RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 28. (Suppl.5) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20180113

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Artigos Originais

Avaliação da qualidade da prescrição em um hospital terciário especializado em urgência e trauma

Prescription quality evaluation in a specialized tertiary hospital in emergency and trauma

Paloma de Oliveira Farias1; Adriana Lucia Ferris de Assunçao2

1. Fundaçao Hospitalar do Estado de Minas Gerais - Hospital Joao XXIII. Farmacêutica. Mestranda em ciências aplicada a saúde do adulto-UFMG
2. Fundaçao Hospitalar do Estado de Minas Gerais Farmacêutica. Residente em farmácia pela FHEMIG-Hospital Joao XXIII

Endereço para correspondência

Paloma de Oliveira Farias
Fundaçao Hospitalar do Estado de Minas Gerais -FHEMIG. Hospital Joao XXIII
Belo Horizonte, MG - Brasil
E-mail: paloma_oliveiraf@hotmail.com

Resumo

INTRODUÇÃO: Os erros de prescrição, frequentemente presentes nos processos de cuidado à saúde, são falhas evitáveis de natureza multicausal e multiprofissional, que podem ocorrer em todas as fases do processo de medicalização. O impacto disso é o aumento das admissões hospitalares, prolongamento de internações e até mesmo óbitos. A identificação desses erros é parte importante na prevenção do cuidado.
OBJETIVO: Avaliar a ocorrência dos erros de prescrição no setor da internação de um hospital de urgência/emergência da rede pública brasileira, bem como identificar os tipos de erros e os medicamentos envolvidos.
METODOLOGIA: Realizou-se um estudo transversal com dados obtidos por meio da análise, pelo farmacêutico, de prescrições de novembro de 2015 a abril de 2016, no setor da internação do Hospital Joao XXIII. Para coleta dos erros de prescrição foram analisados os seguintes parâmetros: abreviaturas perigosas e omissões da frequência de administração, do diluente, do volume de diluição e da velocidade de infusão. Também foram avaliadas quais as classes de medicamentos mais envolvidos com esses erros.
RESULTADOS: No período estudado, foram analisadas 1800 prescrições. Das prescrições analisadas 10,64% apresentaram alguma inadequação. Dentre os erros nas prescrições 41% estavam relacionados à omissão do diluente a ser utilizado, 26,5 % à omissão da velocidade de infusão, 22 % à omissão do volume de diluição, seguido por 6,5 % à omissão da frequência de administração do medicamento e 4 % estavam envolvidos com o uso de abreviaturas consideradas perigosas.
CONCLUSÃO: A identificação dos erros de prescrição durante o cuidado contribui para o melhor entendimento da magnitude e fatores envolvidos, bem como para definição de melhores práticas a serem incorporadas para garantir a segurança do paciente no ambiente hospitalar.

Palavras-chave: Atenção farmacêutica avaliação de medicamentos, Uso de Medicamentos, Avaliação Pré-Clínica de Medicamentos.

 

INTRODUÇÃO

O Brasil tem ampliado suas ações no campo da segurança do paciente nas últimas décadas, com destaque para aquelas ligadas a ações de vigilância sanitária, criação da Rede Sentinela e ações para gerenciamento de riscos. Em 2013, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Segurança do Paciente, por meio da Portaria MS/GM nº 529 com o objetivo de contribuir para a qualificação do cuidado em saúde ao promover e apoiar a implementação de iniciativas voltadas à segurança do paciente1-5.

Erros de prescrições podem causar consequências graves para o paciente como; aumento do risco de reações adversas e piora do quadro clínico o que consequentemente acarreta um maior gasto financeiro nas instituições de saúde. Logo, adotar ferramentas de melhoria contínua da prescrição se faz necessário no processo assistencial6-10.

A RDC Nº 36, de 25 de julho de 2013 do Ministério da Saúde propoe ações na segurança da prescrição, uso e administração de medicamentos. Sendo assim, a identificação e a quantificação de falhas na terapia vao subsidiar resultados que podem fundamentar o desenvolvimento de adequadas estratégias na promoção do uso racional de medicamentos1-10.

O acompanhamento dos erros de prescrição pelo profissional farmacêutico é uma ferramenta valiosa para conhecer a frequência bem como contribuir para efetividade na prescrição. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo avaliar as freqüências de erros de prescrição no setor da internação de um hospital de urgência/emergência da rede pública brasileira, bem como identificar os tipos de erros e os medicamentos envolvidos.

 

MÉTODOS

Estudo transversal com dados obtidos por meio da análise, pelo farmacêutico, de prescrições de novembro de 2015 a abril de 2016, no setor da internação do Hospital Joao XXIII, que é um centro de excelência no atendimento a pacientes vítimas de politraumatismo, grandes queimaduras, intoxicações e situações clínicas e/ou cirúrgicas de risco iminente à vida.

As prescrições foram selecionadas de forma aleatória da seguinte forma; após a impressão de todas as folhas do dia, no qual foram enumeradas e por ordem de sorteio, foram selecionadas um total de 10 prescrições contemplando todos os setores de internação, dando um total de 1800 prescrições analisadas no final de 6 meses.

Para coleta dos erros de prescrição foram analisados os seguintes parâmetros: abreviaturas perigosas e omissões da frequência de administração, do diluente, do volume de diluição e da velocidade de infusão. Também foram avaliadas quais as classes de medicamentos mais envolvidos com esses erros.

 

RESULTADOS

No período estudado, foram analisadas 1800 prescrições dando um total de 14940 medicamentos prescritos o que corresponde à média de 8,3 medicamentos por prescrição. Das prescrições analisadas 10,64% apresentaram alguma inadequação.

Dentre os erros nas prescrições 41% estavam relacionados a omissão do diluente a ser utilizado, 26,5 % à omissão da velocidade de infusão, 22 % à omissão do volume de diluição, seguido por 6,5 % à omissão da frequência de administração do medicamento e 4 % estavam envolvidos com o uso de abreviaturas consideradas perigosas (Tabela 1).

 

 

As classes de medicamentos mais envolvidas com os erros de prescrição foram os antimicrobianos correspondendo a 30 %, seguido pelos analgésicos não opioides 25 % e fármacos usados em distúrbios gástricos 20%.Os analgésicos opioides e os antipsicóticos/sedativos foram responsáveis, cada um por 10% dos erros. Já os anti-inflamatórios não esteroidais corresponderam a 5 % dos erros nas prescrições (Tabela 2).

 

 

DISCUSSÃO

Observou-se que a média de 8,3 medicamentos por prescrição pode ser considerada elevada. No entanto, esse alto número de medicamentos prescritos pode ser justificado pelo perfil dos pacientes recebidos no hospital. Trata-se de pacientes com quadro clinico grave o que muitas vezes justifica o emprego da polifarmácia, o que consequentemente coloca-os em maior risco de desenvolvimento de reações adversas7-15.

Das prescrições analisadas aproximadamente 10% apresentaram alguma inadequação. Os maiores erros estavam envolvidos com os medicamentos injetáveis principalmente com relação às omissões de dados importantes nas prescrições como o nome do diluente, velocidade de infusão e frequência de administração. Um estudo semelhante, realizado no Hospital Israelita Albert Einstein em 2001, também mostrou uma prevalência elevada (9,2 %) de prescrições com erros16-20.

Isso representa um grande problema em relação à segurança do paciente, já que o responsável pela administração do medicamento (técnicos e auxiliares de enfermagem / enfermeiros) não é o mesmo que prescreve o medicamento (médico). Nesse hospital é bastante comum identificar diluições, feitas pela equipe de enfermagem de forma errada (diluente inadequado) ocasionando formação de grumos e consequentemente gerando perda do medicamento e elevação dos gastos com medicamentos na instituição4,5.

A omissão da velocidade de infusão do medicamento também representa um grande risco para o paciente visto que a infusão rápida de algumas classes de medicamentos, podem trazer danos graves ao paciente. Um exemplo é o caso da vancomicina, frequentemente esse antimicrobiano está envolvido com o surgimento de reações adversas graves como a Síndrome de Steven- Johnson que poderia muitas vezes ser evitada com a infusão lenta do medicamento6-10.

Embora o uso de abreviaturas perigosas corresponda a somente por 4 % das inadequações, ainda assim esse valor é representativo visto que o hospital em estudo possui um setor responsável pelo gerenciamento de riscos que em conjunto com a farmácia orienta frequentemente a equipe médica para evitar o uso de abreviaturas. Dentre as abreviaturas encontradas nas prescrições estavam a UI (unidade internacional) e a UE (unidades na escala), essa última mais frequente em pacientes pediátricos em que a dose a ser administrada é pequena. No entanto, o uso dessas abreviaturas pode gerar erros durante a dispensação e administração do medicamento13-15.

Dentre as classes de medicamentos mais envolvidas com os erros encontrados estavam os antimicrobianos injetáveis, como mostrado em outras pesquisas, principalmente em relação à omissão do diluente a ser utilizado na preparação da dose e a velocidade de infusão. O elevado número de erros envolvendo essa classe, pode ser justificado pela alto número de prescrição contendo esses medicamentos, e o desconhecimento por parte da equipe médica sobre o diluente adequado a ser empregado na administração do medicamento. Muitas vezes a decisão de qual diluente a ser utilizado fica a critério da equipe de enfermagem, quando esses não pedem informação para a farmácia. Para tentar diminuir esses tipos de erros a farmácia do hospital estudado já disponibilizou para a equipe médica e de enfermagem uma planilha contendo as classes de medicamentos mais utilizados no hospital e qual o diluente a ser utilizado4-20.

Dentre os medicamentos da classe dos analgésicos não opioides, mais envolvidos com as inadequações estava a dipirona 500mg/ml com via de administração endovenosa. Grande parte das prescrições não informava qual o diluente a ser utilizado nem o volume de diluição e a velocidade de infusão. Segundo estudos a administração da dipirona por via endovenosa deve ser realizada em infusão lenta após a diluição do medicamento, devido aos riscos de hipotensão severa15-16.

O medicamento, da classe dos fármacos usados em distúrbios gástricos, que mais estava associado aos erros nas prescrições foi a metoclopramida 5mg/ml administrada por via endovenosa. É preconizado que doses acima de 10 mg desse medicamento deve ser administrado em infusão lenta após diluição devido ao risco do paciente apresentar sensação transitória (mas intensa) de ansiedade e agitação, seguido de sonolência. Dentre os erros com a metoclopramida a maioria envolvia o volume de diluição e a velocidade de infusão para doses elevadas4,5.

 

CONCLUSÃO

A partir deste estudo, verificou-se que os erros de prescrição ocorreram em número considerável e em variáveis importantes, envolvendo todos os profissionais de saúde que atuam na atenção ao paciente. A maioria dos erros pode acarretar danos importantes ao paciente hospitalizado, evidenciando assim a necessidade de avaliação constante dessas ocorrências para sua prevenção, garantindo maior segurança e sucesso na terapêutica.

 

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