RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 26 e1780 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20160080

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Educação Médica

O ritual da consulta médica*

The ritual of medical consultation

Celmo Celeno Porto

Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Goiânia, GO - Brasil

Endereço para correspondência

Celmo Celeno Porto
E-mail: celeno@cardiol.br

Recebido em: 10/12/2015
Aprovado em: 30/01/2015

Instituição: Universidade Federal de Goiás -UFG, Goiânia, GO - Brasil.

Resumo

Jamais se poderá ignorar o ritual de uma consulta médica, mesmo com o desaparecimento dos símbolos tradicionais. É essencial cultivar o componente ritualístico da consulta: o médico e o paciente, um ao lado do outro, ambos sentados à volta de uma escrivaninha, ou o médico sentado ao lado de um leito onde repousa o paciente, ali devem estar os componentes simbólicos do ritual da consulta. Este encontro continua sendo um dos componentes de excelência da medicina que cuida e acolhe a pessoa e sua família em busca juntos da paz que todos almejam e merecem.

Palavras-chave: Medicina; Estudantes de medicina; Relações médico-paciente; Educação médica; Humanismo.

 

Os rituais, inerentes a todas as sociedades humanas, assumem diversas formas e desempenham importantes funções. A consulta médica é um momento ritualístico, por excelência, e não pode deixar de ser considerado como tal.

Os rituais coletivos são de fácil reconhecimento. Os mais comuns são os religiosos, os esportivos, os musicais, os turísticos e os políticos. Em todos eles, os componentes simbólicos são sempre explorados ao máximo, porque, embora não façam parte do conteúdo do que está sendo ritualizado - solenidade religiosa, comício político, show artístico, disputa esportiva -, eles reforçam o objeto central - a oração, a música, o jogo, a doutrinação. Daí, a grande importância do componente simbólico dos rituais. As mesmas orações em voz baixa em uma capela silenciosa repercutem de modo diferente nos participantes do que as realizadas em uma catedral repleta de luzes, música, vestes coloridas e cânticos.

Os elementos simbólicos observados nos rituais são os mais variados - roupas, gestos, palavras, sons, músicas, aromas, luzes.

Os rituais de cura acompanham a humanidade desde os primórdios da medicina, em seu amplo sentido. Tanto podiam ser coletivos como individuais. Os mais antigos, parte essencial das atividades dos xamãs e pajés, quase sempre eram públicos e coletivos. Estes rituais foram herdados pelos pais e mães-de-santo e pelos pastores de algumas denominações evangélicas, que os usam com grande eficiência para a "cura" dos males do corpo e do espírito. Aliás, não há porque duvidar da veracidade das "curas" que ocorrem durante estes rituais que associam religião e práticas curativas. O efeito psicológico dos rituais é mais forte do que o efeito placebo das pílulas, intervenções e cirurgias. A explicação está no poder simbólico que acompanha os passes, os toques, as orações, as beberagens. O fato de serem coletivos confere a estes rituais uma estranha e contagiante força.

A medicina e os médicos têm seus rituais. A consulta é um deles. Aliás, naquele momento é que se realiza o ato medico básico, o qual não pode ser banalizado.

O jaleco branco ou em cores claras, usado por um médico em seu consultório ou hospital, pode ser considerado como um símbolo ritualístico. Além de seu aspecto utilitário - manter a higiene, evitar sujeiras e contaminação, para o que, diga-se de passagem, tem pouca eficiência - pode ser considerado como um símbolo da figura do médico.

Associam-se ao jaleco branco, como símbolo ritual, a profissão médica, repositório de conhecimento especializado e inacessível, poder para coletar uma história médica e obter detalhes íntimos das pessoas, desnudar o corpo e a vida dos pacientes, prescrever medicamentos ou outros tratamentos, internar em hospitais as pessoas doentes, muitas vezes, contra a vontade delas, controlar os subordinados na hierarquia profissional, aliviar o sofrimento, confiabilidade e eficiência, respeitabilidade e status social elevado, renda elevada, familiaridade com a doença e o sofrimento, tomar decisões de vida ou morte. Tudo isso faz parte do componente ritualístico da atividade de um médico, nem sempre visíveis, mas sempre presentes.

Outros símbolos subsidiários que foram sendo incorporados são o estetoscópio e o crachá com fotografia com o nome precedido da palavra mágica, reduzida a duas letras: "Dr".

A potencialidade desses símbolos é evidenciada na publicidade de medicamentos veiculados na televisão, na internet ou em jornais, quando aparece uma pessoa de jaleco branco, cujo objetivo é simbolizar ciência e confiabilidade.

Tais símbolos são perfeitamente comparáveis aos talismãs, galhos de plantas, penas de aves, estatuetas que simbolizam as poderosas forças de cura de pajés e xamãs, ou a água-benta dos padres e pastores. Assim também são os ternos bem cortados e os exemplares de textos bíblicos ricamente encadernados nas mãos dos pastores, nos templos ou na televisão.

Uma pesquisa realizada na Inglaterra1 revelou que 64% dos pacientes admitiram que a maneira como os médicos se vestiam, em particular, roupas brancas ou jaleco, inspirava confiança na habilidade profissional desses indivíduos. Esses mesmos pacientes preferiam que seus médicos não se vestissem de modo informal.

Além da consulta, diversos rituais estão ligados a outros momentos do processo saúde-doença e ao adoecer-curar. O que acompanha a hospitalização de um paciente é muito típico. O afastamento do paciente de sua vida cotidiana é reforçado, privando-o de suas roupas, que são substituídas por um uniforme (pijama ou camisola) com cores padronizadas, quase sempre de tamanho inadequado para ele ou para ela, geralmente muito curto e apertado ou muito grande e folgado! Em nome de que e para que isto é feito? Da higiene e para facilitar o "manuseio" do paciente. Mas, independentemente dos aspectos práticos, é inegável seu significado simbólico. Vestido daquela maneira, torna-se mais evidente sua condição de paciente, cujo papel ele deve representar corretamente.

Pode-se concluir, então, que o diagnóstico e o tratamento ocorrem em tempo e espaço ritualizados. Nesses ambientes, até mesmo os tratamentos mais técnicos são influenciados pela atmosfera ritualística que foi incluída por Balint no "efeito droga" do próprio médico.2

Os mecanismos responsáveis pelo efeito dos rituais podem ser classificados em três grupos que se superpõem: psicológicos, sociais e protetores.3

Durante a consulta, principalmente na primeira, o paciente se encontra perdido e assustado, procurando recuperar sua saúde, e ele sabe que não pode reencontrá-la sozinho. A presença de um médico que o ouça com suas explicações para a doença e o tratamento convertem o desconhecido - a doença -, em algo conhecido, o diagnóstico. Com isso, dissipam-se as inseguranças e a ansiedade. Essa situação pode ser transposta para os encontros entre os pacientes e todos os profissionais de saúde. Todavia, a consulta médica, principalmente a inicial, é quando o valor ritualístico do momento torna-se mais evidente. O primeiro laço afetivo surge (ou não) no primeiro olhar. Seria um resquício da medicina mágica? Se for, merece ser mantido!

Os mecanismos sociais se juntam aos psicológicos, e os protetores se associam a ambos. Tais mecanismos aumentam seus efeitos nos "grupos de apoio", sejam eles quais forem: o de gestantes no pré-natal, os de dependentes químicos, hipertensos, diabéticos, portadores de AIDS e outros. Aliás, a reunião desses grupos é muito parecida com as sessões coletivas dos xamãs ou de seitas religiosas!

Os "grupos de apoio", além de socializar conhecimentos e técnicas, desencadeiam mecanismos psicoemocionais que dissipam inseguranças, medos, culpas, ansiedade. E isso tem efeito curativo!4

Os estudos sobre os rituais relacionados com o processo saúde-doença indicam que eles estão perdendo força ao longo da história da humanidade. Quanto mais desenvolvida a sociedade, mais questionados são os símbolos tradicionais. No seu lugar surgem os símbolos que caracterizam a sociedade materialista e consumista: não mais o jaleco branco e o estetoscópio, mas, agora, o terno caro, a gravata de seda e o computador de última geração.

Seja como for, jamais se poderá ignorar o ritual de uma consulta, mesmo com o desaparecimento dos símbolos tradicionais. Continua válido cultivar o componente ritualístico da consulta: o médico e o paciente, um ao lado do outro, ambos sentados à volta de uma escrivaninha, ou o médico sentado ao lado de um leito onde repousa o paciente, ali devem estar os componentes simbólicos do ritual da consulta.

Este é outro - e importante - componente da medicina de excelência.

 

REFERENCIAS

1. Mckinstry B, Wang JX. Putting on the style: what patients think of the way their doctor dresses. Br J Gen Pract. 1991;41(348):270, 275-8.

2. Balint M. The doctor, his Patient and the Illness. Edinburgh: Churchill Livingstone; 1957.

3. Helman CG. Cultura, Saúde e Doença. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.

4. Koenig HG. Medicina, Religião e Saúde. O encontro da ciência com a espiritualidade. Porto Alegre: LPM; 2012.

 

* Texto extraído da obra: Porto CC. Carta aos estudantes de Medicina. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2014. Autorizado pela Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2015.