RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 22. 3

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Relato de Caso

Teratoma ovariano parasitário do omento

Parasitic ovarian teratoma of the omentum

Eduardo Cunha da Fonseca1; Cassiano de Souza Moreira2; Adriana Coelho da Silveira2; Roberto de Lima Fernandes2

1. Professor auxiliar da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG). Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Ginecologista-Obstetra Hospital Mater Dei. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Cassiano de Souza Moreira
Rua dos Aimorés 2139, apto. 1001 Bairro: Lourdes
Belo Horizonte, MG - Brasil CEP: 30140-072
E-mail: cassianomoreiraa@yahoo.com.br

Recebido em: 08/03/2010
Aprovado em: 05/09/2012

Instituiçao: Hospital Universitário Sao José (FCMMG). Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

Relata-se um caso de teratoma parasitário do omento que se originou de um tumor dermoide do ovário esquerdo. Revisão da literatura revelou 23 casos que ocorreram, na maior parte, no sexo feminino. Em alguns casos, o teratoma maduro do omento demonstrou evidência histológica de estroma ovariano, sendo associado a tumor dermoide do ovário remanescente contralateral, como neste caso. Acredita-se, entao, que a autoamputação e reimplante de um tumor dermoide do ovário seja a etiologia mais comum do teratoma omental. Dor abdominal é geralmente o principal sintoma e no exame físico uma massa móvel abdominal ou pélvica é frequentemente encontrada. Tanto a ultrassonografia com doppler de fluxo em cores como a tomografia computadorizada são úteis no diagnóstico, porém a localização omental correta e exata é extremamente difícil. Teratomas maduros do omento podem ser tratados por ressecção simples. Já os teratomas imaturos, tumores potencialmente malignos, requerem tratamento adjuvante.

Palavras-chave: Teratoma; Cisto Dermoide; Omento; Neoplasia Ovarianas.

 

INTRODUÇÃO

O teratoma maduro, também conhecido como teratoma cístico benigno ou cisto dermoide, é um dos tumores de ovário mais comuns. Porém, o teratoma de omento é extremamente raro.

O primeiro caso de cisto dermoide de omento foi descrito por Lebert, em 1734. Há menos de 25 casos descritos na literatura.

Este relato descreve um caso de teratoma benigno parasitário do omento associado a cisto dermoide do ovário direito. A ausência do anexo esquerdo sugere que o tumor sofreu autoamputação e reimplante no grande omento.

 

RELATO DE CASO

Paciente, feminino, 67 anos, negra, hipertensa, tabagista, diagnosticada com massa abdominal assintomática em consulta ginecológica para realização de citologia oncótica de rotina há um ano. Nega sangramento vaginal, dor abdominal atual ou pregressa ou alterações do hábito intestinal. Relata ainda inapetência e perda ponderal de 5 kg no último ano. Não sabe informar menarca, sexarca, menopausa ou regularidade dos ciclos menstruais. Nunca fez uso de anticoncepcional hormonal oral. G1P1A0 (parto normal).

O exame físico revelou massa pélvica móvel, endurecida, pouco dolorosa, com cerca de 20 cm, ocupando todo o hipogástrio e chegando à regiao umbilical.

O ultrassom endovaginal revela útero ântero-versofletido (AVF) com 19 cm3 de volume, contornos regulares, endométrio hiperecogênico com 3,8 mm de espessura, anexos não visibilizados, com massa heterogênea no hipogástrio, próximo do fundo uterino, com duas porções medindo 9,5 x 7,2 e 8,2 x 5,2 cm3. Ausência de líquido livre na cavidade, o antígeno carcinoembrionário125 estava em 4,7 UI/mL.

A laparotomia exploradora, após preparo colônico, ressaltou útero normal, tumor ovariano direito de aproximadamente 10 cm, ausência de anexo esquerdo e tumor volumoso, endurecido, brancacento, medindo cerca de 20,0 x 10 cm, fortemente aderido ao omento e jejuno. Foi realizada histerectomia total, anexectomia direita, exérese da massa omental em bloco com jejuno e enterorrafia (Figuras 1, 2, 3). Recebeu alta hospitalar no sexto dia pós-operatório em boas condições clínicas.

 


Figura 1 - Teratoma ovariano parasitário do omento. Fonte: Arquivo pessoal do autor.

 

O estudo anatomopatológico demonstrou tumor dermoide em ovário direito 8,0 x 8,0 cm e em massa omental 20,0 x 11,0 x 5,0 cm.

 

DISCUSSÃO

A real incidência de teratomas omentais, considerados raríssimos, é desconhecida.1 Em revisão da literatura inglesa, até o momento, foram encontrados 22 casos de teratoma do grande omento1-3,10-19 e três do pequeno omento.17,20

Os teratomas omentais são mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva, podendo ocorrer também em faixas etárias mais jovens e avançadas.1 A etiologia é malcompreendida. São propostas três teorias para a sua causalidade:

teratoma primário do omento proveniente de células germinativas deslocadas;

ovário supranumerário instalado no omento;

autoamputação ovariana com reimplantação parasitária no omento (mais aceita).

Esta última teoria foi proposta em 1881 por J.K. Thornton3. Acredita-se que o tumor dermoide (5-25% de todas as neoplasias de ovário) apresente torção do pedículo (complicação mais frequente, ocorrendo em 16,1% dos casos)4 e sofra completa separação a partir de seu pedículo, tornando-se teratoma parasitário.4,5 Como o grande omento possui papel único de defesa intra-abdominal no processo inflamatório, formando aderências, torna-se o principal local para a implantação secundária do tumor.

Também pode ocorrer sem que haja torção anexial, a partir da formação de aderências com neovascularização entre o tumor e o omento.6,7 Além disso o útero miomatoso volumoso pode "expulsar" o tumor da regiao pélvica, sendo outro possível mecanismo.8

O exame anatomopatológico dos tumores omentais geralmente revela padrao típico de cisto dermoide benigno, sendo relatados apenas dois casos de teratoma imaturo.9,10

A apresentação clínica é variável, sendo a dor em abdome inferior o sintoma mais comum. A dor pode refletir a compressão de órgaos adjacentes pelo tumor. Também pode acontecer distensão abdominal por ascite, no caso de teratoma imaturo.10 Em um terço dos casos são assintomáticos e encontrados durante cirurgias abdominais11, exames ginecológicos7,12-14, exames de imagem e em necropsias15.

No exame físico, a mobilidade é o traço mais característico desse tipo de tumor. Pode localizar-se na pelve, simulando uma massa anexial16, ou periumbilical ou epigástrico8.

Os exames complementares como a radiografia abdominal pode visibilizar o teratoma omental como uma massa radiopaca com calcificações.6,13,17-19 A ultrassonografia pélvica ou abdominal revela um tumor com características de teratoma e o estudo com doppler pode adicionar informações úteis sobre a sua localização.8 A tomografia computadorizada também pode ser de grande valor no diagnóstico e localização do tumor.8 Não há exame complementar padrao-ouro.

A exata localização do tumor quase nunca é realizada no pré-operatório. O diagnóstico diferencial inclui massa abdominal2,10,12 ou pélvica16, tumor de ovário1,9, cisto dermoide ovariano14, colelitíase assintomática13, carcinoma de estômago20, carcinoma metastático6, cisto hidático calcificado17, entre outros.

O tratamento de escolha é a laparotomia exploradora. O procedimento cirúrgico realizado para teratoma maduro do grande omento é a dissecção do tumor do omento12,13 ou ressecção em bloco com omentectomia parcial.6,7,21 Em alguns casos, a excisão do tumor é impossível devido às adesões intensas. A marsupialização nesses casos pode ser eficaz.20

A inesperada ausência unilateral de anexo na laparotomia deve alertar o cirurgiao para explorar a cavidade abdominal para possível autoamputação e reimplante de tumores de ovário.22

 

REFERENCIAS

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