaura@yahoo.com.br

Recebido em: 06/06/2015.
Aprovado em: 02/06/2016.

Instituiçao: Faculdades Unidas do Norte de Minas - FUNORTE. Montes Claros, MG - Brasil.

Resumo

O objetivo deste trabalho foi verificar o impacto das atividades de acolhida junto aos acadêmicos de Medicina do 1º período de Medicina das Faculdades Unidas do Norte de Minas, bem como reconhecer seus sentimentos acerca da vida universitária. Foi elaborado um questionário com perguntas sobre as atividades realizadas na acolhida e sobre os sentimentos acerca da vida universitária. A média de idade dos 36 alunos que responderam ao questionário foi de 20,8 anos e as mulheres representaram 75% dos novos acadêmicos. Percebeu-se o impacto positivo do programa de acolhida no início da vida acadêmica, como instrumento facilitador das relações interpessoais. Foi unânime a percepção positiva da acolhida sobre a integração, socialização e auxílio no início da vida acadêmica atendendo ao propósito da recepção acolhedora.

Palavras-chave: Comportamento de Massa; Comportamento Social; Estudantes de Medicina.

 

INTRODUÇÃO

Durante o primeiro ano de faculdade, as experiências vividas são determinantes para a permanência no ensino superior e para o sucesso acadêmico. A maneira como os acadêmicos integram-se faz com que possam aproveitar melhor (ou não) as oportunidades oferecidas pela universidade, tanto para sua formação profissional quanto para seu desenvolvimento psicossocial.1,2 Estudantes que se integram, acadêmica e socialmente, desde o início de seus cursos têm provavelmente mais chances de crescerem intelectual e pessoalmente do que aqueles que enfrentam mais dificuldades na transição à universidade.3

É necessário estimular a integração social dos estudantes, já que o grupo tem um papel fundamental na construção da identidade dos novos universitários e também na construção de uma rede de apoio afetivo e acadêmico que possa auxiliá-los em caso de dificuldades. Atividades de integração podem ser propostas, promovendo o contato dos estudantes com diversidade de ideias e pessoas.3

Seguindo uma tradição estabelecida e difundida pela maioria das escolas de ensino superior no Brasil, a recepção de novos acadêmicos tem sido realizada pelos veteranos, através do trote que, muitas vezes, não cumpre com seu real objetivo de incluir os estudantes recém-aprovados na comunidade acadêmica. Numa tentativa de bem recebê-los, algumas faculdades de Medicina têm procurado ressignificar essa atividade, buscando demonstrar os diferentes aspectos envolvidos na mudança decorrente da passagem do ciclo escolar para a Universidade.4

O curso de Medicina das Faculdades Unidas do Norte de Minas - FUNORTE recebe, desde 2006, semestralmente 60 estudantes oriundos de várias escolas particulares e públicas de diversas localidades do país, muitos desses há tempos pleiteando uma vaga nesse que é o mais concorrido curso universitário de toda a regiao. Os meses, e até anos de estudos, a exaustiva dedicação e os sacrifícios acumulados fazem desse ingresso um momento único na vida de cada estudante.

O princípio da vida universitária requer uma gama de adaptações: novo ritmo de estudos para um curso que utiliza uma metodologia inovadora (Aprendizagem Baseada em Problemas) que exige muita disciplina e comprometimento, a distância de familiares e amigos, estabelecimento de novos vínculos de amizade, a nova moradia, a cultura e peculiaridades do Norte de Minas, particularmente de Montes Claros.

O ingresso no ensino superior, transição que traz potenciais repercussões para o desenvolvimento psicológico, social e profissional dos jovens estudantes e o primeiro ano, período crítico para a adaptação desses indivíduos à universidade, justificou a realização desse programa de acolhida. Diante disso, a Turma XVII de Medicina da FUNORTE e o Comitê Local do International Federation of Medical Students Associations of Brazil (IFMSA) - FUNORTE, organização não governamental que proporciona aos estudantes de Medicina estágios clínicos e científicos internacionalmente, além de organizar e incentivar projetos e seminários no âmbito do ensino médico, propuseram o desenvolvimento de uma abordagem acolhedora ao estudante, desde o dia do processo seletivo, culminando com uma semana de atividades e encontros para recepcionar os novos integrantes do curso de Medicina.

O objetivo deste trabalho foi apresentar o impacto das atividades de acolhida junto aos acadêmicos de Medicina que acabaram de ingressar na faculdade, bem como reconhecer seu perfil e seus sentimentos acerca da vida universitária.

 

MÉTODO

O estudo foi conduzido em Montes Claros, cidade com 361.971 habitantes, que possui 13 Instituições de Ensino Superior, sendo três públicas e as demais privadas. O município conta com mais de 150 faculdades, com cerca de 20.000 acadêmicos,5 e entre essas, três são escolas de Medicina. Dessa forma, a cidade representa o principal polo estudantil ao norte do Estado de Minas Gerais. O curso de Medicina da FUNORTE recebe, desde o ano de 2006, semestralmente 60 estudantes oriundos de várias escolas particulares e públicas de diversas localidades do país.

A população alvo foi constituída de acadêmicos do 1º período de Medicina da FUNORTE do primeiro semestre de 2014, que participaram da acolhida aos calouros. Primeiramente, os vestibulandos receberam um marca páginas contendo mensagem de incentivo e motivação. Posteriormente, na primeira semana letiva de 2014, foi proposto aos calouros de Medicina da FUNORTE o "Trote Solidário", no qual cada calouro deveria contribuir com donativos, doação de um pacote de fraldas geriátricas, doação de sangue e composição do banco de medula óssea. Encerrando as atividades, foi celebrada uma missa.

Aplicação de questionário

Foram incluídos, nesse estudo, todos os acadêmicos do 1º período de Medicina da FUNORTE do primeiro semestre de 2014 que participaram das atividades de acolhida aos calouros.

Um questionário foi elaborado com perguntas sociodemográficas e econômicas (sexo, idade, financiamento, naturalidade, com quem reside, atividade, renda familiar); sobre sentimentos acerca da vida universitária (estado emocional antes de iniciar a vida acadêmica, maior dificuldade nos primeiros dias da vida acadêmica); e sobre as atividades de acolhida (experiência da acolhida, atividade que mais se identificou, opiniao sobre as atividades de acolhimento, favorecimento sobre as atividades de acolhimento).

A coleta de dados ocorreu durante o Módulo de Habilidades e Atitudes, após o consentimento dos instrutores. As informações sobre os objetivos da pesquisa e o caráter voluntário e sigiloso da participação foram repassadas aos estudantes, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e em seguida preencheram um questionário com dados sociodemográficos, impressões e sentimentos individuais e o reflexo da semana de acolhida para cada um.

Os dados coletados foram digitados no programa Predictive Analytics SoftWare (PASW® STATISTIC), versão 18.0, que forneceu valores descritivos com medidas de tendência central para as variáveis numéricas e o cálculo de frequência absoluta e relativa para as variáveis categóricas. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa das Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE) e aprovada mediante parecer 630.448.

Resultados

Foram coletados 36 questionários junto aos calouros da Turma XVIII de Medicina da FUNORTE. A média de idade dos alunos foi de 20,8 anos (DP±3,0). Os demais dados sobre o perfil dos acadêmicos estao na Tabela 1.

 

 

No que se refere às variáveis emocionais observa-se que os pontos negativos sobrepoem aos positivos e que a maior dificuldade neste início da vida acadêmica refere-se à adaptação da metodologia PBL. Sobre a experiência da acolhida quanto ao "Trote Solidário", as respostas foram positivas. Os dados são apresentados na Tabela 2.

 

 

DISCUSSÃO

Conforme os resultados obtidos, a maioria dos acadêmicos é do sexo feminino, o que comprova uma tendência mundial nos últimos anos, a feminização da Medicina.6,7 A média de idade dos alunos apresentada reflete uma propensão ao início cada vez mais precoce na vida universitária, contribuindo para uma 'juvenilização' da população médica.8,9

Os dados referentes aos beneficiários do FIES e PROUNI apontam para um significativo favorecimento ao acesso universitário, em virtude do estabelecimento e garantias de programas sociais governamentais. Ainda, contribuiu com essa reflexão o fato da renda familiar prevalente girar em torno de 3 a 6 salários mínimos, diferindo dos dados de outros estudos nacionais, nos quais praticamente a totalidade dos estudantes de Medicina possui renda familiar igual ou superior a 10 salários mínimos.7-9

Há acadêmicos oriundos de outras cidades do Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha e Sul da Bahia, devido Montes Claros ser um polo educacional, principalmente no ensino superior, o que demonstra a importância desse ramo e seu alcance regional.5 A pesquisa mostrou que grande parte dos acadêmicos mora com os pais, situação que pode favorecer o enfrentamento das adversidades associadas ao início da vida universitária, principalmente aquelas de cunho emocional.3

Pode verificar ser a escolha da Medicina o primeiro curso superior da maioria dos acadêmicos da turma XVIII e que esses não exercem nenhuma atividade remunerada, dedicando-se exclusivamente aos estudos. Pesquisa sobre estudo e trabalho mostrou que os cursos da área da saúde são os que apresentam os menores percentuais de estudantes que trabalham devido serem em período integral. No caso de Medicina, o percentual de estudantes que conciliam trabalho e estudo é bastante reduzido.10

Sobre os sentimentos que melhor definem o estado emocional dos novos acadêmicos, mais da metade tem sentimentos negativos em detrimento a sentimentos mais positivos como confiança, curiosidade, satisfação e tranquilidade. O ingresso à vida acadêmica pode representar um alívio da pressão decorrente do vestibular, uma surpreendente mudança na vida ou, até mesmo, uma experiência que causa desamparo.3 De fato, um estudo considerou ser uma experiência estressora.3

A respeito das maiores dificuldades encontradas nos primeiros dias de vida acadêmica, a adaptação a um novo ritmo de estudos e metodologia de ensino constituíram o maior desafio para a quase totalidade dos estudantes. A metodologia PBL, dita ativa e inovadora, adotada pela faculdade de Medicina da FUNORTE busca, primordialmente, municiar o acadêmico para que este tenha condições de desenvolver habilidades cognitivas, atitudinais e técnicas aplicáveis na clínica e no cuidado dos pacientes, bem como na manutenção da postura de estudar para aprender pelo resto da vida profissional.

Nesse modelo, o processo educativo está centrado no estudante, e procura-se, a todo o momento, estimular a sua capacidade de autoformação, com fomento pela busca ativa e inesgotável de informações. O estudante deve ser capaz de construir sua aprendizagem, integrando seus conhecimentos prévios com os dos outros estudantes do grupo, para a resolução de problemas selecionados para o estudo, objetivando o desenvolvimento do raciocínio crítico, de habilidades de comunicação e do entendimento da necessidade vitalícia de aprender.11

O PBL é praticado diferentemente em diversas instituições, mas seus componentes norteadores devem sempre ser preservados dentro do processo ensino-aprendizagem: ser individualizado, trabalhar em pequenos grupos, ser cooperativo, ter tutores facilitadores, ser autorregulado e utilizar problemas.12 Conquistar a autonomia dentro do processo ensino-aprendizagem é uma tarefa nada simples e, neste século, professor e aluno desempenham papéis cada vez mais complexos formando ambiente com duas gerações em diálogo, favorecendo a construção do conhecimento.7

Sobre a experiência de acolhida desenvolvida em detrimento ao trote opressor e violento, a maioria dos estudantes considerou-a agradável, divertida, formidável e integradora. A doação de donativos destinados a pessoas carentes foi a atividade com a qual metade dos acadêmicos mais se identificou. Estudo traz que o trote causa danos aos estudantes e se refere a uma situação cultural, na qual abusar do outro é transformado em algo engraçado. O outro passa a ser objeto de diversão, ridicularização e violência, muitas vezes desmedida.8

No Brasil, instituições como a UNISUZ - Faculdade Unida de Suzano, desde a sua constituição, têm como princípio a substituição e o combate ao trote universitário violento, que não promove integração entre calouros e veteranos. O projeto conhecido como Integração Solidária, dessa faculdade, tem como princípio tornar humanizada a recepção do estudante e, ainda, estimular a responsabilidade social dos novos ingressos.13

No Rio Grande do Sul, o Programa de acolhimento implantado pela FAMED/UFRGS também mostrou ampla satisfação dos acadêmicos. Um dos seus objetivos era valorizar o estudante dentro do ambiente acadêmico vinculando-o ao Hospital das Clínicas de Porto Alegre, à FAMED e à UFRGS como um todo. Numa cerimônia, previamente agendada, os acadêmicos do primeiro semestre foram acolhidos, receberam informações acerca do manual do hospital, foram presenteados com crachás de identificação e convidados a conhecer as instalações em que estudariam nos próximos seis anos.4

Para unanimidade dos calouros do presente estudo, as atividades de acolhimento foram importantes para a integração entre os próprios calouros e entre os calouros e seus veteranos, destacando a importância da recepção acolhedora no início da vida universitária. Finalmente, os estudantes reconheceram que as atividades de acolhimento favoreceram as relações interpessoais, confirmando a importância das atividades de acolhimento neste momento da vida dos novos acadêmicos.

Cabe salientar que apesar do grande esforço empreendido na discussão dos resultados desse estudo, a escassez de publicações nacionais envolvendo a temática que valoriza o primeiro contato do acadêmico com a instituição de ensino superior dificultou uma abordagem mais abrangente.

 

CONCLUSÃO

Pode-se perceber o impacto positivo do programa de acolhida no início da vida acadêmica, como ferramenta facilitadora das relações interpessoais por meio da integração entre os próprios calouros e entre os calouros e seus veteranos e do fornecimento de um suporte básico em nível acadêmico e social, o que potencializa as chances de um maior crescimento intelectual e pessoal destes acadêmicos.

Foi possível observar, com este estudo, que os sentimentos dos novos estudantes acerca da vida universitária são os mais variados, existindo aqueles que relataram ansiedade, medo, insegurança e apreensão, enquanto outros se disseram tranquilos, satisfeitos, confiantes e curiosos. Entretanto, independentemente do estado emocional em que se encontravam, foi unânime a percepção positiva da acolhida sobre a integração, socialização e auxílio no início da vida acadêmica atendendo ao propósito da recepção acolhedora e desta pesquisa.

 

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