RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 23. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20130038

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História da Medicina

Luiz Adelmo Lodi

Luiz Adelmo Lodi

Paulo Adelmo Lodi

Professor Adjunto aposentado do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal - UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Paulo Adelmo Lodi
E-mail: cirurgia@medicina.ufmg.br

Recebido em: 15/01/2011
Aprovado em: 20/05/2012

Instituição: Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte, MG - Brasil.

 

Luiz Adelmo era filho de Luiz Lodi e Anunciata Mora Lodi, italianos que vieram para o Brasil com seus pais, em meados do século XIX, respectivamente, para a cidade de Ouro Preto e Barbacena. Luiz Lodi (meu avô) nasceu na cidade de Crevalcore - Província Emília Romana; Anunciata Mora Lodi (minha avó) nasceu na cidade de Guastala - também na Província Emília Romana. Eles se conheceram em Barbacena-MG, onde se casaram em 1890.

Luiz Adelmo Lodi nasceu na antiga Vila Rica em 23 de março de 1894. A família mudou-se para Belo Horizonte em 1897, época da fundação da nova capital. O curso primário foi feito na escola particular D. Helena Penna. Na época não havia escola primária oficial. O curso de Humanidades foi cursado no Ginásio Mineiro, nessa Capital.

Em março de 1912 matriculou-se na 1ª série dessa Faculdade, sendo, pouco tempo depois, nomeado amanuense (antiga denominação de escriturário) pelo entao diretor, Professor Cícero Ferreira, que o aproximou do Professor Borges da Costa, sendo por este nomeado monitor de Anatomia Descritiva. Poucos anos depois foi monitor de Anatomia Médico Cirúrgica, cadeira chefiada pelo Professor Octaviano de Almeida. Octaviano era um notável cirurgiao, dotado de excelente cultura geral e grande cultura médica e um coração magnânimo. Um episódio pitoresco ocorria por ocasiao dos exames prático-orais de sua cadeira. Quando percebia que um aluno estava em dificuldade no exame final, dirigia-se a meu pai, que era monitor, e dizia "- Lodi, fulano de tal está necessitando de sua colaboração". Não gostava de reprovar.

No 6º ano foi interno de Clínica Cirúrgica, de novo sob a orientação do Professor Borges da Costa.

 


Figura 1 - Luiz Adelmo Lodi em sua formatura.

 

Em 1918, em plena 1ª Guerra Mundial, submarinos alemaes afundaram navios brasileiros na nossa Costa Atlântica. O Brasil, entao, declarou guerra à Alemanha. Na época, esteve no Brasil o médico francês Professor George Dumas para estudar a possibilidade de o nosso país ajudar no esforço de guerra em favor dos aliados, França e Inglaterra. O Professor Dumas, admirador da Medicina brasileira, sugeriu que se enviassem médicos brasileiros à França. Foi entao constituída a Missão Médica Brasileira, com 90 médicos e 10 doutorandos, do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, sob a chefia do Professor Nabuco de Gouveia, do Rio. Luiz Adelmo Lodi, doutorando, apresentou-se voluntariamente para integrar o grupo mineiro chefiado pelo Professor Borges da Costa. Fizeram parte da Missão Médica Mineira o Professor Renato Machado, catedrático de Clínica Otorrinolaringológica, e os médicos Manoel Taurino do Carmo, Salomão de Vasconcelos, Tavares de Lacerda e Castro Silva.

 


Figura 2 - Cardápio do banquete oferecido aos membros da Missão Médica com cumprimentos de alguns médicos.

 

A viagem para a Europa foi tormentosa e difícil, não só pela ameaça constante de naufrágio pelos submarinos inimigos, mas - e principalmente - pela gripe espanhola que grassou a bordo, atingindo vários membros da Missão, de forma mais ou menos grave, pois alguns foram ceifados pela doença. Borges da Costa, também, atingido pela terrível gripe, teve seu estado de saúde durante vários dias inspirando sérios cuidados. Não lhe faltou, entretanto, o conforto moral da assistência permanente de meu pai, que se transferiu para o seu camarote, pondo em risco sua vida. E vigilante a seu lado, devotou-se com a dedicação de um enfermeiro e com o carinho de um filho. O estado de saúde do mestre era tao grave, que foi necessário o seu desembarque em Oran, na Argélia, para que pudesse ser tratado em melhores condições. Meu pai desligou-se, temporariamente, da Missão para ficar junto do amigo. Restabelecido o mestre, depois de 40 dias de doença, puderam eles, em outro navio, reintegrar-se à Missão Médica, na França, onde prestaram relevantes serviços no tratamento aos feridos de guerra e àqueles afetados pela gripe espanhola. A convivência amiga entre ambos foi longa, até a morte de Borges da Costa, em setembro de 1950.

 


Figura 3 - Placa atualmente no Centro de Memória da Faculdade de Medicina como homenagem aos membros da Missão Médica Brasileira, na 1ª. Grande Guerra Mundial.

 

 


Figura 4 - "Hôpital Brésilien", em Paris, onde os médicos brasileiros trabalharam em 1918, por ocasião da 1ª. Grande Guerra Mundial.

 

Desde que me lembro de mim mesmo, guardo a firme recordação de Borges da Costa. Além dos familiares mais próximos, foi das primeiras pessoas que conheci e travei contato na minha amadurecida existência. Na primeira infância, era para mim um passeio muito agradável a ida aos domingos, pela manha, ao antigo Instituto de Radium, em companhia de meu pai, que nesse dia visitava rapidamente os seus doentes, enquanto eu ficava esperando no carro. Terminada a visita, vinha, geralmente, acompanhado daquele, para mim, velhinho de cabeça branca, que sempre tinha uma palavra de afeto e agrado para as crianças. O prazer em agradar as crianças era um traço característico da personalidade do nosso querido amigo. Era a bondade que se aninhava em seu coração. O seu espírito estava sempre voltado para fazer o bem.

Em 1920, meu pai prestou concurso para professor substituto da seção que era composta das cadeiras de Anatomia Descritiva e Anatomia Médico Cirúrgica, Operações e Aparelhos, com as teses "Estudo sobre o número e a disposição das papilas caliciformes nos indivíduos das raças preta e amarella" e "Sobre a técnica da sutura circular nas artérias", respectivamente.

Durante 15 anos foi professor, alternadamente, de Anatomias e Patologia Cirúrgica. Em 1936 passou a lecionar a cadeira de Clínica Propedêutica Cirúrgica, transferindo-se em 1946 para a II Clínica Cirúrgica.

Em 1947 foi eleito vice-diretor da Faculdade, tendo substituído interinamente, em várias ocasioes, o diretor, Professor Alfredo Balena. Nessa época circulava na Faculdade um jornal, sob a responsabilidade dos estudantes, o PH7. Esse mensário publicou um artigo interessante onde destacava o melhor predicado de cada catedrático, que no seu somatório comporia o professor ideal. Assim, a assiduidade do Professor A, a pontualidade do Professor B, a oratória do Professor C, o entusiasmo do Professor D, a elegância de linguagem do Professor Lodi e, em seguida, um desfilar dos principais méritos dos diversos mestres. Esse reconhecimento público por parte dos alunos enterneceu profundamente o espírito do meu pai.

Em dezembro de 1949, poucos dias após a fede-ralização da Faculdade, faleceu o Professor Alfredo Balena. Luiz Adelmo Lodi, como vice-diretor, assumiu por direito e de fato a direção da Escola, trilhando entao uma estrada cheia de percalços e óbices, pois estava a exigir-se, inicialmente, adaptação da unidade aos rígidos preceitos do sistema federal de ensino superior. Jornada difícil, mas sentida por meu pai como elevada honraria. Mandato apreciado pelos seus pares, pois foi eleito diretor em dezembro de 1950 e reeleito em 1953 e 1956. Durante sua longa e fecunda gestao de uma década à frente desse instituto de ensino, quando algum professor tecia elogios ao seu trabalho, Luiz Adelmo, com sua modéstia franciscana, refutava com firmeza os encómios recebidos, dizendo que homenagens deveriam ser prestadas ao seu antecessor, o saudoso Professor Balena, que com sabedoria, ponderação e bondade soube conduzir a nau, muitas vezes em mar encapelado, a porto seguro, em longo período de escassos recursos financeiros.

Evoco com emoção e ternura, por ter presenciado, as manifestações de incontido júbilo de Borges da Costa e Samuel Libânio, mestres fundadores da Faculdade, ao declararem que se sentiam profundamente honrados por estar na direção da Faculdade um ex-discípulo e antigo colaborador. Os dois professores ressaltaram também que a elevada investidura deveria ser considerada uma justa e merecida distinção àquele que, com denodo, perseverança e entusiasmo, se desdobrara em meritório trabalho para a federali-zação da Faculdade. Realizações no mandato de 1949 a 1959: edificação do prédio central da Faculdade com instalação adequada das cadeiras básicas. Reforma do Hospital São Geraldo e Hospital Carlos Chagas para doenças infecciosas. Construção do primeiro bloco do Hospital das Clínicas e da Escola de Enfermagem. Convênio com o Hospital da Cruz Vermelha para instalação de algumas clínicas. Para a melhoria do ensino médico, convênio com a Fundação Rockfel-ler, Conselho Nacional de Pesquisas e CAPES.

Em 1959, no Conselho Universitário, foi eleito vice-reitor, tendo assumido a Reitoria em 1960, em virtude de o Reitor ter sido nomeado Ministro da Educação. Luiz Adelmo nutria grande amor ao próximo (respeito aos concidadaos, zelo com os familiares e dedicação aos doentes). De 1922 a 1945 foi cirurgiao do antigo Instituto de Radium (hoje Hospital Borges da Costa), primeiro hospital especializado em Câncer, no Brasil. Foi diretor do Sanatório Belo Horizonte, nosocômio especializado no tratamento de doenças pulmonares.

Atuou também na área empresarial, sendo diretor da Aliança de Minas Gerais - Companhia de Seguros e da Companhia Ferro Brasileiro.

Luiz Adelmo era um espírito forte para quem os obstáculos e dificuldades sempre constituíam estímulos ponderáveis e ponderados para novos embates e outras conquistas. Não era ambição que se nidava em seu ser, mas sim uma filosofia altamente salutar para encarar e enfrentar as vicissitudes da vida. Sua mente, constantemente em movimento, acionava sempre os mecanismos propulsores do otimismo. No seu espírito, sempre despontavam propósitos alcandorados que pudessem ser úteis à comunidade. A existência foi intensamente vivida, sempre com o lema do cristao - o otimismo palpitante.

A bandeira do bem-estar social era vigorosamente empunhada, sendo desfraldada sem excessos e dentro de um verdadeiro realismo. Viver a data presente e esquecer os sofrimentos e tristezas do passado. O futuro, que somente não existe para os imprevidentes, deveria ser devidamente planejado com uma senda firmemente galgada e de modo a palmilhar uma estrada onde os espinhos e os escolhos deveriam ser, quando presentes, exaustivamente removidos.

Uma personalidade tao forte revestia-se, entretanto, de grande sensibilidade. Recordo-me muito bem de um episódio que presenciei há décadas, que definia bem e mostrava em sua plenitude o espírito emotivo, sensível e afetuoso que era meu pai. Eu era iniciante do curso médico quando fui assistir a uma de suas aulas na época em que lecionava Clínica Propedêutica Cirúrgica, quando havia uma tradição que não existe mais, os estudantes agradeciam ao Professor o curso que lhes fora dado. Meu pai, ao agradecer a homenagem, afirmou que todo início de aula era para ele um momento de grande emoção. Isto mostra bem a sensibilidade de quem já era professor há 35 anos.

Os valores de espírito estavam muito presentes na personalidade de Luiz Adelmo Lodi. A música, a pintura, a escultura e a arquitetura exerciam fascínio especial sobre sua mente. A música erudita, principalmente a lírica, era ouvida com frequência no seu lar com inefável prazer, durante horas a fio, após atento e cuidadoso estudo do libreto.

No entender de Beethoven, "a música é a revelação superior a toda sabedoria e filosofia".

Na barroca Ouro Preto, sua terra natal, deleitava-se com as maravilhosas obras de escultura e arquitetura, principalmente das igrejas. Na monumental Paris, onde esteve algumas vezes, encantava-se com o estilo arquitetônico "Regence", tao presente na "Cidade Luz"; lamentava que em nosso país não houvesse, nas grandes cidades, uniformidade dos edifícios.

Sua intelectualidade transcendia a essas realidades artísticas, pois a boa leitura literária, biográfica, humanística e de assuntos gerais proporcionavam grande enlevo para sua alma. Os livros clássicos brasileiros e portugueses foram lidos na juventude. Atualizava-se com a leitura das revistas franceas "Uilustration" e "Paris-Match" e as americanas "Newsweek" e "Life". Esses periódicos assinados durante anos colimavam também o incentivo para que os filhos se adestrassem em idiomas estrangeiros. O hábito da leitura aliado a um grande poder de expressão formou um esteta da palavra escrita e falada. Versado em línguas estrangeiras, falava correntemente o italiano e o francês, lendo com facilidade o inglês, tendo estudado também a língua alema.

Sua religiosidade crista e consciência católica ficaram vivamente demonstradas quando aqui na Faculdade foi realizada pelo Arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral a entronização da imagem de Cristo, em novembro de 1952, durante o seu período de diretor.

Eram características da sua pessoa a sinceridade de suas convicções, sua discrição em todas as condutas, clareza de pensamento e determinação. Filho extremoso, marido exemplar e excelente pai. Ajudava os filhos nos estudos e na transmissão dos sagrados preceitos da moral crista.

Grande capacidade para o trabalho. Considerava o trabalho um dever do cidadao e um fator de realização pessoal. Um bem, uma capacidade que pode estar sempre presente, exceto quando vencido pela doença.

Espírito cívico e sentimento patriótico, já revelado nos albores da vida, quando se apresentou espontaneamente para integrar a Missão Médica Brasileira na 1ª. Grande Guerra Mundial.

Meu pai, com sua grandeza de alma, sabia no trato com os doentes tecer os fios do zelo, brandura e afeição.

Luiz Adelmo faleceu em janeiro de 1979. Foi-se um jequitibá, uma árvore frondosa com raízes firmes no solo, que não se vergou, mas caiu de vez. O jequitibá manteve-se ereto, altivo e sobranceiro até o fim, embora em seu cerne já há algum tempo a seiva que o nutria circulava com lentidao e escassa matéria vivificante. Com seu rígido tronco de árvore robusta, encimado por imensa copa, sempre procurou dar guarida, defesa e proteção às outras árvores que estavam em sua benfazeja sombra.

Na hora em que a Faculdade comemora um século de existência é muito justo e merecido que se renda um preito especial aos seus fundadores. Inspirados por nobres ideais, médicos dotados de elevada consciência cívica e alta qualificação científica, ética e cultural, guiados pelo espírito clarividente e pela mão benfazeja de Cícero Ferreira, lançaram em março de 1911 a boa semente que germinou, frondesceu e frutificou, produzindo belos frutos - a fundação da entao Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Essa plêiade de médicos eruditos e intimoratos enfrentou dificuldades de toda ordem para instalar o primeiro estabelecimento de ensino médico em Minas Gerais. Seus nomes estao esculpidos, em bronze, no saguao de entrada da Faculdade, como demonstração imarcescível de sua singular obra.

Aurélio Pires foi o notável arauto da criação desta Faculdade de Medicina. Esse lutador, farmacêutico, jornalista e humanista de belos predicados morais e intelectuais, por modéstia, não quis assinar a ata inaugural.

Com o passar dos anos, foram ingressando na entao jovem entidade de ensino outros professores, palmilhando a senda dos fundadores e imbuídos daqueles elevados desígnios. sua conduta foi sempre perseverante e altaneira, com elevado fervor e ilimitado devotamento a esta casa. A propósito, uma sentença do notável Carlos Chagas, quando indagado certa vez como se faz ciência: - "Primeiro com homens, depois com problemas, só a seguir com instalações e equipamentos". Nossa Faculdade, durante muitos anos com escassos meios materiais, mas rica em valores humanos, foi sempre prestigiada no cenário médico nacional. É pela grande maioria dos seus docentes o altar elevado da ética e moral médicas, o lídimo ostensório do aprendizado da bela ciência de Hipócrates e o templo venerável da assistência dedicada e carinhosa aos doentes.

É com grande desvanecimento e imenso regozijo que acompanhamos a edificação científica, cultural e física desta grandiosa obra que é hoje a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Um notável monumento da ciência médica.