RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 29 e-2041 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190060

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Artigo de Revisão

Emprego da fluorescência infravermelha com verde de indocianina na colecistectomia laparoscópica: abordagem técnica e potencialidades

Employment of infrared fluorescence with indocyanine green in laparoscopic cholecystectomy: technical approach and potencialities

Iure Kalinine Ferraz de Souza1; Yargos Rodrigues Menezes2; Erick Veiga Franco da Rosa2; Bruno Francia Maia Athadeu2; Frederico Starling Leão2; Suzy Mairy Pessoa Figueiredo2

1. Universidade Federal de Ouro Preto, Escola de Medicina, Departamento de Cirurgia, Ginecologia e Obstetrícia e Propedêutica - Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil
2. Universidade Federal de Ouro Preto, Graduação em Medicina - Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil

Endereço para correspondência

Yargos Rodrigues Menezes
E-mail: yargosmenezes@gmail.com

Recebido em: 16/01/2019
Aprovado em: 24/06/2019

Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto, Graduação em Medicina - Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: Nos últimos anos, a visualização intra-operatória dos ductos biliares utilizando ?uorescência infravermelha com verde de indocianina (ICG) foi incorporada à colecistectomia laparoscópica em alguns serviços cirúrgicos. Quando incitada por luz infravermelha, a ICG permite a visualização ?uorescente dos ductos biliares extra-hepáticos.
OBJETIVOS: Descrever a técnica de colangiogra?a ?uorescente e seus benefícios na melhor identi?cação peri-operatória das vias biliares extrahepáticas.
MÉTODOS: Realizou-se busca eletrônica nas bases de dados Cochrane, Lilacs, Pubmed e Scielo. Os descritores utilizados foram "Laparoscopic Cholecystectomy" "Cholangiography", "Indocyanine Green".
RESULTADOS: Foram incluídos 12 estudos, totalizando 712 pacientes, com 06 complicações relatadas. O ducto cístico foi visualizado em uma taxa maior com utilização da (ICG) em comparação com a colangiogra?a tradicional (p<0,05). O tempo para realização e o custo médio da técnica ?uorescente foram menores que os da colangiogra?a intra-operatória (p<0,05). O ducto colédoco e o ducto cístico foram identi?cados mais precocemente utilizando-se a laparoscopia com ICG quando comparado com laparoscopia convencional, sem ICG, (p<0,05). Não foram detectadas diferenças signi?cativas na visualização do ducto hepático, ducto colédoco e do ducto acessório em pacientes obesos e não obesos (p>0,05). Em casos cirúrgicos difíceis, uma quantidade maior de ICG deve ser empregada para visualização do ducto cístico (p<0,05).
CONCLUSÃO: O emprego da colangiogra?a ?uorescente possibilita melhor visualização das vias biliares tanto em casos cirúrgicos simples quanto difíceis. A utilização da ?uorescência infravermelha com ICG durante a laparoscopia propicia a identi?cação mais precoce do ducto cístico e do ducto colédoco em comparação à laparoscopia sem a utilização da ICG.

Palavras-chave: Colecistectomia Laparoscópica; Colangiogra?a; Verde de Indocianina.

 

INTRODUÇÃO

A colecistectomia foi descrita inicialmente por Carl Langenbuch em 1882. No século XX, seus elementos técnicos foram alicerçados com surgimento de exponenciais inovações tecnológicas, incluindo a cirurgia videolaparoscópica, que se difundiu a partir de 1985.8 Esse foi um aspecto relevante para a redução do número de complicações pósoperatórias e morbimortalidade em colecistectomia, haja vista o fato de representar um procedimento cirúrgico menos invasivo. Assim sendo, acarreta resultados estéticos melhores, e assegura menor risco cirúrgico em comparação ao procedimento laparotômico convencional.3,5

Atualmente, a colecistectomia laparoscópica (CL) é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados ao redor do mundo.4 Esta cirurgia está indicada em diversas situações clínicas, incluindo o tratamento da litíase biliar e de suas complicações como a colecistite aguda.8

No que concerne esta técnica, uma das complicações mais expressivas é a lesão do ducto biliar com incidência de 0,3% a 1,5%. Esse tipo de injúria do trato biliar ocasiona impacto significativo na qualidade de vida e sobrevida dos pacientes submetidos à colecistectomia.21 Desde a introdução da CL, a prevenção de complicações têm sido uma prioridade dos cirurgiões.14

Nos últimos anos, a visualização intra-operatória dos ductos biliares utilizando fluorescência infravermelha com verde de indocianina (ICG) foi incorporada durante a colecistectomia em alguns serviços cirúrgicos no cenário mundial. Esse método provê imagens em tempo real do trato biliar até mesmo de forma prévia à dissecção do triângulo de Calot.19

A ICG é um corante hidrossolúvel administrada por via endovenosa com absorção espectral de pico a 800 nm. Quando incitada por luz infravermelha próxima ao espectro de 700nm-900nm permite uma visualização fluorescente das estruturas vasculares e dos ductos biliares extra-hepáticos.1

Após a sua administração intravenosa, a ICG combina-se às proteínas plasmáticas permanecendo, assim, no meio intravascular. Tal substância fluorescente possui metabolização quase que exclusivamente pelos hepatócitos, sendo então posteriormente excretada na bile. A concentração máxima na bile ocorre entre 30 minutos a 02 horas após a injeção com o pico de concentração no sistema arterial alcançado em 01 a 02 minutos.1 Embora as reações adversas a ICG administrada por via intravenosa sejam extremamente raras, os pacientes devem ser questionados sobre história de atopia ao iodo antes de sua administração.9

A ICG também possui outras aplicações médicas, tais como angiografia oftálmica, avaliação vascular neurocirúrgica e coronariana intra-operatória, bem como em microcirurgia reconstrutiva, previsão de cicatrização de ferida após amputação e mapeamento linfático.9

O objetivo do presente estudo é descrever a técnica de colangiografia fluorescente com ICG e seus benefícios na melhor identificação peri-operatória das vias biliares extra-hepáticas.

 

MÉTODOS

Realizou-se uma revisão sistemática da literatura através de busca eletrônica nas seguintes bases de dados: Cochrane, Lilacs, Pubmed e Scielo. Utilizou-se os seguintes unitermos: (Laparoscopic Cholecystectomy) and (Cholangiography) and (Indocyanine Green). A pesquisa foi realizada entre os dias 29 a 31 de Outubro de 2018 e foram selecionados artigos indexados nos últimos cinco anos, sendo o artigo mais recente publicado em 28/06/2013 e o mais antigo publicado em 27/06/2018.

Critérios de inclusão: comparação entre o uso da tecnologia de fluorescência com verde de indocianina com outros métodos de imagem, descrição da indicação cirúrgica e análise das incidências de complicações.

Critérios de exclusão: foram excluídos deste artigo outros estudos de revisão, ensaios clínicos em andamento, relatórios técnicos, relatos de caso e relatos de experiência.

 

RESULTADO(S)

Ao final da pesquisa, foram obtidos 27 artigos. Destes, foram excluídos os artigos duplicados, restando 20 artigos. Esses trabalhos foram analisados e foram excluídos da revisão, os relatórios técnicos, os relatos de caso e os artigos de revisão. Um dos artigos incluídos foi uma revisão sistemática seguido de um estudo clínico prospectivo, justificando a permanência no trabalho. Deste modo, restaram para a análise 12 artigos que foram incluídos na revisão. (Figura 1)

 


Figura 1. Algoritmo de busca dos artigos na literatura

 

Os 12 estudos selecionados foram submetidos à análise e discussão de seus resultados. Quanto ao tipo de estudo, 09 artigos são estudos de coorte prospectivos, 01 artigo é um estudo de coorte retrospectivo, 01 artigo é uma revisão sistemática seguida de um ensaio clínico e 01 artigo é um estudo de caso controle. No total, a casuística foi de 712 pacientes, e destes, 06 apresentaram complicações relacionadas ao procedimento (Tabela 1).

 

 

Alguns estudos acerca da técnica de fluorescência infravermelha com verde de indocianina em CL objetivaram determinar a dose e o intervalo de tempo de administração da ICG, bem como o tempo total da realização do procedimento cirúrgico. Boogerd et al., 2017, realizaram um ensaio clínico prospectivo com 28 pacientes, divididos em 07 grupos, nos quais os critérios de seleção de cada um desses agrupamentos estaria correlacionado com diferentes dosagens do corante fluorescente ICG, bem como diversos tempos de administração pré-operatória do mesmo. Os autores demonstraram que a dosagem que apresentou melhores resultados foi de 05 mg da substância fluorescente, administrada pelo menos 03 horas antes do início da cirurgia.2

Corroborando esse fato, Kono et al., 2015, em estudo prospectivo observacional com 108 pacientes submetidos a mesma técnica, evidenciaram diversos fatores que possibilitaram melhor identificação do ducto biliar durante a colangiografia fluorescente. Entre eles, a administração da verde de indocianina com a maior antecedência possível antes do procedimento cirúrgico.11

Verbeek et al., 2017, concluíram que uma dose de 10 mg do corante fluorescente administrada 24 horas antes da cirurgia, melhora a acurácia da colangiografia fluorescente durante a cirurgia laparoscópica. Assim, os pesquisadores reiteram que quando a logística permitir, recomenda-se um intervalo prolongado entre a administração do ICG e o procedimento cirúrgico.20

Osayi et al., 2016, realizaram um estudo com 82 pacientes utilizando verde de indocianina em CL, relataram breve curva de aprendizado para a aplicação da técnica de colangiografia fluorescente infravermelha com ICG. Nas primeiras 41 cirurgias, o procedimento demorou cerca de 0,7 minutos a 4,7 minutos, ao passo que nas cirurgias posteriores, esse tempo foi de 0,5 a 1,9 minutos (p<0,05).15

COLANGIOGRAFIA FLUORESCENTE INFRAVERMELHA COM VERDE DE INDOCIANINA VERSUS TÉCNICA DE COLANGIOGRAFIA INTRA-OPERATÓRIA

Durante a realização de CL, alguns serviços cirúrgicos fazem uso da colangiografia intra-operatória por raios-X, com a finalidade de facilitar a observação e a posterior manipulação da trama biliar. Comparando-se a prática do emprego da colangiografia por raios-X com a aplicação da técnica por fluorescência infravermelha com verde de indocianina, Osayi et al., 2016, realizaram um estudo onde foram incluídos 82 pacientes, os quais possuíam condições clínicas diversas, incluindo colelitíase sintomática, colecistite crônica, discinesia biliar, pancreatite por cálculo biliar e coledocolitíase. A partir de então, os pacientes receberam verde de indocianina no préoperatório, a qual foi utilizada para identificar estruturas biliares extra-hepáticas antes e após a dissecção parcial e completa do triângulo de Calot. Ademais, neste estudo, a colangiografia intra-operatória por raios-x foi realizada concomitantemente em cada caso. Assim, a identificação de estruturas biliares utilizando a colangiografia por fluorescência e a colangiografia convencional foi registrada em ambas as técnicas.

Após análise dos dados coletados nos procedimetos cirúrgicos, os autores concluíram que a fluorescência infravermelha com verde de indocianina é segura, viável e uma alternativa não invasiva à colangiografia intra-operatória para a obtenção de imagens de estruturas biliares extra-hepáticas durante a CL. Em todos os pacientes, o ducto cístico foi visualizado em uma taxa significativamente maior com utilização do corante fluorescente em detrimento da colangiografia tradicional (95,1%) e (72,0%), respectivamente (p < 0,05).15

Nos 82 pacientes que foram submetidos a ambos os procedimentos de imagem, a fluorescência infravermelha com verde de indocianina foi concluída quase 10 minutos mais rápido que a colangiografia convencional. A técnica fluorescente precisou de 1,9 ± 1,7 minutos para ser concluída, comparado a 11,8 ± 5,3 minutos para a colangiografia intra-operatória (p < 0,05).15 DIP et al., 2016, também chegaram a resultados semelhantes, afirmando que a colangiografia fluorescente foi mais rápida que a colangiografia intra-operatória (p<0,05).7

Salienta-se que ainda consta na pesquisa uma comparação referindo menor taxa de iatrogenias na técnica fluorescente. Além disso, os autores afirmaram que os custos se comparados são menores para a técnica fluorescente, visto que se diminui o tempo de uso das salas operatórias.15 Corroborando essa informação, DIP et al., 2016, em estudo com 45 pacientes, afirmaram que o custo médio por paciente para realização da colangiografia fluorescente infravermelha com verde de indocianina foi menor do que na colangiografia intraoperatória (p < 0,05).7

Atualmente, a colangiografia fluorescente não substitui o método tradicional de colangiografia para identificação de cálculos de ducto colédoco, no entanto, permite a identificação de estruturas biliares, independentemente do índice de massa córporea do paciente, podendo, assim, ser valiosa nos casos em que a colangiografia clássica não pode ser realizada.15

COLANGIOGRAFIA FLUORESCENTE INFRAVERMELHA COM VERDE DE INDOCIANINA VERSUS TÉCNICA DE VISUALIZAÇÃO LAPAROSCÓPICA CONVENCIONAL

Já no que se refere ao uso de imagem laparoscópica convencional nas colecistectomias para a visualização do trato biliar, Van Dam et al., 2015, empreenderam um estudo observacional prospectivo que buscava investigar o benefício do uso da fluorescência infravermelha com verde de indocianina comparada à técnica laparoscópica com obtenção de imagens por via clássica. O grupo observado foi composto por 30 pacientes que foram submetidos ao procedimento cirúrgico de colecistectomia utilizando a colangiografia fluorescente e concomitantemente à técnica de visualização laparoscópica convencional.

Assim sendo, verificou-se a partir da técnica fluorescente a identificação mais precoce do ducto colédoco e ducto cístico. O tempo médio para identificação do ducto cístico com a colangiografia fluorescente foi de 21,4 minutos após a indução anestésica quando comparado com a visualização convencional, cujo tempo médio foi de 23,4 minutos (p<0,05). Apesar da identificação mais precoce do ducto colédoco pelo método fluorescente, em 33% dos casos não foi possível sua visualização pela fluorescência. No montante das cirurgias realizadas foi constatada a injúria biliar em 01 paciente. Apesar da ICG ter identificado o vazamento da bile, o mesmo não preveniu a prevenção da injúria biliar no caso.18

Concomitantemente, outra pesquisa publicada por Schols et al., 2013, com 30 pacientes, concluiu que usando a colangiografia fluorescente infravermelha com a ICG, o ducto colédoco e o ducto cístico puderam ser claramente visualizados e delineados antes da dissecção do triângulo de Calot, respectivamente em 25 dos 30 pacientes (83%) e 29 dos 30 pacientes (97%). Em 04 casos (17%) nos quais o ducto colédoco não pôde ser visualizado usando imagens de fluorescência, uma inflamação crônica da vesícula biliar estava presente. Já a laparoscopia com visualização convencional forneceu certeza sobre o ducto colédoco e o ducto cístico em 22 de 30 pacientes (73%) e 29 de 30 pacientes (97%), respectivamente.

Ademais, os pesquisadores constataram que o ducto colédoco conseguiu ser identificado relativamente mais cedo quando comparado com a imagem laparoscópica usual, com tempos respectivos de 23 e 33 minutos (p<0,05). Já o ducto cístico demorou uma média de 25 minutos para ser visualizado com o método fluorescente enquanto com a visão normal da laparoscopia demorou em media 36 minutos (p<0,05).17

COLANGIOGRAFIA FLUORESCENTE INFRAVERMELHA COM VERDE DE INDOCIANINA NA CIRURGIA ROBÓTICA

No que tange as colecistectomias laparoscópicas, tem-se verificado uma ascensão das cirurgias robóticas nesse tipo de procedimento cirúrgico em alguns países. Mesmo neste tipo de cirurgia, a fluorescência infravermelha com verde de indocianina vem conquistando espaço. Daskalaki et al., 2014, fizeram um estudo com a coleta de dados da divisão de cirurgia robótica do hospital universitário de Illinois, Estados Unidos, entre 2011 e 2013. Nessa pesquisa 184 pacientes foram submetidos à colecistectomia robótica fluorescente com ICG. Nos procedimentos cirúrgicos realizados não ocorreu nenhuma conversão para colecistectomia aberta ou por via laparoscópica clássica. A taxa de complicações pósoperatórias apurada foi de 3,2%, não ocorrendo nenhuma injúria do trato biliar. O contraste ICG possibilitou a visualização de pelo menos uma estrutura do trato biliar em 99% dos casos. O ducto cístico foi visualizado em 180 de 184 casos (97,8%). Já o ducto colédoco e ducto hepático comum foram visualizados em 177 (96,1%) e 173 (94%) dos casos, respectivamente. A confluência do ducto cístico e do ducto hepático comum foi identificada em 154 casos (83,6%). Este estudo representou a maior série até a data de sua publicação de colecistectomias robóticas realizadas com a ICG para a visualização das vias biliares.18

Somando-se a essa conjectura, outra pesquisa contou com a participação de 35 pacientes, os quais foram submetidos às colecistectomias robóticas usando colangiografia fluorescente infravermelha com ICG. A indocianina verde foi administrada com sucesso em todos os pacientes sem complicação e, em todos os casos, a anatomia biliar extra-hepática foi capaz de ser identificada em 3D e em tempo real. Todos os procedimentos foram concluídos sem lesão biliar, conversão para um procedimento aberto ou necessidade de colangiografia tradicional. Mais uma vez a técnica mostrou-se útil para identificar precocemente o trato biliar, possibilitando, mesmo em casos difíceis, nos quais a anatomia era incerta uma visão crítica e segura durante a realização do procedimento no contexto da cirurgia robótica.13

COLANGIOGRAFIA FLUORESCENTE INFRAVERMELHA COM VERDE DE INDOCIANINA EM PACIENTES OBESOS

Outro aspecto que pode ser explorado na utilização da fluorescência infravermelha com verde de indocianina é o emprego dessa técnica em pacientes obesos. Em relação a essa temática DIP et al., 2015, publicaram um estudo prospectivo contemplando a participação de 71 pacientes. Esses indivíduos foram divididos em 2 grupos com base em seus respectivos índices de massa corporal. Desse total de pacientes, 53,5% foram classificados como obesos. Não foram relatadas complicações relacionadas ao emprego da ICG. O ducto cístico foi identificado sob iluminação fluorescente em 100% dos casos. Os ductos hepáticos foram identificáveis em 70,4% dos pacientes. O ducto colédoco era visível em 87,3% dos pacientes antes de qualquer dissecção. Não foram detectadas diferenças significativas na visualização do ducto hepático, ducto colédoco e do ducto acessório nos grupos obeso e não obeso (p>0,05). Diferenças estatísticas siginificativas na visualização do ducto cístico não foram observadas quando comparado indivíduos obesos e não obesos (p>0,05).6

Contudo, Osayi et al., 2015, relataram que pacientes com o índice de massa corporal menor que 30 tiveram uma visualização do ducto cístico um pouco melhor do que naqueles com o índice de massa corpórea maior que 30 (p>0,05). Apesar disso, a visualização da junção ducto cístico com o ducto hepático comum foi estatisticamente significativa, sendo comprometida nos pacientes com índice de massa corporal maior que 30 (p<0,05).15

COLANGIOGRAFIA FLUORESCENTE INFRAVERMELHA COM VERDE DE INDOCIANINA EM QUADROS CLÍNICOS INFLAMATÓRIOS COMPLEXOS

Hiwatashi et al., 2018, efetuaram um estudo com 65 pacientes submetidos a CL usando colangiografia com ICG em casos de litíase biliar, pólipos e colecistite aguda. Teve como objetivo avaliar as características da colangiografia por ICG intra-operatória em CL para diferentes condições clínicas complexas e registrar o delineamento do ducto cístico. A colangiografia fluorescente identificou o ducto cístico em 54 pacientes, ao passo que em 11 pacientes não foi possível identificar essa estrutura. O valor médio do índice de fluorescência no grupo em que foi possível se identificar o ducto cístico foi do 87,6 enquanto que no grupo no qual o ducto cístico não foi identificado o valor médio do índice foi de 24,4. Uma diferença significativa foi observada nesses dois grupos com o (p < 0,05). Ressalta-se que o índice de fluorescência em questão é um indicador com unidade arbitrária. Se constatou que nos casos nos quais o índice de fluorescência é menor, ou seja, em casos clínicos inflamatórios mais proeminentes, que uma quantidade maior de ICG deve ser empregada para visualização do ducto cístico. Nos pacientes em que não foi possível identificar o ducto cístico devido ao quadro inflamatório mais intenso, observou-se uma contagem de células brancas maior com o (p < 0,05), maior nível de proteína C reativa (p < 0,05), tempo operatório maior (p < 0,05), maior incidência de colecistite aguda (p < 0,05) e maiores índices de conversão (p < 0,05). Enquanto isso não se observou diferença significativa nos níveis das transaminases ou na presença ou não de litíase biliar entre os dois grupos. Apesar da inflamação ser um dos complicadores da cirurgia, a ICG mostrou-se extremamente útil mesmo nos casos inflamatórios complexos.10

 

DISCUSSÃO

Em relação à técnica da fluorescência infravermelha com ICG evidencia-se, por meio dos dados presentes na análise da literatura, que tal técnica não requer curva de aprendizado prolongada, sendo que a luz infravermelha auxilia o cirurgião durante a dissecção, transecção e ressecção das estruturas do trato biliar. A técnica de colangiografia fluorescente é uma ferramenta adicional e eficaz de imagem na CL, apresentando vantagens por ser um método economicamente viável sendo passível de ser realizado múltiplas vezes.7,13

Em relação ao tempo de administração da ICG na técnica de colangiografia fluorescente infravermelha, constata-se que a aplicação de forma precoce da ICG seria mais eficaz em relação ao uso desse mesmo corante no momento intra-operatório. Por conseguinte, essas condições possibilitariam bons resultados de imagem com o mínimo contraste do parênquima hepático em detrimento ao trato biliar, apresentando, assim, boa aplicabilidade do método nesses parâmetros temporais.2,15,17,18

Outro aspecto discutido foi a realização de CL comparando os métodos de colangiografia intra-operatória por raios-X, técnica já consagrada, com a colangiografia fluorescente infravermelha com verde de indocianina. Tal análise buscou distinguir ambas tecnologias quanto a identificação da vias biliares. Muitos estudos mostraram a grande eficácia da colangiografia fluorescente em comparação com a colangiografia intra-operatória, sobretudo na visualização do ducto cístico. Ressalta-se que os custos e o tempo de uso das salas operatórias foram menores na colangiografia fluorescente. Novos estudos com números amostrais maiores talvez sejam necessários para avaliar a eficácia da colangiografia fluorescente em comparação com a colangiografia intra-operatória, buscando avaliar sua eficácia no contexto de inflamação aguda e na identificação de cálculos de ducto colédoco.5,7,12,15

Na contexto da CL por meio da técnica laparoscópica com obtenção de imagens por via clássica, quando comparada à colangiografia fluorescente infravermelha com verde de indocianina, na literatura revista, constatou-se a identificação mais precoce do ducto colédoco e do ducto cístico no método fluorescente. Apesar da identificação do ducto colédoco ter sido mais precoce utilizando-se a colangiografia fluorescente, a falha em sua identificação em alguns casos pode estar relacionada ao posicionamento anatômico mais profundo dessa estrutura.17,18

Em relação à anatomia local, há evidências que sugerem benefícios da técnica de fluorescência infravermelha com verde de indocianina na detecção de variações anatômicas. Além disso, a colangiografia fluorescente pode trazer vantagens no que concerne à técnica de laparoscopia com incisão única.11

Além da aplicabilidade já discutida acerca do emprego da colangiografia fluorescente com ICG nas cirurgias robóticas, tem-se outra vantagem do método, a qual está correlacionada com a possibilidade do uso em procedimentos cirúrgicos de emergência no contexto da cirurgia robótica. Quadros clínicos complexos como colecistite aguda e gangrenosa são contemplados nessas circunstâncias. Ademais, a colangiografia fluorescente infravermelha com ICG na cirurgia robótica pode facilitar a identificação do Triângulo de Calot em pacientes obesos. O uso de colangiografia fluorescente é considerado uma técnica efetiva e segura na cirurgia robótica, sendo que o risco de atopia é mínimo e não há aumento no tempo do procedimento.13,18

No que tange ao uso da colangiografia fluorescente infravermelha com ICG em pacientes obesos, não foram encontradas diferenças relevantes na identificação das estruturas biliares com essa técnica em indivíduos obesos e não obesos. Apesar do excesso de gordura corporal dificultar a penetração de luz fluorescente, de acordo com as pesquisas observadas, isso não impede a realização do procedimento.6,15

Dentre os aspectos levantados na literatura base no que diz respeito ao emprego da colangiografia fluorescente infravermelha com ICG em casos clínicos complexos, tem-se a constatação da necessidade de uso de uma maior quantidade verde de indocianina em quadros clínicos inflamatórios exuberantes. Entretanto, pelo fato da referência utilizada se tratar de um estudo de controle e amostragem não randomizado, mais estudos neste contexto são necessários para corroborar tais conclusões.10

 

CONCLUSÃO

Os estudos analisados concluíram que a técnica de colangiografia fluorescente infravermelha com verde de indocianina apresenta inúmeras potencialidades no que se concerne à colecistectomia laparoscópica.

Dentre as aplicabilidades, tem-se uma melhor visualização e manipulação das vias biliares, incluindo quando há presença de variações anatômicas, bem como em quadros clínicos inflamatórios exuberantes. Ademais, evidencia-se a aplicação da técnica em cirurgias robóticas e em colecistectomias laparoscópicas realizadas em pacientes obesos.

A colangiografia fluorescente infravermelha com ICG apresenta vantagens quando comparada à colangiografia intra-operatória por raios-X. Dentre essas vantagens, evidencia-se a melhor observação da trama biliar e atesta-se que a técnica é segura, viável e uma alternativa não invasiva à colangiografia intra-operatória.

A colangiografia fluorescente propicia a identificação mais precoce do ducto cístico e do ducto colédoco em comparação à visualização laparoscópica convencional em CL.

A despeito dessas observações, notou-se a escassez de trabalhos brasileiros em relação à técnica, o que pode estar correlacionado a não realização da colangiografia fluorescente infravermelha com verde de indocianina no Brasil. Dessa forma, devido às potencialidades e vantagens já fundamentadas da técnica, acredita-se que a mesma deveria ser mais utilizada nas cirurgias brasileiras, sobretudo por não apresentar maiores custos e/ou aumento do tempo intra-operatório.

 

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