RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28. (Suppl.5) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180128

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Artigo Original

Análise do uso de hipodermóclise em pacientes oncológicos em Cuidados Paliativos internados em dois hospitais públicos de Belo Horizonte

Use of hypodermoclisis analysis in cancer hospitalized patients in palliative care in two public hospitals in Belo Horizonte

Isabela Macedo de Freitas1; Henrique Arenare de Oliveira2; Patrícia Graziela Braga1; Pedro Otávio Oliveira Santos2; Camila Oliveira Alcântara3; Tatiana Carvalho Espíndola4; Marco Túlio Gualberto Cintra5; Maria Aparecida Camargos Bicalho6

1. Acadêmica de Medicina do Centro Universitário de Belo Horizonte
2. Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
3. Médica especialista em Geriatria e CP. Membro da equipe de CP do HC-UFMG e médica clínica do Hospital Alberto Cavalcanti- FHEMIG
4. Médica Geriatra e membro da equipe de CP do HC-UFMG
5. Médico Geriatra, professor do departamento de Clínica Médica da UFMG
6. Médica Geriatra, professora do departamento de Clínica Médica da UFMG e médica clínica FHEMIG

Endereço para correspondência

Isabela Macedo de Freitas
Hospital Alberto Cavalcanti - Fundaçao Hospitalar do Estado de Minas Gerais - Fhemig. Hospital das Clínicas da UFMG
Belo Horizonte, MG - Brasil
E-mail: isabelamacedofreitas@gmail.com

Resumo

INTRODUÇÃO: A Organização Mundial de Saúde define Cuidados Paliativos (CP) como uma abordagem multidisciplinar que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças ameaçadoras da vida, por meio da prevenção e alívio de sofrimento, identificação precoce e tratamento da dor e dos demais problemas físicos, psicológicos e espirituais1. Pacientes oncológicos, cujos tratamentos não possuem propostas curativas, devem ser assistidos pela equipe de CP. Esses pacientes enfrentam, frequentemente, complicações clínicas como distúrbios hidroeletrolíticos, hemorragias, desidratação, dentre outras, sendo geralmente necessárias vias parenterais para administração de fluidos e medicamentos. Estes pacientes geralmente possuem importante fragilidade venosa. A hipodermóclise permite a administração de soluções e fármacos e evita punções venosas repetidas. Tal via apresenta a mesma eficácia da endovenosa, além de estar associada a menos eventos adversos.
OBJETIVO: Analisar o uso de hipodermóclise em pacientes oncológicos, com critérios para CP, internados em dois hospitais de Belo Horizonte.
MÉTODOS: Análise dos prontuários de 101 pacientes com o perfil do estudo, internados em 2017 e 2018 e avaliação das variáveis sócio-demográficas, clínicas e da utilização de hipodermóclise. Resultados: A hipodermóclise foi utilizada em 15,8% da amostra total, sendo que 97% dos pacientes necessitaram de via parenteral durante a internação. No Hospital das Clínicas, o índice de utilização foi maior em relação ao Hospital Alberto Cavalcanti, sendo 22,8% e 6,8%, respectivamente.
CONCLUSÕES: O índice de utilização de hipodermóclise nas instituições pesquisadas ainda é baixo. A instituição que possui equipe de CP apresenta maior uso da via subcutânea.

Palavras-chave: Cuidados Paliativos, Hipodermóclise, Oncologia

 

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu o termo Cuidados Paliativos (CP) em 1990 e o redefiniu em 2002 como uma abordagem multidisciplinar que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças ameaçadoras da vida, por meio da prevenção e alívio de sofrimento e da identificação precoce e avaliação minuciosa do tratamento da dor e dos demais problemas físicos, psicológicos e espirituais. Pacientes com doenças sem propostas curativas necessitam de assistência em todos os aspectos. Nesse sentido, os princípios dos Cuidados Paliativos visam: afirmar e valorizar a vida, considerar a morte um processo intrínseco, sem acelerá-la nem adiá-la, propiciar o alívio da dor, integrar os aspectos psicológicos, emocionais e espirituais e oferecer um sistema de suporte multidisciplinar ao paciente e seus familiares em busca de qualidade de vida e dignidade na assistência1.

Este conceito tem ganhado ainda mais destaque com o envelhecimento populacional e a transição epidemiológica vivenciados pelos países desenvolvidos e em desenvolvimento2.

O aumento da incidência de câncer no Brasil torna a demanda pelo serviço de CP cada vez maior. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer - INCA, estima-se a ocorrência de 600 mil novos casos de câncer no Brasil para os próximos anos. A maioria dos indivíduos diagnosticados com câncer apresenta doença avançada no momento do diagnóstico, sendo as neoplasias consideradas a segunda causa de morte no país3.

Assim, pacientes oncológicos, cujos tratamentos não possuem propostas terapêuticas curativas, são pacientes que devem ser assistidos e beneficiados pelos CP. Estes pacientes, principalmente em estágios avançados da doença, frequentemente enfrentam complicações clínicas como distúrbios hidroeletrolíticos, hemorragias, desidratação, disfagia, vômitos, dispneia e outras, sendo submetidos a internações recorrentes, com necessidade do uso de vias parenterais para administração de fluidos e medicamentos.

Entretanto, os estudos sobre o tema ainda são escassos e a prática dos CP não é tao difundida quanto necessário e é pouco exercida pela maioria das equipes e hospitais.

A hipodermóclise ou via subcutânea é uma excelente alternativa na assistência de pacientes em fase final de vida, pois permite a administração de soluções e fármacos e evita punções venosas repetidas, tendo em vista a fragilidade venosa desses pacientes e a consequente perda frequente dos acessos. Essa via apresenta a mesma eficácia da endovenosa, é segura, barata, menos dolorosa, possui menor incidência de eventos adversos, proporcionando maior qualidade de vida ao paciente4.

O presente estudo teve por objetivo analisar o uso de hipodermóclise em pacientes oncológicos, com critérios para CP, em dois hospitais gerais públicos de Belo Horizonte: Hospital das Clínicas da UFMG (HC) e Hospital Alberto Cavalcanti - rede Fhemig.

A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética e Pesquisa das instituições participantes, sob o número de parecer 2.107.594 (UFMG) e 2.171.722 (FHEMIG), e sob aprovação do GEP-FHEMIG 069/2017, conforme a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Os pacientes e seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

MÉTODOS

A seleção dos pacientes ocorreu por meio da busca ativa desses pacientes oncológicos com critério para CP, internados no Hospital das Clínicas da UFMG (HC) e no Hospital Alberto Cavalcanti (HAC) - rede FHEMIG, no período de janeiro de 2017 a janeiro de 2018.

O HAC atualmente conta com uma equipe de Cuidados Paliativos que atua exclusivamente no âmbito domiciliar, através de visitas periódicas aos pacientes. A equipe é composta por médico oncologista, psicólogo, assistente social, nutricionista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, enfermeiro e técnico de enfermagem. Inicialmente, esses profissionais receberam treinamentos a fim de se capacitarem e, atualmente, oferecem atendimento multidisciplinar.

Já no HC, existe uma equipe especializada em Cuidados Paliativos, que presta assistência hospitalar e ambulatorial desde 2009. Tal equipe realiza interconsulta quando solicitada, entretanto, os responsáveis por reconhecer o paciente em Cuidados Paliativos são as equipes assistentes.

Os critérios de inclusão foram: pacientes oncológicos, com idade maior que 18 anos, com Palliative Performance Scale (PPS) (anexo 1) inferior ou igual a 40%. Posteriormente, realizou-se análise de prontuários. A amostra constituiu-se de 101 prontuários, de indivíduos com idade entre 19 e 93 anos. Foram analisados os dados de prontuário quanto aos seguintes aspectos: idade, sexo, doença oncológica, tempo de internação, número de punções venosas, acessos centrais e de hipodermóclises.

 

RESULTADOS

Os dados de PPS e dados demográficos estao descritos na tabela 1. Entre os 101 pacientes recrutados, 16 foram submetidos à hipodermóclise (15,8% da amostra). No HC o índice foi maior em relação ao Hospital Alberto Cavalcanti, sendo 22,8% e 6,8%, respectivamente (tabela 2). Em relação ao acesso venoso periférico, foi utilizado em 97% dos pacientes, ao passo que 17% dos indivíduos foram submetidos a punção de acesso central.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Nossos resultados demonstram que a utilização da hipodermóclise como via de administração parenteral de fluidos e medicamentos foi baixa (15,8% dos pacientes que utilizaram acesso parenteral). A utilização desta via foi maior no HC em relação ao HAC, o que pode ser explicado pela presença da equipe de Cuidados Paliativos em âmbito hospitalar no HC.

Entretanto, mesmo no HC, onde a equipe hospitalar de CP é atuante, a utilização ainda é baixa, 22,8%. Tal fato demonstra a importância de preparo das equipes, através de cursos de capacitação.

O envelhecimento populacional e o aumento das doenças crônicas tornaram-se um desafio para a saúde pública, que construiu durante anos um modelo emergencista e voltado à cura. Nota-se uma lacuna na formação dos profissionais de saúde no Brasil, pois o currículo acadêmico das universidades é curativista, uma vez que ensina os alunos a lidarem com as patologias e seus tratamentos, entretanto não abordam a morte e o morrer de maneira efetiva. Dessa forma, o futuro profissional, entende o fim da vida como fracasso e tende a utilizar os mais diversos recursos até o último momento. Sugerimos a reavaliação dos currículos dos cursos da área de saúde com o objetivo de aprofundar a discussão e o aprendizado sobre os cuidados paliativos.

As limitações deste trabalho estao relacionadas a natureza observacional do estudo e ao fato de somente dois hospitais terem sido avaliados comparando a efetividade da equipe de cuidados paliativos. Há necessidade de replicação deste estudo para determinação da efetividade das equipes de cuidados paliativos no ambiente hospitalar.

 

CONCLUSÃO

Apesar de a literatura comprovar a eficácia e o baixo risco da hipodermóclise, especialmente no grupo de pacientes oncológicos, o índice de utilização nas instituições pesquisadas ainda é baixo. A instituição que possui equipe de CP apresenta uso maior desta via de acesso para infusão de fluidos para pacientes sob CP.

Constatou-se a necessidade de capacitação e reforço sobre o benefício da via em ambos os hospitais, a fim de ampliar o uso dessa técnica e melhorar a assistência aos pacientes em CP.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a equipe de profissionais dos hospitais Alberto Cavalvanti e Hospital das Clínicas-UFMG, aos pacientes e às famílias que participaram da pesquisa.

Agradecemos também à FAPEMIG pelo apoio financeiro na modalidade de bolsas de iniciação científica institucionais FHEMIG.

Declaro a ausência de qualquer interesse pessoal, comercial, acadêmico, político ou financeiro na publicação do mesmo.

 

REFERENCIAS

1. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de cuidados paliativos. 2 ed.; 2012.

2. Omran A. The epidemiologic transition: a theory of the epidemiology of population change. Milbank Quarterly. 2005; 83(4):731-57.

3. INCA. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2018. Disponível em http://www.inca.gov.br/estimativa/2018/. Acessado em: 06/2018.

4. Marques C, Nunes G, Ribeira T, Santos N, Silva R, Teixeira R. Terapêutica subcutânea em cuidados paliativos. Rev Port Clin Geral. 2005; 21(6):563-8.

5. Peixoto AP. Cuidados paliativos. Sociedade de Tanatologia e Cuidado Paliativo de Minas Gerais; 2004.

6. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. O uso da via subcutânea em Geriatria e Cuidados Paliativos. SBGG; 2016.

7. Junior FA. Subcutaneous hydration by hypodermoclysis. A practical and low cost treatment for elderly patients. Drugs Aging 2000; 16(4):313-9.

 


Anexo 1: Palliative Performance Scale (PPS)