RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 25. 3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20150069

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Artigos Originais

Fatores nutricionais e sociais de importância para o resultado da gestação, em mulheres em acompanhamento na rede de atenção primária de Juiz de Fora

Important nutritional and social factors to pregnancy outcomes in women followed at primary care network of Juiz de Fora

Bárbara Danelon Andrade1; Ana Carolline Pereira Silva1; Marcela Thiago Mendes dos Santos1; Thais Campos1; Sheila Cristina Potente Dutra Luquetti2; Ana Paula Carlos Cândido3; Renata Maria Souza Oliveira4; Aline Silva de Aguiar Nemer5; Michele Pereira Netto6

1. Acadêmica do Curso de Nutriçao do Instituto de Ciências Biológicas-ICB da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
2. Nutricionista. Doutora em Ciências: Fisiopatologia Clínica e Experimental. Professora Adjunta do Departamento de Nutriçao/ICB da UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
3. Nutricionista. Doutora em Ciências Biológicas. Professora Adjunta do departamento de Nutriçao/ICB da UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
4. Nutricionista. Doutora em Saúde. Professora Adjunta do departamento de nutriçao/ICB da UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
5. Nutricionista. Doutora em Patologia. Professora Adjunta do Departamento de Nutriçao/ICB da UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
6. Nutricionista. Doutora em Ciências da Saúde. Professora Adjunta Professora Adjunta do Departamento de Nutriçao/ICB da UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Michele Pereira Netto
E-mail: michele.netto@ufjf.edu.br

Recebido em: 25/03/2014
Aprovado em: 26/07/2015
Suporte Financeiro: Apoio financeiro: PROEX (Pró-reitoria de extensao) e PROPESQ (Pró-reitoria de pesquisa) - Universidade Federal de Juiz de Fora - MG. Tipo de auxílio: Concessao de bolsas de iniciaçao científica e bolsa de extensao.

Instituiçao: Universidade Federal de Juiz de Fora. Instituto de Ciências Biológicas. Departamento de Nutriçao Juiz de Fora, MG - Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: a gestação requer elevadas necessidades nutricionais e, devido à sua alta vulnerabilidade, várias condições podem interferir na evolução normal da gestação, por isso o seu acompanhamento médico é importante.
OBJETIVOS: avaliar o estado nutricional e de saúde, analisar o consumo alimentar e investigar o perfil socioeconômico de gestantes atendidas em Unidades de Saúde de Juiz de Fora (MG).
MÉTODOS: trata-se de estudo observacional descritivo. O acompanhamento longitudinal iniciou-se no terceiro trimestre da gestação e durou até o primeiro mês pós-parto. A coleta de dados foi realizada na rede de atenção primária de saúde, em oito unidades básicas das regiões oeste e sul de Juiz de Fora, por meio de aplicação de questionários e avaliação antropométrica.
RESULTADOS: participaram do estudo 111 mulheres; a maioria apresentava-se eutrófica antes da gestação; mais da metade iniciou o pré-natal até o terceiro mês de gestação e realizou mais que sete consultas no total. Verificou-se que 20% apresentavam anemia gestacional. A amostra foi predominantemente constituída de população de baixa renda - meio salário mínimo ou menos. A ingestão média de macronutrientes estava entre as faixas de recomendação, sendo adequada. Observou-se consumo de dietas inadequadas em relação aos micronutrientes cálcio, ferro e ácido fólico.
CONCLUSÕES: as gestantes avaliadas tinham acesso aos serviços de pré-natal, porém notou-se falta de acompanhamento nutricional e de orientações em relação aos cuidados com a gestação.

Palavras-chave: Gestantes; Cuidado Pré-Natal; Estado Nutricional; Consumo de Alimentos; Período Pós-Parto.

 

INTRODUÇÃO

A gestação é caracterizada por período de intenso crescimento e desenvolvimento da mãe e concepto, com elevadas necessidades nutricionais decorrentes de ajustes fisiológicos. Sua alta vulnerabilidade e as várias condições que podem interferir na sua evolução associam-se ao seu prognóstico.1,2

A vigilância clínica durante o período gestacional é fundamental para promover, proteger e recuperar a saúde da gestante e do concepto.3 O Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento (PHPN) implantado pelo Ministério da Saúde, no ano de 2000, associou-se à melhoria progressiva dessa assistência.4 O número de consultas de pré-natal que resultaram em parto realizado no SUS aumentou de 1,2 consulta por parto em 1995 para 5,45 consultas por parto em 2005.5

Existem alguns fatores de risco associados ao comprometimento do resultado da gestação. A idade materna é um deles, considerando-se risco as gestantes adolescentes ou com mais de 35 anos. O estado nutricional é determinado principalmente pela ingestão de micro e macronutrientes e, portanto, alterações como a desnutrição ou obesidade na gestação afetariam o crescimento fetal.6 A paridade também é fator de risco, especialmente quando associada à idade elevada ou ao excesso de peso. Estudos revelam que o aumento do índice de massa corpóreo (IMC) ocorre proporcionalmente ao número de filhos.7 O intervalo interpartal, quando é inferior a 24 meses ou superior a 60 meses, constitui outro fator para o comprometimento gestacional.8

As complicações na gravidez também estão relacionadas a fatores de risco. Sabe-se que doenças como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, cardiopatias e anemia podem prejudicar tanto a saúde da mãe quanto do feto. O tabagismo e o uso de álcool afetam o crescimento e o desenvolvimento fetal, como observado9 com 150 puérperas, ressaltando a influência dessas substâncias sobre o peso, comprimento e perímetro cefálico dos recém-nascidos.

Outro fator importante são as condições socioeconômicas. O nível de escolaridade, a ocupação, o estado civil e a renda pessoal e familiar são fatores que refletem diretamente na saúde das mulheres.10

A avaliação do consumo alimentar e da suplementação durante o processo gravídico são importantes para detectar déficits nutricionais e hábitos inadequados, com vista a adequar as necessidades de nutrientes nesse período e a evitar alterações no estado nutricional, permitindo um prognóstico favorável à saúde da mãe e filho.

O presente trabalho justifica-se pela abrangência no município de Juiz de Fora, compreendendo duas regiões, com valor amostral representativo. Além disso, obtém dados relevantes que podem subsidiar ações de intervenção e melhoria e ainda fomentar trabalhos que poderão beneficiar gestantes atendidas no serviço público de saúde.

Diante do elucidado anteriormente, o objetivo deste estudo foi avaliar o estado nutricional e de saúde, analisar o consumo alimentar e investigar o perfil socioeconômico de gestantes atendidas em unidades de saúde de Juiz de Fora (MG).

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo observacional descritivo. O acompanhamento longitudinal consistiu de duas avaliações: a primeira, no terceiro trimestre da gestação; e a segunda no primeiro mês pós-parto, sendo que o intervalo entre as avaliações variou de acordo com a data inicial de inclusão no estudo. A coleta de dados foi realizada em todas as unidades básicas de saúde (UBS) das regiões oeste e sul do município de Juiz de Fora - MG, constituindo o total de oito unidades. O período de estudo foi de setembro de 2011 a fevereiro de 2013.

A amostra do estudo foi composta de 111 mulheres que foram convidadas a participar nos momentos que aguardavam algum procedimento na UBS, constituindo-se, portanto, de amostra de conveniência. Desta forma, considerou-se como critério de inclusão o aceite das grávidas e não houve critério de exclusão.

Na primeira etapa do estudo, as gestantes que concordaram em participar a partir do termo de consentimento livre e esclarecido responderam um questionário elaborado pelos pesquisadores, contendo informações socioeconômicas (escolaridade materna, renda familiar, estado civil, entre outras), variáveis referentes à gestação (idade materna, início do pré-natal, número de consultas de pré-natal, intercorrências durante a gestação, IMC pré-gestacional, uso de tabaco e álcool durante a gestação, uso de suplementos na gestação, resultado de exame de sangue realizado no pré-natal, entre outras) e história obstétrica (paridade, intervalo interpartal, aborto, entre outras).

As intercorrências relatadas nos resultados como hipertensão arterial sistêmica, anemia, cardiopatias e diabetes mellitus foram referidas pelas próprias gestantes, de acordo com o diagnóstico médico realizado na unidade básica de saúde. Portanto, para tais informações, não foram requeridos neste estudo algum exame bioquímico ou aferição de pressão arterial sistêmica (PA).

A avaliação do estado nutricional levou em consideração as mensurações antropométricas de altura e peso pré-gestacional, aplicando-se o IMC obtido pela relação peso pré-gestacional (kg)/[altura (m)2]. Para a classificação utilizaram-se os parâmetros estabelecidos pelo Instituto de Medicina (IOM), que considera IMC<19,8: baixo peso; entre 19,8 e 26,0: eutrofia; entre 26 e 29,0: pré-obeso ou sobrepeso; e acima de 29: obesidade.

Nesse primeiro encontro realizou-se o recordatório de 24 horas, utilizando um álbum fotográfico contendo figuras com alimentos frequentemente consumidos a fim de se obter informação mais precisa sobre a ingestão alimentar no dia anterior à entrevista. Posteriormente, os alimentos consumidos foram convertidos em gramas a partir da Tabela para Avaliação de Consumo Alimentar em Medidas Caseiras. A composição química das dietas foi analisada em relação aos macronutrientes (carboidrato, proteína e lipídio), vitaminas (vitamina A e C e folato) e minerais (cálcio e ferro), adotando a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO) e Tabela de Composição de Alimentos - suporte para decisão nutricional.

O consumo médio das gestantes foi comparado às recomendações nutricionais. No caso dos macronutrientes, utilizou-se a AMDR; para micronutrientes, a Estimated Average Requerement (EAR) da Dietary Reference Intakes (DRIs).

Na segunda etapa, que ocorreu no primeiro mês pós-parto, as nutrizes foram avaliadas por meio de contato telefônico, sendo questionadas sobre o ganho de peso total na gestação e o número de consultas totais durante o pré-natal. O número amostral foi reduzido a 85 pessoas nessa etapa, devido a perdas no contato com algumas mulheres e desistência do acompanhamento de outras.

Para análise dos dados, empregou-se estatística descritiva, como frequência, média e medidas de dispersão. Para tal, foi utilizado o software SPSS versão 15.0.

Este trabalho foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

RESULTADOS

Inicialmente, aceitaram participar do estudo 111 mulheres. Destas, 24,32% eram adolescentes, com idade < 19 anos; e 11,71%, com 35 anos ou mais. A idade teve variabilidade entre 14 e 40 anos. O IMC pré-gestacional variou de 16,41 a 36,98 kg/m2, com média de 24,23 ± 4,32 kg/m2, sendo que mais da metade (53,33%) apresentava alterações no estado nutricional.

A maioria das mulheres era multípara, entretanto, houve elevado percentual de primíparas. Observou-se na maioria dos casos intervalo interpartal inferior a 24 meses, considerado fator de risco para a gestação. Em contrapartida, 32,26% das mulheres apresentaram esse intervalo maior que 60 meses, o que também constitui fator de risco. Mais da metade das mulheres iniciou o pré-natal até o terceiro mês de gestação e realizou mais que sete consultas. A média do número total de consultas durante o pré-natal na população avaliada foi de 7,35 ± 2,56, com mínimo de uma e máximo de sete consultas (Tabela 1).

 

 

Os dados sobre o hemograma realizado no pré-natal, requerido na UBS, revelaram que 20% evidenciavam anemia gestacional, sem descrição de sua etiologia. A maioria das gestantes estava em uso de composto ferroso (92,8%) e complexo vitamínico (58,6%) (Tabela 1).

Apesar do uso de álcool e tabaco ser fortemente desencorajado durante a gestação, parte das mulheres avaliadas confirmou consumir essas substâncias. A prática de exercício físico regular durante a gestação é recomendada, embora requeira alguns cuidados, contudo, baixo percentual de mulheres declarou realizar alguma atividade física nesse período (Tabela 1).

Como o segundo contato foi por meio de telefone e realizou-se no primeiro mês após o nascimento da criança, ocorreram algumas perdas de seguimento e o número amostral foi reduzido a 85 mulheres. Acredita-se que na maioria destas a principal causa foi a mudança no número de telefone referido pela mulher. Nesse momento questionou-se sobre o ganho de peso total na gestação. A média encontrada foi de 13,08 kg ± 6,42, sendo que houve gestantes com perda de peso de até 8 kg e outras com ganho de até 31,5 kg.

Na Tabela 2 estão descritas as variáveis socioeconômicas analisadas. Em relação à escolaridade materna e paterna, em ambos os casos a maioria apresentou baixa escolaridade (< 8 anos). Já a condição de trabalho atual, a relação foi contrária, ou seja, a minoria das mães trabalhava e cerca de 80% dos pais estavam empregados. Pode-se observar que a amostra avaliada é principalmente constituída de população de baixa renda, visto que grande parte das entrevistadas recebia até um salário mínimo.

 

 

Algumas intercorrências, como cardiopatias, hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus, durante a gestação foram questionadas, contudo, mais da metade das mulheres declarou não sofrer qualquer irregularidade (59%). Parte das mulheres (28%) tinha algum outro tipo de intercorrência, como infecção urinária, sangramento, tonturas, contração ou depressão nesse período.

Na Figura 1, comparou-se a média da ingestão diária de macronutrientes de todas as gestantes avaliadas e as faixas de recomendação indicadas pela AMDR. Verificou-se que a ingestão média das gestantes para carboidrato, proteína e lipídio estava entre as faixas de recomendação, sendo, portanto, adequadas. Pode-se destacar ainda que, apesar do consumo de proteína e lipídio estar dentro da faixa recomendada, a média da ingestão de proteína estava próxima da faixa inferior, enquanto a média da ingestão lipídica encontrava-se mais próxima da faixa superior.

 


Figura 1 - Comparação entre a recomendação estabelecida pela AMDR e a média da ingestao diária de macronutrientes de mulheres avaliadas em oito unidades de saúde das regioes oeste e sul de Juiz de Fora - MG, 2011-2012.

 

Em relação à ingestão de micronutrientes das gestantes avaliadas quando comparados às recomendações das DRIs, observou-se consumo de dietas inadequadas em relação aos minerais cálcio e ferro, com média de ingestão de 516,86 mg ± 379,89 e 9,02 mg ± 4,02, respectivamente. Comportamento semelhante foi apurado na média de ingestão de folato, 138,93 µg ± 98,02.

Quanto ao consumo das vitaminas A e C, verificou-se adequação da média de ingestão. A média de consumo de vitamina A foi de 967,87 µg ± 3.608,06 e de vitamina C foi de 186,54 mg ± 284,29.

 

DISCUSSÃO

A idade materna é fator de influência sobre o resultado da gestação. Neste estudo, parcela da amostra constituiu-se de gestantes adolescentes e mulheres com mais de 35 anos, sendo esses grupos vulneráveis a risco perinatal.11 Em registros oficiais de 39.285 nascidos vivos em Fortaleza12, a gravidez nos extremos da vida reprodutiva associou-se a acompanhamento pré-natal menos eficiente, prematuridade, anóxia e baixo peso.

Assim como a idade materna, o estado nutricional pré-gestacional também influencia no resultado da gestação. Grande parte das mulheres encontrava-se eutrófica, porém deve-se ressaltar que as demais da amostra apresentavam algum distúrbio nutricional, seja por déficit ou excesso. O estado nutricional materno inadequado tem grande impacto sobre o crescimento e desenvolvimento do recém-nascido, podendo comprometer o crescimento pós-natal, com alto risco de morbidade no primeiro ano de vida.1,13 O excesso de peso pode trazer consequências como o diabetes mellitus gestacional e/ou síndrome hipertensiva da gravidez, enquanto o baixo peso materno e carências específicas de micronutrientes podem resultar em anemia e déficit de vitamina A.14

Na amostra estudada, a maioria das mulheres tinha entre 20 e 35 anos de vida. Verificou-se elevado percentual de primíparas, o que pode ser explicado pelo fato dessa ser uma ótima faixa etária para a reprodução.

Entre as multíparas, verificou-se que em quase um terço o intervalo interpartal foi igual ou inferior a 24 meses. Sabe-se que o intervalo curto entre partos é inadequado, já que se associa ao esgotamento das reservas maternas e ao consequente baixo peso ao nascer, prematuridade, mortalidade neonatal e infantil e desnutrição na infância.15

O início do pré-natal e o número total de consultas estão relacionados a melhores indicadores de saúde materno-infantil.16 Em Pelotas17, as mulheres com maior renda familiar frequentavam mais as consultas de pré-natal, realizando, ao final da gestação, mais consultas do que aquelas de baixa renda. A média de consultas de pré-natal obtida neste estudo está acima do que é preconizado pelo Ministério da Saúde5, que são de no mínimo seis. Esse fato contraria a afirmação do estudo em Pelotas, já que esta amostra refere-se às gestantes predominantemente de baixa renda.

Sabe-se que a anemia ferropriva é problema de saúde pública no Brasil e no mundo, atingindo principalmente as grávidas.18 Alguns fatores, como o baixo consumo dietético, baixas reservas e elevada necessidade, contribuem para a deficiência do ferro, resultando, assim, em anemia.19,20

A prevalência de anemia encontrada nas gestantes deste estudo equivale a 20%, resultado superior ao achado por Hedrich et al.1. Dessa forma, demonstra-se a importância de ações preventivas e de tratamento destinados a esse grupo, já que estão associadas às condições adversas como risco de morte materna, baixo peso ao nascer e partos prematuros.21

O Ministério da Saúde recomenda o uso de composto ferroso a partir do segundo trimestre até o terceiro mês pós-parto5, mesmo em mulheres sem anemia, de forma profilática, a fim de reduzir os riscos de intercorrências gestacionais e perinatais.21 A suplementação com composto ferroso foi relatada por 92,8% das mulheres, resultado este semelhante ao encontrado por Fonseca et al.22. Mesmo com a suplementação, verificou-se que parte das gestantes exibia anemia; o que pode decorrer da baixa adesão ao tratamento, inadequação da dose, baixa periodicidade de consumo e início tardio da profilaxia.19

O complexo vitamínico ou ácido fólico é indicado antes mesmo da gravidez, no período de 60 a 90 dias antes da concepção, mantendo-se seu uso durante o primeiro trimestre da gestação.5 É evidente a importância do folato durante a fase de desenvolvimento e crescimento fetal, atuando na proliferação e diferenciação celular, síntese do DNA e RNA e contribuindo para a perfeita formação do tubo neural.

O percentual de gestantes que fizeram uso do ácido fólico correspondeu a 58,6%, valor bem abaixo do esperado, já que o ideal seria a total abrangência da suplementação recomendada, pois essa medicação é distribuída gratuitamente nas UBS.

O tabagismo exerce grande impacto no resultado da gestação. Segundo Vitolo2, a nicotina, substância presente nos cigarros, promove uma série de alterações na fisiologia normal da gestação, reduzindo o fluxo sanguíneo da placenta e promovendo a vasoconstrição. Essas alterações podem afetar o crescimento fetal, aumentar o risco de prematuridade e mortalidade perinatal, além de prejudicar a adequada nutrição do feto. A prevalência de 13,5% de fumo entre as gestantes deste estudo reforça a importância de orientações no pré-natal que desestimulem essa prática.

Assim como o tabaco, o uso de bebidas alcoólicas é fortemente desencorajado, tendo como impacto direto a síndrome alcoólica fetal (SAF)23, caracterizada por danos ao sistema nervoso central. Mesmo crianças que sofreram exposição pré-natal ao álcool e que não apresentam as características da SAF têm dificuldades comportamentais e emocionais que interferem no seu convívio social. No presente estudo, 15,3% das gestantes faziam uso do álcool, mais do dobro do encontrado no Rio de Janeiro com 433 puérperas.24

A prática de exercício físico exerce influência sobre o ganho de peso materno e o crescimento fetal, além de estar associada à prevenção e controle de diversas doenças, contribuindo para o adequado desfecho gestacional.25

Sabe-se que baixo número de mulheres pratica exercício físico durante a gestação, como exposto por Nochieri et al.14, que encontraram dados semelhantes, 18,5%. Esse fato foi confirmado neste estudo, que encontrou reduzida parcela de gestantes que realizaram algum tipo de exercício físico. O estímulo a essa prática durante o pré-natal pode contribuir para a mudança desses resultados.

O perfil socioeconômico delineia-se por população que se mantém predominantemente com menos da metade de um salário mínimo por mês, portanto, constitui-se em amostra com nível socioeconômico desfavorável. Verifica-se que alto percentual de mulheres relatou estar desempregada, o que contribui para baixa renda per capita e mais dependência financeira de seus familiares. Sabe-se que a população de baixa renda tem dificuldades de acesso a cuidados com a saúde, nutrição e lazer, prejudicando, de maneira geral, a gestação e o concepto. Dessa forma, o baixo poder aquisitivo pode agir influenciando o menor acesso aos alimentos em termos quantitativos e qualitativos, ocasionando o consumo de alimentos de alta densidade energética, que, por sua vez, são mais baratos14, contribuindo para ganho excessivo de peso na gestação.

Aliado à baixa condição econômica, há também predominância de baixa escolaridade. Essa associação pode dificultar o acesso a informações sobre cuidados com a gestação e o recém-nascido ou comprometer o entendimento sobre o que lhe é informado, ambos afetando a saúde do binômio mãe-filho.26

A presença do companheiro pode apoiar psicológica e financeiramente a mulher durante o período gestacional.14,27 Observou-se neste trabalho que a maioria relatou ser casada, o que se constitui em aspecto positivo, já que mulheres não casadas têm mais possibilidade de provocar aborto27 e iniciar o pré-natal e o aleitamento materno mais tarde.28

Grande parte das gestantes informou ter crianças menores de cinco anos no domicílio. Este resultado é relevante, pois outra criança em ambiente de baixa condição socioeconômica pode ser prejudicial aos cuidados de saúde e nutrição, tanto para o recém-nascido quanto para a própria criança, já que poderão dividir os cuidados da família.8

A avaliação do consumo dietético durante o período gestacional é de fundamental importância, já que pode subsidiar futuras intervenções nutricionais, aprimorando, assim, a qualidade do atendimento e das orientações fornecidas. Para avaliar a ingestão calórica e de nutrientes neste estudo, utilizou-se o Recordatório de 24 horas. Embora não seja considerado o melhor método para avaliar a ingestão alimentar habitual do indivíduo, já que se refere a apenas um dia, possui vantagens, por ser aplicado em curto tempo e demandar baixo custo, além de ser o mais usado em pesquisas.

A média de ingestão de carboidratos neste estudo foi de aproximadamente 55% do valor calórico total, sendo considerado adequado segundo as recomendações para gestantes (AMDR). Semelhante a este resultado, Fazio et al.29 verificaram que a proporção de carboidratos variou de 55 a 59%. No Rio de Janeiro30, o consumo médio representou 65% do total energético, proporção esta maior do que a avaliada. Sabe-se que adequado consumo desse macronutriente durante a gestação desempenha importante função para o crescimento fetal, uma vez que constitui a principal fonte de energia para a gestação. Portanto, o achado neste estudo é considerado positivo.

Em relação à proteína, observou-se que a média de ingestão das gestantes avaliadas aproximou-se da faixa inferior da recomendação (AMDR). Ressalta-se que esse nutriente desempenha funções essenciais na formação de tecidos fetais e maternos e sua deficiência está associada a retardo de crescimento intrauterino e desenvolvimento de pré-eclâmpsia.2

O fato de a média de consumo de lipídios estar próxima do limite superior da recomendação pode ser preocupante, já que a alimentação típica do brasileiro é, em geral, predominantemente rica em gorduras saturadas e trans, que são prejudiciais ao sistema cardiovascular e podem, ainda, propiciar ganho de peso excessivo durante a gestação. Este resultado foi semelhante ao encontrado no estudo desenvolvido em instituição filantrópica de São Paulo14, onde a ingestão lipídica também ficou próxima do limite máximo recomendado.

Em relação aos micronutrientes, verificou-se o consumo de dietas carentes em relação ao cálcio, ferro e folato pelas gestantes avaliadas neste estudo. Isto se confirma em pesquisa segundo a qual os distúrbios nutricionais apresentados pelas gestantes referem-se principalmente a esses micronutrientes.1

A média da ingestão de cálcio neste estudo atingiu apenas a metade do que é recomendado segundo as DRIs. Este resultado está provavelmente relacionado à reduzida frequência e quantidade de consumo de alimentos fontes desse mineral, encontrado principalmente no leite e derivados.

Observou-se também que o ferro apresentou inadequação em todas as gestantes avaliadas. É indiscutível que há grande dificuldade de atingir a recomendação estabelecida para esse micronutriente, devido à alta necessidade do grupo. Apesar disso, mais de 90% das mulheres relataram fazer uso de suplemento de ferro, o que pode amenizar as possíveis deficiências nutricionais. Tratando-se da importância do folato no período gestacional, é preocupante que, além da ingestão dessa vitamina não atingir a recomendação, muitas mulheres não faziam uso de ácido fólico como suplemento, podendo, assim, aumentar os riscos da deficiência nessa população e trazer prejuízos à saúde do concepto.

Ocorreu adequação em relação às vitaminas A e C, o que pode ser explicado pelo alto consumo e fácil acesso de alimentos fontes dessas vitaminas, o que é confirmado por outros estudos.29

Este estudo apresentou acompanhamento longitudinal e, devido a este fato, encontraram-se limitações principalmente em relação às perdas de seguimento e abandono. O contato telefônico com algumas mulheres foi perdido entre as avaliações, o que tornou o número amostral reduzido e sem continuidade de todos os dados coletados na primeira avaliação. Além disso, houve dificuldades de comunicação com as participantes, o que pode ter influência negativa sobre a confiabilidade dos dados relatados, já que o aumento do tempo entre os dois contatos pode causar certa confusão ou esquecimento do acontecido.

Baseado nos achados a respeito do perfil social e nutricional das mulheres assistidas neste estudo percebe-se a carência quanto à instrução sobre alimentação e sua importância nos períodos gestacional e pós-parto. Por isso, sugere-se aprimoramento e ampliação de políticas públicas voltadas para a alimentação desses grupos, que serão relevantes para mudanças nos padrões nutricionais e de saúde. Os dados obtidos podem subsidiar discussões para melhoria das ações destinadas a essa população.

 

CONCLUSÃO

A maioria das gestantes avaliadas recebia até um salário mínimo, foi às consultas pré-natais e estava em uso de complexo vitamínico e sulfato ferroso. Ainda assim, algumas delas manifestaram anemia gestacional e cerca de 10% continuaram consumindo álcool e tabaco durante a gestação. Em média, o ganho de peso gestacional foi satisfatório e a ingestão média de macronutrientes estava adequada. Entretanto, houve inadequação no consumo dos micronutrientes cálcio, ferro e folato.

Apesar do acesso aos serviços de pré-natal, notou-se que há falhas nesse sistema, como a falta de acompanhamento nutricional e de orientações em relação aos cuidados com a gestação e o pós-parto. Portanto, destaca-se a importância da inserção de profissionais que incentivem tais atividades e o aprimoramento de políticas públicas destinadas a essa população.

 

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