RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 22. 3

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História da Medicina

Anorexia santa e anorexia contemporânea: o mesmo transtorno em épocas distintas?

Anorexia mirabilis and contemporary anorexia: the same disorder in different periods?

Vanessa Maria de Almeida; Ana Keila Sousa Neves

Acadêmica do curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Vanessa Maria de Almeida
Av. Fleming, n.º 1.000, apto. 202, bloco 06 Bairro: Ouro Preto
CEP: 31310-490 Belo Horizonte, MG - Brasil
E-mail: vanessapsi22@gmail.com

Recebido em: 07/01/2011
Aprovado em: 16/03/2011

Instituiçao: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

Este estudo visa a analisar até que ponto é possível relacionar algumas santas da Idade Média, tidas como as santas anoréxicas e reveladoras de práticas rigorosas de jejum, com as anoréxicas da contemporaneidade, considerando-as como possuidoras do mesmo transtorno. O recurso metodológico utilizado refere-se a um estudo teórico da biografia de três dessas santas consideradas anoréxicas, confrontando-as com estudos referentes à anorexia nervosa presente nas mulheres da contemporaneidade. Percebe-se que há pontos em comuns entre ambas, mas não é possível equipará-las, uma vez que os ideais que as mesmas almejam são bastante divergentes, além de ser distinto o contexto histórico-cultural na qual se inserem.

Palavras-chave: Anorexia Nervosa; Santos/história; Religiao e Medicina; Transtornos Alimentares; História da Medicina.

 

INTRODUÇÃO

O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) inclui a anorexia nervosa entre os principais transtornos da alimentação, já que se caracteriza por graves perturbações no comportamento alimentar.1 O DSM-IV identifica como critérios para o diagnóstico do transtorno:

recusa a manter o peso dentro ou acima do mínimo normal adequado à idade e à altura. Por exemplo, perda de peso levando à manutenção do peso corporal abaixo de 85% do esperado ou fracasso em ter o peso esperado durante o período de crescimento, levando a peso corporal abaixo de 85% do esperado;

medo intenso de ganho de peso ou de se tornar gordo, mesmo com peso inferior;

perturbação no modo de vivenciar o peso, tamanho ou forma corporais; excessiva influência do peso ou forma corporal na maneira de se autoavaliar; negação da gravidade do baixo peso;

no que diz respeito especificamente às mulheres, a ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos, quando é esperado ocorrer o contrário (amenorreia primária ou secundária). Considera-se que uma mulher tem amenorreia se os seus períodos menstruais ocorrem somente após o uso de hormônios; por exemplo, estrógeno administrado.

A anorexia nervosa subdivide-se em dois tipos: o tipo restritivo, no qual não estao presentes episódios de comer compulsivamente e/ou purgação (seja por meio de vômitos autoinduzidos, seja pelo uso de laxantes ou diuréticos), e o tipo purgativo, no qual é verificada a existência de tais eventos.1

De forma geral, os transtornos alimentares afetam predominantemente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino.2 Entre as causas do predomínio de casos nesse público indica-se o fato de a mídia direcionar especialmente às mulheres sugestoes de que um corpo magro e belo é sinônimo de felicidade, sucesso e realização. No entanto, esse corpo idealizado revela-se como um ideal incessantemente cobiçado, mas jamais alcançado.

O termo anorexia, que significa falta de apetite, não é o mais adequado para denominar o transtorno. Essa condição não é verificada no princípio do desenvolvimento da doença, sendo que as anoréxicas fazem conscientemente grande esforço para restringirem sua alimentação ao máximo. Desta forma, o termo alemão pubertaetsmagersucht, isso é, "busca da magreza por adolescentes", seria bem mais coerente como as características da anorexia.2

A anorexia é tida como um transtorno contemporâneo, mas é algumas vezes definida como tendo início muito antes, na Idade Média, com as santas anoréxicas. Tais santas correspondiam a mulheres com vida religiosa muito intensa, que passaram a realizar a prática do jejum como uma das maneiras de se aproximarem de Deus, por meio de purificação e renúncia de si mesmas.

O presente estudo visa, por meio de uma revisão teórica acerca da vida de três santas anoréxicas, explorar melhor a relação entre as anoréxicas contemporâneas com as de outrora, consideradas santas, de forma a se averiguar até que ponto é possível se relacionar tais mulheres, considerando-as possuidoras do mesmo transtorno alimentar.

As santas anoréxicas

A partir do século XII ocorreu uma profusão de casos de mulheres que mantinham uma relação particular com os alimentos. Eram mulheres que se utilizavam do jejum autoimposto como um dos meios de se assemelharem na terra ao Cristo Crucificado. Com essas práticas, sentiam-se mais puras e mais aptas a se aproximarem de Deus. Algumas delas foram canonizadas pela Igreja Católica, entre elas Santa Catarina de Siena, Santa Maria Madalena de Pazzi e Santa Rosa de Lima, as duas primeiras italianas e a última da América Latina.

Além dos jejuns mais intensos, a vida dessas mulheres foi marcada por práticas características, tais como duras penitências, restrições das horas de sono, intensos trabalhos, muito tempo dedicado à oração e auxílio aos pobres e aos doentes. Além disso, possuíam uma personalidade cujos atributos foram destacados como aspectos presentes nos casos de anorexia da contemporaneidade, como, por exemplo, o perfeccionismo, a autossuficiência, a rigidez no comportamento e a insatisfação consigo.2

As santas anteriormente citadas foram eleitas para fazerem parte desse trabalho, por manterem estreita relação entre si. Santa Rosa de Lima e Santa Maria Madalena de Pazzi tiveram acesso aos escritos de Santa Catarina de Siena e foram fortemente influenciadas por ela, imitando-a nos jejuns e penitências. Rosa inclusive cortou os cabelos como Catarina, como forma de libertar-se de sua beleza e livrar-se de possíveis pretendentes indicados pela família.3 Traçando-se um paralelo, alguns autores, entre eles Bruch4, referem que as jovens anoréxicas de hoje desenvolvem o transtorno após terem tido algum tipo de contato com esse distúrbio e teriam alguém como modelo, aquela que teria sido a precursora do movimento anoréxico. Essa lógica, se verdadeira, favorece a compreensão da quantidade de mulheres na Idade Média que usaram de jejuns intensos como um dos meios de se unirem a Deus.4

A originalidade da espiritualidade feminina do período medieval encontra-se no fato de expressar-se pela linguagem do corpo, já que, "ao contrário dos homens, as mulheres daquele tempo não controlavam nem o poder nem a riqueza" (p. 153). Dessa forma, para elas, o único aspecto da vida que era passível de um domínio absoluto era a alimentação. E foi esse setor que tais mulheres elegeram como elemento de renúncia, a fim de que a uniao mística com o Cristo Sofredor acontecesse de forma mais perfeita.5

Santa Maria Madalena de Pazzi

Caterina, nome de batismo da santa, nasceu em Florença, Itália, em 2 de abril de 1566. Era filha única de mae muito autoritária. Foi necessário que a jovem travasse longas brigas com a mae para que esta lhe permitisse que se tornasse religiosa. Aos 16 anos entrou para o Convento de Santa Maria dos Anjos, ordem na qual as regras eram muito duras, característica que atraiu Santa Maria Madalena, que sempre fora exímia cumpridora de regras e preceitos.

Aos 17 anos recebeu os votos religiosos, trocando seu nome de batismo pelo nome pelo qual é hoje reconhecida. Apesar do nome religioso não agradar à família, já que era o nome da prostituta convertida ao Cristianismo citada pelos evangelistas, sua escolha foi proposital. Nos escritos de Santa Catarina de Siena, Maria Madalena figura como grande exemplo e se distingue como aquela que foi capaz de jejuar por 33 anos após a morte de Cristo. Desta forma, Santa Maria Madalena, que tem acesso aos escritos de Santa Catarina de Siena, também elegeu Maria Madalena dos Evangelhos como exemplo a ser seguido.

Aos 19 anos, com o forte desejo de se assemelhar a Cristo por meio dos sofrimentos autoimpostos, começou a restringir duramente sua dieta alimentar a pao e água. Somente aos domingos se permitia comer restos de alimentos deixados pelas outras irmas. Ao ser forçada a se alimentar pelas suas superioras de forma adequada, passou a induzir vômitos. Em algumas situações foi pega comendo grandes quantidades de alimentos. Fazia duras penitências para livrar-se das tentações demoníacas. Em seus relatos consta que quando passava pela dispensa, as gavetas e prateleiras eram misteriosamente abertas e todos os alimentos eram expostos, tornando sempre mais difícil para Maria Madalena seguir sua dura dieta de pao e água.3

Esse comportamento de deparar com os alimentos e admirá-los, não se permitindo ter acesso aos mesmos, é muito comum nas anoréxicas da contemporaneidade que, "'tentadas' por um grande desejo, [...] permanecem durante longo tempo paradas em frente a vitrines de confeitarias, 'seduzidas' pelas guloseimas. Outras mantêm no quarto, escondidas, caixas de alimentos ou apenas suas embalagens, para que possam admirá-las por um tempo indeterminado".6157

Santa Rosa de Lima

Santa Rosa de Lima nasceu a 20 de abril de 1586 em Lima, Peru, sendo batizada com o nome de Isabel Flores de Oliva. No entanto, desde criança, era conhecida por Rosa, devido à sua grande beleza. Pela solenidade de sua confirmação batismal, recebeu oficialmente o nome de Rosa, que na verdade não lhe agradava, até o momento no qual o seu confessor conseguiu convencê-la do seu belo significado, dizendo-lhe: "Pois, filha, não é vossa alma como uma rosa em que se deleita Jesus Cristo?".

Desde muito nova, passava suas horas entre orações e trabalhos domésticos e manuais. Foi fortemente influenciada por Santa Catarina de Siena, tomando-a como modelo. Jejuava três vezes por semana, além de se submeter a severas penitências. Para não ser causa de tentação aos homens de sua época, cortou seus formosos cabelos. Conseguiu convencer os pais de não se casar, obtendo o consentimento de passar os seus dias servindo a Deus.

Em 1606 entrou para a Irmandade da Terceira Ordem de Penitência de São Domingos, o que a possibilitou redobrar suas duras penitências e momentos de oração. Permanecia vários dias alimentando-se somente de mel misturado a ervas amargas. Quando se permitia algum descanso, "repousava" em uma cama forrada por espinhos, pedras e pedaços de vidro. Em meio a todo esse martírio, sentia-se ternamente consolada por Jesus Cristo, que enchia sua alma de alegria e paz.

Sua vida de constantes e severas penitências era ainda uma forma de se aproximar do sofrimento de índios mineiros que viviam naquela regiao em condições degradantes de trabalho, revelando a sua constante preocupação com o sofrimento alheio. Essa seria uma forma de combinar um estilo de vida ascético a preocupações de ordem social, algo que proporcionaria ocultamento e aparente validação do comportamento anoréxico, já que a atenção de todos se direcionava para os frutos do trabalho prático realizado pela Santa, sendo considerados uma consequência direta do estilo de vida que a jovem levava.

Com cerca de 10 anos Santa Rosa de Lima iniciou-se na realização de jejuns. Nas quartas, sextas e sábado permitia-se comer somente uma quantidade ínfima de pao e água. Nos outros dias comia pequenas porções de batata e ervas amargas. Aos 15 anos realizou uma promessa de não mais se alimentar de carne, o que foi fielmente cumprido até a sua morte.

Santa Rosa apresentava sinais visíveis de hiperatividade: diminuição das horas de sono (dormia cerca de três horas por noite) e aumento da quantidade de trabalhos realizados, entre os quais se sobressaíam o auxílio aos doentes e pobres, os trabalhos domésticos e orações.

Durante sua vida preparou a fundação do Monastério Dominicano de Santa Catarina de Siena, obra concretizada logo após a sua morte.

Behar7 afirma que Santa Rosa de Lima partilha com a anoréxica atual uma vida de expressão simbólica a partir da forma como o alimento é utilizado. Tanto a santa quanto a anoréxica contemporânea decidem voluntariamente não comer ou comer minimamente com objetivos claramente definidos - a primeira como forma de alcançar a santidade e a segunda como estratégia para chegar ao ideal de beleza proposto pela sociedade. Compartilham, ainda, o cuidado que dirigem aos outros e a recusa a receber os cuidados alheios, a renúncia às práticas sexuais e, por fim, uma drástica minimização das necessidades corporais, submetendo-se à dor, ao cansaço e à fome.7

Santa Catarina de Siena

Santa Catarina, filha de artesãos de Siena, nasceu naquela cidade pertencente à regiao de Toscana, Itália, em 1347. Sua mae era uma mulher rígida e seu pai um homem compreensivo, trabalhador e bondoso. O casal teve 25 filhos, dos quais apenas 12 sobreviveram. Catarina tinha uma irma gêmea que morreu pouco tempo após o nascimento. Por ter nascido prematura de mae que já contava os seus 40 anos, Catarina usufruiu de privilégios que os outros irmãos não tiveram, como ter sido amamentada no seio por cerca de um ano. Era muito inteligente, amada e admirada por todos.

Aos seis anos de idade Catarina teve uma visão mística na qual viu Jesus sentado em um trono sobre o telhado da igreja dos dominicanos, tendo ao seu lado os apóstolos Pedro, Paulo e Joao. Após essa visão, conta-se que Catarina mudou continuamente o seu comportamento. Perdeu um pouco da graciosidade que a destacava dos demais e tornou-se mais autoritária, mostrando firmeza sobre aqueles com quem convivia.

Com apenas sete anos consagrou-se à Virgem Maria, prometendo ser sempre virgem e nunca mais se alimentar de carne, dando os pedaços aos seus irmãos ou aos animais, comportamento que, segundo Bidaud8, é comum nas anoréxicas atuais.

Após a morte da irma de Catarina, sua mae resolveu dá-la em casamento ao viúvo da irma, seu cunhado. A futura santa, que naquele período estava com apenas 12 anos, desesperou-se diante de tal possibilidade e decidiu cortar os cabelos como tentativa de escapar do matrimônio. Para castigá-la, a mae lhe encarregou de todos os trabalhos domésticos, além de tirar-lhe o benefício de ter um quarto só para si. Mesmo dividindo o quarto com um irmão, Catarina utilizava desse ambiente para dedicar-se a longas horas de oração. Ao se dar conta da santidade da filha após vê-la rezando em êxtase e tomar conhecimento do seu voto de virgindade feito anos antes, o pai permitiu que Catarina pudesse viver conforme o seu desejo.

Aos 16 anos uniu-se às Mantelatas, mulheres viúvas que viviam em casa sob duras regras e se dedicavam ao trabalho, à oração e ao auxílio aos mais necessitados. Catarina passava longas horas de oração em seu quarto e se alimentava somente de um pouco de pao e ervas cruas. Quando era forçada a se alimentar adequadamente, recorria ao vômito. Flagelava seu corpo, usava o cilício e dormia apenas uma hora a cada dois dias.

Preocupado com sua saúde, o confessor de Catarina lhe ordenou que passasse a se alimentar ao menos uma vez por dia, o que foi enfaticamente recusado pela jovem, que usou como justificativa o fato de considerar que o alimento, e não a falta deste, tornava-a enferma.

Após cerca de três anos de reclusão, Catarina se inseriu novamente na vida social. Assumiu com ardor o carisma das Mantelatas, cuidando dos pobres e enfermos e dando esmolas generosas. Passou ainda a atuar no âmbito político-religioso, contribuindo para a reforma da Igreja e o retorno da sede papal a Roma. Escreveu aos reis, comandantes militares e até mesmo ao Papa, na tentativa de convencê-los a realizar uma Cruzada, a qual considerava o único meio de reaver a paz à Europa. Dava ordens ao Papa e falava sempre no imperativo em nome da Verdade da qual era depositária, como porta-voz do próprio Cristo.

Seu primeiro grande jejum durou dois meses e meio, desde a Quaresma até a festa da Ascensão do Senhor. Não tomou quaisquer alimentos ou bebidas nesse período e, surpreendentemente, em vez de se abater, continuou muito ativa, alegre e alerta diante dos acontecimentos diários. Hoje se sabe que a hiperatividade psíquica e muscular é esperada no início da anorexia nervosa, no qual a privação de alimentos permite o aumento de movimentos e atividades. Todavia, não se pode ignorar o caráter divino da condição vivenciada por Catarina, já que não se espera que algum ser humano em condições naturais passe tanto tempo sem ingerir qualquer alimento ou líquido.

Aos 26 anos, em uma de suas cartas a um religioso de Florença, Catarina reconheceu que deveria comer mais, desde que essa fosse a vontade de Deus. Por isso, confessou que se obrigava a ingerir algum alimento uma ou duas vezes por dia. Santa Catarina de Siena tentava convencer as autoridades religiosas acerca do quanto considerava desnecessário se alimentar como os demais, da mesma forma que as anoréxicas atuais procuram convencer a equipe médica de que o não comer é mais importante para sua sobrevivência do que o comer. Tanto Catarina quanto a anoréxica do nosso século causam "em uns admiração, em outros receio, desconfiança e até ódio e em todos a expressa vontade de dobrá-las"9178.

Em escritos, seu confessor afirmou que Catarina sofria demasiadamente quando deveria comer e em algumas circunstâncias autoinduzia o vômito com uma palha fina ou outro objeto que seria possível inserir na garganta.

Aos 33 anos, já se encontrava com a saúde extremamente debilitada, não aceitando mais alimento algum, sequer uma gota de água. Passou seus últimos dias deitada sobre tábuas rodeadas por outras. Faleceu em 29 de junho de 1380. Foi canonizada pelo Papa Pio II em 1461 e em 1970 foi declarada doutora da Igreja.

Caso as características de Catarina de hiperatividade, mortificação do corpo e especialmente jejum prolongado estivessem presentes em alguma jovem de nosso tempo, não haveria dúvidas da equipe médica de que se trataria de um caso de anorexia nervosa.

 

DISCUSSÃO

Sem dúvida alguma, as santas anoréxicas possuíam características que estao claramente presentes nos casos de anorexia atuais. Alguns autores, entre eles Weinberg, Cordás e Munoz10 não relutam em afirmar que realmente as santas da Idade Média apresentavam um perfil totalmente aplicável àquelas que possuem o transtorno no século atual, já que para eles "a forma, o imutável, a essência da doença (o patogenético) não respeitaria os séculos, a personalidade ou a cultura, colocados no papel de acessório"10:55.

Todavia, para outros autores deve-se ter muita precaução ao afirmar, por exemplo, que Santa Maria Madalena de Pazzi tenha sido anoréxica do tipo purgativo ou que as anoréxicas contemporâneas sejam santas. Dalgalarrondo11 discute sobre a necessidade de se ser criterioso ao usar conceitos psiquiátricos como se fossem imutáveis, aplicando-os a todas as épocas e culturas. Silverman et al. citado por Abuchaim12 também colocam em xeque a analogia que se faz entre as santas anoréxicas e as anoréxicas atuais, ao questionar o valor médico-científico dos relatos religiosos sobre as santas, além do fato de que o medo mórbido de engordar, fundamental para o diagnóstico do transtorno, não está presente nas santas da Idade Média. Ainda, seria cair em um extremo reducionismo afirmar simplesmente que Santa Rosa de Lima, Santa Catarina de Siena e Santa Maria Madalena de Pazzi sejam anoréxicas e nada mais. Ao fazer isso, está-se ignorando seu fervor místico e todas as outras virtudes que foram capazes de cultivar, virtudes estas que fizeram com que a Igreja Católica reconhecesse a importância que tiveram em sua época e em toda a história da Igreja, permitindo que fossem, assim, canonizadas. Deve-se destacar que a Igreja pregava o jejum voluntário como prática religiosa, mas sempre se preocupou com exageradas abstinências alimentares praticadas nos mosteiros quanto entre leigos.6 Prova disso são as constantes intervenções do confessor de Santa Catarina de Siena, que tentou aconselhá-la a não aplicar sobre si práticas tao severas em relação à alimentação.

Não se pode deixar de destacar uma diferença fundamental entre as santas anoréxicas e aquelas que na contemporaneidade possuem o transtorno. Atualmente, a mídia ratifica o ideal de se atingir um corpo magro, belo e perfeito.13 Desta forma, as jovens buscam, por todos os meios, atingir um ideal que nunca alguém alcançou, dado que o "corpo perfeito" é inexistente. As anoréxicas, acompanhadas das bulímicas, dos distímicos e depressivos, seriam aquelas que fracassaram em atingir o ideal de corpo "bronzeado, malhado, 'sarado', lipoaspirado e siliconado" 14:156. Sabe-se que quanto mais as anoréxicas aplicam sobre si dietas extremamente restritas, mais se afastam do ideal de beleza proposto pela sociedade. Atualmente, o ideal é estreitamente ligado ao exterior, sendo que a imagem e a estética é o que importa e a magreza passa a ser considerada um valor.15 Cada um é reconhecido pelo que aparenta ser exteriormente, os sujeitos são verdadeiramente corporificados. A pessoa como um todo se reduz àquilo que está diante dos olhos dos demais, ou seja, sem o olhar do outro, sem ser percebido, deixa de existir.14

Em contrapartida, as santas da Idade Média utilizavam-se do jejum como meio de alcançar um outro ideal, a saber: a purificação do espírito, o encontro com Deus e a salvação de outras almas, por meio de um contínuo assemelhar-se ao Cristo sofredor. Essas são características da chamada prática ascética crista, na qual uma ascese corporal é vista como meio para se alcançar uma ascese da alma. Sendo assim, a prática de uma ascese exclusivamente corporal, que corresponde às bioascese contemporânea, é muito divergente em relação ao pensamento antigo.14

De forma geral, a magreza que antes era tida como meio de se conquistar o paraíso é hoje a possibilidade de se chegar ao sucesso pessoal15, alcançando a glória efêmera das passarelas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebe-se, portanto, por meio das relações feitas entre as anoréxicas santas e as contemporâneas, que há nas santas anoréxicas muitos sintomas também presentes nas anoréxicas de nossos tempos, não podendo negar que existe relação de continuidade entre a anorexia santa e a anorexia nervosa. No entanto, não é possível equipará-las, considerando-se que em ambos os casos trata-se de um mesmo transtorno, uma vez que é essencial que sejam consideradas as motivações próprias dessas mulheres imersas em culturas e épocas distintas. O contexto histórico-cultural de cada uma delas deve ser fortemente considerado ao se realizar tal comparação, já que o mesmo é fator que influencia de forma substancial na ocorrência da anorexia nervosa.

Há nas anoréxicas santas e nas contemporâneas a utilização do corpo e a recusa do alimento, fatores que correspondem a passaportes para se atingir certos ideais. Porém, o processo de busca de tais ideais nos dois casos ocorre de maneira muito singular e até mesmo antagônica, uma vez que na Idade Média se almejava a autorrenúncia e a pureza de corpo e alma, a fim de que com isso fosse viabilizada uma aproximação da vivência de Cristo e consequente alcance do bem comum. Já na contemporaneidade, o objetivo visado pelas mulheres se dá em um âmbito individualista. O intuito é possuir um corpo belo, acarretando menos interesse pelo mundo e a exaltação do corpo, sendo essa uma diferença essencial entre tais mulheres, o que inviabiliza a equiparação entre ambas.

 

REFERENCIAS

1. American Psychiatric Association (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 4th ed. Washington (DC): American Psychiatric Association; 1994. DSM-IV

2. Cordas TA. Transtornos alimentares: classificação e diagnóstico. Rev Psiq Clin. 2004;31(4):154-7. [Citado em 2010 jun. 10]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rpc/v31n4/22398.pdf.

3. Weinberg C, Cordás TA. Do altar às passarelas. Da anorexia santa à anorexia nervosa. São Paulo: Annablume; 2006.

4. Bruch H. Anorexia nervosa. In: Reiser M, editor. American handbook of psychiatry New York: Basic Books; 1985.

5. Vauchez A. A espiritualidade na Idade Média Ocidental: (séculos VIII a XIII). Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1995. p.149-59.

6. Cordas TA, Weinberg C.Santas anoréxicas na história do Ocidente: o caso de Santa Maria Madalena de Pazzi. Rev Bras Psiquiatr 2002;24(3):157-8.

7. Behar R. Santa Rosa de Lima: un análisis psicosocial de la anorexia nerviosa. Rev Psiquiatr Chil. 1991;8:707-11.

8. Bidaud E. Anorexia mental, ascese, mística: uma abordagem psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud; 1998.

9. Raimbault G, Eliacheff C. Las indomables figuras de la anorexia. Buenos Aires: Nueva Visión; 1991.

10. Weinberg C, Cordás TA, Munoz PA. Santa Rosa de Lima: uma santa anoréxica na América Latina? Rev Psiquiatr RS. 2005;27(1):51-6.

11. Dalgalarrondo P. Civilização e loucura: uma introdução à História da etnopsiquiatria. São Paulo: Lemos; 1997.

12. Abuchaim ALG. Aspectos históricos da anorexia nervosa e da bulimia nervosa. In: Nunes MAA, Appolinário JC. Abuchaim ALG, Coutinho W. Transtornos alimentares e obesidade. Porto Alegre: Artmed; 2002.

13. Soares MVR. Santidade, Jejum e Anorexia na História. Rev Eletr Hist Reflexão 2008;2(3):1-11. [Citado em 2010 jun. 10]; Disponível em: http://www.periodicos.ufgd.edu.br/index.php/historiaemreflexão/article/view/272/234.

14. Ortega F. Da ascese a bio-ascese: ou do corpo submetido à submissão ao corpo. In: Rago M, Orlandi LBL, Veiga-Neto A, organizadores. Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A; 2002. p. 139-73.

15. Conde ER. "Linda de Morrer": a anorexia como fenômeno sócio-cultural [dissertação]. Belo Horizonte (MG). Universidade Federal de Minas Gerais; 2007.