RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 26 e1787 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160087

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Artigos Originais

Fontes de estudo e pesquisa entre os estudantes de medicina

Sources of study and research among medical students

José Antonio Chehuen Neto1; Mauro Toledo Sirimarco1; Leandro Vinícius Vital2; Gabriela Guimarães Moreira Balbi3; Maria Clara Marangoni3; Valdenir da Silva Oliveira3; Renato Erothildes Ferreira4

1. Universidade Federal de Juiz de Fora-UFJF, Faculdade de Medicina, Departamento de Cirurgia. Juiz de Fora, MG - Brasil
2. UFJF, Hospital Universitário. Juiz de Fora, MG - Brasil
3. UFJF, Faculdade de Medicina. Juiz de Fora, MG - Brasil
4. UFJF, Faculdade de Medicina, Núcleo de Cirurgia Experimental. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

José Antônio Chehuen Neto
E-mail: chehuen.neto@yahoo.com.br

Recebido em: 26/05/2014.
Aprovado em: 17/03/2016.

Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora-UFJF Juiz de Fora, MG - Brasil.

Resumo

INTRODUÇÃO: Fontes de estudo são os recursos didáticos físicos que auxiliam o educando a realizar sua aprendizagem, constituindo-se em meio para facilitar, incentivar ou possibilitar o processo ensino-aprendizagem. A seleção dessas fontes é feita em função do objetivo a ser cumprido, que varia desde atividades curriculares a atualização científica.
OBJETIVO: Identificar as fontes de estudo e pesquisa utilizadas pelos estudantes de medicina e o critério de uso.
MÉTODO: Foi desenvolvido um estudo transversal com 262 participantes. Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado, com 12 perguntas de múltipla escolha. Foi utilizado o programa Microsoft Access® para a montagem do banco de dados e o programa Microsoft Excel® para a análise dos dados colhidos. A análise estatística foi quantitativa utilizando o programa Statistical Package for the Social Sciences® (SPSS).
RESULTADOS: Como fonte de estudo para uma prova: 70,6% utilizam livro, 52,7% dos alunos usam as aulas ministradas pelos professores, e as anotações próprias das aulas são utilizadas por 43,9%; 26,7% dos estudantes se julgam aptos a identificar uma fonte de estudo confiável; os principais critérios de seleção dessas fontes foram: a complexidade do conteúdo e o tempo. Observou-se que 23,5% dos alunos do segundo e quarto períodos consideravam possuir autonomia, valor que praticamente dobrou (45,8%) no sexto e oitavo períodos (p=0,002).
CONCLUSÕES: Apesar de se sentirem cada vez mais confiantes no uso das ferramentas disponíveis para a realização das provas à medida que o curso avança, não há unanimidade no reconhecimento de sua adequação para este fim; e a maioria dos estudantes busca sites confiáveis para a atualização científica, como o da Bireme.

Palavras-chave: Educação Médica; Estudantes de Medicina; Bibliografia de Medicina; Comportamento de Busca de Informação.

 

INTRODUÇÃO

Fontes de estudo são os recursos didáticos físicos que auxiliam o educando a realizar sua aprendizagem, constituindo-se em meio para facilitar, incentivar ou possibilitar o processo ensino-aprendizagem.1

A necessidade dos estudantes de medicina de construir seu conhecimento implica na busca de informação em fontes diversificadas. A seleção dessas fontes é feita em função do objetivo a ser cumprido pelo aluno,2 que pode variar desde as atividades curriculares habituais do estudante, como provas, até tarefas de investigação científica.

Dentre os veículos de divulgação da ciência, os periódicos das revistas científicas são os mais importantes,3 eventualmente se constituindo como a principal fonte para pesquisa. Sua confiabilidade é garantida por critérios consolidados internacionalmente, dentre os quais se destacam: revisão por pares, comitê editorial, regularidade de publicação e periodicidade, entre outros.4 A revisão por pares ou peer review system (emprego sistemático de colegas na assessoria dos editores das revistas na seleção dos artigos) é a ferramenta mais eficiente de avaliação das fontes.5 Os Documentos Institucionais, outro importante veículo, como relatórios ou informes, são submetidos a outras variáveis de avaliação, como "a vinculação institucional do documento, a indexação em bases de dados nacionais e internacionais, confiabilidade e significância dos dados publicados, entre outros".4

No ambiente universitário os estudantes também têm acesso à biblioteca, internet, a materiais disponibilizados pelos professores ou mesmo confeccionados pelos alunos. O acervo das bibliotecas universitárias geralmente é formado por "livros, folhetos, publicações avulsas, obras de referência, periódicos, material audiovisual, trabalhos de conclusão de cursos, dissertações e teses".6 A internet é uma das fontes de pesquisa mais importantes da atualidade,7 havendo grande disponibilidade de informações, que podem ser confiáveis ou não. Os professores geralmente oferecem apostilas, resumos e aulas digitalizadas, além da aula teórica, que é dos instrumentos mais usados em didática.8 Os materiais confeccionados pelos alunos incluem basicamente cadernos de anotações, resumos de livros e gravações de aula.

Há longo tempo vêm se delineando em nosso país medidas institucionais de aprimoramento do ensino superior, caracterizando-se por ampliações dos cursos e reformas físicas nas universidades, alterações quanto ao acesso às vagas, mudanças importantes quanto à construção curricular do curso médico, entre tantas outras. Neste contexto, ressaltam-se as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do Curso de Graduação em Medicina, que preconizam que os alunos devam adquirir autonomia intelectual e capacidade de tomar decisões, além de formar estudantes com propósito de exercer uma medicina integral e continuada. Para tanto, estabelece como necessário ao graduando "conhecer os princípios da metodologia científica, possibilitando-lhe a leitura crítica de artigos técnico-científicos e a participação na produção de conhecimentos".9

Assim, as importantes reformas estruturais na educação em nosso país motivam o questionamento quanto ao sucesso destas medidas e os resultados efetivamente alcançados. Esta pesquisa avaliou se os estudantes de medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) têm autonomia na construção de seu conhecimento. Buscou-se identificar se os alunos se consideram instruídos para definir critérios adequados para seleção das fontes de estudos e se fazem uso de fontes científicas confiáveis para a sua formação profissional.

 

MÉTODO

Trata-se de pesquisa aplicada, original, exploratória, de campo e de característica quantitativa. Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado, com 12 perguntas de múltipla escolha, acompanhado do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias. Antes da entrevista, os participantes foram informados sobre a garantia de anonimato.

Esta amostra abrangeu 320 estudantes do curso de Medicina da UFJF, avaliando quatro turmas do curso (2°, 4°, 6 ° e 8° períodos), que foram convidadas a responder o questionário voluntariamente, sem que isso acarretasse custo algum ou danos físicos, psicológicos ou sociais aos participantes. A pesquisa foi desenvolvida no período de maio a agosto de 2011.

Foi utilizado o programa Microsoft Access® para a montagem do banco de dados e o programa Microsoft Excel® para a análise dos dados coletados. A análise estatística foi quantitativa utilizando o programa Statistical Package for the Social Sciences® (SPSS) versão 16.0.2, de 2008.

Os critérios utilizados para inclusão na pesquisa foram: ser estudante de medicina da UFJF cursando o segundo, quarto, sexto e o oitavo períodos. A perda amostral foi considerada quando o questionário não foi devolvido, estava incompleto ou sem o TCLE assinado.

A participação na pesquisa acarretou riscos mínimos ao participante: o pesquisador não exerceu influência em nenhum aspecto do seu bem-estar físico, psicológico e social; além disso, a intimidade do participante foi preservada, em concordância com os parâmetros preconizados pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, que discorre sobre pesquisas envolvendo seres humanos.

A pesquisa foi devidamente submetida e aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da UFJF, segundo parecer de número 067/2011 e protocolo 0070.0.180.000-11.

 

RESULTADOS

A amostra analisada abrangeu 262 estudantes (o que representou 18% de perda amostral do total de 320 alunos), sendo que 46,9% (n=123) eram masculinos e 53,1% (n=139) eram femininos. Na amostra, 21,4% (n=56) pertenciam ao segundo período do curso, 27,1% (n=71) ao quarto, 25,9% (n=68) ao sexto e 25,6% (n=67) ao oitavo (Tabela 1).

 

 

Houve significância estatística quando relacionado o período do curso com a autopercepção de instrução na busca de informações em saúde (Tabela 2).

 

 

Quando relacionado o período do curso com a percepção dos estudantes de medicina quanto a possuírem autonomia na busca de conhecimento, observou-se que 23,5% dos alunos do segundo e quarto períodos consideravam possuir autonomia, valor que praticamente dobrou (45,8%) no sexto e oitavo períodos (p=0,002).

Ao elencar as fontes científicas utilizadas para estudar para uma prova, verificou-se que a maioria dos acadêmicos têm preferência por utilizar livros para estudar para uma prova: 70,6% (n=185; p>0,05). As aulas ministradas pelos professores e fornecidas aos alunos foram usadas frequentemente por 52,7% (n=138; p=0,002) dos estudantes. As anotações próprias das aulas foram usadas por 43,9% (n=115; p>0,05). Também em relação ao estudo para uma prova, as apostilas de cursos preparatórios para residência médica foram usadas frequentemente por 34,4% (n=90; p>0,05) dos entrevistados.

Na relação entre o período do curso com os critérios usados na escolha de uma fonte de estudo para se preparar para uma prova, observou-se que os critérios mais importantes foram: a complexidade do conteúdo para 55% (n=144; p=0,00) e o tempo (disponível para estudar), para 34,7% (n=91; p=0,036) da amostra. Facilidade de acesso (ao conteúdo) e modelo da prova (se discursiva ou objetiva) foram apontados como critérios menos importantes (p<0,05).

Ao enumerar as fontes utilizadas para executar um trabalho proposto pelo professor, verificou-se que: a maioria, 75,6% (n=198; p>0,05) dos graduandos, preferiu utilizar livros; enquanto os artigos científicos foram utilizados por 63,4% (n=166; p=0,04) e a internet por 56,9% (n=123; p=0,001). As apostilas dos cursos preparatórios para Residência Médica são frequentemente utilizadas por 24,4% (n=64) dos acadêmicos e sua relevância foi marcadamente maior no oitavo período do curso, pois 32,8% (n=22) dos integrantes desse período a utilizam (p=0,016).

Ao listar os critérios usados na escolha de uma fonte de estudo para executar um trabalho proposto pelo professor observou-se que: 49,6% (n=130) considerou complexidade do trabalho o primeiro critério, 30,2% (n=79) e que o tipo do trabalho foi o mais importante definidor da opção por determinada fonte. A disponibilidade de tempo para a realização do trabalho e a facilidade de acesso às fontes do trabalho foram considerados critérios menos importantes, valores não foram estatisticamente significativos nessa relação (p>0,05).

Ao serem questionados sobre as fontes utilizadas para atualização científica, 68,7% (n=180; p=0,013) dos alunos relataram fazer uso frequente de artigos científicos impressos ou virtuais, 59,5% (n=156; p>0,05) utilizam frequentemente livros, 53,9% (n=125; p=0,00) utilizam geralmente a internet, 32,8% (n=86; p=0,00) fizeram uso de material de cursos preparatórios de residência médica e 27,4% (n=72; p=0,038) relataram utilizar as aulas fornecidas pelo professor.

Ao se relacionar o período do curso com os critérios usados na escolha de uma fonte para atualização científica, observou-se que 37,4% (n=98) consideraram a data de confecção do material como mais importante (p=0,001). A complexidade do conteúdo, tempo e facilidade de acesso foram citados em ordem decrescente de importância, porém sem significância estatística (p>0,05).

Em relação aos sites usados na busca de informações na internet, constatou-se que cerca de metade dos alunos utilizou o site da Bireme (48,1%, n=126), sendo essa relação estatisticamente significante (p=0,001). O "Google acadêmico", "sites comuns de busca" e "sites de sociedades médicas, de hospitais, de especialidades" foram muito citados, enquanto a busca por meio de fóruns, blogs e da enciclopédia virtual Wikipédia foi pouco relatada pelos alunos, porém os valores não foram significantes (p>0,05).

Ao indagar os alunos sobre a adequação das fontes empregadas para realização de testes acadêmicos, 93,9% (n=246) julgaram utilizar as fontes adequadas, embora sem significância estatística (p>0,05). Entretanto, para realização de um trabalho acadêmico, a maioria também considerou escolher as mais adequadas: 91,6% (n=240; p=0,004). A atualização científica, entretanto, não apresentou resultado tão óbvio, pois 54,6% (n=143) consideraram utilizar as ideais enquanto que 45,4% (n=119) não compartilharam da mesma ideia (p=0,028).

Quando questionados se a escolha da fonte de estudo é adequada ou não para a formação desses estudantes como médicos, 40,8% (n=107) dos alunos responderam que não. (Tabela 3).

 

 

Ao serem questionados sobre a capacidade de identificação de fontes confiáveis de estudo, 26,7% dos estudantes se julgaram aptos (Tabela 4).

 

 

Na relação entre a capacidade de identificar uma fonte confiável e a autonomia na busca de informações em saúde, 65,7% (n=46) dos estudantes que se julgavam aptos a identificar uma fonte de estudo confiável também se julgaram autônomos na busca de informações em saúde (p=0,000) e 75% (n=45) dos estudantes que se julgavam aptos a identificar uma fonte confiável utilizavam a Biblioteca Virtual em Saúde como primeira opção de busca por material de estudo na internet (p=0,001).

Ao relacionar autonomia na busca de informações médicas e a competência na busca da fonte no que diz respeito à sua atualização científica, 69,4% (n=182) dos estudantes que se julgaram autônomos também se consideraram competentes na busca de informação para sua atualização científica (p=0,002).

 

DISCUSSÃO

O recente contexto da saúde no Brasil está exigindo mudanças na educação médica tradicional, pois há alterações no perfil etário e epidemiológico da população e na relação médico-paciente, como já se observa na regularização do Novo Código de Ética Médica,10 entre outras mudanças. O médico passa a ser integrante de equipe multiprofissional e o paciente é cada vez mais provido de informações sobre sua saúde.

As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de graduação em medicina, aprovadas em 2001 e em vigor, têm como um de seus pilares a concepção e o tratamento do aluno como "sujeito da aprendizagem" e autônomo na aquisição de informações médicas.9 A competência informacional do graduando traduz-se na capacidade de acesso, na elaboração de estratégias de busca e na análise crítica do conteúdo adquirido, com a finalidade de solucionar problemas.11,12

Contribuindo também para concretizar o objetivo das DCNs de "participação ativa do aluno na construção do conhecimento e na integração entre os conteúdos",9 surge, na década de 90, o conceito de Medicina Baseada em Evidências, que se prestou a estimular a atualização e o aprimoramento da prática médica.13 De qualquer forma, é fundamental que os centros de ensino forneçam instrução adequada como subsídio à busca ativa do conhecimento por parte de seus alunos, conforme propõem as DCNs.

No meio acadêmico, a abundância de informações é comum a todas as disciplinas, ambientes de aprendizagem e níveis de instrução, mas deve-se levar em consideração que o aumento rápido e exponencial na quantidade de dados não necessariamente se traduz em conhecimento, pois é um processo que engloba percepção, análise, reflexão e interpretação das informações fragmentadas. Para que uma informação se converta em conhecimento, faz-se necessária uma reflexão acerca de sua pertinência, relevância e confiabilidade, implicando em pensamento crítico na busca de uma visão totalizante.14,15

No ambiente universitário, o ensino e a pesquisa dependem do uso de fontes atualizadas e relevantes de informação. É necessário educar os usuários nos serviços de disponibilização de dados, utilizando como ferramentas: a instrução, o treinamento, a apresentação de interfaces amigáveis, a divulgação de artigos e reportagens, tours, cursos de acesso a bases de dados, até a orientação bibliográfica.16 Estudo evidenciou que quase 45% dos médicos residentes da instituição disseram terem sido capacitados na busca de informações por meio de cursos enquanto estudantes de medicina.15 Resultado semelhante foi obtido em nosso estudo, pois apenas 20,6% (n=54) dos estudantes se julgaram instruídos na busca correta do conhecimento (Tabela 2).

Uma fonte ideal de informação deve conter atributos intrínsecos, como a confiabilidade, entendidos como o ato de dar crédito ao conteúdo e acreditar na fonte provedora da informação,17 o que ocorre quando existe a crença de que a pessoa provedora daquela informação possui conhecimento e habilidades para tal fim.18 O termo qualidade da informação não possui definição consensual na literatura.

Paim et al.,16 na tentativa de conceituá-lo, estabelecem três dimensões: transcendental, contingencial e intrínseca. A dimensão transcendente "implica o reconhecimento do valor da informação como absoluto e universalmente aceitável"; enquanto a contingencial engloba dois atributos: o formato do produto que oferece a informação (formal ou informal, sintético ou integral) e capacidade de atender ao usuário (relevância e eficácia da informação para o indivíduo); e a intrínseca, que diz respeito à confiabilidade, além de abordar os atributos: validade, precisão, completeza, novidade, atualidade, significado através do tempo e abrangência da informação.

Apesar da relação do estudante com os livros estar sendo fragilizada pelo aparecimento de novos suportes de informação, propiciados pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação,19 neste estudo, o livro foi considerado a principal fonte de estudo para prova por 70,6% da amostra, o que indica que os estudantes consideram o livro fonte de estudo confiável. Entretanto, vale relembrar que o aluno ainda necessita saber a data da publicação do texto em relação ao tema, para não obter informações obsoletas.

Os artigos científicos são considerados fontes confiáveis de informação, uma vez que publicados em periódico de boa reputação representam conceitos autorais e a confirmação da autenticidade científica. Isto é fornecido por profissionais capacitados que avaliam a pertinência temática do artigo e a qualidade do trabalho. A avaliação do trabalho científico depende, então, do editor científico responsável pelo início e fim do processo e da assessoria do avaliador.20

Outro meio utilizado para estudo pelos universitários são as apostilas, graças talvez à herança cultural proveniente dos cursinhos pré-vestibulares, que produzem material próprio a partir da agregação de fragmentos de várias obras.19 Nos últimos anos, intensificaram as apostilas dos cursos preparatórios (CP) para residência médica, amplamente divulgada e utilizada pelos estudantes. Estudo realizado na UFJF em 2006 apontava que quase 70% dos alunos dos 7°, 8° e 9° período do curso de medicina utilizavam material didático dos CPs, principalmente para estudarem para as provas, prevalecendo seu uso sobre a utilização do material indicado pelo meio acadêmico oficial.21

A fragmentação do conhecimento decorrente da confecção das apostilas dificulta ao estudante obter a compreensão global do conteúdo abordado.22 Com o uso de apostilas, por vezes, é muito difícil estabelecer a autonomia do aluno, uma vez que muitos desses materiais são voltados para o desenvolvimento da memorização com a apresentação de textos esquemáticos, limitando a reflexão sobre o tema estudado.23 O problema mais grave é a impressão de que esse material é a maneira mais prática de organizar o conhecimento, o que induz à falsa sensação de esgotamento do assunto.22

A internet disponibiliza enorme volume de informações, incluindo os meios tradicionais de divulgação em formato eletrônico, constituindo-se dos principais meios de pesquisa na área da saúde.7 Oferece recursos ainda não bem caracterizados e definidos na literatura, como os sites de busca e as bibliotecas digitais e virtuais. Não existe adequada avaliação do material disponível na rede, pois não há efetivo controle do que é divulgado, sendo necessária a análise criteriosa do conteúdo adquirido pelo pesquisador,24 daí a importância de educar o usuário da informação.16

Dentre os bancos de dados utilizados na área da saúde, citam-se: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed e Medline, ressaltando que o uso dessas importantes ferramentas exige um conhecimento mínimo para sua eficiente utilização. Em pesquisa realizada sobre o uso da internet como meio de pesquisa na área médica, dentre os médicos que afirmaram não a utilizarem para este fim, o motivo mais citado foi "não saber pesquisar". Entre médicos que utilizavam a internet como meio de atualização científica, as bases de dados foram os sites mais utilizados durante a pesquisa na internet.7 Resultado semelhante foi observado neste estudo, em que 48,1% (n=126) dos acadêmicos utilizaram a BVS quando buscam informações na internet.

As anotações de aulas são os materiais confeccionados pelos alunos pela transcrição dos pontos abordados pelo professor. Assim sendo, as anotações de aulas poderiam ser consideradas, teoricamente, fontes de conteúdo preciso. Entretanto, a transcrição das aulas está sujeita a equívocos, pois pode decorrer da interpretação do aluno e conter distorções entre o que foi dito pelo docente e o que foi anotado.

O mesmo é válido para a confecção de resumo de livros. Em ambos, a confiabilidade depende do grau de concentração do aluno no momento da transcrição, desde que não é revista. Além disso, essas anotações podem conter somente os pontos principais da aula, necessitando de complementação por meio de pesquisa em outras fontes. O que pode servir como motivação na busca de conhecimento, fato que foi apontado por estudo sobre percepção da aplicabilidade da Medicina Baseada em Evidência, em que 16,5% dos acadêmicos entrevistados tinham como objetivo a complementação das aulas assistidas ao se atualizarem com informações científicas.13

Uma das características do curso de medicina é a elevada carga horária, ocupando em média 30 horas semanais, sem contabilizar o tempo com estudos individuais,25 estimado em aproximadamente 3 horas para cada hora de aula teórica assistida. Além disso, os alunos necessitam desenvolver o currículo paralelo, participando de monitorias, estágios, ligas acadêmicas, grupos de estudos, projetos de extensão, projetos de pesquisa, palestras, simpósios, congressos, entre outros.

A escassez de tempo, então, poderia ser utilizada como justificativa para que os alunos adotem "facilidade de acesso" e "tempo" como os principais critérios para a escolha das fontes de estudo e/ou pesquisa.18 Como esperado, neste estudo o tempo disponível foi dos fatores ao se escolher uma fonte quando a finalidade é fazer uma prova; no entanto, o fator determinante foi a complexidade do conteúdo abordado na avaliação em questão.

 

CONCLUSÕES

A minoria dos estudantes se sente instruída nas ferramentas ou meios corretos de busca pelo conhecimento médico, o que mostra a necessidade de aprimorar os processos de aprendizagem sobre este tema na graduação médica. Notamos também que os estudantes possuem dificuldades em identificar as fontes quanto à confiabilidade.

O nível de autonomia do estudante de medicina na busca de novos conhecimentos aumenta consideravelmente à medida que o curso avança, provavelmente devido às oportunidades curriculares naturais de aprendizado e pelo amadurecimento pessoal.

As apostilas de cursos preparatórios para residência médica são utilizadas pelos estudantes de medicina na preparação para provas curriculares e o uso aumenta com avançar do curso. No entanto, ao que nos parece, este material ainda não foi submetido à avaliação por especialistas da academia quanto ao nível de segurança de informação médica.

Quase todos os alunos entrevistados consideram suas fontes adequadas para realização de provas e atividades acadêmicas. No entanto, cerca de metade destes reconhece que as fontes utilizadas não são as mais adequadas para a formação médica e nem para atualização científica.

 

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