RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 21. 2

Voltar ao Sumário

Editorial

A medicina geriátrica e seus desafios

Ulisses Gabriel de Vasconcelos Cunha; Débora Pereira Thomaz

 

Cuidar do idoso vai muito além da conduta terapêutica no sentido estrito. É estar atento à qualidade de vida, aos níveis de autonomia e independência, ao meio ambiente social e físico. É estar compromissado com a promoção da saúde, com a prevenção de enfermidades, assim como com o tratamento adequado de quaisquer condições vigentes.

A Geriatria, ramo da Medicina que trata de idosos, tem como principal ferramenta a abordagem individualizada e sistematizada conhecida como avaliação geriátrica ampla (AGA). Este modelo de abordagem teve início no final da década de 40 na Europa e busca realizar diagnóstico físico, cognitivo, do afeto, nutricional, social, familiar e comunitário. Após essa avaliação, comumente interdisciplinar, traça-se um plano terapêutico que busca a qualidade de vida a partir da manutenção da funcionalidade e da redução da morbidade.

Para uma boa avaliação do idoso, faz-se necessária busca ativa, aparelho por aparelho. Isto porque, muitas vezes, sinais e sintomas de alerta são interpretados pelos pacientes e seus familiares como próprios da idade, como se o envelhecer estivesse fatalmente associado a insuficiência funcional e enfermidades. Exemplo clássico é o do paciente que cai. Apesar das quedas estarem relacionadas ao aumento da morbimortalidade, é comum a sua omissão nos consultórios médicos. Atenção especial deve ser dada às chamadas grandes síndro-mes geriátricas geradoras de dependência, conhecidas com os "Is" da Geriatria: instabilidade de marcha e quedas, incontinência urinaria, imobilidade, insuficiência cognitiva e iatrogenia.

Os desafios em geriatria são vários:

As alterações fisiológicas relacionadas à idade afetam a farmaco-cinética e a farmacodinâmica dos medicamentos, modificando a sua distribuição, metabolização e eliminação. Além disso, o risco de interação medicamentosa é mais alto, já que os idosos, frequen-temente, utilizam elevado número de fármacos, particularmente aqueles com maior potencial em ocasionar efeitos colaterais, como os cardiovasculares e os psicotrópicos.

As enfermidades, frequentemente, particularmente no muito idoso, manifestam-se de forma atípica e inespecífica, retardando e dificultando o diagnóstico. É comum a família recorrer ao psiquiatra porque o paciente iniciou quadro de confusão mental quando, na realidade, trata-se de infecção do trato urinário ou pulmonar manifestada como delirium.

Existe, muitas vezes, dificuldade em se estabelecer diretrizes diag-nósticas, terapêuticas e preventivas baseadas em evidências científicas devido à escassez de estudos neste grupo etário, particularmente naqueles acima de 85 anos, o que torna inadequada a extrapolação de resultados a partir de indivíduos mais jovens.

No Brasil, a assimilação dos conceitos básicos da especialidade por médicos de diferentes áreas que cuidam de idosos tem sido um processo lento e gradual, o que se explica, em parte, pela ausência da cadeira de geria-tria na maior parte dos currículos dos cursos de graduação das nossas faculdades de Medicina.

No entanto, progressos têm sido óbvios nos últimos anos. A compreensão de que idosos fragilizados deveriam ser cuidados por médicos generalistas com treino básico em Medicina de idosos já é plenamente aceita por grande parte das comunidades médica e leiga.

A menos que grandes mudanças ocorram, nosso país enfrentará grave crise em torno do ano 2025 devido ao envelhecimento populacional. Ó sistema de saúde sofrerá grande pressão, devido ao expressivo número de pacientes idosos com alto grau de dependência secundária a doenças físicas e crônico-degenerativas.

A chamada geriatrização da Medicina é um fenômeno universal e cada vez se tornará mais evidente.

Atualmente, nos nossos hospitais gerais, mais de 60% dos pacientes admitidos já são idosos, a maior parte deles muito idosos e estima-se que cada vez mais os leitos hospitalares serão ocupados por pacientes nesta faixa etária.

Não caberá, então, à comunidade médica outro caminho a não ser se familiarizar com as peculiaridades inerentes à Medicina geriátrica, o que compreende o planejamento de novas alternativas para a promoção da saúde e a assistência à saúde.

A Unidade de Geriatria do IPSEMG, como parte integrante do hospital geral, foi inaugurada em 1988, tendo, à época, papel pioneiro no nosso país. A residência médica em geriatria foi credenciada pelo MEC em 1993, constituindo a primeira residência em geriatria do estado de MG e também uma das pioneiras no Brasil. Nos últimos 18 anos, contribuiu para a formação de dezenas de médicos residentes em geriatria e das clínicas médicas, alem de estagiários procedentes de diferentes partes do Brasil. Foi ainda responsável pela publicação de três livros (Sinais e Sintomas em Geriatria, já na segunda edição; Atlas of Geriatrics; e Abordagem Multidisciplinar do Paciente geriátrico) e de dezenas de artigos em periódicos médicos nacionais e estrangeiros.

Para a melhoria da saúde nas próximas décadas, o foco deverá recair sobre as doenças crônicas em vez das agudas, sobre a morbidade em vez da mortalidade e sobre a qualidade de vida em vez da duração da vida.

O objetivo a ser perseguido e já em parte alcançado é o do envelhecimento ativo, ou seja, a manutenção da qualidade de vida à medida que se envelhece e que o mais alto grau de independência e autonomia seja mantido enquanto a vida existir.

 

Ulisses Gabriel de Vasconcelos Cunha
Coordenador da Clínica Geriátrica e da Residência Médica em Geriatria do IPSEMG, Membro Pesquisador Honorário em Medicina Geriátrica pela Universidade de Birmingham-Inglaterra, Fellow pela Sociedade Americana de Geriatria, Membro Titular da Academia Mineira de Medicina

Débora Pereira Thomaz
Médica Geriatra Preceptora da Residência de Geriatria do IPSEMG