RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 30 e-30301 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20200041

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Educação Médica

Avaliação de conhecimento, habilidades e atitudes dos residentes de Pediatria em um Hospital Universitário

Assessment of knowledge, abilities and attitudes of Pediatric residents in a University Hospital

Sabrine Teixeira Ferraz Grunewald; Marcella dos Reis Cantagalli Alvim

Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, Serviço de Pediatria - Juiz de Fora - MG - Brasil

Endereço para correspondência

Sabrine Teixeira Ferraz Grunewald
E-mail: sabrine.pediatria@gmail.com

Recebido em: 08/12/2017
Aprovado em: 20/02/2020

Instituição: Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, Serviço de Pediatria - Juiz de Fora - MG - Brasil

Resumo

As competências necessárias à formação de médicos e especialistas incluem a aquisição de conhecimento científico, e o desenvolvimento de habilidades, atitudes e consciência ética. O objetivo geral do presente trabalho foi analisar o desempenho dos residentes de pediatria de primeiro e segundo ano nas avaliações dessas três competências durante o estágio na Enfermaria de Pediatria de um hospital universitário. Para isso, foi utilizada uma prova teórica para avaliação de conhecimento, uma prova prática com casos simulados para avaliação de habilidades, e uma pontuação por observação direta para avaliação de atitudes. Por fim, os residentes também avaliaram o próprio cenário do estágio. Eles tiveram um bom desempenho médio em todas as competências, sendo que os residentes de segundo ano alcançaram notas superiores na avaliação de habilidades e atitudes. A avaliação de habilidades foi a de menor aproveitamento médio. Demonstrou-se que a avaliação seriada dos residentes, englobando conhecimento, habilidades e atitudes, é factível de ser realizada no cenário da Enfermaria de Pediatria, o que permitiu sua implantação definitiva. Espera-se que a instituição de um processo avaliativo formal possa colaborar para a melhoria do ensino e assistência nos próximos anos.

Palavras-chave: Educação Médica; Pediatria; Avaliação Educacional.

 

INTRODUÇÃO

As competências necessárias à formação de médicos e especialistas incluem a aquisição de conhecimento científico, o desenvolvimento de habilidade clínica e a incorporação de atitudes e consciência ética.1 Em Educação Médica, as competências envolvem conhecimento e habilidades complexas e, para avaliá-las, há a necessidade de vários instrumentos direcionados para os diversos domínios.2 Avaliações bem feitas promovem o crescimento pessoal e profissional do estudante e contribuem para o aprimoramento do próprio processo educacional, resultando na formação de médicos com melhor compreensão das necessidades de saúde da população e mais capacitados para o desempenho de suas atividades profissionais.3

A avaliação do conhecimento adquirido constitui uma das modalidades mais empregadas e sobre a qual se dispõe, provavelmente, de maior experiência acumulada.4 Os principais recursos utilizados para a avaliação do conhecimento são as provas escritas, as provas objetivas, e formas alternativas, como: estudo de casos, trabalhos, elaboração de projetos, apresentações orais e seminários.

A introdução de métodos de avaliação que simulam situações clínicas práticas, numa tentativa de aproximar da realidade em condições padronizadas, tem sido utilizada para o campo das habilidades. Um exemplo é o exame objetivo estruturado, OSCE (Objective Structured Clinical Examination), que consiste em múltiplas estações, com situações clínicas objetivas e estruturadas, destinadas a avaliar a habilidade clínica dos estudantes em circunstâncias semelhantes.5

A avaliação de atitudes, por sua vez, pode também ser realizada através de ambientes simulados, mas mais frequentemente é obtida através da observação direta das atitudes do estudante pelo preceptor. Dessa forma, é importante que as competências necessárias à formação médica sejam avaliadas de forma frequente, sistemática, por diferentes metodologias e preceptores, tanto para verificar a suficiência do conhecimento adquirido, mas também como forma de ajudar a construí-lo.

O programa de residência médica em Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF) existe desde 1973, e atualmente recebe 7 residentes ao ano para um curso de dois anos de duração. Aproximadamente 25% (12 semanas por ano) da carga horária total da residência em Pediatria é cumprida no cenário da Enfermaria de Pediatria, escolhido para a implantação de um novo modelo de avaliação de competências. Nesse cenário, os residentes de primeiro e segundo ano têm a oportunidade de aprendizado à beira do leito, participando ativamente do atendimento a pacientes internados, da admissão à alta. No entanto, a avaliação da aquisição de competências nesse período ainda precisa ser melhor sistematizada.

O objetivo geral do presente trabalho é analisar o desempenho dos residentes de pediatria de primeiro e segundo ano nas avaliações com diferentes metodologias, no cenário da Enfermaria de Pediatria do HU-UFJF, incluindo avaliação de conhecimentos, habilidades e atitudes, permitindo, caso o resultado seja positivo, a consolidação do método.

 

MÉTODO

A população alvo do estudo é composta pelos residentes de Pediatria do HU-UFJF, sendo 7 residentes do primeiro ano e 7 residentes do segundo ano, totalizando 14 participantes. Foram excluídos aqueles que não concordaram em participar do estudo, ou não cumprirem todas as etapas de avaliação propostas.

O modelo de avaliação sugerido parte do estabelecimento de objetivos de aprendizado, que foram definidos em conjunto com a supervisão da Residência Médica em Pediatria e os preceptores do rodízio da Enfermaria de Pediatria. Esses objetivos de aprendizado são disponibilizados para os residentes a partir da primeira semana de estágio, bem como as referências bibliográficas sugeridas.

A avaliação é dividida em quatro categorias: conhecimentos; habilidades; competências; percepção do estágio. A avaliação de conhecimento é realizada ao final das 12 semanas de estágio, através de prova escrita no valor de 40 pontos. A avaliação de habilidades é realizada através de estações simuladas para o ensino de habilidades clínicas, ao final de 4, 8 e 12 semanas do estágio, no valor de 10 pontos cada. A avaliação de atitudes é feita ao final das 12 semanas de estágio, através de um questionário pontuado pela escala de Likert,6 respondido em acordo pelos dois preceptores mais atuantes no ensino dos residentes, no valor de 20 pontos. Por fim, os residentes respondem uma avaliação de sua percepção do estágio realizado, também pontuada pela escala de Likert,6 que não faz parte da composição da nota final do residente.

A pontuação dos residentes foi disponibilizada através de estatística descritiva.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HU-UFJF, com CAAE nº 54698716.3.0000.5133.

 

RESULTADOS

Dentre os 14 residentes que iniciaram o estudo, 3 foram excluídos por não completarem todas as etapas de avaliação, totalizando 11 sujeitos estudados.

Os temas abordados nas avaliações de conhecimento foram selecionados de acordo com os objetivos de aprendizado e com os casos clínicos de pacientes internados na enfermaria no período do estágio de cada residente. As habilidades avaliadas também foram selecionadas com base nos objetivos de aprendizado, versando especialmente sobre manobras do exame físico que devem ser dominadas por todo pediatra. O Quadro 1 traz os principais temas abordados em ambas as avaliações.

 

 

As médias, desvios padrão das notas e percentual de aproveitamento dos residentes de primeiro e segundo ano para cada tipo de avaliação realizado são mostrados na Tabela 1.

 

 

Na avaliação do estágio, a quase totalidade dos residentes concordou totalmente com as afirmações: "Melhorei minha habilidade de entrevista e exame físico", "Exercitei o raciocínio clínico e diagnóstico diferencial de diferentes patologias e sintomatologias", "Pude colocar em prática os protocolos clínicos do serviço", e "Aprendi a trabalhar em equipe multiprofissional e a dividir tarefas". A concordância foi menor para as afirmações "Tive a oportunidade de atuar em urgências" e "Tive a oportunidade de realizar procedimentos".

 

DISCUSSÃO

A implantação do sistema de avaliação contemplando conhecimento, habilidades e atitudes foi bem aceita pela equipe e aplicada em sua totalidade para a maioria (78%) dos residentes no período do estudo.

Ao avaliar o desempenho dos residentes nas diferentes avaliações, observam-se notas mais elevadas para os residentes de segundo ano, exceto na avaliação de conhecimento, na qual residentes de primeiro e segundo ano tiveram praticamente a mesma nota. É esperado que o desempenho dos residentes de segundo ano seja superior, visto que já vivenciaram o mesmo cenário de estágio no ano anterior e que possuem maior tempo de aquisição de competências ao longo da residência.

A avaliação de habilidades foi aquela com menor média de aproveitamento para residentes de ambos os anos. Por se tratar de uma avaliação prática, com tempo cronometrado, em um modelo pouco vivenciado pelos residentes em outros cenários, o pior desempenho nessa avaliação não reflete, necessariamente, que a aquisição de habilidades no estágio está sendo insuficiente, podendo ter sido influenciado, por exemplo, pela ansiedade e nervosismo dos participantes.

A maioria dos residentes avaliou o estágio como útil na aquisição de conhecimento, habilidades e profissionalismo. No entanto, alguns residentes de ambos os anos se queixaram da falta de oportunidades com casos de urgência e realização de procedimentos. Essa situação pode ser reflexo da sazonalidade dos casos internados, e do fato de que o HU-UFJF não possui unidade de tratamento de pacientes pediátricos críticos, o que limita a internação de casos mais graves.

 

CONCLUSÃO

O presente trabalho mostrou que a avaliação seriada dos residentes, englobando conhecimento, habilidades e atitudes, é factível de ser realizada no cenário da Enfermaria de Pediatria. Dessa forma, optou-se pela implantação dessas avaliações de forma rotineira, após algumas adaptações. Espera-se que a instituição de um processo avaliativo formal possa colaborar para a melhoria do ensino e assistência nos próximos anos.

 

REFERÊNCIAS

1. Megale L. Processos avaliativos no curso de medicina: desempenho dos estudantes em relação às competências em pediatria e sua significação pelo docente [Tese]. Belo Horizonte, 2011.

2. Lima VV. Avaliação de competência nos cursos médicos. In Marins JJN, Rego S, Lampert JB, Araújo JGC. Educação médica em transformação. São Paulo: Editora Hucitec, 2004. cap. 6, p. 123-40.

3. Cumming A, Ross M. The Tuning project for medicine - learning outcomes for undergraduate medical education in Europe. Med Teac., 2007; 29: 636-41.

4. Troncon, LEA. Avaliação do estudante de medicina. Revista Medicina, 1996; 29: 429-39.

5. Harden RM, Stevenson M, Dwnie WW, Wilsom GM. Assessment of clinical competence using objective structures examination. Br Med J., 1975; 1: 447-51.

6. Annastasi A. Psycological testing. 6. ed. New York: Macmillan Publishing Company, 1988.