RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 29 e-2043 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190060

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Comentários ou Pontos de Vista

Ginecologia e Obstetrícia - "Medicina" ou "Missão" baseada em evidências?

Obstetrics and Gynecology - "Medicine" or "Mission" evidence-based?

Gisele Vissoci Marquini1; Larissa Bronhara Pela2; Katia Cristina Martins3; Manoel João Batista Castello Girão1; Marair Gracio Ferreira Sartori1

1. Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo - São Paulo - SP - Brasil
2. Hospital e Maternidade Santa Clara, Departamento de Ginecologia do Hospital de Maternidade Santa Clara - Uberlândia - MG - Brasil
3. Hospital Santa Genoveva, Departamento de Ginecologia do Hospital Santa Genoveva - Uberlandia - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Gisele Vissoci Marquini
E-mail: giselemarquini@gmail.com

Recebido em: 12/11/2017
Aprovado em: 19/08/2019

Instituição: Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo - São Paulo - SP - Brasil

Resumo

A especialidade Ginecologia e Obstetrícia (GO) se enquadraria actualmente como "Missão" baseada em evidências. Nenhuma especialidade deve ser comparada, entretanto, a "missionária" GO é única por atender duas vidas. Cabe ao ginecologista não somente entregar um recém-nascido saudável para a mãe como também ser sensível aos anseios emocionais de toda uma família, trabalhar em condições adversas e ainda se manter atualizado. Assim, sua melhor definição seria "médico-missionário", aquele médico que desenvolve a especialidade com a dignidade de uma verdadeira missão.

Palavras-chave: Ginecologia; Obstetrícia; Medicina Baseada em Evidências; Ética; Escolha da Profissão.

 

A medicina baseada em evidências alicerça a profissão médica. A decisão sobre a tomada de conduta médica se baseia em protocolos bem documentados, reprodutíveis e de crebibilidade. O objetivo da formação médica é capacitar o profissional a ser atualizado sem deixar de ser humano. Dentro desse contexto, existem características interessantes, dentro da Ginecologia e Obstetrícia (GO), que mesclam sua melhor classificação, dentro do contexto atual da medicina baseada em evidências. Com toda a força de recomendação, nível A de evidências, de acordo com a realidade da especialidade no Brasil, a GO se enquadraria hoje como "Missão" baseada em evidências.

Os principais passos da consulta ginecológica dependem tanto da humanização quanto da aplicação prática da medicina baseada em evidências. A consulta ginecológica e obstétrica é diferenciada e as particularidades começam desde o início do atendimento. O tempo dispensado na consulta ginecológica e obstétrica se difere de todas as áreas, pois a paciente tem a necessidade de se despir para o exame físico, no seu tempo, e de acordo com sua capacidade emocional e cognitiva.

Além disso, a paciente após colocar seu avental de exame, precisa se posicionar adequadamente na mesa ginecológica. Pacientes com necessidades especiais como deficientes físicas, idosas, obesas e até mesmo com sequelas psicológicas de possíveis abusos sexuais têm extrema dificuldade nessa tarefa. Cabe ao ginecologista, agir com ética e respeito e muitas vezes auxiliar a paciente nesse momento delicado da consulta, sem se ater a tempo, sem se preocupar com a demanda da sala de espera. A humanização é louvável e se torna um diferencial de cuidado solidário, semelhante à missão. Até esse momento do atendimento, não se empregou medicina baseada em evidências, mas humanização baseada em bom-senso.

Durante a vida reprodutiva, os fatores que levam a mulher a procurar o ginecologista são vastos. Esse profissional é a porta de entrada para a mulher que planeja seus cuidados de saúde. Cabe a ele durante a consulta toda a abordagem física geral, emocional e específica do exame ginecológico. Muitas vezes, a procura para se fazer o exame preventivo do colo uterino abre oportunidade para orientações, encaminhamentos e diagnósticos de outras áreas. Há que se apontar ainda, aquelas situações onde a consulta ginecológica é o pretexto de se ter alguém para ouvir, aconselhar e amenizar ansiedades e sofrimentos. Confidências são ouvidas como desabafos de uma mulher que pode ter como única saída a atenção de um ginecologista. Nada mais humano que esse papel do médico que não dependeu nesse momento das evidências científicas. Esse é o talento de um bom missionário.

Nenhuma especialidade deve ser comparada, entretanto a "missionária" ginecologia e obstetrícia é única por atender duas vidas: mãe e feto. O pré-natal é um atendimento especializado e diferenciado de todos os outros da área médica, pois envolve o binômio materno-fetal. Ambas as vidas estão na responsabilidade do ginecologista/obstetra, que em cada atendimento, na frequência estabelecida por livre demanda da paciente, precisa ouvir, estar atento às alterações fisiológicas, emocionais e patológicas da gestação.

Durante a consulta de pré-natal, o obstetra realiza exame físico geral e minucioso da mãe além das provas de vitalidade fetal, como percepção de movimentos fetais, ausculta fetal, interpretação de vários exames laboratoriais e ultrassonográficos, prescrição detalhada entre outros procedimentos específicos do prenatalista. A consulta ainda inclui toda a recomendação de alimentação, vacinação, orientações da fisiologia e fisiopatologia da gestação para a gestante e muitas vezes seus acompanhantes. O diálogo franco, a sensibilidade e a capacidade de percepção de quem acompanha o prénatal são condições básicas para que o saber em saúde seja colocado a disposição da mulher e da sua família - atores principais da gestação e do parto.1 A capacidade de mesclar a aplicação de protocolos médicos com sabedoria e humanidade diferencia o bom profissional.

Importa ao "missionário" obstetra ainda, nas consultas de pré-natal, a disposição em atender aos anseios maternos e familiares, quase como em um interrogatório, sobre o ápice da história, o nascimento. A obstetrícia escreve o último capítulo da novela, mas quem assina o final da história é o obstetra, em parceria com o feto e a parturiente. A via de parto, se normal ou cesárea se tornou atualmente motivo de especulações da sociedade e da mídia devido a possíveis cesáreas desnecessárias. Apesar de o parto normal ser a recomendação das organizações médicas mundiais, o verdadeiro interesse de quem assiste ao nascimento nem sempre fica claro. Tudo o que o obstetra prioriza é entregar uma criança saudável à família, com plena saúde e realização materna, independente da via de parto. A sabedoria em lidar com críticas irresponsáveis, sem ética e sem o conhecimento da verdade, direcionadas ao obstetra, fazem parte da missão.

O ginecologista e obstetra não pode se ater somente aos cuidados materno-infantis. Em cada fase da mulher, ele é o profissional responsável pela prevenção de morbidades na sua esfera biopsicossocial. No início da menacme não convém se preocupar apenas em prevenir a gravidez indesejada, as doenças sexualmente transmissíveis, abordar e acompanhar o crescimento e desenvolvimento puberal. Importa ouvir e aconselhar a jovem em suas demandas emocionais e sociais próprias da idade. Esse caráter missionário do "ouvir" e "aconselhar" novamente se destacam no atendimento à adolescente.

O cuidado da mulher em idade reprodutiva e menopausa, no consultório do ginecologista, não se limita às doenças ginecológicas. Há uma responsabilidade do ginecologista, diferenciada e um novo entendimento da sua abordagem em doenças relacionadas à idade como medicina interna, ortopedia, endocrinologia, psiquiatria entre outras. O ginecologista precisa abordar em uma consulta o trabalho de prevenção, tratamento e diagnóstico diferencial para conduzir estratégias de atendimento multidiciplinar. Cabe a esse especialista aplicar conhecimentos de doenças cardiovasculares, aconselhamentos sobre estilo de vida, uma vez que a intimidade da consulta proporciona uma confiança na abertura de queixas, que excedem a área ginecológica.2 Ao ginecologista cabe preservar física e mentalmente a saúde da paciente em um segmento de idade onde a qualidade de vida pode prevenir doenças que geram morbidade e mortalidade da mulher.

O ginecologista é o especialista que pode oferecer informações e suporte sobre os riscos do tabagismo para a população feminina. O estímulo e receita de medicamentos, se necessário, para cessar o hábito de fumar, é tão importante quanto a solicitação de Mamografia como medida de prevenção do Cancer de Mama. De acordo com o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), o tabagismo em mulheres tem um impacto negativo em doenças cardiovasculares, é fator de risco para câncer, além de influenciar negativamente no ciclo menstrual, fertilidade e menopausa precoce.3 Fumar durante a gravidez é uma importante causa de doenças ao feto e mãe, por aumentar o risco de complicações placentárias incluindo hipertensão induzida pela gravidez, restrição de crescimento intrauterino e morte perinatal. Muitos dos efeitos do cigarro na mulher podem ser parcialmente revertidos após parar de fumar.3 Instituir força tarefa no incentivo ao abandono desse hábito nocivo, com atenção, persistência e resgate humano do vício são qualidades de missionário.

A atividade de consultório ou ambulatório, somente respalda o ginecologista, legal e eticamente, quando ele inclui em seu prontuário, detalhes da mulher. Dados importantes como anamnese, antecedentes sobre outras morbidades, familiares, pessoais, níveis pressóricos, condições de estado geral, exame abdominal, exame de inspeção e palpação de mamas, axilas, pescoço merecem ser citados. Depois, ainda descreve inspeção e exame específico da região genital, onde há um amplo diagnóstico diferencial de patologias da vulva, vagina, colo e corpo uterino além dos anexos ovarianos.

Para esses diagnósticos, há a necessidade de materiais específicos para procedimentos como o espéculo, algodão, gazes, luvas, camisolas e lençóis descartáveis, espátulas, escovinhas cervicais, pinças, materiais para procedimentos de contenção de hemorragias, coleta de líquidos genitais, lâminas, fixadores citológicos, recipientes para transporte de material biológico, soluções para assepsia quando necessário e colposcopia, entre outros, que geram custos diferenciados.

Cabe citar a importância de um ambiente de consultório dentro dos padrões da Vigilância Sanitária, o que requer investimento financeiro seja na esfera pública ou privada. A administração de clínicas particulares demanda custos com funcionários e equipe de serviços gerais para manter a higiene, inclusive da sala de espera. Equilibrar rendas e despesas da profissão, tolerar muitas vezes a remuneração inadequada, reivindicar melhorias para a classe e persistir mesmo diante desse cenário, é mais que medicina, é missão.

Apesar da missão, a remuneração se faz necessária para a sobrevivência do Ginecologista/ Obstetra. Dados recentes demostram uma evolução positiva em relação aos hospitais e serviços de saúde que valorizaram o custo da relação médico-paciente. Estudos apontam que a valorização do profissional, por meio de uma remuneração digna, permite a boa prática médica no sentido de se evitar encaminhamentos desnecessários, exames complementares abusivos e maior segurança no atendimento. 4

Diante desse cenário, cabe aos colegas ginecologistas e obstetras se identificar como médicos ou missionários. Médicos quando se atualizam e tentam aplicar da melhor maneira possível, na prática, a medicina baseada em evidências. Missionários quando abrem mão de seu convívio familiar, sua privacidade em benefício de uma especialidade sem o seu merecido reconhecimento. Após as evidências expostas, conclui-se que o título que atualmente melhor resume as atividades do ginecologista e obstetra seria "médico/missionário". Esse é o especialista, que apesar de toda a adversidade, desenvolve com muita sabedoria, sua missão no cuidado da mulher.

 

REFERÊNCIAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde da Mulher. Pré-natal e Puerpério: atenção qualificada e humanizada - manual técnico. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.

2. Lauritzen C. Gynecological problems of the aging woman. Ther Umsch 2000; 57(10):617-27.

3. American College of Obstetricians and Gynecologists. Tobacco use and women's health. Committee Opinion No. 503. Obstet Gynecol 2011;118:746-50.

4. Freed DH. Hospitalists: Evolution, evidence, and eventualities. Health Care Manag 2004;23(3):238-56.