RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 23. 2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20130022

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Artigos Originais

Oportunidades perdidas de atenção integral ao adolescente como parte da avaliação do atendimento prestado por um serviço de referência

Missed opportunities for comprehensive adolescent health care as part of the evaluation of the care provided by a reference service

Flávia Antunes Caldeira Silva e Calaça1; Joao Felício Rodrigues Neto2; Lucas Ferreira Bicalho3; Isabela Lima-Oliveira3

1. Professora do Depto. de Saúde da Mulher e da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes. Montes Claros, MG - Brasil
2. Professor do Depto. de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Unimontes. Montes Claros, MG - Brasil
3. Acadêmico da Faculdade de Medicina da Unimontes. Montes Claros, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Flávia Antunes Caldeira Silva e Calaça
E-mail: caldeira.flavia@gmail.com

Recebido em: 29/08/2012
Aprovado em: 13/03/2013

Instituiçao: Departamento de Saúde da Mulher e da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes. Montes Claros, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: a implantação de um serviço de saúde para adolescentes requer a garantia de acesso ao tratamento de doenças e reabilitação, bem como a ações de promoção à saúde e prevenção, isto é, a garantia da atenção integral e interdisciplinar.
OBJETIVOS: estimar as oportunidades perdidas de atenção integral ao adolescente durante as consultas realizadas em um serviço de referência e propor medidas que possam produzir mudanças voltadas para o atendimento integral.
MÉTODOS: aplicação do questionário "Avaliação sobre oportunidades perdidas de atenção integral ao adolescente", proposto e publicado pela Organização Pan-americana de Saúde (OPS), em 168 adolescentes usuários do serviço.
RESULTADOS: a amostra foi composta de 51,8% de adolescentes do sexo feminino e 48,2% do sexo masculino, com média de idade de 13,8 anos. Em se tratando de motivo de consulta, 34,5% dos adolescentes procuraram o serviço por doença, 25,5% para consulta de rotina e 40% por outros motivos. Em relação às anamneses médicas, menos da metade dos adolescentes entrevistados foi questionada sobre vida sexual e uso de substâncias tóxicas. Quanto ao exame físico, observou-se mais preocupação com dados antropométricos, sendo que somente 39,9% foram submetidos a exame físico completo. No tocante à promoção de saúde, temas relevantes como doenças sexualmente transmissíveis (DST), violência e tabagismo não foram abordados em, respectivamente, 88,7, 83,3 e 83,9% dos entrevistados.
CONCLUSÕES: durante os atendimentos foram priorizadas questoes referentes ao crescimento físico, em detrimento a outras questoes de extrema relevância na adolescência: sexualidade, DST, violências, tabagismo e uso de drogas.

Palavras-chave: Assistência Integral à Saúde; Adolescente; Saúde do Adolescente; Serviços de Saúde para Adolescentes; Estudos de avaliação.

 

INTRODUÇÃO

Primordialmente, a implantação de um serviço de saúde para adolescentes requer a garantia de acesso ao tratamento de doenças e reabilitação, bem como a ações de promoção à saúde e prevenção, isto é, a garantia da atenção integral e interdisciplinar. Na adolescência, esse tipo de atenção se faz necessária, haja vista todas as mudanças biopsicossociais por que passam os adolescentes e suas novas demandas, que vao além de questoes orgânicas e pontuais. Essas mudanças são vivenciadas de maneira diversa nos diferentes contextos e os fragilizam, tornando-os vulneráveis a muitas situações e agravos.1-5

Devido ao alto índice de evasão escolar, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, prostituição, uso de drogas e outras infrações entre a população adolescente do Norte de Minas Gerais6,7 numa perspectiva de implementação da prática docente e assistencial e de melhoria do atendimento prestado àquela população, em 2002 foi implantado o Projeto "Adolescentes para o Terceiro Milênio". A atenção foi organizada, na época, segundo áreas específicas: educação sexual, serviço de planejamento familiar, pré-natal e assistência ao parto e puerpério; orientações sobre aleitamento materno; atenção pediátrica para adolescentes e seus filhos; atividades de educação física e artística; atividades de atenção psicológica e atenção odontológica.

Ao longo do tempo, algumas modificações ocorreram no projeto, entre elas a mudança de chefia e do local de atendimento e a sua transformação em programa, o qual continua atravessando processo de reestruturação. Não obstante, a equipe atual do Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio" que presta assistência no Centro Ambulatorial de Especialidades Tancredo Neves (CAETAN) é composta apenas de profissionais médicos e estudantes de graduação, a maioria deles sem capacitação para atenção integral a essa faixa etária ou para atenção aos grupos mais vulneráveis, como os usuários de drogas, as vítimas de violência e aqueles em situação de rua ou abandono.

Nesse contexto, o presente estudo objetiva: a) estimar as oportunidades perdidas de atenção integral ao adolescente durante as consultas realizadas pelos médicos e estudantes que atuam no Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio"; b) propor medidas que possam produzir formas de atuação médica voltadas não só para o tratamento, mas também para a promoção de saúde e prevenção de agravos e doenças.

 

MÉTODOS

O estudo é do tipo descritivo e foi realizado a partir do questionário "Avaliação sobre Oportunidades Perdidas de Atenção Integral ao Adolescente", proposto e publicado pela Organização Pan-americana de Saúde (OPS), que tem como objetivo avaliar a qualidade da atenção dada pelo serviço de saúde aos adolescentes, mediante a identificação das ocasioes em que estes entram em contato com o serviço e não recebem as ações de promoção, proteção e recuperação que lhes cabem, como a abordagem de temas relevantes para sua saúde e a execução de anamnese e exame físico completos.8,9

A coleta dos dados foi feita entre julho e dezembro de 2011, por meio de entrevistas individuais realizadas por dois acadêmicos de Medicina familiarizados com o instrumento e preparados para esclarecer dúvidas quando necessário. Adotaram-se como critérios de elegibilidade dos pacientes: ter idade entre 10 e 19 anos, ser paciente usuário do serviço, estar presente em sala de espera na data e hora da aplicação do questionário e demonstrar concordância em participar da entrevista. Os participantes foram informados a respeito dos objetivos da pesquisa, reforçando-se o anonimato, a fim de se obter mais fidedignidade dos relatos. Todos os sujeitos (ou seus responsáveis) que participaram assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, atendendo aos preceitos da Resolução Nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

O presente trabalho é parte de um projeto de pesquisa e extensão sobre atenção integral ao adolescente, teve sua execução aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

 

RESULTADOS

A amostra foi composta de 168 adolescentes com média de idade de 13,8 anos. Dessa amostra, 81 entrevistados eram do sexo masculino (48,2%) e 87 do sexo feminino (51,8%).

Do total de consultas médicas realizadas, 63,7% se tratava de retorno, enquanto 36,3% dos adolescentes vieram pela primeira vez. Em relação ao motivo, 34,5% procuraram o serviço por doença e 25,5% para consulta de rotina. Destaca-se que a maioria dos adolescentes entrevistados (40%) relatou ter procurado o serviço por outros motivos, sendo o principal deles solicitar encaminhamento para as atividades pedagógicas, esportivas e recreativas oferecidas pelo Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio".

Em relação às anamneses médicas, a maioria dos adolescentes entrevistados afirmou ter sido questionada sobre sua situação escolar, hábitos alimentares, prática de esportes ou atividades físicas, enquanto apenas 16,0% afirmaram terem sido interrogados sobre sua situação financeira. Da mesma forma, 47,6% informaram terem sido interrogados sobre sua vida sexual, 49,4% sobre uso de substâncias tóxicas, como álcool e drogas (Tabela 1).

 

 

Quanto ao exame físico realizado, a análise dos questionários mostrou que 77,4% dos adolescentes foram pesados, 71,4% foram medidos e 67,8% tiveram sua pressão arterial aferida, enquanto apenas 39,9% referiram terem sido submetidos a exame físico completo (com estadiamento puberal) (Tabela 1).

No tocante à educação em saúde, dos pacientes entrevistados 79,2% negaram terem recebido informações sobre sexualidade e 88,7% sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Prevenção de acidentes também foi um tema pouco abordado, com 93,4% dos entrevistados afirmando não terem recebido qualquer orientação a respeito. Ainda em relação à promoção de saúde, 88,1% dos adolescentes negaram terem sido orientados sobre saúde bucal, 83,9% sobre tabagismo e 83,3% sobre violência na família, na escola ou sexual (Tabela 2).

 

 

DISCUSSÃO

No presente trabalho verificou-se que a maioria dos adolescentes procurou atendimento médico sem que houvesse um problema evidente de doença. No entanto, observou-se que o profissional privilegiou questoes relacionadas ao crescimento físico, como alimentação, em detrimento a outras questoes de extrema relevância na adolescência: sexualidade, prevenção de DSTs, acidentes, violências, tabagismo, uso de álcool e outras drogas.

O adolescente não é mais uma criança para ser atendido nos moldes da Medicina infantil, mas também o tratamento direcionado aos adultos pode não abranger todas as necessidades que o jovem apresenta. Assim, ele deve receber atenção diferenciada, o que requer um serviço que verdadeiramente atenda às demandas especiais dessa faixa etária. Se eles procuram atendimento médico sem queixas clínicas específicas e encontram atendimento clássico, com enfoque biológico e curativo, dificilmente pode-se esperar que retornem para outra consulta ambulatorial. Por outro lado, ainda que a queixa seja de ordem física, o atendimento centrado em queixas circunstanciais não permite ao médico cumprir sua tarefa perante o paciente adolescente, que é oferecer não só tratamento, mas também prevenção de doenças e agravos e verificar e responder às reais demandas dessa população.3-5,10-14

Motivados por exemplos de comportamento na família, pressão de grupo, autoafirmação na comunidade ou mesmo por dificuldades na esfera emocional, o adolescente pode se colocar em situações de risco imediato ou adquirir hábitos pouco saudáveis que podem originar enfermidades na idade adulta. Para que o sujeito se comprometa com a própria saúde e de seus pares, torna-se necessário orientá-lo quanto aos determinantes de seus problemas. Cabe aos profissionais de saúde incentivar uma conduta responsável nos jovens, prover informações importantes e corretas sobre saúde, além de identificar os que estao em situações de risco para oferecer ajuda adequada e em tempo hábil.1-5

No entanto, estudos revelam pouco conhecimento e muitas dificuldades para lidar com esse grupo, explicados em parte pela abordagem insuficiente, nos cursos de graduação, de temas como adolescência, relações familiares e violência, entre outros. Sexualidade humana, por exemplo, quando contemplada nas grades curriculares, está voltada quase que exclusivamente para o processo reprodutivo.15-18 O pouco conhecimento sobre a adolescência contribui para a emissão de julgamentos e, consequentemente, para a criação de barreiras na relação médico-paciente. Por outro lado, a compreensão dos profissionais a respeito da adolescência pode determinar mais sensibilidade e receptividade para aprender as informações apresentadas pelo adolescente e também de sua adequada percepção quanto à sua vulnerabilidade.15,16

Enquanto a formação acadêmica das áreas afins não der conta do ensino da adolescência no enfoque além do biológico, é preciso que haja elevados investimentos na educação permanente dos profissionais dos serviços de saúde que tenham como proposta a atenção integral e de boa qualidade ao adolescente.3,4,11,16,19 Importante ressaltar que é possível formar e qualificar profissionais de saúde dentro da ideia de aprender com o próprio trabalho e com a equipe, mas para que essa proposta seja mantida, uma equipe mínima composta por médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social é item especialmente relevante.4,5,10,16,20 O olhar de diferentes áreas da saúde é o melhor caminho para se compreender a amplitude das modificações biopsicossociais que ocorrem com os adolescentes e reverter a realidade das oportunidades perdidas.

Finalmente, devem-se mencionar as seguintes limitações da pesquisa: este estudo foi realizado a partir de um questionário que, embora validado pela OPAS e aplicado por alunos treinados, sustenta-se apenas pelos dados fornecidos pelo entrevistado, o que pode gerar um viés de informação. Acredita-se, no entanto, que o viés do entrevistador foi minimizado com a condução da entrevista por estudantes de Medicina não ligados diretamente ao serviço. Pressupoe-se, ainda, que o viés devido à não resposta não tenha ocorrido nesta pesquisa, já que todos os adolescentes concordaram em responder às perguntas, não havendo perdas. Apesar dessas limitações, é importante salientar que a avaliação completa desse serviço não foi realizada somente com a utilização desse instrumento. Ressalta-se também que o presente estudo serve de alerta e indica a necessidade de avaliação e melhoria dos serviços assistenciais a adolescentes, sobretudo os de instituições universitárias, em que há estudantes e profissionais em treinamento, potenciais multiplicadores de educação em saúde.

 

AGRADECIMENTOS

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo fomento a esta pesquisa.

 

REFERENCIAS

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