RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 29 e2031 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20190022

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Artigo Original

Desenvolvimento e aplicação de simulador de baixo custo para treinamento de lavado peritoneal diagnóstico

Development and application of low cost simulator for diagnostic peritoneal lavage

Carlos Magno Queiroz da Cunha1; Vinicius Farina Sartori1; Victor Andrade de Araújo1; Victor Ary Câmara1; Daniel Souza Lima1,2; Francisco Julimar Correia de Menezes1,2

1. Universidade de Fortaleza, Laboratório de Habilidades Médicas - Fortaleza - CE – Brasil
2. Universidade de Fortaleza, Internato de Cirurgia, Emergência e Trauma - Fortaleza - Ceará – Brasil

Endereço para correspondência

Carlos Magno Queiroz da Cunha
carlosmagnoqc@gmail.com

Recebido em: 12/06/2018.
Aprovado em: 09/07/2019.

Instituiçao: Universidade de Fortaleza, Laboratório de Habilidades Médicas - Fortaleza - CE – Brasil.

Resumo

OBJETIVO: Desenvolver e aplicar simulador de baixo custo para o treinamento de lavado peritoneal diagnóstico para estudantes de Medicina.
MÉTODOS: O modelo foi produzido com materiais acessíveis, com custo total de R$ 42 para a confecção e R$ 9 para mais 30 utilizações. O simulador foi avaliado por 6 cirurgioes e 22 acadêmicos de Medicina através de questionário Likert e a performance dos alunos foi avaliada por check-list padronizado.
RESULTADOS: 90,90% dos alunos e 100% dos cirurgioes concordaram que os modelos mantinham boa correlação anatômica, 63,64% dos alunos e 66,67% dos cirurgioes que o modelo pode ser reproduzido facilmente, 95,46% dos alunos e 83,33% dos cirurgioes que o modelo facilitou o entendimento do procedimento, números que atestam a eficácia e acessibilidade do modelo.
CONCLUSÃO: É possível construir um modelo de baixo custo para treinamento de lavado peritoneal diagnóstico utilizando materiais de fácil disponibilidade.

Palavras-chave: Educação Médica; Simulação; Capacitação; Lavagem Peritoneal.

 

INTRODUÇÃO

O lavado peritoneal diagnóstico (LPD) é um procedimento médico invasivo, utilizado predominantemente no trauma abdominal contuso e que tem como objetivo detectar lesões de vísceras abdominais em pacientes instáveis hemodinamicamente.1-3 Com sensibilidade de até 98% para detecção de sangramentos intraperitoneais, ele pode ser realizado pela técnica aberta, semiaberta ou fechada.4,5

O treinamento de procedimentos cirúrgicos invasivos deve ser realizado preferencialmente em simuladores, pois permite um ambiente protegido para o aluno e para o paciente, diminuindo o risco de iatrogenias e complicações em procedimentos reais. Além disso, o treinamento de LPD é importante quando são consideradas as limitações na disponibilidade de recursos materiais, como a ultrassonografia para realização do Focused Assessment for Sonography in Trauma (FAST).5

Diante disso, objetivamos desenvolver e aplicar simuladores de baixo custo para treinamento de LPD para acadêmicos de Medicina.

 

MÉTODO

Desenvolvimento do modelo

O modelo foi desenvolvido com materiais de fácil acesso, conforme o Quadro 1, custando R$ 42, sendo gastos mais R$ 9 para cada 30 reutilizações.

 

 

Podemos dividir a montagem em 3 partes (A, B, C), de acordo com a Figura 1. Primeiramente, realiza-se um corte quadrangular de 11x11cm no abdome inferior do manequim. Assim, podemos alocar o recipiente (B), com 10cm de diâmetro e de altura, no fundo desse, que abrigará o corante vermelho. Por fim, confecciona-se a parte C; ela será substituída a cada procedimento realizado e é composta por E.V.A. e esponja de estofados de 14x14cm, unidos por colagem ou grampeamento.

 


Figura 1. Projeto do manequim.

 

A: manequim; B: recipiente com água e corante vermelho; C: bloco (E.V.A. + esponja de estofado + plástico)

Aplicação

Após aprovação do Comitê de Ética da instituição (CAAE:30948814.2.0000.5052), os modelos foram testados e aprovados por 6 cirurgioes vinculados ao curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Esses modelos também foram utilizados durante curso teórico prático de Cirurgia para acadêmicos de Medicina. Nesse curso, 22 alunos assistiram aula teórica sobre o assunto e, após demonstração, realizavam o procedimento no manequim (Figura 2). Os alunos foram avaliados de acordo com Check-list (Quadro 2), com pontuação de 0 a 16. Os professores e os acadêmicos responderam questionário Likert em relação à percepção deles sobre o simulador.

 


Figura 2. Realização do procedimento no manequim.

 

 

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 6 cirurgioes vinculados ao curso de Medicina da UNIFOR e 22 acadêmicos de Medicina de 2 Instituições de Ensino Superior (IES), sendo 17 alunos (77,27%) da UNIFOR. 63,64% eram do sexo masculino e a média dos semestres é 3,71. Nenhum dos alunos tinha experiência prática com lavado peritoneal. A média e desvio padrao do check-list dos alunos foi de 11,6±2,6 quesitos corretos na avaliação. As perguntas e as respectivas porcentagens dos alunos e cirurgioes foram sintetizadas na Tabela 1.

 

 

DISCUSSÃO

A prática de procedimentos em simuladores tem grande importância na educação e na formação de profissionais de saúde, pois por meio destes é possível a capacitação e o aperfeiçoamento de habilidades.6-8 Tal aperfeiçoamento diminui os riscos de iatrogenia e aumenta as chances de efetividade do procedimento.9,10

Dentre a gama de simuladores, a utilização de modelos sintéticos de baixo custo se destaca devido ao seu uso simular um ambiente real, não trazer risco ao paciente e ter ampla acessibilidade.11,12 Nesse contexto, 90,90% dos alunos e 100% dos cirurgioes concordaram que o modelo de baixo custo de lavado peritoneal tem boa relação com a anatomia, assim, é efetivo para entender aspectos anatômicos encontrados durante a realização do procedimento, fato importante em procedimento com certo grau de complexidade e de risco de lesões como este.

Percebe-se que 95,46% dos alunos e 83,33% dos cirurgioes concordaram que o modelo ajudou no entendimento acerca do procedimento, o que corrobora com o fato de que o aprendizado e treinamento prático proporcionam melhor entendimento do procedimento em comparação a apenas aulas teóricas.

Assim, somando a aspectos do uso do modelo de lavado peritoneal, como didática para ensinar, efetividade no entendimento e aperfeiçoamento de habilidades, os alunos e médicos concordam que o modelo tem fácil reprodução. É importante ressaltar que o modelo pode ser confeccionado tanto em centros de ensino como na própria residência médica, o que permite ampla acessibilidade a esse tipo de simulador, sendo um método contundente para a formação e aperfeiçoamento de habilidades médicas.12

Apesar das vantagens da utilização desses tipos de modelo, encontramos limitações acerca do modelo apresentado, como a realização correta de todos os passos do procedimento, pois não é possível a passagem de sonda nasogástrica e sonda vesical, sendo apenas dito verbalmente pelo aluno. Além disso, não foi possível simular possíveis danos a estruturas abdominais quando passado o cateter, o que é uma potencial complicação do procedimento do lavado peritoneal.

 

CONCLUSÃO

É possível construir modelo de baixo custo de lavado peritoneal diagnóstico para treinamento de acadêmicos de Medicina. Ademais, o modelo aqui proposto, mesmo com baixo custo, é considerado na opiniao dos alunos e cirurgioes uma importante ferramenta de aprendizado, bem como permite a identificação de marcos anatômicos utilizados no procedimento e pode ser reproduzido facilmente.

 

REFERENCIAS

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