RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 29. (Suppl.10) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190081

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Suplemento do 2º Curso de Antibiocoterapia LIPDIP/LADIP

O processo transexualizador no sus como potencializador da adesão de travestis e mulheres transexuais ao tratamento de infecções sexualmente transmissíveis

Gustavo Domingos Melo Pinto1; Adelson Mizerani Siqueira1, Gabriela Oliveira1; Gabriela Yumi Tsubono1; Cristiane Freitas Cunha Grillo2

1. Acadêmicos de graduação em Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
2. Professora titular do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Minas Gerais

 

Resumo

Transgêneros apresentam demandas singulares e, historicamente, têm sido estigmatizados, o que impacta no processo saúde-doença, quadro exemplificado pelo maior acometimento de infecções sexualmente transmissíveis (IST) em comparação com a população em geral. Observa-se que doenças passíveis de antibioticoterapia, como sífilis, gonorreia e clamídia, apresentam significativa prevalência nesta população vulnerável, decorrente, entre outros fatores, pela fragilidade do acesso à saúde. Neste cenário, o processo transexualizador normatizado pelo Ministério da Saúde através da Portaria GM/MS 2.803/13 visa atuar como facilitador da adesão de travestis e mulheres transexuais ao cuidado longitudinal e ao tratamento de IST. Tendo isto em vista, realizou-se revisão de literatura a fim de promover reflexão sobre a implementação do processo, impasses do atendimento de demandas relacionadas à autonomia de identidade de gênero e demais fatores que prejudicam o contato com instituições de saúde. A partir da análise, foi possível constatar que a garantia da equidade e o estabelecimento de vínculo entre profissional de saúde e indivíduo aproximam este do sistema, promovendo maior sensação de pertencimento e consolidando o conceito de longitudinalidade. Ao passo que a deslegitimação, violência e desamparo vivenciados por transgêneros configuram como barreira à direitos básicos. Desta forma, constata-se a relevância da implementação efetiva do processo transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de diversificação da agenda de cuidado em saúde para a inclusão e adesão de travestis e mulheres transexuais, promovendo ações para promoção, prevenção e tratamento de doenças.

Palavras-Chave: Pessoas Transgênero. Transexualidade. Doenças Sexualmente Transmissíveis. Sistema Único de Saúde.

 

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