RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150083

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Educação Médica

Cartas aos estudantes e médicos do Brasil

Letters to students and physicians in Brazil

Celmo Celeno Porto

Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da saúde da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO - Brasil

Endereço para correspondência

Celmo Celeno Porto
E-mail: celeno@cardiol.br

Recebido em: 10/09/2015
Aprovado em: 15/09/2015

Instituição: Universidade Federal de Goiás - UFG Goiania, GO - Brasil

Resumo

Os primeiros encontros com o paciente representam momentos marcantes na vida do estudante de Medicina e impregnam o seu futuro como médico. Constitui-se em oportunidade de se avaliar se realmente está disposto a enfrentar a missão de cuidar e acolher pessoas em situações em que se encontram, de um lado, o sofrimento, a agonia, o mal-estar e, de outro, a disponibilidade, a gentileza, a esperança, a entrega de paciente e médico com gestos e atitudes de serenidade e segurança. Nada substitui o conhecimento, a experiência e a sabedoria que se assimila no contato direto com o paciente, o que expressa a individualidade, cumplicidade, continuidade e privacidade. Só assim é possível perceber os elos entre a ciência e a arte médicas, o que descortina em sua plenitude o humanismo, mas não só, a prática humanitária que cinge a Medicina e o médico.

Palavras-chave: Medicina; Estudantes de Medicina; Relações Médico-Paciente; Educação Médica; Humanismo.

 

OS PRIMEIROS ENCONTROS COM O PACIENTE

Em primeiro lugar, quero lhe dizer que, ao entrar em contato com pacientes, você inicia uma nova fase de sua vida, e não apenas uma nova etapa do curso de Medicina. A grande diferença é que, deste momento em diante, talvez hoje à tarde ou amanhã de manhã, você estará à beira do leito de um paciente, fazendo a primeira ou uma das primeiras histórias clínicas de sua vida. Antes de qualquer cosa, volte-se para o âmago de sua mente e de seu coração e veja se é capaz de responder às seguintes perguntas: você está no lugar certo? É esta a profissão que realmente deseja exercer? Se você não puder respondê-las de imediato, reflita um pouco; talvez você só possa fazê-lo com segurança à medida que se relacione com os seus pacientes.

Agora, vá à luta: entreviste um paciente! Um momento... Não se esqueça de verificar se está vestido adequadamente, se seus sapatos estão limpos, se seus cabelos estão penteados; veja, enfim, se está dignamente preparado para sentar-se ao lado de um paciente. Preste muita atenção à linguagem que vai usar - ela deve ser correta, simples, clara e nenhuma palavra que sair de sua boca deve causar ansiedade ou criar dúvidas em seu paciente. Não sei se nesse momento você deve estampar um leve sorriso no rosto ou se seu semblante deve permanecer sério; isso vai depender das condições do paciente. De qualquer maneira, procure transmitir serenidade e segurança em suas palavras, gestos e atitudes. Sei que está inseguro, nervoso, indeciso em relação à semiotécnica, mas isso é normal. O importante é saber, desde o início, colocar acima de tudo a condição humana do paciente. E isso não é uma questão técnica; depende da maneira como você vê as pessoas.

Saiba de uma vez por todas que nada substitui o que se assimila no contato direto com o paciente. Livros, computadores, tablets, recursos audiovisuais servem apenas para facilitar e compreender o que se passa com ele. Por isso, a prática médica é trabalhosa e exige o cultivo de qualidades humanas que não se confundem com habilidades psicomotoras ou técnicas.

A meu ver, as qualidades humanas fundamentais na relação médico-paciente são: integridade, que é a disposição para agir de modo correto, seja o paciente quem for; respeito, que significa a capacidade de aceitar a condição humana do paciente, sabendo que ele se torna mais frágil e mais sensível pela própria doença; e compaixão, representada por interesse verdadeiro pelo sofrimento do paciente.

Permita-me, então, sugerir-lhe algumas posturas nessa fase de sua formação que podem ser úteis para o resto de sua vida como médico.

A primeira é: assuma, individualmente, o exame clínico do paciente; é entre você e ele. Faça de qualquer paciente "seu paciente". Não divida esses momentos com outro colega. Não tenho dúvida de que o aprendizado do exame clínico exige que o trabalho seja feito individualmente, tal como você fará em seu futuro consultório. Sei que foi interessante e proveitoso trabalhar em dupla ou em grupo em outras etapas do curso - nas salas de anatomia, nos laboratórios de bioquímica ou de habilidades, nas salas de patologia -, mas, agora, tem de ser apenas você e o paciente. Somente assim haverá condições para você compreender e aprender as experiências e as vivências que constituem o que denominamos relação médico-paciente. É bom que você tenha consciência de que as duas coisas podem ocorrer ao mesmo tempo: o aprendizado semiotécnico e o da relação médico-paciente. O primeiro é fácil de sistematizar, mas, por melhor que seja, por si só não é suficiente para uma boa prática médica. Tomar uma decisão clínica não é o mesmo que fazer um laudo de um exame complementar. A pessoa do paciente como um todo vai pesar muito nesse momento. Ele tem família, trabalho, preocupações, medo, esperança, expectativas. Leve em conta tudo isso. Ao fazer o exame clínico, preste atenção em você, no paciente e em algum membro da família que esteja participando. É necessário, também, que se perceba de imediato que a anamnese não se limita a uma série de perguntas que você vai fazendo e que o paciente vai tentando responder. Quem pensa que anamnese é isso jamais conseguirá ser um clínico! Muitos fenômenos estão acontecendo em sua mente e na do paciente. A obrigação de reconhecê-los é sua, sabendo que incluem, inevitavelmente, seu mundo afetivo e o do paciente. Não pense que você vai conseguir absolutamente neutro, distante, imperturbável. Aliás, se isso acontecer, é conveniente perguntar-se novamente: escolhi a profissão certa para mim? Mesmo que deseje ser assim, mais cedo ou mais tarde descobrirá que você não é um técnico consertando um robô. Aliás, de acordo com as leis da robótica, acredito que, no futuro, os robôs serão consertados por robôs. Em contrapartida, acho que os pacientes continuarão a ser cuidados pelos médicos!

A segunda sugestão que lhe faço é estabelecer cumplicidade com o paciente. Isso quer dizer muita coisa, mas vou resumir tudo em poucas palavras. Ainda que você não saiba diagnosticar nem possa prescrever qualquer medicamento ou realizar qualquer procedimento, não pense que sua presença e seu trabalho nada significam para ele. Torne-se cúmplice do paciente para que ele possa receber os melhores cuidados possíveis. Não perca essa oportunidade de aprender desde já que mais importante que diagnosticar, receitar ou operar é cuidar do paciente. É isso que você pode fazer até melhor do que o residente ou o professor que é "especialista" na doença do seu paciente. Saiba desde agora o segredo dos médicos de sucesso: eles cuidam dos seus pacientes!

Outra sugestão é que haja continuidade em sua relação com o paciente. Isso significa que cada paciente que entrevistar deve receber seus cuidados: que seja uma rápida visita diariamente até que receba alta ou, infelizmente isso vai acontecer, até seus momentos finais, se ele morrer. Aliás, não posso deixar de lhe dizer algumas palavras sobre a morte. Talvez, poucos queiram tocar neste assunto durante seu curso de Medicina. A verdade é que muitos de nossos pacientes apresentam doenças incuráveis, algumas fatais a curto prazo, e você tem de se preparar para essa eventualidade. A afirmativa de que cuidar dos pacientes é o que há de mais importante na profissão médica poderá ser comprovada com muita nitidez (e com algum sofrimento) ao lado de um paciente em fase terminal. O que você deve fazer em tais circunstâncias? Isso não posso resumir em poucas palavras. Descubra você mesmo. Mas de uma coisa eu sei: essa é a hora em que o lado humano da Medicina ocupa todo o tempo e o espaço que vai dedicar ao paciente. Aqui o valor da semiotécnica é quase zero. Então, o que vai valer? Seria uma palavra de conforto? Um gesto de apoio? Ou apenas a presença silenciosa? Só é possível saber vivenciando esses momentos (não se pode esquecer também de que cuidados paliativos são tão importantes como as intervenções curativas).

Falei da individualidade, cumplicidade e continuidade. Mas não poderia me esquecer de abordar outra questão: privacidade. Você e o paciente em uma sala tal como o médico em seu consultório seria a situação ideal. No entanto, sei que isso é quase impossível nas condições atuais, pois os hospitais universitários continuam apegados ao ultrapassado sistema de alojamentos coletivos. Na melhor das hipóteses, o que existem são aposentos com dois leitos. Mas, se você descobrir uma sala vazia perto da enfermaria ou do quarto de seu paciente, leve-o para lá, para criar privacidade, e aí você vai descobrir que a relação médico-paciente alcança níveis mais profundos, tal com você pensou que deveria ser. Não sendo possível fazer isso, procure criar um clima de privacidade, mesmo que haja na enfermaria outros pacientes, vários estudantes, enfermeiras e médicos. Às vezes o melhor a fazer é voltar em outras horas, quando a enfermaria estiver vazia!

Não quero me prolongar muito, pois sei da ansiedade para começar o aprendizado clínico. Permita-me terminar fazendo-lhe uma proposta: veja com seriedade o lado técnico do exame clínico e o execute com o máximo de rigor e eficiência - as oportunidades para desenvolver sua capacidade de se relacionar com os pacientes. Vale dizer: saiba identificar desde o primeiro paciente os fenômenos da relação médico-paciente. Assim fazendo, você poderá perceber os primeiros elos entre a ciência (médica) e a arte (médica). Aí, então, você verá descortinar-se diante de si o lado mais belo da Medicina. Exatamente o que o levou a escolher esta profissão: seu lado humano!

 

Texto extraído da obra: Porto, Celmo Celeno. Carta aos estudantes de medicina. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2014. Autorizado pela Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2015.